A ESPADA E A CHAMA
Pamela Hill

                Traduo de MRIO AUGUSTO VILELA
(
EDITORA BEST SELLER		

Nota da autora
"@!"#$%&/(
  O cl  dos MacGregor no foi proscrito seno cinqenta anos
          depois dos acontecimentos descritos nesta histria .

                                                               P.H.
#                                           A casa de Guise-
                                      Renato, rei da Siclia e

                      desposou (1) Jeanne d'Harcourt
                              (sem filhos)

Franois,   Antoine,  Nicolas  Franois Anne   CLAUD,
conde de    duque de                        DUC DE GUlSE
Laubecq,    Lorena,                           desposou
morreu em desposou      morreram na         ANTOINETTE
 1524       Rene de      infncia          DE BOURBON
            Bourbon

Isabella     Jean  Franois,   Nicolas,   Anne   Antoine
              '   duque de     onde de          morreu na
znorreram na       Lorena     Vaudmont          juventude
 juventude

MARIE,        Franois,    Charles,   Claud,     Louis,   Antoine
 nasceu       duque de     cazdeal   duque de   cardeal   abadessa
em 1515,       Guise,     de Lorena,   Aumale,   de Guise,   Farmou
desposou (1) nasceu em nasceu em       nasceu    nasceu em  nasceu   '
  Loui.s,       1519        1524       em 1526     1527      1531
duque de
Longueville   (2) JAIME V DA ESCCIA

Franois,     Lous,      James,              Robert,
morreu em     morreu na   duque de           morreu na
  1519        infncia    Rothesay,           infncia
                       nasceu em 1540,
                       morreu em 1541
#   Lorena
   duque de Lorena

        (2) Philippa de Gueldres


      Louis,   Claude     Catherine     Jean,    ----..--  Ferry
     conde de                           bispo     Outros
   Vaudmont          morreram         de Metz
              ,
   morreu em         na juventude      e cardeal
     1528                              de Lorena




   tte,   Franois,     Ren,         Rene,   Pierre   Philip
   de     gro-prior  marqus de     abadessa   ---
   tiers   de Malta     Elbouf,      de Rheims,   morreu na
'   em  nasceu em      nasceu em     nasceu em    juventude
             1534        1536          1538


                    MARIA, RAINHA DA ESCCIA
                           nasceu em 1542,
                   desposou (1) Francisco II da Frana,
                     (2) Henry Stuart, Lord Darnley,
                  (3) James Hepburn, conde de Bothwell,
              executada na quarta-feira de cinzas de 1587

                   a Casa Real dos Stuart e a presente
                      Casa Real do Reino Unido
#Primeira parte




      - N o  moreno o bastante para ser francs; pode ser que seja
    loreno. Espero que se parea com o pai, mas  difcil dizer antes
    dos dois anos.
      Essas foram as palavras exatas de Madame Marie de Guise-Lo-
    rena, a duquesa viva de Longueville; lembro-me bem porque foi
    a primeira vez que conseguiu mencionar o falecido marido sem
    cair em l grimas. Agora, rnadnrrie contemplava o beb, o duque
    Franois, cambalear e brincar nas almofadas aos ps dela. N o
    fazia frio no solar, embora no houvesse fogo na lareira; l  fora
    era outono, e, no importa o que se diga contra ou a favor da
    roupa de luto, ela nos mantm aquecidas. A severa gola plissada
    delineava o rosto malicioso de madarrte, escondendo-Ihe o queixo
    e o longo pescoo. Quanto ao vestido, o corte largo no disfarava
    o fato de que ela j  se aproximava do fim da segunda gravidez.
    O duque Louis escolhera uma hora bastante infeliz para morrer
    de febre em Rouen.
      Madame Marie amara o marido, e ele a ama ra. Eu muitas vezes
    lhes invejara a felicidade, por breve que tivesse sido. Os dois pu-
    deram escolher um ao outro - o casamento no lhes fora imposto.
    Sentindo-me amargurada com essa idia, cuidei de pensar em outra
    coisa. Larguei o trabalho de costura, levantei-me da cadeira , fui
    at a janela e olhei a paisagem de setembro l  fora.
      - Est  chegando um grupo de cavaleiros - comentei, displi-
    cente. - Eles vm de Amiens.
      Madante no se voltou. Seus longos dedos brincavam com o pe-
    queno duque, e ele ria.
      - N o  problema nosso - ela disse. - Puiguillon cuidar  de
    receb-los.
      Mas no achei que o lder do grupo, um portador do braso
    rgio, se satisfizesse em ser recebido por Gilbert de Beaucaire, Seig-
#llLlr d(' PLIlgUlll0ll, mSmO elt' SeIldO Lln1 dOmStlO dC' altil Stlrpe.
A  171C'nSagem  ra  CLIaS  rtamIltt'  para  Madame Marl  f  Vlnha
pI'tLlrbar-llle O lLltO Sf m nenhUma OrtSla, mUltO embOra lllld(IIII
110LlVSSe S  afaStadO de Pa r1S para ClU  a df ix ssem Em paZ.  Em
tais assuntos, o rei sl o mostra va nellhuma considerao. Desejei,
coisa lLle n  o fazia  com freqllcia, qLle a dLlquesa Antoinette,
m e de Madame Marie, estivesse com ela a gora e no mais tarde,
quando iria a ChteaLldun, como prometido, para o nascimento
da criana. A duuesa Antoinette ellxotava mensageiros de unla
forma que a mim no era possvel. Ainda assim, fiquei ao lado de
Illadalrrc, pronta a  ajudl-la como pudesse. Soaram na entrada os
passos dos visitantes, e Puiguilloll, vermelho de embarao, a pare-
ceLl na porta, tendo antes sido instrudo a n  o receber ningum e
agora sendo obrigado a faz-lo.
  - Duquesa, eles dizem que precisam v-la.  uma carta do rei.
  - Ento deixe-os entrar - ela respondeu, muito calma.  Le-
vallta ra-se, mostrando toda a estatura, com o beb no colo. A m o
do nlenino se estendeu para segLlrar a gola plissada, que no Ihe
era familiar, e ele a puxou como se quisesse revelar o rosto semi-
oculto da m e. Madrlrlle passou o beb para mim, e eu o segurei
nos braos, notando due ela no me instrura a sair. Madarlte con-
tilluou muito composta e malldou que entrassem.
  Assim o fizeram. Alguns eram meus conhecidos, de Vend"me
e de Fontainebleau; estavam vestidos como era de se esperar: om-
breiras grandes, chapLt redondo com jc5ias engastadas en1 ouro,
botas de cano alto e couro macio e camisa to franzida que parecia
de nlLllher. Mas eu bem sabia que no havia nada de efeminado
llos mellsageiros do rei Francisco. Vi que me olharam muito rapi-
danlente, como algum sem importncia ; sabiam apenas qLle eu
era a silellciosa dama de companhia de rrlrzdnrrle. Ela pegou a ca rta,
apreselltadl com um beija-m o formal, e rompeu destramente os
selos coloridos. Desdobrou o papel, e sua fisionomia pzlida no
denotou nenhuma express o. Depois, como se no conseguisse se
collter, amassou a carta e encarou aqueles mensageiros bem-nas-
eidos, selecionados para uma incumbncia to especia I quanto de-
sagrad vel.
  - Digam a Sua Majestade que no tenho como aceitar tal pro-
posta. Estou de luto por meu marido e s quero paz e tranqilidade


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#para esperar o nascimento de meu segundo filho. Os senhores vie-
ram de longe, e providenciarei para que sejam alimenta dos a ntes
de partrem. Escreverei ao rei eu mesma, declinando da oferta .
Enquanto isso, por favor informem a ele que agradeo a lembra na.
Agora, peo que me deixem.
aaa
  T o logo saram, rnadame no conteve a fria.
  - Sabe o que ele dizia? - perguntou. - Sem se preocupar em
perguntar o que eu achava, combinou meu casamento com o rei
da Esccia. O que eu podia fazer seno recusar? Como poderia
eu deixar meu filho e ir para outro pas? Alm do mais, h  a outra
criana. - Colocou a m o no ventre. - Escolheram a hora errada
para fazer planos - murmurou. - Estou de luto por meu querido
esposo, morto h  to pouco. Como poderia casar de novo?
  Tive ento uma idia, que daquela vez no expressei em pala-
vras. O rei da Esccia tambm estava de luto por sua jovem esposa,
Madame Madeleine da Frana. Talvez os dois pudessem se con-
solar. Mas eu, no tendo nenhuma experincia de tais assuntos,
fiquei quieta.
  Lembrava-me bem do rei Jaime V da Esccia; todos na Frana
o conheciam, desde a poca em que, dois anos antes, viera a rranjar
esposa, correndo os mercados de Paris para comprar plumas de
avestruz e diamantes, at o momento em que rompera o noivado
com Mademoiselle de Vend"me, prima de Madame Marie. Dizia-se
que a moa, pobrezinha, nunca se recuperara. O castelo de .seu
pai assistira a justas e grandes gastos; Monsieur e Mada me de
Longueville e eu estivemos l , e me lembro do belo rei da Casa
Stuart, um ruivo pelo qual todas as mulheres se apaixona van,. Ele
acabou conhecendo Madame Madeleine, a filha do rei, em outro
lugar, quando a moa estava em seu baldaquim de inv lica, e
entre os dois foi amor ... primeira vista; nada os sa tisfa ria sen  o o
matrim"nio, e casaram na Catedral de Notre-Dame; em seguida,
permaneceram na corte por alguns meses, at o momento de em-
barcarem para a Esccia. No entanto, Madame Madeleine era tsica
e morreu algumas semanas depois de ter chegado ...quela terra
inspita. Dizia-se que o rei ficara sozinho por um longo tempo.
  O que era o tal amor ... primeira vista? Eu no sabia na da a esse
respeito. Pus no ch o o pequeno duque de Longueville, que foi

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#direto para a m e e escondeu o rosto no vestido, ali onde estava
o irmo ou a irm. Madrrrite o abraou com fora, como se ele
pudesse proteg-la; mas ambas sabamos que no era assim.
Quando o rei da Frana se dispunha a alguma coisa, nada podia
prevalecer contra suas ordens.

  Tal como acontecera na recente coroao da nova rainha da
Frana, o tempo piorou, mas isso no impediu que outros grupos
de cavaleiros viessem incomodar rnadnn ie. A notcia de que ela
recusara uma oferta to auspiciosa sobressaltou a gente de alta
posio, em especial seus pais, que vieram de Joinville antes do
esperado. Como de h bito, a duquesa Antoinette estava com uma
coifa antiquada, do tipo que ningum usava desde o reinado de
Lus XII, o soberano anterior; e meu pai envergava armadura,
com uma comitiva de dezesseis cavaleiros e a bandeira da grande
cruz dupla de Jerusalm e de Lorena tremulando atr s dele. Che-
garam com rudo; tive permiss o de cumpriment -los, muito
rapidamente, e depois fui mandada para meu quarto. Meu
pai, muito alto, estava mais bonito do que nunca; parecia
feito de ouro. Era de espa ntar que agora fosse devotado ...
mulher, to mida e sem graa, e que os dois viessem a ter
onze filhos. Sem dvida, Madame Antoinette iria direto a
Chteaudun com riindnrte para o parto; isso significava que
ali no haveria lugar para mim.
  Escondida atr s de um dos balastres da escadaria, observei
enquanto entravam. Vi trazerem vinho da cozinha. Sabia que
tentariam de tudo para convencer rrrndanie a aceitar o casamento
escocs, pois seria uma honra ter uma rainha na famlia; nosso
av", o duque Renato, sempre sonhou ser rei, e o conseguiu, a
seu modo, na Siclia. Voltei a meu trabalho de costura e ouvi
qiiando se dispersaram e foram para diferentes qua rtos. Tendo
vindo de to longe, ficariam um dia ou dois, ainda que o duque
Claud, agora que a juventude e as ambies iam minguando,
desgostasse de qualquer lugar que no fosse Joinville.
  Madame Marie acabou me chamando, e nada lhe perguntei.
reria sido uma impertinncia, e eu podia ver em seu rosto que
a incomodavam bastante com o casamento. Chamou o filho para
junto de si, tal como fizera quando chegaram os primeiros men-


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#sageiros. De tempos em tempos, tremia como se a criana que
estava por nascer Ihe causasse dores.

  Os Guise no conseguiram persuadir mndame, mas o rei da Fran-
a no aceitaria nenhuma recusa. Mandou dizer que, como Ma-
dame de Longueville iria casar com seu genro, o rei da Esccia,
vivo de Madame Madeleine, ele a elevara ... condio de filha da
Frana. Era a mais alta das honrarias, e no se podia recus -la.
Madnrne, porm, continuou sem dar resposta. Por fim, houve uma
raz o que a fez submeter-se, ainda que no de boa vontade. O rei
da Inglaterra, aquele velho dem"nio, pediu a m o de rnadarne para
si mesmo, e continuou insistindo at a primavera seguinte. A pers-
pectiva de casar com Henrique VIII, tendo em considerao o que
acontecera a quatro de suas esposas, era alarmante; qualquer coisa
seria melhor. A proposta certamente fora feita para contrariar o
rei Jaime, filho de Margarida, a irm de Henrique. Jaime V era,
como j  disse, moo e bonito; Henrique VIII era velho e obeso.
Teve a insolncia de dizer que, sendo to grande, precisava de
uma mulher alta. "Mas meu pescoo  fino!", rebateu rnadarne, dando
o primeiro sinal de que estava recuperando a verve.
  Por essa poca, ela j  tinha dado ... luz outro menino. Batizou-o
de Louis, nome do falecido marido. O beb viveu apenas quatro
meses. Em minha opini o, os aborrecimentos que rrtndarne suportara
durante a gravidez mataram a criana, mas talvez eu esteja errada.
O pequeno Franois foi tudo o que lhe restou; e, quando ela fi-
nalmente embarcou para a Esccia, teve de deix -lo. O menino,
sendo da alta nobreza e gr o-camareiro heredit rio da Frana, no
podia abandonar o pas com a m e.

  Se ainda no contei nada de minha prpria histria, foi porque
os acontecimentos relatados acima s o de maior importncia. J
que me descrevi como dama de companhia de Madame Marie,
pode ter parecido que eu era uma criada; mas no se tratava disso.
  Eu, Claudine de Vouvray, sou filha natural de Claud, duque
de Guise. Minha m e, que j  morreu, era dama de companhia da
duquesa Antoinette quando o easamento deles ainda estava no
comeo. Embora se diga que casaram por amor, eu no acredito,
mesmo que depois, como j  disse, marido e mulher tenham ficado

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#devotados um ao outro. O duque era belo como um deus, e sua
ateno muitas vezes se desviava da esposa para outros prazeres,
pelo menos naquele primeiro ano de casamento; e, pelo que dizem,
minha m e era bem ousada. Alm disso, ela estava numa situao
desafortunada: ningum a pedira em casamento, pois a famlia era
pobre; o pai havia perdido no jogo o que deveria ter sido seu dote.
A medida que o tempo passava e minha m e via mulheres mais
moas arranjarem marido, ela se esqueceu dos deveres para com
sua senhora e resolveu seduzir o duque Claud, que no apenas
era bonito, mas tambm j  tinha alguma reputao militar (embora
a batalha de Marignano ainda estivesse por ser travada). Ademais,
era amigo do rei.
  A duquesa Antoinette ainda no estava gr vida; isso s iria
acontecer dali a dois anos. Por isso, sofreu muito ao saber que
minha m e estava esperando um filho de seu marido. Sendo a
duquesa quem era, no fez nenhuma cena. Limitou-se a ficar olhan-
do para o ch o com aqueles s bios olhos cinzentos e, sem dvida,
fez suas preces. Era uma criaturinha estranha, com o narig o dos
Bourbon, p lpebras cadas e l bio inferior cheio. No final das con-
tas, talvez a boca indicasse um temperamento apaixonado: o duque
e a duquesa acabaram tendo muitos filhos, comeando por Mada-
me Marie, que foi concebida antes de meu nascimento - tanto
que ramos quase da mesma idade, embora eu sempre tenha sido
mais baixa. Por quatro anos, o duque e a duquesa no tiveram
mais nenhum filho, de forma que Madame Marie e eu comparti-
lhamos o mesmo quarto.
  Era bom que houvesse algum para cuidar de mim, pois minha
m e morrera. Ela sucumbira a uma febre alguns dias depois do
parto, e a duquesa Antoinette, por compaix o, fora v-la. Eu estava
na cama, nua, j  que ningum pensara em comprar-me um bero
ou cueiros; acho que nasci sem nenhuma assistncia. Quase em
seu ltimo suspiro, minha m e implorou que eu fosse batizada
Claudine, e a mulher do duque Claud permitiu, embora decerto
no tenha ficado satisfeita com isso. Mais tarde, providenciou para
que minha m e fosse enterrada com todos os ritos. Depois, como
no havia mais ningum para me criar, a prpria duquesa acabou
se encarregando de faz-lo, e com muito rigor. Segundo estou con-
vencida, ela pretendia assegurar-se de que eu no manifestaria o


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#ca r ter de minha m e, com quem a li s me parecia, tendo ca belos
castanhos e olhos verde-claros. Quando menina , eu era castigada
com freqncia, talvez menos por crueldade do que por senso de
dever. Eu no gostava disso,  claro. Lembro que muitas vezes
chorei de dor e infelicidade, e minha querida Madame Marie, to
boa que nunca era repreendida, vinha me abraar.
  - Console-se, Claudine - ela costumava dizer. - E para seu
prprio bem. Voc j   melhor do que era antes do castigo.
  Ao contr rio do que acontecia comigo, no queria ser o centro
das aten"es; quando lhe nasceram uma irm, Madame Louise, e
depois um irmo, que veio tomar-lhe a herana, Madame Marie
no se enciumou; inclinava-se sobre eles no bero e brincava com
os dois como se fossem bonecas. Passaram-se os anos, e vieram
mais e mais bebs. O duque Claud era agora um heri dos fran-
ceses; quando Madame Marie nasceu, ele j  recebera seus vinte e
dois ferimentos em Marignano. Encontraram-no sob o cavalo e o
tomaram por morto. Seu escudeiro se jogou sobre o corpo e foi
liquidado quando o inimigo passou a galope; no entanto, o duque
Claud se salvou, e o carregaram para sua tenda. O belo rosto no
ficou com nenhuma cicatriz, mas um dos braos e uma das coxas
receberam cortes pavorosos; pelo resto da vida, o duque usa ria
um bracelete de ferro espigado para lembrar-se dos pecados da
juventude. N  o digo que tenha desistido deles por completo: tenho
um meio irmo bastardo chamado Claud, e possivelmente outros
mais, s que nunca os conheci. J  havia muitos filhos legtimos
crescendo em Bar e em Joinville, onde o duque Claud e o irm o
Antoine trocaram heranas. Essa troca dizia respeito a o velho rei
Renato e a seus casamentos, o primeiro sem nenhum filho, embora
no sem ganho de terras, e o segundo com onze, incluindo meu
pai. A segunda esposa de Renato foi uma mulher lindssima cha -
mada Philippa de Gueldres; era de alta estirpe e sabia disso. Mas,
depois de ter enviuvado e criado a famlia, disseram-lhe que estava
para morrer, e ela espantou todo mundo ao entrar para um con-
vento de claristas, deixando os filhos bastante embaraados. N o
morreu logo, porm: viveu a t os oitenta e cinco anos, dormindo
num catre. Menciono-a porque, quando Madame Ma rie e eu t-
nhamos onze anos, a duquesa Antoinette, muitssimo devota ,

                           15
#achou que o convento nos daria uma boa educao, e, se acaso
tivssemos pendor, um futuro.
  Fomos ento mandadas para Pont-...-Mousson, no muito longe
de Nancy, onde Antoine, que ficara com o ttulo de duque de
Lorena, tinha um pal cio. A abadessa nos recebeu e de imediato
nos levou a Madame Philippa. As freiras no estavam autorizadas
a receber visitantes dessa forma, mas se abria exceo para rnadarne,
que tinha um filho cardeal. Fiquei espantada com a beleza fria e
imut vel do rosto emoldurado pela coifa; a pele era lisa como um
lrio. Madame Philippa no gostou de mim.

  Nossa educao prosseguia. Sentia-me feliz por estar com minha
jovem senhora, mas a vida do claustro no me impressionava -
pelo menos no a que se levava no severssimo convento que a
duquesa Antoinette escolhera para ns. Algumas freiras s o mais
virtuosas do que outras; as claristas decerto s o, e talvez o fato de
usarem sand lias beneficie mesmo a alma, alm de causar frieiras
no inverno. Da mesma forma, no h  dvida de que se produz
algum bem quando, no interesse da caridade crist , o sino da torre
soa para que o mundo l  fora saiba que todas no convento esto
com fome e pedem que se coloque comida numa gamela junto ao
porto. Quanto a mim, sei que nunca me senti melhor s porque
vivia de migalhas de p o e restos de carne sebosos, dormia na
palha fina e estava sempre com frio. E, embora Madame Marie
falasse pouco e nunca se queixasse, no acho que ela tambm gos-
tasse muito daquilo; certa vez, contraiu febre e durante algumas
semanas sentiu dores nas juntas. Talvez seus pais quisessem que
imitasse a av, muito santa, e por certo era possvel que moas
inteligentes se dessem bem como abadessas - melhor, ali s, do
que se sairiam como esposas, pois em geral os maridos no de-
monstram a mesma considerao que Deus tem. Mas no acredito
que Madame Marie ansiasse por tal vida, e com certeza ela, assim
como eu, muitas vezes desejava estar de volta aos confortos de
Joinville, em especial na estao das frutas, quando limes e rom s
esto maduros no pomares e seu sumo nos escorre pelo queixo.
  De qualquer forma, madame teria sido desperdiada como monja;
cresceu muito bonita e realmente alta; o cabelo louro-avermelhado
lhe chegava aos joelhos, e a curva do l bio superior dava grande


                          16
#suavidade ao rosto ovalado. A av costumava cham -la a seu claus-
tro e Ihe falava com muita gravidade; de vez em quando, ta mbm
eu era chamada, mas no ganhava a mesma aprovao, sobretudo
depois de algumas observaes que fiz a Madame Marie quando
est vamos deitadas. Convers vamos sobre a fundadora da ordem,
Santa Clara, que, amiga de S o Francisco, cortara suas belas ma-
deixas louras e se desfizera de todas as jias para poder segui-lo.
  Lembro-me de ter dito que, em minha opini o, ela estava errada:
  - Se Deus nos d  um lindo cabelo louro, por que no ficar
com ele? Ela poderia ter casado com S o Francisco, e a no pre-
cisaria ficar andando por a com uma tigela de esmolas na m o.
Poderiam ter vivido do dinheiro de Santa Clara e dado bastante
para os pobres. Teriam feito o mesmo bem, mas com menos des-
conforto.
  - Claudine, no deixe que a ouam - alertou-me Madame
Marie. - Isso as deixaria muito magoadas.
  Mas algum escutou, e no dia seguinte me mandaram at a
a badessa, que me falou de castidade, de humildade e de como as
posses terrenas eram prejudiciais. N o sa bia eu que, para afastar
pensamentos impuros, o abenoado Francisco no permitia que
Santa Clara o acompanhasse pelas estradas? Fiquei de olhos baixos
                                                           ,
j  conhecia a resposta; haviam me dito que os dois s poderiam
caminhar juntos se florescessem rosas nos espinheiros das encostas,
e que isso acabou de fato acontecendo. Mas encostas em flor eram
coisa muito distante de Pont-...-Mousson; ordenaram que eu fosse
at Madame Philippa para que ela me aoitasse. A velha fez um
bom trabalho: por dois dias, no consegui nem sentar nem deita r.
  - Voc est  cheia de pecado e vai acabar mal - disse. Depois
disso, no expressei mais opinies sobre longos cabelos louros. E,
como penitncia, fizeram-me cortar o meu.
  Tive outra tristeza: fui a fastada de Madame Marie. Isso, po-
rm, nada teve que ver com minha punio. O tio e a tia de
rnadarne vieram visitar a velha Philippa, e ento mostraram a
eles a filha mais velha do duque Claud para que pudessem ver
como era bonita. Ficaram embasbacados: insistiram em que ela
no deveria passar nem mais um dia sequer naquele convento
sombrio; precisava voltar com eles para Na ncy e conhecer os
primos e o grande mundo.


                     17
#  Madame Marie pediu muitv especialmente que me levassem
tambm. Iam faz-lo, mas a abadessa interveio. Alegou que minha
disposio mental no me permitia sair para o mundo l  fora; sera
melhor se eu permanecesse no convento ma is um ano, pelo menos.
Assim, odiando todo mundo, vi Madame Marie pa rtir na compa-
nhia dos parentes, com a luz do sol brilhando em seu cabelo, mal
coberto pelo capuz. Ela se voltou e acenou para mim.
  Fiquei ali, com meu cabelo tosa do, olhando os cavalos sumirem
de vista, at que uma freira fez sinal para que eu entrasse. Tnha mos
as mesmas tarefas de sempre, mas a ntes eu n  o ligava, pois as
compartilhava com Ma dame Marie: capinar a horta, preparar as
verduras, cortar a carne que houvesse, arear as panelas at quebrar
as unhas. Isso no era aprendizado, exceto num sentido: eu me
dei conta de que j  no agentava mais. T  o logo pudesse, escaparia
para Nancy, que ficava mais perto do que Joinville, poupando-me
uma viagem pelas montanhas; e l  poderia reencontrar Madame
Marie. N o seria impossvel achar o pal cio do duque Antoine;
depois disso, pensaria no que fazer. Por enquanto, era certamente
difcil planejar a fuga, mas eu j  estava decidida.

  Choveu e geou durante semanas. Esperei um dia sem chuva,
quando minha tarefa seria cavar a horta para a semeadura da pri-
mavera. Esse dia finalmente chegou. Fazia muito frio, e minhas
m os e meus ps esta vam vermelhos e arranhados pelo gelo. Por
algum tempo, ca vei para me aquecer, pisando firmemente na p ;
depois, tendo me certificado de que no estavam olhando, deixei
a p  fincada no ch o, pulei rapidamente o muro num ponto que
j  conhecia e me vi na estrada para Nancy. Ao contr rio do que
todo mundo pensa, no  difcil fugir de um convento; as pessoas
fica m l  dentro porque escolheram aquele modo de vida, e no
porque estejam aprisionadas. Eu no o escolhera, e segui pela es-
trada na dire  o da capital de Lorena, sabendo que as colinas es-
tavam para tr s e que a plancie do Mosela estava mais adiante.
S ento comecei a me sentir um tanto desprotegida; nunca sara
sozinha antes, e sabia que podia ser assaltada, embora no tivesse
nada que pudesse interessar a um salteador, pois nada possua.
Nem dinheiro eu levava, e n  o podia pagar a um carroceiro para
que me levasse; mas no passou carroa nenhuma. Caminhei a


                           18
#passo ligeiro, procurando distanciar-me ao m ximo do convento,
antes que dessem por minha fa lta. Ri comigo mesma, pois no
havia nada que as freiras pudessem fazer: eram proibida s de sair
dos muros do convento. Eu estava livre.
  Passei pela cidade de Pont-...-Mousson e ma is tarde pela vila de
Dieulouard, onde os poreos cavoucavam a terra pela s ruas. Nin-
gum prestou ateno em mim, j  que parecia s ma is uma garota
camponesa de coifa e roupa grosseira, com m os acostuma das ao
trabalho e tamancos bem ga stos. Fiquei um bom tempo me per-
guntando o que teriam feito pa ra que as bela s m os de Ma dame
Marie se adequassem novamente ... vida da corte; sem dvida as
trataram com  gua de rosas. Como eu queria rev-la! Sabia que
ela no me enxotaria; mas, enquanto isso, a estrada ia fica ndo so-
lit ria e desconhecida, com escarpas que se erguiam em eada mar-
gem do possante rio Mosela. Continuei a andar com dificuldade,
sem reconhecer que estava ficando assustada; ainda falta va muito
para Nancy, e talvez no chegasse l  antes do anoitecer. Tambm
esta va ficando com fome - no tivera ocasi o de guardar nenhuma
das miser veis migalhas que as claristas nos davam e com as quais,
a bem dizer, tambm se alimentavam. A certa altura, fui at a
margem do rio, deitei-me e bebi da correnteza; a   gua estava gelada,
mas me senti melhor. Quando me levantei, ouvi uma cano.
  Fiquei onde estava, atenta. Eram vozes de homens, dois deles,
entoando um cantocho. No a r frio e rarefeito, o som era extraor-
din rio, um hino cheio de a legria que flua naturalmente de sua
garganta. Vi os dois quando surgiram na curva da estrada; eram
frades franciscanos, tonsurados, de h bito ma rrom com cinto bra n-
co; um era alto, o outro baixo e atarra cado. Ambos parecia m to-
mados de alegria. Quando se aproximaram, sorriram pa ra mim e
estenderam a tigela de esmolas. Eu, por minha vez, estendi as
m os, sem poder ajudar.
  - N o tenho nada para da r - disse -, mas ser  que posso
caminhar com os senhores enquanto ca ntam? Estou i.ndo para Nan-
cy e no tenho quem me proteja.
  - Mas claro, mndemoiselle, venha conosco - respondeu o alto.
-  uma longa caminhada.
  - N o me importo, desde que tenha companhia.


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#  - Ento diga uma prece enquantv cantamos, e talvez uma car-
roa nos leve at Nancy.
  Recomearam seu canto alegre, e rezei tal como o frade alto me
pedira. A prece deve ter sido ouvida, pois logo depois uma carroa
veio chacoalhando da direo de Dieulouard. Estava carrega da de
lenha das montanhas e era puxada por um cavalo caolho, um gran-
de corcel brabano que algum dia fora usado para levar em batalha
um cavaleiro de a rmadura completa. Esses animais eram criados
para resistir ao assalto do inimigo; muitas vezes se ferem e deixam
de ter utilidade para os donos; s o ento vendidos para puxar
carroa ou procriar. Era esse o caso agora. Pus a m o no pescoo
do brabano, imaginando a que batalhas ele assistira e tambm
me perguntando se seria melhor puxar lenha do que levar no lombo
um cavaleiro de panplia. Enquanto isso, o frade alto conversava
com o carroceiro. Dos dois franciscanos, ele parecia ser o nico a
falar quando a conversa se fazia necess ria; eu ainda no ouvira
o frade baixo e atarracado dizer uma palavra sequer, mas ele con-
tinuava a sorrir.
  - Este homem vai nos levar. Que Deus o abenoe, irmozinho
- disse o frade alto ao carroceiro, que estava com a cabea bem
agasalhada e as m os enfiadas em mitenes. Sua respirao e a do
cavalo saam em forma de vapor. Subimos os trs e ficamos des-
confortavelmente sentados na lenha; mas aquela carroa nos fora
enviada pela providncia divina. Senti-me sa cudir agra davelmente,
e logo ca no sono, com o brao do frade atarracado me enlaando
para que eu no casse. Serei sempre grata ...queles frades. Mas
no tinha o que lhes dar, e expliquei isso a eles.
  - Reze por ns - responderam.
  O carroceiro nos deixou em frente ... igreja franciscana de Nancy,
e eu no quis lhe perguntar como chegar ao pal cio. Despedi-me
dos frades, entrei e, ... luz de velas, fiquei contemplando uma grande
tumba toda ornamentada. Sabia que s podia ser a de Renato,
duque de Guise, o chamado rei da Siclia. Havia duas figuras ajoe-
Ihadas diante da tumba, e qual no foi minha alegria quando vi
que uma delas era Madame Marie. A outra eu no reconheci. Ape-
sar do respeito que a circunstncia exigia, fui quase correndo para
onde rnadarrie estava e me coloquei atr s dela, esperando que ter-
minasse de orar pelo av". Quando enfim se levantou, madame me


                          20
#viu; e, para minha grande satisfao, no franziu o cenho. Arre-
galou os olhos oblquos, de um cinza azulado, e sorriu. J  se vestia
com pompa, muito mais do que quando est  va mos em Joinville.
Usava um pequeno barrete de veludo em forma de coroa, debruado
com arminho; e as mangas do vestido estavam dobradas para mos-
trar um forro tambm de arminho.
  - Claudine, querida! O que est  fazendo aqui? Como foi que
chegou? Ser  que voc...?
  Seu olhar, sempre perspicaz, percorreu minha s m os vermelhas
e meus trajes de camponesa, e seu sorriso ficou mais largo. Sus-
surrei que pulara o muro e que viera a p boa parte do caminho.
  - Deixe-me ficar com a senhora - pedi. - N o me mande de
volta.
  - Querida, eu estou de partida para a corte. N o posso lev -la
comigo; todos os lugares esto tomados por causa da coroao da
rainha. Mas espere! Quero que conhea minha prima; voc talvez
possa ficar aqui em Nancy.
  Apresentou-me ... filha remanescente do duque Antoine, irmo
de seu pai. A moa, Madame Anne, parecia ser bastante tranqila,
e no criou caso quando me levaram para o pal cio. Foi um alvio
ter  gua quente para me lavar, roupas limpa s para vestir e uma
cama confort vel para dormir. No dia seguinte, fui levada ... du-
quesa Rene, mulher do duque, uma dama confusa que nascera
Bourbon. Ela disse achar que eu podia ficar, desde que me com-
portasse adequadamente; no entanto, Madame Philippa teria de
ser informada. Fiquei muito preocupada com isso, imaginando que
a velha daria um jeito de p"r as garras em mim. Mas ela certamente
estava to aliviada com minha fuga quanto eu. De qualquer modo,
no tive mais notcias de Pont-...-Mousson.

   S pude desfrutar dois dias na companhia de Madame Marie,
antes que o duque e a duquesa a levassem para a corte. Nunca vi
ningum parecer tanto uma rainha quanto rriadarne na hora da par-
tida. Estava ainda mais crescida, com o pescoo alvo e longo, e o
cabelo louro-avermelhado brilhava; esqueci que traje usava, mas
ele tinha a radincia das jias e a maciez das peles. A moda estava
mudando, e somente velhas e freiras usavam coifa; apenas a du-
quesa Antoinette continuava com a sua, que s lhe realava o na-


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#rig o. Agora usava m-se a queles chapeuzinhos redondos, encara-
pitados no alto da cabea; o cabelo tinha de ser bonito, j  que no
ficava  mais escondido, como acontecia desde os tempos de S o
Paulo. Eu n  o fiz nenhum discurso sobre ele no convento, o que
talvez tenha sido melhor; mas acho que o apstolo era muito duro
com as mulheres, fazendo-a s cobrir o cabelo, guardar silncio e
obedecer a os maridos. Estes nem sempre s o .mais s bios do que
as esposas. Tais pensa mentos, porm, eram apenas meus; e, depois
do aoite de Madame Philippa, eu os guardei para mim. Em todo
caso, Madame Ma rie estava lindssima quando partiu com os tios,
e, assim como no convento, voltou-se e acenou para mim. Fiquei
com os trs filhos do duque (Madame Anne e dois rapazinhos),
que permaneceram em Nancy; isso era muito melhor do que estar
em Pont-...-Mousson, mas eu preferia ter ido com Madame Marie
para ver a nova rainha, Leonor, e conhecer a corte. No entanto,
quem era eu para conhecer a corte? Ningum.

  Mas, tendo decidido que no era ningum, dispus-me a garantir
que fosse algum na companhia dos filhos do duque Antoine; ou
melhor, a garantir que eles achassem que era algum. A genero-
sidade da duquesa fizera com que eu ficasse com um ou dois ves-
tidos que a filha j  descartara, e eles eram muitssimo mais distintos
e confort veis do que o traje grosseiro que me obrigavam a usar
em Pont-...-Mousson. Meus cabelo, to impiedosamente tosado, vol-
tava a crescer, agora um pouco anelado; e, no decorrer de um ano,
eu ficara moa, com belos seios e um pescoo quase to longo
quanto o de Madame Marie. Estava em idade de provocar os ra-
pazes, coisa em que os dois filhos do duque comeavam a se trans-
formar. Com os pais longe, estavam prontos a usufruir a libertao
da vida formal que tinham de levar no pal cio; afinal, descendiam
do conde de Dunois, o Bastardo de Orlans, que, junto com Joana
d'Arc, ajudara a salvar a Frana dos ingleses; e viviam como reis.
Em geral, nunca se permitiam esquecer isso, mas eu zanzava com
eles pelos corredores, brincando de esconde-esconde, com a irm
correndo atr s de ns; a governanta, uma criatura de cara azeda
chamada Madame de Joigny, no podia fazer nada. Quando me
apanhavam na brincadeira, muitas vezes era beijada pelo filho mais
velho, Monsieur Franois; e o mais novo, Monsieur Nicolas, acabou


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#fazendo o mesmo. Tornou-se menos uma questo de esconde-es-
conde do que de achar e beijar Claudine; e, ainda que eu lutasse
e fingisse protestar, no me importava muito. Era bom estar bonita,
bem vestida e bem calada, poder rir e conversar e ser beijada por
rapazes. Chegou uma carta de Madame Marie, na qual ela dizia
quanto gostara da vida na corte e contava que fora ap:esentada
ao rei e ... rainha. Mas agora eu j  no a invejava; tambm estava
aproveitando a vida.
  Tudo isso,  claro, ia ter fim. Um dia, a governanta de cara
azeda veio me dizer que no haveria mais esconde-esconde. Es-
crevera ao duque Antoine, que se encontrava na corte, e a Madame
Antoinette, em Joinville, informando que eu no me comportava,
que desviava os jovens prncipes do bom caminho e que deveria
ser imediatamente tirada dali.
  - Chegou uma escolta - ela anunciou, triunfante. -  melhor,
mademoiselle, que v  arrumar suas coisas; pode levar os vestidos.
  Nem sequer permitiram que me despedisse da famlia do duque.
Madame de Joigny ficou olhando enquanto eu juntava minhas coi-
sas e depois desceu para garantir que fossem colocadas na sela.
Montei junto com um escudeiro, e partimos para Joinville. A via-
gem transcorreu sem incidentes, mas fiquei muito apreensiva com
a recepo que teria quando chegasse ao castelo; a vis o de suas
deslumbrantes torres surgindo ao longe no me trouxe nenhuma
alegria.

  Levei uma boa sova, como j  previra. Depois, enquanto gemia
deitada, a pequena Madame Louise, a que morreria eedo, veio me
abraar tal como Madame Marie teria feito.
  - N o chore, Claudine - disse. - Logo voc ter  a prpria
casa, e apenas seu marido poder  Ihe bater. Ouvi mam e dizer
que, como voc no est  preparada para ser freira, precisa casar.
  Ergui-me dolorosamente, com o traseiro latejando.
  - Casar com quem? - perguntei, esquecendo de me dirigir a
ela formalmente. - Voc ouviu o nome? Sabe quem ?
  Madame Louise estava pensativa. Quando ficava assim, pare-
cia-se com Madame Marie, a no ser pelo tom da pele, que em
seu caso era mais escuro, como o dos Bourbon.
  - N o acho que minha m e j  tenha arranjado algum - res-
pondeu, incerta. - Quando ela arranjar, voc ser  informada.


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#  J  era algum consolo; poderiam ter-me levado para o altar sem
que eu sequer soubesse quem iria encontrar l . Pelo menos, pensei
comigo mesma, eu no mais teria as saias levantadas e o traseiro
aoitado at ficar em carne viva. Um marido poderia ser persuadido
a no me bater. Em vez disso, eu o faria me beijar, tal como fizera
com os filhos de Antoine, duque de Lorena, no pal cio de Nancy.

  Pode parecer severo dizer que, depois do convento e de Nancy,
a duquesa Antoinette aceitou de imediato o primeiro homem que
quis casar comigo - mas foi exatamente isso o que aconteceu. Ao
menos, as razes me foram expostas; a duquesa sempre cumpria
com seu dever. Sendo eu uma bastarda, como ela explicou, poucos
nobres me escolheriam, a no ser que tivesse um dote de bom
tamanho.
  - Claudine, embora me disponha a providenciar um enxoval
e uma cerim"nia adequada, no se pode esperar que eu oferea
mais - afirmou a duquesa, friamente.
  De fato, ela precisava ser muitssimo parcimoniosa, pois as pro-
priedades da famlia deviam pagar todas as nossas despesas e tam-
bm as do duque Claud na corte, que eram consider veis. Riquezas,
portanto, no seriam para mim; e Jean, conde de Vouvray, de quem
eu seria a segunda esposa, era pobre.
  Foi-me explicado que tal pobreza tinha origem honrosa, no se
devendo nem ao jogo nem a outras extravagncias. O conde fora
.. guerra junto com o rei Francisco, contra o imperador Carlos V;
e, como o rei, fora aprisionado e mandado para a Espanha. Mais
tarde, o conde pagou o prprio resgate, e isso Ihe custou bastante.
Restando-Ihe poucos bens afora a propriedade, e sendo j  idoso,
era difcil achar uma esposa que lhe desse herdeiros.
  - Voc recebeu boa educao - disse a duquesa Antoinette.
- Desde que atente para suas maneiras, no h  por que no se
tornar castel  e dar filhos a seu marido; a primeira mulher do
conde no teve nenhum.
  Sua boca se enrijeceu um pouco, de modo afetado, e na ocasi o
no adivinhei por qu - como poderia? A duquesa prosseguiu,
pondo-me a par do que julgava necess rio.
  - O conde reside alm de Thorigny, no castelo de Vouvray,
onde a famlia vive h  algumas geraes - continuou.


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#  A reserva com que de costume me tratava, to diferente do
calor que tinha para com os filhos, desalentou-me; eu nunca ouvira
falar de Thorigny, e no sabia, portanto, onde se localizava o tal
castelo; e fiquei desolada com a idia de separar-me para sempre
de minha jovem senhora, a quem eu esperava tanto reencontrar.
N o ousei, porm, pedir detalhes ... duquesa Antoinette, nem mes-
mo no que se referia ... aparncia de meu futuro esposo. Tal como
muitas noivas, s o veria no matrim"nio. Nesse meio tempo, ma-
nifestei a alegria possvel com a feitura e a prova do vestido de
casamento, que era de fazenda boa e duradoura. Mas, ao contr rio
daqueles que eu usara em Nancy, no era suntuoso nem estava
na moda. Destinava-se a uma castel  de provncia, seguindo o uso
da prpria duquesa e parecendo mais adequado aos tempos de
Lus XII; e, na cintura, havia laos que, eu sabia, seriam afrouxados
quando estivesse esperando os herdeiros que deveria dar a meu
marido. Em intervalos de poucos anos, a duquesa inchava bastante
na altura da cintura e ento se recolhia a seus aposentos, depois
do que tudo ficava decorosamente calmo at o aparecimento de
mais um beb. Isso eu sabia, mas no como os bebs chegavam
l . Tais coisas no eram discutidas em Joinville - at os criados
eram instrudos a ser discretos. Ganhei tambm uma capa escura
de l  pesada, dois pares de sapatos prprios para a vida no
campo, calo e camisas, todas de linho. Mais uma vez, disse-
ram-me que tivera muita sorte; estava para virar condessa, portar
um nome muito antigo e, num ano ou dois, ter completo controle
de minha casa.
  - Mas agora no, madame?
  Foi a primeira pergunta que fiz, e a duquesa franziu um pouco
o rosto por cima da estreita gola plissada que gostava de usar.
  - Voc  moa e imprudente - disse. - N o est  acostumada
a dar ordens ... criadagem. O conde concorda comigo...
  Eu, de ircio, duvidei de que o conde tivesse tido outra escolha.
    ... em que nos primeiros dois anos, pelo menos, voc deva
submeter-se ... governanta, certa Madame Sanserrato, uma boa mu-
lher que ele mesmo recomendou. Pelo que entendi, o marido era
criado de quarto do conde e esteve com ele nas guerras italianas,
mas j  morreu. Ela  governanta em Vouvray j  faz algum tempo,
e h  de Ihe ensinar muito sobre como administrar as coisas numa


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#residncia menor do que a nossa. O filho dela  intendente do
castelo, e o conde o tem em alta conta. Isso  tudo. Lembre-se: sua
principal obrigao  agradar ao marido. N o lhe d desgostos
com aquele comportamento bizarro de que voc, infelizmente, se
mostra capaz, a despeito de todos os meus cuidados.
  A essa altura, eu me encontrava num estado de terror e desalento
to abjetos que mal tive coragem de erguer os olhos para o conde
de Vouvray quando, finalmente, o vi ao lado do padre, esperando
por mim no altar. Fiquei ento aliviada por descobrir que ele, em-
bora velho, no era um monstro. Alto e magro, andava um pouco
curvado e tinha cabelo grisalho e nariz comprido. Talvez tivesse
sido belo na juventude. Quando trocamos votos, ele me fixou um
olhar sombrio e pesaroso. Achei que devia ter uns sessenta e dois
anos. Segurou minha m o com firmeza, num aperto nada mido,
e pareceu satisfeito comigo e com os laos antiquados de meu
vestido. Senti uma aliana deslizar pelo dedo e me vi casada. Dei-
xando o altar, percebi que meu marido era manco, e mais tarde
vim a saber que aquilo era resultado de um ferimento sofrido na
It lia. Isso o fazia mais prximo de meu pai, e comecei a gostar
dele.
  Madame Louise implorara que se fizesse uma pequena festa, e
por isso havia um assado de carneiro com alecrim, lngua, um
prato de enguias e alguns confeitos. Comi muito pouco, pois ainda
estava infeliz por precisar ir embora para Thorigny. Decidi que,
quando tivesse mais familiaridade com meu marido, perguntaria
a ele se poderamos visitar lugares que eu conhecesse. Ao mesmo
tempo, desejei que ele no houvesse concordado com a perma-
nncia da governanta. A vida no seria diferente do que era sob
o mando da duquesa Antoinette, s que agora eu no teria Madame
Marie. Ansiei ardentemente pela vis o daquele cabelo avermelhado
e daqueles olhos oblquos; se ao menos ela pudesse ter estado l !...
Talvez nem tivesse deixado que me levassem embora - rnadarne
era a favorita da m e, e conseguia persuadi-la de tudo. A mim
no importava que agora fosse condessa.

  Na cerim"nia de casamento, e na festa que se seguiu, notei uma
mulher a quem no conhecia, e que ningum pensou em me a pre-
sentar. Era alta e magra e talvez tivesse uns cinqenta anos. Ves-


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#tia-se de preto (tal como fazem a s mulheres que j  esto vivas
h  algum tempo), usava coifa e tinha ...s costas um longo capLlz
pontudo, do tipo clue os ca mponeses ainda usa m. O rosto era cu-
riosamente p lido e comprido, com os traos de nossos ancestrais
gticos; a boca fina e arroxeada tinha um l bio superior sem nada
de excepcional. J  observei que gente com essa colorao costuma
viver muito e, ao contr rio do que se supe, no sucumbe a doenas
do corao. A mulher entrou com Madame Louise a fim de des-
pir-me para as npcias, e me dei conta de que devia ser Madame
Sanserrato, a governanta. Eu estava muito nervosa e, por isso, n  o
conversei com ela. Deixei que desfizessem os laos do vestido e
me tirassem os sapatos e o ca lo. Madame Louise pa ssou um
pente em meu cabelo, espalhando-o pelos travesseiros na altura
dos ombros; depois, ela me beijou.
  - Boa noite, querida Claudine - disse, e saiu do duarto.
  A governanta a seguiu. Conclu que sua posio era a de uma
servial, e que sendo Madame Louise ainda .solteira era conveniente
que uma mulher mais velha estivesse presente enquanto me des-
piam. N o havia nem sinal da duquesa Antoinette; como de h bito,
ela cumprira sua obrigao e, tendo comparecido ... cerim"nia de
casamento, recolhera-se a seus a posentos.
  O quarto que nos fora destinado era um dos melhores do castelo,
indicando a posio social do conde. Ele entrou sem nenhum acom-
panhante; houve pouca cerim"nia desse tipo. Mancou a t a cama,
fechou o cortinado e se deitou. Para ter assunto, perguntei:
  - Meu marido, como foi que o senhor machucou a perna?
  - Na batalha de P via, e ela no melhorou nada numa pris o
espanhola. Mas no preocupe sua linda cabecinha com isso, minha
cara. Espero poder agradar-lhe de outra forma.
  Eu estava para dizer que ele no me desagradava, pois assim
era; mas o conde j  me tocara e comeara a abrir minha camisa,
o que me perturbou. Nunca se permitira que eu visse meu corpo
nu, pois, mesmo quando me ba nhava, a duquesa Antoinette de-
terminara que me cobrisse com um lenol bra nco; este tinha um
buraco para a cabea, e o restante caa sobre as beiradas da ba-
nheira, de modo que eu no via nada. Agora eu sentia as m os
do conde, magras e secas, percorrerem intima mente meu ventre e
minhas ancas e depois se coloca rem entre minhas pernas, o que


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#me deixou muito aflita. Mas no ousei dizer nada, pois fora cria da
para suportar certas coisas em silncio - embora nunca aquilo.
Ele se aproximara mais, e acabou se deitando sobre mim, e senti
aquilo que os homens guardam nos cales erguer-se suavemente
e depois tornar a baixar. Ele usou a m o para tentar ajudar, mas
no adiantou; o conde ento suspirou e comeou a acariciar-me os
seios, despertando em mim uma sensao engraada; a essa altura,
eu j  estava corada e confusa na escurid o. Impiedosamente, as mos
secas afagaram meu corpo, no esquecendo parte alguma, nem na
frente, nem atr s; conclu que aquilo j  era a consecuo do casamento
e que, de algum jeito, eu assim daria um filho ao conde. Lembrei o
que a duquesa Antoinette me dissera acerca de minhas obrigaes,
e no impedi nada do que meu marido tentou fazer; no final, ele
suspirou e, para meu alvio, virou-se e ficou de costas.
  - Agora vamos dormir - ele disse. - Amanh , ou depois,
talvez seja melhor.
  N o peguei logo no sono. Fiquei acordada, tomada por emoes
conflitantes. A seu modo, o que acontecera no fora desagrad vel;
mas despertara sensaes que eu deseonhecia possuir. N o havia
ningum a quem pudesse interrogar; nem mesmo Madame Marie,
se acaso eu escrevesse, saberia responder, pois ela no era casada
ainda. Quanto ... governanta, no pensei em consult -la. A idia
de que ela tivesse passado pelo mesmo processo com o falecido
Monsieur Sanserrato me fez rir. Comecei a tremer incontrolavel-
mente com as gargalhadas, e, temerosa de que meu marido acor-
dasse, mordi o l bio e me forcei a parar.

  No dia seguinte, a duquesa Antoinette me chamou. Agradara
eu a meu marido? Tornara-me de fato sua esposa? Parecia ansiosa
por saber, e eu, em minha inocncia, sorri e respondi que sim.
  - S o boas novas - disse a duquesa, que ento me beijou o
pescoo, coisa que nunca fizera antes. Nos casamentos importantes,
iam verificar os lenis, mas no houve nada disso. A duquesa
me deu uma pequena bolsa de moedas de ouro, no sei se por
bondade ou se porque estava feliz em ver-se livre de mim. Agradeci
e desci para a carruagem do conde, que me esperava.

  A carruagem era de couro preto, muito antiga; tinha forma qua-
drada, e os cantos estavam rachados, de modo que o teto deixava


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#entrar  gua quando chovia; mas no estava chovendo. Eu chorava,
pois minha querida jovem senhora mandara carta para se despedir
de mim e prometera voltar a escrever; isso, porm, ainda significava
que eu no tornaria a v-la. Meu marido cochilava, e, portanto,
no notou minhas l grimas; quanto ... governanta, no prestou aten-
o. O condutor era de Thorigny, um homem que fora contratado
e alojado com os criados no dia anterior; s vamos suas costas.
A carruagem era desconfort vel e ficava dando guinadas bruscas
na estrada, pois o cavalo era arisco. De repente, as guinadas acor-
daram meu marido, que sorriu para mim e afagou minhas m os.
  - Tivemos de comprar o cavalo h  pouco tempo, porque o
antigo caiu de cansado - explicou. - Madame Sanserrato usa a
carruagem quando vai ... feira em Troyes. Talvez o peso dos queijos
e do charque tenha sido demais para o pobre Lopi.
  Mndarne sorriu, mas no disse nada.
  Decidi que mais tarde iria perguntar se poderia montar o cavalo,
para deix -lo menos arisco; em Joinville, haviam me ensinado a
montar muito bem. Mas resolvi esperar at que Madame Sanserrato
no estivesse por perto - eu j  adivinha ra que nenhuma concess o
me seria feita em sua presena. Ela ficou sentada no banco oposto
e no pronunciou palavra durante a viagem, limitando-se a olhar
fixamente para o piso coberto de palha.

  Paramos numa estalagem de Troyes. Estava ficando tarde, e j
cessara toda afobao da feira. Vi v rios cales femininos, linda-
mente tricotados, pendendo nas barracas, e tambm ferros de pas-
sar. Meu marido apontou para a catedral e para a Abadia de S o
Lupo; depois, conduziu-me ... estalagem. Ceamos todos juntos.
  Eu estava exausta, e temia uma repetio da noite anterior; s
queria que me deixassem em paz em minha prpria cama. Foi o
que aconteceu; mostraram-me um quarto, com. cama e palha no
ch o, como era de costume. Depois que me despi e deitei, Madame
Sanserrato tornou a entrar e dobrou minhas roupas; ento tirou o
vestido, ficando de an gua s e uma faixa de linho na cabea, e se
deitou na palha. Naquela noite, no tive nem sinal do conde, o
que mostrava que minha prece fora atendida; mas no se explicou
o motivo de ter preferido no me visitar. Ele decerto estava to
cansado quanto eu e duvidava de suas foras.


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#  O castelo de Vouvray, adiante de Thorigny, fora construdo
numa depress o; por isso, vi antes de qua Iquer outra coisa o telhado   j
alcantila do. Quando nos aproximamos, notei alguns patos num
riacho e, ali perto, um enorme pombal, grande o bastante para           i
que servisse de residncia. As pedras do p tio estavam cobertas         j
de grama, e o cavalo, com a disposio um pouco reduzida pela
viagem, arrastou-se at a porta da frente, acima da qual estava
entalhado o bras o de meu marido. Ele desceu da ca rruagem e
me deu o brao; entramos, seguidos por Madame Sanserrato. Um
homem esperava em p na soleira, e calculei que no fosse nem
moo nem velho; talvez tivesse uns trinta anos. Isso no me inte-
ressava, mas os traos dele, sim; era a imagem de meu marido, e
poderia ter sido o prprio conde na juventude. Senti seus olhos
escuros me esquadrinharem rapidamente e ento baixarem; ele se
curvou e nos saudou de modo formal.
  - Esta  sua nova senhora - ouvi meu marido dizer.
  Ele apresentou o homem a mim; chamava-se Andelot, e era um
intendente de reconhecida habilidade. Em raz o das palavras do
conde, o rosto de Andelot traiu um ressentimento momentneo,
e presumi que minha posio no era popular, pelo menos no
com ele. Uns poucos criados, de gorro de linho, acotovelava m-se
ao fundo; pelo jeito, no gostaram nem desgostaram de minha
chegada, exceo feita a uma garotinha que, junto ... janela, escondia
o riso com a m o. At onde sabiam, Madame Sanserrato ainda
estaria no comando, e no eu.

  Naquela noite, meu marido tornou a no visitar minha cama,
e tive esperana de que aquilo que precis vamos fazer j  tivesse
sido feito, e de que o conde no voltaria mais. Mndarire dormiu
nos prprios a posentos, e desfrutei uma noite de sono tranqilo,
entre lenis pudos, mas perfumados com ervas que cheiravam
muito bem. Esperava que logo chegasse o portador vindo de Join-
ville e que eu pudesse colocar no lugar o resto de minhas roupa s,
incluindo os vestidos suntuosos que ga nhara em Na ncy. Havia
um ba que servia como degrau para a cama e que era entalhado
como se fosse um dintel, com as armas dos De Vouvray. Eu nada
sa bia acerca da famlia, e resolvi inquirir meu marido a esse res-
peito; afinal, seria corts demonstrar algum interesse.


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#  Tive uma oportunidade no dia .seguinte, pois ele decidiu me
mostrar a propriedade, que era pequena e podia ser toda percorrida
a p. Aproveitei a ocasi o para pergunta r se eu poderia montar o
cavalo da carruagem; ele pareceu incerto por alguns instantes, mas
a ca bou respondendo que no via raz o para que eu no o fizesse.
Agradeci antes que ele mudasse de idia, e perguntei a histria
da famlia - ningum pode dizer que eu no tenho alguma manha.
A bem dizer, a famlia no era muito interessante; conheciam-se
desde os tempos de S o Lus, mas o mesmo se a plica a muitas
outras linhagens. Sempre houve soldados entre os De Vouvray, e,
imitando-os, meu marido seguira o rei Francisco na derrota para
o imperador em Pavia; e o conde, tal como o rei, fora leva do pri-
sioneiro para Madri.
  - Esse casamento com a irm do imperador no  um sucesso
- observou meu marido, inesperadamente. - O rei no est  in-
teressado nela, e, quando no se interessa por uma mulher, ele a
negligencia . A coroao foi bem faustosa, mas desde ento Madame
Leonor tem vivido como se estivesse divorciada, e continuar  as-
sim.
  Falei que a rainha a nterior tambm vivera dessa forma.
  - Ah, ento voc sa be disso? Pois , a rai.nha Cl udia passava
o tempo a fazer gelia. Decerto h  coisas piores para uma mulher.
  - O senhor vai querer que eu faa gelia? - perguntei; estava
comeando a gostar de sua companhia. Nunca antes me fora per-
mitido dizer o que me vinha ... cabea, e agora podia faz-lo. Ele
me sorriu de modo bastante amoroso. N o o achei nem um pouco
desagrad vel.
  - Minha cara, voc pode fazer o que desejar, a t, talvez... Bem,
veremos isso depois...
  Mudou de assunto, e percebi cue ele esta va pensando no filho
que, conforme a duquesa Antoinette, se espera va clue eu Ihe desse.
Quanto a mim, no fazia objees, afora o fato de no estar certa
de que o a ssunto estivesse resolvido; ma s no havia ningum a
quem eu pudesse perguntar.
  Naquele dia, depois do escurecer, enquanto a le1111a crepitava
no fogo e Madame Sanserrato costurava, o conde pegou uma velha
ra beca e tocou v rias melodias. s nossa s costas, o tal Andelot ia
e vinha, e resolvi perguntar a >nrcnnic quem era ele e por que se


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#parecia tanto com meu ma rido. Naquela noite, porm, no tive
nenhuma oportunidade, pois o conde voltou a minha cama e me
acariciou toda, da forma que fizera em Joinville.  possvel que o
passeio pela propriedade e o fato de que nos dramos bem o ti-
vessem feito sentir-se jovem; ou talvez tivesse se animado ao tocar
rabeca. Em todo caso, eu fiquei, tal como antes, confusa e muito
excitada. Mas, exceto por suas m os, que mais uma vez andaram
por toda parte, o conde nada fez para consumar o casamento, como
mais tarde descobri para prejuzo de mim mesma.

  Em Vouvray, o tempo passava devagar. Um dia era exatamente
igual ao outro. O grande acontecimento era a refeio do meio-dia,
quando a famlia e a criadagem se sentavam em bancos antiquados,
que os domsticos traziam para o sal o. No dia seguinte ... minha
chegada, assaram um ganso, e comemos a ave depois que Andelot
a cortou. Nos outros dias, tivemos sempre ou ensopado de pombo,
ou torta de pombo. As aves eram selecionadas entre as que no
estavam pondo nem chocando ovos e ento tiradas do grande pom-
bal. Mais uma vez, era Andelot quem as selecionava, e ele tinha
um olho infalvel para escolher o pombo certo e um jeito r pido
de abat-lo. Os pombos mortos eram trazidos para serem depena-
dos, e todas as plumas eram guardadas para a confeco de tra-
vesseiros ou a colchoados. Ma da me Sanserra to cuidava disso, e cer-
ta vez foi me dizendo, sem cerim"nias:
  - Pode depenar alguns destes.
  Eu no estava a costumada a ser tratada daquela forma, e com
igual arrogncia retruquei que pretendia dar uma volta e que trin-
dame podia depen -los ela mesma.
  - Faz parte de suas obrigaes - afirmei, e senti que ficava
vermelha. - J  que a senhora se incumbiu de meus deveres, cuide
ento de desempenhar-se deles.
  Sa pela porta, mas no sem antes ver um sorriso delicia do no
rosto da garotinha, que estava no fim da mesa, depenando dili-
gentemente um pombo. Desejei apenas que ela no fosse castigada
por causa do sorriso.
  Em outro dia, cansada das longas noites despendidas com a
costura, decidi montar Pierrelot, o cavalo da carruagem. Encontrei

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#meu marido, que mancava pelo p tio, e pedi-Ihe permiss o; ele
concordou com um sorriso benevolente.
  - Mande Andelot arre -lo para voc - disse o conde. - Ele
est  no pombal.
  Atravessei o p tio com cuidado para no pisar nos excrementos
de pato que cobriam a grama entre as pedras. O pombal surgiu
.. minha frente como uma grande casa. Dei-me conta de que nunca
estivera l  dentro. Baixei a cabea ao entrar (o pombal fora cons-
trudo numa poca em que as pessoas deviam ser mais baixas do
que hoje) e vi centenas de ninhos nas paredes; eram fileiras e mais
fileiras, de onde vinha um arrulhar constante. Tambm vi Andelot
e Madame Sanserrato, que estava com as m os nos ombros dele
e lhe beijava o rosto.
  Sufoquei um grito, e a mulher se virou bruscamente; seu rosto
p lido ficou rubro. N o Ihe dei ateno, e disse a Andelot:
  - Estou aqui para lhe pedir que arreie o cavalo. Pretendo montar
Pierrelot hoje.
  - N o pode faz-lo; o cavalo vai nos levar ... feira amanh  -
interveio a mulher, com uma despreocupao que me deixou abis-
mada.
  Andelot falou com voz firme e tranqila, como se nunca perdesse
a compostura.
  - Talvez a condessa queira nos acompanhar a Troyes - su-
geriu.
  Concordei, pois isso iria desagradar ... viva; dei meia-volta e
sa.  Fomos no dia seguinte, levando uma grande cesta de ovos
de pata. Se Madame Sanserrato esperava que eu falasse de seu
comportamento a meu marido, ficou desapontada, ou, talvez, sa-
tisfeita. Viajamos as duas em silncio, enquanto Andelot se sentava
na frente, conduzindo o cavalo. Resolvi que no futuro minhas ca-
valgadas se dariam nos fins de semana, a no ser que a lguma
jornada interferisse com elas. E, da prxima vez que rnadame me
contradissesse, eu contaria a meu marido. Afinal, ele concordara
que eu montasse o cavalo.
  Em Troyes havia muito movimento, ao contr rio da ltima vez.
Com parte do dinheiro que a duquesa Antoinette me dera comprei
dois pares de meias tricotadas para o inverno. Estava ciente de
que Andelot me seguia a pouca distncia, e acabei me voltando e


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#                                                                                                                                  I


perguntando o que ele desejava. Sorriu; obviamente, nada pertur-
bava seu convencimento. Era to belo quanto competente, e sabia
disso; registrei esse fato, ao mesmo tempo em que me dizia ser
ele um criado, do Zual devia manter distncia.
  - Madame, a qui  f cil se perder - ele disse. - Permita que
eu carregue suas coisas e Ihe faa companhia na feira. H  muito
para ver.
  Pegou meus pacotes e tambm meu brao; no fiquei ... vontade
com isso, nem com a press o de seus dedos em minha manga.
Mostrou-me a barraca do p o de mel, a das laranjas, a das fitas,
as dos rendeiros (os quais a inda estavam trabalhando nos fils) e
a de uma quiroma nte. Quando passamos por essa ltima, ele tomou
minha m o.
  - Vamos entrar e ver o que ela diz de nosso futuro.
  - N o, eu no quero. - Puxei a m o para que a largasse. -
Leve-me de volta ... carruagem, por favor. N o estou gostando de
suas maneiras; o senhor  muito confiado.
  Uma express o desagrad vel surgiu momentaneamente em seu
rosto, deixando-o feio em vez de belo. Ele no disse mais nada.
Caminhou 1 minha frente at a carruagem e segurou a porta para
que eu entrasse. Madame Sanserrato, tendo vendido os ovos e com-
pra do alguns queijos, juntou-se a ns logo depois, e partimos para
Vouvray. Tal como antes, mantive silncio a viagem toda. Talvez
tivesse sido melhor se, ento ou depois, eu contasse tudo a meu
marido. Ma s Andelot era jovem e forte, e o conde, velho e fr gil;
ademais, eu no sabia qual era exatamente a ligao entre os dois,
embora j  comeasse a adivinhar.

  Dois dias mais tarde, pude finalmente montar, e Andelot recebeu
ordem de arrear o cavalo. Eu tinha esperana de que Andelot hou-
vesse aprendido a lio em Troyes, mas, quando j  estava na sela,
ele subitamente passou a m o em minha perna, debaixo da saia,
tateando acima da liga at meu lugar mais ntimo. Chicoteei seu
brao, no uma, mas duas vezes.
  - Tire a m o da - ordenei -, ou corto-lhe a cara.
  Andelot escarneceu, retirando o brao.
  - Mas est  acostumada a que ele faa isso, no ? E por que
no agora? Ser  que tenho alguma coisa de errado?


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#  - O senhor  muito insolente. Por favor, deixe-me ir; talvez o
cavalo no o derrube, mas vou tentar.
  Ele recuou, e deixei-o cuidando do brao. Quando fui embora,
pude ver o dio em seus olhos. Acho que nenhuma moa lhe negara
favores antes. Decidi que ele teria de se contentar com Madame
Sanserrato.

  Nossa vida continuou assim, no sei por quanto tempo. O in-
verno veio e se foi, e o riacho se congelou, forando-nos a abrir
brechas no gelo logo de manh  para que os patos pudessem nadar
e beber. Fiquei satisfeita com as meias que comprara em Troyes,
mas no tornei a voltar ... feira com madarnc e Andelot. Este no
mais me incomodou daquela forma; no entanto, vivia me despindo
com os olhos. S que no consegui me queixar a meu marido. O
conde continuava muito gentil e no me negava nada. Na cama,
j  me acostumara com suas carcias, que agora faziam meus seios
intumescerem.
  Certo dia, chegou uma carta festiva de Madame Marie. Dizia
que estava para casar com o jovem Louis, duque de Longueville;
mas, quando recebi a carta, a cerim"nia j  havia acontecido. Ca
em l grimas. Ah, no ter visto Madame Marie casada! Nem poder
estar na multid o cintilante da corte, onde ela se encontrava agora,
como dama de companhia da rainha! Meu marido veio ver o que
me afligia; demorou algum tempo para descobrir, pois eu chorava
muito.
  - ... e esto indo para Fontainebleau - solucei -, mas no
poder o vir nos visitar, por causa das obrigaes de Madame Marie.
J  me esqueceram; no sou ningum. Vou ficar enfurnada aqui
pelo resto da vida.
  Ouvi a ltima de minhas palavras transformar-se num gemido,
e fiquei envergonhada; mas ele no me repreendeu.
  - N o podemos nos dar ao luxo de comprar as roupas sun-
tuosas que se usam na eorte - explicou o conde, suavemente. -
No entanto, eu a levarei para ver Fontainebleau antes que eles
cheguem l ; no  longe daqui.
  Enxuguei as l grimas e conclu que aquilo era melhor do que
nada; no dia seguinte fez bom tempo, e tomamos a carruagem.
Ao ver que o condutor era o homem que nos trouxera daquela


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#primeira vez, e no Andelot, fiquei aliviada. E Madame Sanserrato
tambm no foi. Estando eu na companhia de meu marido, comecei
a me sentir mais animada. Falamos e rimos tal como de costume,
seguindo por uma estrada suave, orlada de  rvores jovens que
iam se cobrindo de folhas.
  - H  muitas milhas de floresta de cada lado da estrada - ele
explicou. - J  faz sculos que os reis da Frana caam por aqui;
certas  rvores s o to velhas que ningum lhes conhece a idade,
e h  rochas atr s das quais at um gamo pode se esconder.
  Ele muitas vezes dava esse tipo de informao, deixando as
conversas muito mais interessantes. Pela janela da carruagem, pro-
curei o pal cio, e acabei por v-lo; tinha um grande espelho de
 gua na frente e cisnes que nadavam graciosamente.
  - Fontainebleau est  em reformas - disse meu marido. - O
rei trouxe novas idias das guerras, e agora quer que tudo seja
construdo ... moda italiana.
  Ajudou-me a descer da carruagem, e, mancando, foi galante-
mente me mostrando o Pavilh o do Rei, o da Rainha, o dos Filhos
da Frana, o da Porta Dourada, a Capela de S o Saturnino, a grande
escadaria, a Lagoa dos Sapos. Fiquei extasiada com a vis o de
tantas  guas-furtadas, tantos arcos, tantas escadas externas, que
serpeavam em graciosa formao. Fui para l  e para c , esquecendo
o pobre conde, que sentia bastante dor ao andar e que to bon-
dosamente me trouxera. A certa altura, dei-me conta de seus ar-
quejos e me voltei para ele.
  - O senhor me perdoe - disse-lhe. - Eu o retive por tempo
demasiado.
  Ele beliscou-me o rosto e perguntou:
  - Hoje ... noite vamos fazer, no vamos?
  Sorri e deixei-o concluir que tal perspectiva me agradava. Na
realidade, a idia de sentir o toque seco de suas m os lascivas se
tornava cada vez menos atraente. Por que no me deixava em paz,
se no conseguia chegar ...quilo que eu estava comeando a desejar?
Mas eu devia ser grata por aquele dia, e fiquei imaginando que
Madame Marie e o marido entrariam no p tio do pal cio em roupas
magnficas, com cavalos esplndidos, seguindo o rei.

  O conde reclamou seu pagamento no s naquela noite, mas
tambm na seguinte; na primeira ocasi o, o cortinado da cama


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#permaneceu fechado at bem tarde na manh  seguinte. Envergo-
nhava-me que isso fosse do conhecimento dos criados, em especial
de Madame Sanserrato, que me ajudava a sair da nudez. Eu no
sabia nem queria saber onde rnndante se encontrava com o amante,
mas a invejava porque pelo menos ele no se limitava a usar os
dedos no corpo descarnado da mulher. J  eu, com tantas carcias,
no dava mais impress o de ser magra e ficava quase rechonchuda;
meu pequenos seios pareciam frutos maduros, e meus l bios in-
charam com os beijos do conde. Qualquer um que me encontrasse
imaginaria que eu fosse uma mulher experiente, mas ningum vi-
nha a Vouvray, exceo feita ao cura, ocasionalmente. Ele tomava
vinho com meu marido, recebia algumas moedas de prata e ia
embora. N o me lembro de uma nica ocasi o em que tenha se
dado ao trabalho de falar comigo. Se o tivesse feito, eu talvez pe-
disse seu auxlio no que aconteceu a seguir.
  Na segunda noite, o conde comeou a respirar com dificuldade;
estava por cima de mim, grunhindo como freqizentemente fazia,
quando suas m os vacilaram entre minhas coxas. Ficaram frias e
imveis, e os grunhidos cessaram. Levei algum tempo pa ra per-
ceber o que acontecera, pois estava distrada pensando em Madame
Marie; era uma forma mais agrad vel de passar o tempo. Por fim,
eu me dei conta de que meu marido no se movia j  fazia um
bom tempo. Falei com ele, e no houve resposta. De repente, tive
certeza de que estava morto e tentei sair de sob seu corpo; mas
meu cabelo, que estava comprido outra vez, prendia-me ali, e no
consegui me mexer. Comecei a gritar por socorro, e Madame San-
serrato veio correndo, de camisola e touca, sem ser vista por mais
ningum.
  - Socorro, ajude-me! - chamei.
  Ela puxou o cortinado e nos viu tal como est vamos: o conde
morto e frio, e eu estirada sob o corpo. Madarne o ergueu e p"s
de lado; era uma mulher forte.
  - Levante-se - ordenou. - V  para minha cama.
  Sa tremendo do leito e vesti minha camisa - ultimamente, o
conde preferia acariciar-me nua. Sua morte ainda no me parecia
real. Fui para o quarto de rnadame sem muita vontade; no queria
descansar a cabea no mesmo lugar que ela. Mas no tinha idia


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#do que fazer com um cad ver, e sabia que rrtndnme iria chamar os
criados, vestir o defunto e acender velas para ele.
  Escutei passos irem e virem, e finalmente tive certeza de que
carregavam o corpo do conde para baixo. Eu j  comeara a pensar
no que seria de mim, e fiquei acordada ... luz das estrelas, tendo
puxado as cobertas para me aquecer, pois estava tiritando. Ento
ouvi algum andar no quarto; pensei que se tratasse de mndnme e
no me alarmei. Os passos chegaram ... cama, e de repente a s co-
bertas foram arrancadas e socadas contra minha boca; sem poder
gritar, tive minha camisa puxada para cima, de modo que jazia
nua. Depois, senti o peso de um homem em cima de mim; e, en-
quanto eu lutava, ele fez comigo as coisas que os homens costumam
fazer com as mulheres, coisas que ainda no haviam me acontecido;
e, to logo se viu no controle, afastou as cobertas e enfiou a lngua
em minha boca. Eu teria soluado, mas no pude; era grande a
dor da virgindade furtada, e o membro rgido do homem me pe-
netrava sem parar. Ele tirou a lngua de minha boca e falou:
  - Fique quieta, cadela. Esperei muito por isso e quero apro-
veitar. Se gritar, minha m e vir  lhe dar uma surra. A esta altura,
voc deveria estar  feliz por conseguir um amante de verdade.
  Pensei no pobre conde, estirado l  embaixo, e em como eu teria
de ir prante -lo no dia seguinte; nisto, dei-me conta de uma coisa.
Madame Sanserrato era m e de Andelot, no sua amante, e ele,
seu filho com o conde. Senti a cama e meu corpo sacudirem. Eu
estava sendo usada, e voltaria a s-lo se deixasse. N o podia per-
mitir que tal acontecesse. Simplesmente no podia. Iria impedir
aquilo de algum modo, quando tivesse tempo para pensar. Agora,
a despeito de tudo, senti o xtase surgir e me ouvi dar o grito que
as mulheres emitem quando esto saciadas; deve ter soado na casa
toda. Andelot comprimiu a boca contra a minha, dizendo afavel-
mente:
  - Silncio, amorzinho. Eles precisam achar que foi o velho.
  O que ele estava querendo dizer? Suportei seus beijos, maldi-
zendo-os apesar do prazer que Andelot despertara em mim. Ele
continuou a desfrutar-me at quase o amanhecer, pois no pude
escapar. Quando veio a luz do dia, Andelot se levantou e foi em-
bora. T o logo saiu, Madame Sanserrato apareceu junto ... cama.
Ela certamente ficara esperando e ouvindo tudo.


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#  - Voc teve sorte de meu filho estar por a dui - disse. - Se
ficar gr vida , poderemos dizer que foi do conde. Andelot herdar
assim o que lhe cabia por direito. Quando ele na sceu, foi a primeira
condessa, aquela mulher estril, quem impediu que isso aconte-
cesse. Depois veio voc, mas agora nos compensar .  noite, meu
filho vir  outra vez. Depois no, pois seria imprudente. Talvez
duas noites j  bastem. Voc ficar  neste quarto, e farei com que
Ihe tragam comida. Precisaremos encomendar um vestido de luto
em Troyes; a costureira vir  tomar as medida s, ma s de resto voc
no poder  ver ningum.
  Eu permanecia imvel na cama, com o rosto inchado e coberto
de l grimas e os olhos fechados, como se no a ouvisse. Meu corpo
estava todo machucado, gasto, violentado; a boca ardia por causa
daqueles beijos indesejados. Mas, naquele momento, eu queria que
tudo acontecesse de novo. Sabia , porm, que no podia permiti-lo;
de algum modo, precisava esca par de Vouvray. Depois que rrndnrne
se foi, comecei a fazer meus planos, sozinha, deitada ... luz cinzenta
da manh .

  Choveu o dia todo, e o aguaceiro, longe de me deixar intimidada,
acabou por me animar: rrirzdanre estaria menos disposta a ficar olhan-
do para fora ou a me seguir no p tio encharcado. Continuei nua,
esperando que mandassem o desjejum e que uma das criadas o
trouxesse. Assim fizeram; quem veio foi a garotinha que, quando
de minha chegada, rira zombando de Madame Sanserrato. Senti
que podia contar com a menina, pois rirndanlc batia nela com fre-
qncia. Chamava-se Germaine e estava muito quieta; vendo-me
num quarto estranho, e com a cama ensangentada , ela no tinha
como deixar de perceber que naquela noite acontecera algo que
no era para acontecer. O desjejum consistia numa fatia de p1o
recm-sado do forno e numa grande cuia c-le cerveja caseira es-
pumante, que as criadas aqueciam remexendo-a com um ferro em
brasa. Tomei um pouco de cerveja; a bebida me animou. Depois,
deixei que Germa ine comeasse a me vestir. Ela deve ter visto as
machucaduras em meu corpo, mas no disse nada . Estremeci quan-
do refez os laos de meu vestido.
  - Germaine - pedi --, empreste-me o gorro e o xale.  por
pouco tempo.


                         39
#  Ela olhou em volta, amedrontada.
  - Oh, rrradarrte, eu no posso! Se ela descobrir...
  - Precisamos nos arriscar. N o tenho nada para Ihe dar, mas
deixarei o gorro e o xale no est bulo; voc os achar  daqui a pouco.
  Eu decidira selar Pierrelot e fugir; a chuva trabalharia a meu
favor.
  - Est  bem, rnadarrie, eu ajudo - disse Germaine, acanhada.
  Quando terminou de me vestir, pus o gorro e o xale. Esguei-
rei-me rapidamente para o andar de baixo, sem levar dinheiro nem
muda de roupa; e vi Madame Sanserrato sentada entre velas acesas,
.. cabeceira de onde colocaram o caix o aberto de meu marido.
Madame estava de capuz, que lhe cobria o rosto, e enfiara as m os
nas mangas do vestido preto. Dir-se-ia que era ela a viva; e, de
certo modo, no deixava de ser. Deve ter havido uma poca em
que madame e o conde foram jovens o suficiente para gerarem um
filho. Eu no quis ficar pensando nisso, e sumi pela porta, enca-
rando o aguaceiro. Quando cheguei ao est bulo, j  estava ensopada,
mas no me importei. Minhas m os ficaram escorregadias e tre-
miam de afobao; peguei os arreios e os coloquei em Pierrelot.
Esse bom cavalo j  se acostumara comigo, e, de qualquer forma,
no era mais de criar problemas; eu s queria que me levasse para
longe de Vouvray antes que dessem por minha falta. Lembrei-me
de fazer uma trouxinha com o gorro e o xale de Germaine, sabendo
que ela viria busc -los logo; depois sa a meio galope; a sela aliviava
a dor dos machucados entre minhas pernas. Por causa da chuva,
mal conseguia enxergar.
  Fui em frente, sabendo que caminho estava tomando: a estrada
para Fontainebleau. De algum modo, eu haveria de encontrar Ma-
dame Marie, e ela me ajudaria. A  gua escorria de meu cabelo
para os olhos, e minhas roupas estavam encharcados e frias; de
vez em quando, precisava enxugar a vista com a m o. A certa
altura, um burro passou por mim; levava a costureira que fazia
roupas de luto; ela estava indo a Vouvray para tomar-me as me-
didas. N o me conhecia, e no a cumprimentei. Viera da direo
oposta ...quela que eu seguia; mas continuei, ciente de que estava
na estrada certa, pois, quando f"ramos a Fontainebleau, not ramos
uma estranha  rvore retorcida ... beira do caminho.
  Pierrelot se saiu bem. N o sei que idade tinha, mas gostava de


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#um bom galope. A chuva parou quando amos nos aproximando
de nosso destino; puxei o cabelo para tr s e comecei a enxergar
com clareza. Eu agora corria menos perigo de ser perseguida; ali s,
no tinham raz o alguma para me perseguir, e ri quando pensei
nisso. Tampouco era prov vel que soubessem que caminho eu to-
mara; talvez at achassem que retornara a Joinville, e nesse caso
o temor que a duquesa Antoinette lhes inspirava os impediria de
tentar me buscar.
  Quando chegamos a Fontainebleau, percebi que Pierrelot j  no
obedecia mais. Passou a galope pela entrada do grande pal cio, e
em v o tentei det-lo. Vi de relance o lago, as janelas redondas
das  guas-furtadas, e foi s, pois o cavalo me levou para um bosque
de  rvores bem grossas. Havia trilhas nesse bosque, e Pierrelot
entrou por uma delas, como se algum cheiro irresistvel o atrasse;
precisei ficar de cabea baixa para evitar os galhos, que teriam
prendido meu cabelo ou cortado meu rosto.
  - Pierrelot... - rnurmurei, mas ele no me deu ateno e con-
tinuou a galopar.
  Eu estava comeando a ficar com medo; j  no sabia quando
ele iria parar. Apavorada, mal escutei os sons que me chegavam
por entre os troncos muito antigos e espessos; eram trompas, la-
tidos, movimentos de homens e c es. O rei estava caando. Ouvi
a voz de meu marido, longe, longe, pois eu estava cansada e as-
sustada; ele tornava a me dizer que os reis da Fra na caavam
naquelas florestas havia sculos. Filipe, o Belo, morrera ali, miste-
riosamente, numa caada. Talvez eu tambm morresse - ou con-
tinuasse a galopar por um sculo. Apesar da m goa, quase lamentei
ter sado de Vouvray.
  De sbito, um gamo apavorado surgiu ... nossa frente, com as
narinas dilatadas e os olhos arregalados e vermelhos. Pude sentir
seu cheiro acre e ver-Ihe a galhada, que lembrava um castia I; a
lngua Ihe pendia da boca; estava quase sem fcras. Ouvi os latidos
se aproximarem. Pierrelot se empinou, e o gamo mudou de direo
e entrou num matagal ... direita. Ca da sela, mas, antes de chegar
ao ch o, fui agarrada pelos braos fortes de um homem que usava
chapu redondo com jia s engastadas. Seus olhos oblquos de li-
bertino me olharam dos ps ... cabea, e no pareceram ficar con-
tentes; seu pescoo era taurino. Tinha o nariz mais incrivelmente


                            41
#comprido que eu j  vira. Pierrelot sumira; no sei o que foi feito
dele. O homem foi logo pondo as m os em meus seios, apertan-
do-os de maneira impessoal; eles ainda doam por causa do tra-
tamento que Andelot lhes dispensara. Em toda a volta, iam se
juntando caadores de rosto irado. Os c es, desnorteados, pulavam
para l  e para c ; suas coleiras tambm tinham jias. Percebi todos
esses detalhes - do modo que, segundo dizem, fazemos antes de
morrer.
  - Madrrme, a senhora nos fez perder a presa - disse o homem.
  Era imenso e irradiava vitalidade. Segurou-me na sela como se
eu fosse um peixe; a sem-cerim"nia com que me recebia indicava
qual devia ser minha aparncia. Molhada de chuva, com o cabelo
solto e colado no rosto, a saia suja de lama, eu poderia ser tomada
por uma ningum, ou por uma prostituta, e assim ele me tratava.
Em Troyes, as m os de Andelot haviam agido tal como as daquele
homem estavam se comportando agora; e eu no tinha como lhe
bater, pois havia perdido o rebenque na confus o. De qualquer
modo, no creio que encontrasse coragem para us -lo; o homem
era o lder do grupo, e eu os fizera perder a presa. Fiquei imagi-
nando aquela grande criatura arfante, temporariamente salva de
uma morte sangrenta; e me alegrei, pois adoro todos os animais.
O gamo j  se fora entre as rochas, voltando para os de sua espcie.
  Com a cabea, o giga nte cheio de jias fez um sinal brusco para
um nobre lue cavalgava a seu lado (eram todos fidalgos, a julgar
pelas roupas).
  - Leve-a de volta e cuide ce due a enxuguem e lhe dem comida
- ordenou.
  Seus olhos me inspeciona ra m bem depressa, e ele pareceu perder
temporariamente o interesse.
  - Precisamos encontra r outro gamo - continuou, e se virou
na direo contr ria, deixando-me com o nobre, que n  o estava
nada contente. - Tornarerizos a nos encontrar, rrtndarire - concluiu
o gigante, suavemente.
  Seu auxilia r, furioso por perder a nova vtim.a que viessem a
encontrar, no disse nada enquanto me carregava em sua sela.
Perguntei inutilmente por Madame de Longueville.
  - J  recebi minhas ordens - ele respondeu, secamente.  Mais
tarde, vim a saber que se tratava de Anne de Montmorency, o


                            42
#condest vel da Frana. Na ocasi o, ele poderia ser qualquer um,
pois no me importava. Eu estava to cansada, encharcada e gelada
que me sentia quase morta, e nem o fato de que o egrgio gigante
pretendia fazer comigo o mesmo que Andelot conseguiu despertar
minha ateno. Estava exausta demais para pensar nisso.

  O condest vel me fez desmontar num p tio e jogou as rdeas
para um cavalario. Parecia haver criados correndo por toda parte;
um deles me conduziu por uma escadaria de pedra, onde havia
um nicho com o busto de um s tiro, talha do na pedra - o busto
do homem que me segurara na floresta, mas sem o chapu. Eu
no precisava fazer perguntas; aquele era o rei da Frana, e eu
estava em seu poder. O condest vel se fora, tendo certamente vol-
tado ... caada, agora que j  se livrara de mim. Voltei-me para o
criado, que usava o uniforme rgio, e disse-lhe que gostaria de ser
levada a Madame de Longueville. Seu rosto no demonstrou ne-
nhuma express o.
  - A seu dispor, madame - disse.
  Mas percebi que nunca me levaria a Madame Marie; j  recebera
suas ordens, que eram to-somente me conduzir ... alcova onde
est vamos agora - um quartinho com lareira de m rmore, algu-
mas cadeiras e uma cama. Olhei rapidamente para a cama, sabendo
que o rei da Frana viria deitar-se ali e usar-me depois da caada
e da ceia.
  Lembrei que no comera nada desde Vouvray; estava exaurida
pela longa cavalgada e pelo estupro que sofrera em poder de An-
delot. Perguntei ao criado se eu poderia comer alguma coisa. A
resposta foi a mesma:
  - A seu dispor, rnadariie.
  No entanto, trouxeram-me comida. Tentei me alimentar, apenas
para descobrir que, no fim das contas, no conseguiria engolir nada.
As roupas ensopadas me faziam tiritar de frio, mas no tinha como
troc -la s. Fiquei sentada numa das cadeira s, quase sem me da r
conta de que meu vestido molhara a forrao do assento. Havia
uma caixinha cheia de jias no duarto. Sem divida, aquele era um
lugar ao qual o rei trazia moas freqentemente.
  Procurei pensar no que fazer. A certa altura, leva ntei-me e tentei
abrir a porta; estava trancada, como eu j  esperava. Mesmo se


                        43
#conseguisse sair, no tinha a mnima idia de como achar Madame
Marie na imensid o de Fontainebleau. Percebia agora que fora uma
loucura ter vindo; mas, se pudesse escolher, nem assim voltaria a
Vouvray. J  deviam ter descoberto que eu me fora, e estariam al-
terando seus planos; primeiro, haveria o funeral do conde, sem a
viva. Pensei em meu marido com frieza; teria sido o orgulho de
sangue o que o fizera casar comigo? Poderia ter desposado Madame
Sanserrato quando o marido italiano morreu; assim, legitimaria o
filho, e todo mundo ficaria satisfeito. Mas, agora, o que seria de
mim? Quando o rei se cansasse de meu corpo, coisa que sem dvida
ocorreria depois de uma hora, o que aconteceria? Seria ento intil
encontrar Ma dame Marie; nem mesmo ela poderia se apiedar de
uma moa que o rei usara como prostituta.

  O tempo ia passando. N o encontrei maneira de escapar. Olhei
at mesmo a chamin da lareira, mas era alta demais, e, em todo
caso, eu no teria disposio para escal -la, sentindo tanto frio e
fraqueza. Quanto ao futuro, s sabia o que era inteno do rei
fazer comigo; mas, depois do que me pareceu uma eternidade,
ouvi uma chave girar na fechadura, a porta se abriu, e uma nobre
de elevada estatura apareceu na soleira; usava vestido e capa azuis,
com o cabelo claro coberto por um capuz arredondado, muito ele-
gante, debruado a ouro. Olhou-me com calmo interesse, e pergun-
tou se eu estava bem. Atirei-me a seus ps.
  - Oh, mrzdrrne, eu Ihe imploro, ajude-me a sair daqui! N o tenho
dinheiro, no tenho para onde ir, mas s peo que me deixem ir.
Sou a condessa de Vouvray, e procuro minha amiga, a duquesa
de Longueville. Se a senhora a conhece e sabe onde encontr -la,
diga-Ihe que Claudine est  aqui, em grande dificuldade. Eu Ihe
rogo que faa isso; seno, acabarei sendo usada e abandonada; 
coisa que j  conheo bem demais!...
  Estava agarrada a suas pernas, e podia sentir as ricas fazendas
de que eram feitos o vestido e as an guas. No comeo, ela no
pareceu disposta a ouvir-me; mais tarde, descobri que tinha o cos-
tume de verificar se as amantes casuais do rei, freqizentemente
moas em dificuldades como eu, estavam limpas, alimentadas e
prontas a receber as atenes dele. Dava a mpress o de se divertir
com os h bitos do soberano, como se fossem as travessuras de um


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#irmo muito querido. Vim a saber que era a amante de Francisco;
ela fizera um casamento de convenincia com um velho e tinha
vinte irmos. Sem dvida, foi em tal ambiente que adquiriu a ca-
pacidade de divertir-se a distncia com os caprichos da vida. Cha-
mava-se Anne de Heilly, duquesa de tampes, e era huguenote.
Claro, eu s soube disso mais tarde; naquela primeira vez, tive
conscincia apenas do toque de suas lindas mos, cheias de anis
preciosos, e do som de sua voz, no inconfundvel sotaque da Pi-
cardia, a exclamar que eu estava ensopada.
  - Independentemente do que venha a lhe acontecer, voc pre-
cisa trocar de roupa agora mesmo - disse, e, num gesto r pido
e generoso, tirou a capa de veludo azul e a colocou sobre meus
ombros.
  Senti-me um pouco mais aquecida; minhas roupas, porm, ainda
se grudavam ao corpo.
  - Venha - concluiu.
  Levou-me para fora do quarto. Despedi-me dele com um arrepio
de gratid o. Seguimos por um longo corredor e, dali, percorremos
pequenas escadas sinuosas e diversos c"modos, num dos quais
havia, como naquele primeiro, uma caixa cheia de jias resplan-
decentes. Por fim, chegamos a uma porta, e a duquesa bateu. Um
criado veio abrir, e, contra a luz da janela, vi um casal que estava
de m os dadas, como se fossem duas crianas; eram minha querida
Madame Marie e um moo alto que eu no conhecia, mas que s
podia ser seu marido, o duque de Longueville. Ele no fora caar
com os outros.
  - Esta jovem dama pediu para v-la - explicou a duquesa.
- Est  toda molhada, com frio, e precisa de roupas secas. Mais
que isso eu no sei; no perguntei.
  Sorriu, tirou-me a capa dos ombros e foi embora antes que eu
pudesse agradecer. Mais tarde, fiquei imaginando como ela lidou
com o rei quando este voltou ao pal cio e no encontrou sua presa;
sem dvida, a duquesa de tampes tinha l  seus mtodos. Naquele
momento, porm, no pensei nisso; Madame Marie se erguera de
pronto.
  - Claudine, querida! Voc est  ensopada! O que faz aqui? Louis...
- disse, dirigindo-se ao jovem marido, que parecia ansioso por fazer
tudo que ela pedisse e logo se prontificou a sair para que madarne


                         45
#pudesse despir-me e coloca r-me em roupas secas. - .. Louis, acho
que ela deve ir para a cama. Veja, est  tremendo. Mandarei que
as criadas tragam um tijolo quente, e voc, Claudine, tire as roupa s
para que eu possa enxug -la. Quando estiver na cama, poder
contar tudo o que aconteceu.
  Saiu ... procura das criadas, e o duque tambm se foi, no sei
para onde. Eu estava to aliviada e agradecida que quase desmaiei.
Tirei as roupas e senti que me secavam, vestiam-me com uma
camisa limpa de Madame Marie e me colocavam na cama; o con-
forto dos travesseiros e dos lenis de seda me levou ao sono de
imediato, tal como se eu fosse uma criana. Quando acordei, Ma-
dame Marie estava sentada a meu lado, sozinha.
  - Agora, conte-me tudo, se puder - disse, muito gentilmente.
- O que foi feito de seu marido? Como ele permitiu que voc
viesse para c  neste estado?
  Ali, de repente, perdi o controle das emoes e lhe contei tudo
o que acontecera, sem omitir o tratamento que sofrera nas m os
do intendente Andelot e da m e. Madame Marie ouviu muito sria
e depois disse:
  - Meu marido cuidar  de que um procurador v  a Vouvray
colocar seus negcios em ordem e garantir que voc receba a he-
rana. N o podemos permitir que essa gente continue a agir da
mesma forma. Quanto a voc, precisamos esperar pa ra ver se est
gr vida. Se estiver, cuidaremos do beb. Em todo ca so, imagino
que o herdeiro seguinte na linha de sucess o tambm v  querer
seus direitos.
  Falava com sensatez, e tentei imita r-lhe a calma.
  -  um primo de meu ma rido - eu disse. - N o o conheo.
Ele nunca foi a Vouvra .
                    y
  S pelo fato de a possibilidade da gravidez ter sido mencionada
abertamente entre ns duas, eu j  comeava a me sentir melhor.
Depois do que Madame Sanserrato me dissera, tive muito medo
de estar esperando um filho. Agora, ele poderia deixar meu corpo
se chegasse a hora, e depois no ser mais parte de mim; como
minha senhora disse, cuidariam da criana. Ao fim e ao cabo, no
fiquei gr vida ; mas s descobri isso depois de minha doena, que
foi bem longa.
  No dia seguinte, comecei a passar mal; estava febril, tossindo


                           46
#na cama que o duque Louis gentilmente desocupa ra para que eu
pudesse descansar sem ser incomodada. Madame Marie dormiu
comigo e me cobriu de aten"es; s mais tarde vim a saber que
ela estava gr vida, e muitssimo satisfeita com isso. A felicidade
de madrzrne e do marido era uma coisa que eu nunca vira antes; 
verdade que, ao longo dos anos, o casal Guise acabou sentindo
algo parecido, mas s manifestou esse contentamento em particu-
lar; o conde e eu certamente no havamos chegado a tanto, em
raz o da diferena de idade e da impotncia de meu marido, muito
embora ele me tratasse com bondade. Ademais, tudo que me fora
dado conhecer da paix o carnal eram violncia e feira, tanto com
Andelot eomo, previa eu, com o rei. Este, depois ue me recuperei,
algumas semanas mais tarde, e apareci atr s de Madame Marie
envergando um de seus vestidos mais escuros, agiu como se nunca
tivesse me visto. A vagabunda ensopada que ele encontrara na
floresta e a protegida da duquesa de Longueville s poderiam ser
pessoas diferentes. O rei respeitava muito Madame Marie, admi-
rava sua beleza e a tratava como filha.
  Depois da convalescena, levaram-me pa ra prestar cumprimen-
tos ... rainha Leonor. O rei Francisco negligenciara ambas as esposas.
A primeira fora Cl udia da Fra na, filha de Ana da Bretanha e
Lus XII. Cl udia lhe deu cinco filhos, inclusive a bela Madeleine;
mas Leonor, irm do imperador Carlos V, no lhe da.ria nenhum.
Quando moa, Leonor fora bonita, e provavelmente seu casamento
anterior, com dom Manuel I de Portugal, tenha se mostrado bas-
tante feliz; mas a aparncia da rainha sofrera com a decepo, a
saudade da p tria e o fato de que sabia muito pouco francs e o
falava com sotaque flamengo. Ainda podia ser considerada a traen-
te; o pai ficara conhecido como Filipe I, o Formoso; a m e, embora
insana, fora uma espanhola belssima; e Leonor, ao contr rio do
irmo Filipe II, no tinha a boca dos Habsburgo. No entanto, li-
mitava-se a ficar sentada, ap tica e obediente, e no encantava o
rei. Ela no deixaria marca na histria. Isso coube 1 duquesa de
tampes. Esta, de vez em quando, dirigia-se a mim afavelmente,
no tendo motivo para deixa r de lembrar-se de mim. Certa vez,
comentei que esperava no ter estragado sua capa de veludo; o
duque Louis, o silencioso marido de Madame Marie, escutou e
disse:


                         47
#  - H  muitas outras de onde veio aquela.
  Ele no era de falar, mas tinha verve. Exceo feita ... esposa,
ningum o conhecia muito; a felicidade dos dois era uma chama
constante e pura. Eu os invejava. Quanto ... duquesa de tampes,
era leal ao rei Francisco, mas tambm boa amiga dos huguenotes
- assim como Madame Marguerite, a irm do rei. Na Frana da
poca, os huguenotes ainda no eram perseguidos.

  Antes de irmos para Chteaudun, onde Madame Marie deveria
preparar-se para dar ... luz, no pude conhecer todos os filhos do
rei. Os dois de que me lembro melhor eram os prncipes, porque
se mostravam to diferentes que mal pareciam irmos. O delfim,
Franois, era muito charmoso, viril e destemido, sempre com uma
palavra am vel nos l bios, sendo querido por todos; o irmo, Henri,
era acanhado e taciturno. Ambos haviam retornado do cativeiro
em Madri, aps o pagamento de um enorme resgate; antes, quando
se permitiu que o pai voltasse para a Frana, tinham sido enviados
.. Espanha como refns de Carlos V. N o sei bem o que aconteceu,
mas acho que depois, com a permiss o do papa, o rei quebrou
certas promessas que fizera ao imperador, coisa que no deixou
a rainha Leonor nada feliz quando, sob os termos do tratado, des-
posou Francisco. Este cuidava de divertir-se, no importando o
que estivesse acontecendo. Ns o deixamos entregue a danas e
caadas em Fontainebleau e fomos para Chteaudun.
  Essa sempre foi a residncia favorita de Madame Marie, tanto
no casamento quanto na viuvez. Chteaudun pertencera ao grande
conde de Dunois, o Bastardo de Orlans, ancestral do marido de
madame. Est vamos instalados numa torre altssima, de onde uma
estrada sinuosa se estendia para as margens do ribeir o que, mais
adiante, se transformava no rio Loire. A torre era muito antiga, e
suas pedras, muito frias; os que viveram ali em pocas anteriores
certamente tinham sade forte.
  Durante toda aquela temporada, Madame Marie foi imensamen-
te feliz. O marido s queria estar junto dela, e aguardavam con-
tentssimos o nascimento do filho. Vi o ventre de rrtadame inchar,
e no Ihe tive inveja nenhuma - fiquei to aliviada por ter esca-
pado ...s conseqncias do estupro que nem pensava em imit -la.
  Com relao ao que acontecera em Vouvray, eu teria de suportar


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#um encontro com a duquesa Antoinette. Sabia que ela viria, tanto
para ver Madame Marie antes do parto como pa ra visitar seus
parentes, os Bourbon-Vend"me, que moravam no muito longe
dali. Depois de ter conversado com a filha, mandou que me cha-
massem, para falar comigo em particular. Obedeci, tremendo de
medo, e com raz o. Os olhos cinzentos sob a coifa eram como ao.
  - Vejo que voltou para incomoda r minha filha.
  - N o pude evitar, mrzdame.
  - N o me responda. Providenciou-se para que voc fizesse um
casamento adequado, melhor do que muitas moas em sua posio
teriam direito a esperar. Apesar disso, voc fugiu de modo indigno
e se exp"s ao descrdito com o rei, tal como j  fizera com o tal
intendente. Ningum seno minha filha teria a boa vontade de
acolh-la.
  - Madarne, eu no me expus a descrdito nenhum. Foi uma
desventura.
  - Est  querendo me dizer que no lanou olhares para o tal
criado quando seu marido ainda vivia? Quer que eu acredite que
ele j  no tinha estado outras vezes em sua cama?
  - Madame,  intil dizer-lhe o que quer que seja, pois a senhora
no est  disposta a escutar.
  Eu ergui a cabea e encarei a duquesa; talvez isso a impressio-
nasse. No entanto, retomou o serm o, e de modo no mais agra-
d vel que antes.
  - Tentei convencer minha filha a mand -la de volta para Join-
ville, onde seu comportamento seria vigiado; mas ela no quis. S
lhe digo isto: se vai continuar com ela, comporte-se como uma
freira. N o erga o olhar para homem nenhum. Aja como um criada.
Se houver mais algum escndalo que envolva voc, eu mesma
cuidarei de que seja posta no olho da rua.
  Meus joelhos tremiam, mas no ousei responder. Fiz uma re-
verncia, voltei-me e sa.

  Depois disso, segui as ordens da duquesa Antoinette e passei
a agir como uma freira. Usava roupas da corte, mas no danava;
tampouco levantava o olhar. Hoje, penso que a duquesa Antoinette,
sem estar ciente da devoo do duque Louis a Madame Marie,
temia que eu semeasse a discrdia entre os dois, tal como minha


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#m e fizera com ela e o marido. Se no foi isso, ento no sei por
que teria sido to cruel comigo. Em todo caso, eu no estava mesmo
desejosa de frivolidades, nem disposta a contrariar as instrues
da duquesa. A corte, em Fontainebleau, Blois, Paris ou Vend"me
(todos lugares a que fomos mais tarde), acabou se acostumando
a ver-me como uma sombra vestida de preto, que se movia furti-
vamente atr s da radiante Madame Marie - radiante porque, no
final de outubro, dera ... luz um filho bastante saud vel, no pal cio
do duque Louis, em Amiens. Em reconhecimento aos favores r-
gios, a criana recebeu o nome do soberano; todos sabiam que Sua
Majestade considerava madame uma filha. Era to bonita que ficava
difcil negar-lhe qualquer coisa, e parecia que a boa sorte iria sem-
pre acompanh -la.
  No entanto, o azar veio nublar a vida na corte. Depois de uma
doena de poucos dias, o delfim Franois morreu. At seu pai
mergulhou no luto. Por algum tempo, no houve mais caadas
nas florestas de Fontainebleau. O rei passava longas horas sozinho;
e era difcil ver no tmido Henri o novo delfim. Foi como se um
membro tivesse sido amputado; mesmo eu senti isso. A corte per-
deu a alegria.




                           50
#abundantemente para tornar tudo agrad vel; e a pobre Mademoi-
selle de Vend"me e o rei Jaime troca ram anis e cola res, placas
com diamantes e rubis, e quase tantas jias diferentes quantas havia
nas caixas dos quartos de hspedes em Fontainebleau, das quais
os convidados podiam servir-se. Madame Marie conheceu o rei
da Esccia durante esses entretenimentos, e depois me disseram
que o volvel Jaime V esteve apaixonado por ela at descobrir
que j  era bem casada. O que inadzrrte achou do rei eu no soube
nem perguntei, ento ou depois.
  Era essa a situao, e assim continuou. Jaime V anunciou di-
plomaticamente aos Vend"me que precisava ir ter com o rei da
Frana para discutir o casamento; e partiu, deixando-os com uma
imensa despesa a pagar. Nunca mais o viram. As sedas foram
finalmente enroladas e guarda das; foi uma decepo em Vend"me,
e mndernoiselle se sentiu lograda e desapontada.

  A primeira vez que vi Madame Madeleine da Frana foi em
seu casamento com Jaime V, na Ca tedral de Notre-Dame, em 1"
de janeiro de 1537. Casaram-se por amor, e tudo aconteceu muito
depressa. Eu fiquei entre os espectadores que estavam do lado de
fora, pois s a alta nobreza fora convidada ... cerim"nia; mesmo
assim, a catedral estava apinhada. Os oficiantes eram sete cardeais.
Madame Marie e o marido, usando coroas ducais de ouro (e capas
forradas de pele, por causa do frio), estavam l  dentro. O rei Fran-
cisco, de chapu emplumado, conduziu a noiva, que usava um
vestido branco e dourado e um festo de jias; as damas de honra
a seguiam em vestidos de longas mangas verdes. Ma dame Made-
leine entrou de cabea baixa; o cabelo castanho profuso e lustroso
cobria-lhe o rosto, o qual, por essa raz o, no consegui ver; mas,
quando saiu ao lado do noivo, esta va radiante como um lrio a Ito
e llnguido que ganhasse o rubor da s rosas. Era muito bela. Atr s
de Madame Madeleine vinha Mada me Marguerite, a irm do rei,
que a criara depois da morte da m e, a rainha Clludia . O tufo de
cabelo escuro que cobria a testa de Madame Ma rguerite sempre
me fascinou; dizia-se que ela era uma das pessoas mais inteligentes
da Frana.
  O rei Jaime, dando o brao ... noiva, vestia um traje de cetim
branco e uma capa curta de veludo azul, forra da de zibelina. Foi


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#uma das poucas vezes em que vi aquela criatura imprevisvel pa-
recer feliz. Ele e Madeleine haviam se apaixonado ... primeira vista,
em Blois, quando a moa jazia em seu baldaquim de inv lida, pois
era tsica. Os mdicos a tinham proibido de casar e ter filhos. Jaime
V sabia do fato, mas isso no fez diferena: ele decidiu que, se
no desposasse Madeleine, no quereria ningum mais. Tanto Jai-
me quanto a prpria Madeleine (cuja sade melhorara bastante
com a paix o) imploraram ao rei para que os deixasse casar, e o
mais depressa possvel. Em tais assuntos, o rei Francisco tinha co-
rao mole; alm disso, estava ansioso por demonstrar gratid o
no que dizia respeito ao aparecimento da armada escocesa na luta
contra o imperador. Acabou consentindo; tambm estava grato por-
que se foi a melancolia que cobrira a corte desde a morte do delfim
Franois. O novo delfim, o tmido Henri, deparando com o rei
Jaime numa igreja do Lyonnais, correu para ele e o abraou; depois
o levou para encontrar Francisco no pal cio, acordando-o da sesta.
"Quem bate com tanto rudo ... minha porta?", exigiu saber a rgia
voz, e quando responderam que se tratava do rei Jaime, Francisco
correu em mangas de camisa para tambm abra -lo. Agora, Jaime
era seu genro. A multid o gritava boas-vindas. Quando assisti ...
passagem da nova rainha da Esccia, pensei comigo mesma que
nunca vira algum com clios to longos. Desejei que o casal fosse
muito feliz, e por muito tempo. Quanto ... rejeitada Mademoiselle
de Vend"me, anunciara a inteno de ir para um convento, muito
embora Jaime, de forma um tanto insensvel, houvesse se pronti-
ficado a entreg -la no altar a qualquer noivo que o rei da Frana
selecionasse.
  Por ordem do rei Jaime, seis condes, seis lords, seis bispos e
vinte grandes bares vieram da Esccia trajando as melhores vestes;
e, no banquete de casamento, taas de ouro foram servidas aos
convidados no com vinho, mas com p de ouro e pequenas pe-
pitas. "Estes s o os frutos de meu pas", disse Jaime V. Madame
Marie foi quem me contou isso, e anos mais tarde ela mesma se-
guiria a pr tica (j  iniciada quando desse primeiro casamento) de
minerar ouro em Crawford Moor. Num prato, havia tambm moe-
das de ouro escocesas que tinham como efgie o belo perfil do rei
Jaime, que era retratado com o chapu redondo. Tudo considerado,
a Esccia, o pas mais pobre, no fez m  figura ante os ricos e


                             54
#profusos presentes da Frana. Estes eram assombrosos: nos dias
seguintes, o rei Francisco disse ... filha que ela deveria servir-se de
tudo que desejasse, e Madeleine e suas damas no se fizeram de
rogadas; tapearias, leitos suntuosos, arm rios repletos de baixelas,
peas e mais peas de fazendas, veludos, sedas, panos bordados
em ouro e em prata, ricas toalhas de mesa, vinte tapetes persas,
vestidos, jias; tudo menos dinheiro, pois este andava escasso. No
final, Franciseo acabou precisando ceder a Jaime certas proprieda-
des na Frana para cobrir o dote de Madeleine. Esse detalhe no
teve importncia; tudo era alegria, com justas e bailes como os de
Vend"me.
  Passaram o inverno na Frana, viajando de um castelo a outro
at que um clima mais ameno chegasse ... Esccia, para no pre-
judicar a sade de Madeleine. Quando o tempo por l  melhorou
(tanto quanto isso  possvel), o rei Francisco apre.stou dois grandes
navios para levarem filha e bagagem; e, na noite anterior ... partida
do casal, houve uma farra imensa, e todo mundo se embebedou
at dia alto. O rei e a rainha da Esccia desceram o rio Sena, e
creio que tiveram uma grande recepo em Rouen; lembro-me de
ter ficado muito admirada, como todos, de que a fr gil Madame
Madeleine suportasse as constantes festas e demonstraes pblicas
de alegria; eorria o boato de que estava gr vida - as tsicas geram
filhos com facilidade. Ela resistiu ...s boas-vindas e ... viagem, que
foi bem ruim; o mar estava tempestuoso, e o rei da Inglaterra,
sempre insultuoso, negara um salvo-conduto que lhes permitisse
desembarcar em seus domnios; quase foram tomados como refns
ao largo de Scarborough, no litoral ingls, e os coitados que par-
ticiparam de uma revolta conhecida como Peregrinao da Graa
vieram em botes pedir ao rei Jaime que fosse ... Inglaterra e os
libertasse do desalmado tirano. "Se vocs, ingleses, no tivessem
atrasado meu regresso, eu j  estaria em casa h  cluarenta dias", ele
disse a um homem. "Mas agora estou a qui e logo chegarei em
casa, a despeito de quem quer que me diga n  o."
  Desembarcaram em Leith, e a nova rainha beijou o solo da Es-
ccia, o que agradou imensamente ao povo; a beleza de Madame
Madeleine, o amor evidente que sentia pelo belo rei, o rumor (que
depressa se espalhou) de que j  estava gr vida, tudo isso fez gue
de imediato fosse amada pelos escoceses. Para eles, a rainha Mag-


                         55
#dalen (como a chamavam) no tinha defeitos; e j  apregoavam sua
sa bedoria e bondade, coisa extra ordin ria para uma moa que ain-
da no completa ra dezessete anos.

  Quanto a ns, gua rdamos deles apenas a lembrana, e por algum
tempo no recebemos mais notcias. Tnhamos outras boa s novas:
Ma dame Marie estava esperando mais um beb, para o comeo
de agosto. Entrementes, ela continuava na corte; e, embora o duque
Louis raramente a deixasse sozinha, foi obrigado a faz-lo para
cuidar de certos negcios em Rouen.
  N o me lembro de ter sentido nenhuma emoo quando recebi
a notcia de que Madame Madeleine morrera quarenta dias depois
da chegada ... Esccia; o frio a matara. Nessa poca, j  est vamos
enlutados o bastante. O duque Louis contrara uma febre em Rouen
e esta va morto. N o sei qual das notcias chegou primeiro. Recor-
do-me de ter abraado Madame Marie, tal como ela tantas vezes
fizera comigo. N o me pareceu que qualquer das afli"es que eu
sofrera se igualasse ... dela. O casal se amava muito e teve muito
pouco tempo - apenas trs anos.
  Os olhos cinza-azulados de nrndnme estavam fixos, sem contem-
plar nada em particular. De repente, ela disse:
  - Pelo menos conheci a felicidade. J  voc, Claudine, no teve
nenhuma. Tenho meus filhos; rezemos pa ra que esse segundo parto
ocorra sem problemas. Fique junto de mim; no me abandone.
Voc me faz lembrar o tempo em que ele estava aqui...
  Nisso, rompeu em l grimas. Foi a nica vez, at anos mais tarde,
que a vi chorar. Depois, rrirrdrzrtte disse:
  - Minha m e h  de vir com certeza, mas no quero receber
mais ningum. Iremos para Amiens, e, em seguida, para Chteau-
dun. Terei tranqilidade nesses dois lugares. Daqui por diante,
viverei como viva , criando meus filhos.
  As roupas de luto foram ento trazida s e vestidas em rrTrdarne,
e ela mandou que fossem buscar o filhinho. Ficou com ele algum
tempo, mas depois voltou a ficar s.

  Como j  mencionei, a proposta do matrim"nio escocs, ou antes,
a ordem do rei da Frana para que madnrite se casasse com Jaime
V foi muitssimo inconveniente para ela, que estava de luto e gr -
vida do falecido marido. Trs coisas a fizeram lutar para sair do


                          56
#desalento; a primeira foi a necessidade de salvaguarda r a herana
do pequeno Franois, herana que tentaram usar para prover o
segundo dote de Madame Marie. Ela no quis nem ouvir fala r
nisso, e o rei Francisco, mesmo estando sem dinheiro, teve de pro-
videnciar ele mesmo a soma necess ria. A segunda coisa foi uma
visita da m e de madante. A duquesa Antoinette, que tambm es-
perava mais um filho, estivera visitando os pa rentes em Vend"me.
J  em gravidez avanada, veio de l  a cavalo, montando ... moda
antiga, com uma perna de cada lado da sela, usando a mesma
coifa e a mesma gola de rufos de sempre, que escondiam a testa
e s deixavam ... mostra o narig o, a boca cheia e o queixo. Assisti
.. chegada dessa criaturinha ind"mita e, na oca si o, quase lhe tive
afeto; se ao menos a duquesa gostasse de mim, eu Ihe retribuiria
esse sentimento. Mas, sendo as coisas como eram, fui me esconder
enquanto Ihe mostravam o quarto, pois a duquesa ficaria conosco
um dia ou dois, antes de voltar a Joinville para o pa rto.
  Ela e madame se sentaram juntas, como m e e filha, e sem querer
escutei o que diziam. Em Chteaudun, h  um lugar junto ... troneira
superior para onde podemos levar uma almofada e nos deitar ao
sol, sem sermos vistos por ningum. Achei que estivesse bem es-
condida ali, e at cochilei com o calor; quando acordei, ouvi vozes
e percebi que a duquesa e Madame Marie estavam perto da janela,
dizendo coisas ntimas uma ... outra. Eu no sabia h  quanto tempo
elas estavam ali, e, se revelasse minha presena ento, iriam acu-
sar-me de ficar bisbilhotando; por outro lado, se no a revelasse
e fosse descoberta mais tarde, as conseqncias seriam ainda piores.
Pensei bem e decidi ficar onde estava. N o repetiria nada do lue
dissessem, e, depois que a duquesa se fosse, eu talvez at confes-
sasse tudo a Madame Marie - o que acabei no fazendo.
  Estavam discutindo o casamento, e a duquesa Antoinette expli-
cava por que a filha ganharia mais tornando-se ra inha da Esccia
do que ficando em Chteaudun, viva, para cuidar apenas dos
filhos.
  -  verdade, voc amava seu marido - eu a ouvi dizer. -
Mas agora nada pode traz-lo de volta, e voc ainda tem muita
vida pela frente.
  - Isso no  grande consolo, mam e.


                         57
#  Todos os filhos da duquesa se dirigiam a ela com essa infor-
malida de; havia muito afeto entre eles todos.
  - Escute o que estou dizendo, minha filha - insistiu a duquesa.
- Voc no  como as outras mulheres. Tem cabea demais para
ficar s cuidando da casa e das crianas, empregando e demitindo
amas e criados, colhendo frutas para fazer gelia. Voc tem fora,
que pode ser usada para governar um pas. Sua oportunidade 
esta; se acontecer alguma coisa ao rei Jaime, caber  a voc tratar
com embaixadores, escrever a outras cabeas coroadas, impor a
prpria vontade ao povo, talvez at salvar a Igreja. Dizem que os
tais reformadores esto criando muito tumulto na Esccia; voc
tem a inteligncia e a f necess rias para dar jeito neles e garantir
que no derrubem com seus ensinamentos a autoridade estabele-
cida. Poderia fazer tudo isso e muito mais, e fica falando em con-
tinuar aqui, de luto! Voc merece mais; daqui a alguns anos, vai
se arrepender de ter negado a si mesma a chance de ser rainha.
 uma oportunidade que no tornar  a aparecer, a menos que se
case com o velho monstro da Inglaterra, mas a voc no duraria
muito...
  Concluiu com essa nota ir"nica, que era bem de seu feitio; e
ouvi Madame Marie rir - uma das primeiras vezes que fazia isso
desde a morte do duque Louis.
  -  verdade, isso eu no quero mesmo - ela reconheceu; e,
para meu alvio, as duas se levantaram e se afastaram da janela.
Pude ento escapar com minha almofada e com as pernas e os
braos adormecidos.
  A terceira coisa que ajudou Madame Marie a mudar de idia
foi uma carta do prprio rei da Esccia; ele ficara muito tempo
sozinho, enlutado com a morte de Madame Madeleine, mas agora
estava consciente de que precisava de um herdeiro.
  Jaime teve uma infncia estranha. A m e, a rainha Margarida,
era irm de Henrique VIII e estava imbuda de v rias das quali-
dades menos atraentes desse monarca. Depois de ter perdido mui-
tos filhos, restou-Ihe apenas um, ento com um ano de idade, quan-
do o marido morreu combatendo os ingleses na batalha de Flodden,
em 1513; a maior parte da nobreza escocesa tombou ... sua volta.
Numa decis o tola, Margarida tornou a casar, dessa vez com um
dos Douglas, o jovem conde de Angus, com o qual ela logo comeou


                          58
#a se desentender. O conde aprisionou o jovem rei e o reteve durante
alguns anos, depravando-o e depois ameaando cort -lo em pe-
daos quando tentaram resgat -lo perto de Linlithgow. O rei aca-
bou fugindo por iniciativa prpria e foi para o castelo de Stirling,
onde de imediato lanou proclamaes contra os Douglas. Ele nun-
ca os perdoou, exilando-os da Esccia pelo resto da vida e at
queimando na fogueira uma das mulheres da famlia. Imediata-
mente,  claro, o conde de Angus e o irmo foram procurar Hen-
rique VIII, que por muitos anos os sustentou como espies. O tio
estava longe de ser amigo do sobrinho; a tentativa de Henrique
de desposar Madame Marie foi apenas mais uma faceta de tal
inimizade rancorosa.
  Jaime falava um pouco de tudo isso na carta que escreveu a
madarne, carta que ela depois me mostrou. O rei eseocs dizia:

  "Tenho apenas vinte e sete anos, mas a vida j  me pesa tanto
quanto a coroa [...] N o h  um nico nobre em meu reino que
no tenha se deixado seduzir pelas promessas do rei da Inglaterra
ou que no tenha sido subornado com o dinheiro dele. N o h
segurana alguma para minha pessoa, e no h  nada que garanta
o cumprimento de minhas ordens ou a aplicao de leis justas.
  Tudo isso me deixa alarmado, e eu anseio, madarrre, pelo apoio
e pela orientao que a senhora me daria [...] Minha vontade 
superar todos os obst culos para que esta nao encontre o caminho
da justia e da paz [...] Meu poder e o de meus ancestrais sempre
se basearam na gente comum e no clero, e agora me vejo obrigado
a ponderar se tal poder resistir  muito tempo mais [...]"

  - Pelo menos, ele no est  tentando me enganar - disse Ma-
dame Marie. - Talvez eu possa ajud -lo.
  Ficou bastante tempo sentada, segurando a carta entre as mos,
com os selos rgios da Esccia pendendo do papel. Depois disso,
pareceu um pouco mais feliz com o ca samento. Mais tarde, fiquei
convencida (embora nunca contasse a nrcrdarrre) de que no fora o
rei Jaime quem escrevera aquela carta, e sim o cardeal Beaton -
um verdadeiro estadista.

  - Claudine, eu ficaria muito satisfeita se voc fosse para Join-
ville com o pequeno Franois. Sei que minha m e ser  carinhosa


                             59
#com o menino e que ele ter  com quem brincar. Afinal, alguns de
seus tios s  o to novos que parecer o irmos para ele! Mas no
quero que Franois se esquea da m e. Quando eu estiver longe,
pensarei sempre nele, e voc ser  capaz de me conservar viva na
memria de meu filho. Do contr rio, ele, sendo criana, me esque-
cer .
  Fiquei horrorizada. Voltar para Joinville, sob a supervis o da
duquesa Antoinette, que acabara de dar ... luz mais uma criana!...
Haveria um ber rio cheio, e isso seria uma boa mudana para o
menino, que vivia bastante s desde a morte do irmozinho. Eu,
porm, estava preocupada comigo, no com ele. Esperava poder
acompanhar Madame Marie para a Esccia e nunca me separar
dela. Decidi que a nica coisa a fazer era contar-lhe a verdade.
Atirei-me a seus ps.
  - Mrrdarne, eu lhe imploro, deixe-me ir com a senhora! O pe-
queno duque ter  todo o amor de que precisa, afora o seu; e sua
m e cuidar  de que ele no a esquea. Mas a duquesa Antoinette
no gosta de mim, acho que por causa das circunstncias de meu
nascimento. Nunca permitiriam que eu ficasse sozinha com o pe-
queno duque e lhe falasse livremente; estariam sempre me vigian-
do. Quando vim procurar a senhora em Fontainebleau, sua m e
falou comigo; ela disse que, se eu ousasse sequer levantar os olhos,
seria posta no olho da rua. Tal seria minha posio em Joinville,
mrrdarne, e eu lhe suplico que no me mande para l . Serei sua
criada, e poder  sempre confiar em mim. Deixe-me ir com a se-
nhora, no vou desapont -la !
  Eu estava chorando; sentia l grimas ardentes escorrerem de
meus olhos e queimarem minhas faces. Madame Marie, que de
incio franzira o cenho, agora ouvia calmamente.
  - Se assim , querida Claudine, voc pode vir comigo. Eu no
gostaria de faz-la infeliz. E ficarei mesmo contente em t-la por
companhia na Esccia;  uma terra estrangeira, e precisarei de tem-
po para me acostumar. Venha, ento; prepare-se para a viagem, e
rezemos para que a travessia corra sem problemas.
  Segurei-Ihe as m os longas e as beijei. N o se falou mais em
minha ida para Joinville. O duque Claud e Madame Louise viriam
conosco, mas primeiro haveria um casamento por procurao na
Catedral de Notre-Dame, depois de ter sido assinado em Chteau-


                           60
#dun o contrato de casamento. No dia da assinatura, tivemos msica;
mais tarde, em Notre-Dame, houve muita pompa; o rei da Frana
estava presente na grande catedral que assistira a tanta histria.
Fora ele, afinal, quem dera incio ...quilo tudo. Fiquei imaginando
se Francisco iria lembrar-se daquele outro casamento, apenas um
ano antes, em que Jaime V desposara Madame Madeleine, vestida
de branco e dourado, eom um festo de jias na cabea e conduzida
pelo pai. Agora, Madame Madeleine estava morta.

  Os representantes escoceses no me impressionaram. Lord Max-
well, um homem idoso que estava servindo de procurador do rei,
tinha a barba grisalha; quando mais jovem, no se distinguiu co-
mandando nenhum dos navios escoceses ... poca de Flodden, s
chegando com eles dois dias depois de terminada a batalha, quando
j  no tinham mais utilidade. O outro comandante, o falecido conde
de Arran, perdera toda a armada, conduzindo-a numa tempestade
contra a costa da Frana, onde os navios foram dispersados. Tudo
isso era histria antiga e triste; mas o rei da Inglaterra no parecia
menos hostil agora. Henrique VIII, ofendido por lhe ter sido negada
a m o de Madame Marie, recusou-se a conceder um salvo-conduto
para que ela atravessasse a Inglaterra e tambm a oferecer um
ancoradouro seguro no caso de encontrarem mar bravio. O rei
Jaime, sabendo disso, enviara um navio para vigiar os ingleses e
ordenara que outros barcos fossem reforar a frota que trazia sua
noiva para o norte.
  - Rezemos por uma travessia sem problemas - sussurrava
Madame Marie. Nenhuma de ns havia estado no mar antes.
  Fomos de carruagem at o porto de Dieppe, e l  estourou uma
discuss o entre Lord Maxwell e outro membro da comitiva esco-
cesa, um clrigo que, na ltima visita do rei Jaime, eu vira vestido
com o prpura dos arcebispos e que, agora, vestia o esca rlate dos
cardeais. Ele parecia achar que teria precedncia sobre todos e que
viajaria na mesma galera da rainha; quando Lord Maxwell no
permitiu isso, os dois homens quase trocaram socos. O cardeal, 
claro, chamava-se Beaton. Era um homem bonito, com um cabelo
escuro que comeava a ficar grisalho, rosto fino e olhos sagazes;
olhou-me rapidamente, parecendo concluir que eu era algum sem
importncia.


                             61
#  Maria de Lorena, rainha da Esccia, embarcou acompanhada
de nosso pai, o duque Claud, de Madame Louise e de outras pes-
soas. Quando a galera estava pronta para partir, surgiu uma bor-
rasca, e ficou evidente que no teramos o bom tempo que madarne
pedira nas preces. O mar continuou encrespado, mas o vento so-
prava rumo ao norte, a nosso favor; as grandes proas singravam
as ondas cinzentas, que se quebravam contra os cascos; pensei na
fr gil Madame Madeleine, que um ano antes enfrentara as mesmas
 guas.
  Muitos ficaram enjoados, mas no madame, nem eu. Ela estava
quieta e melanclica, e, a certa altura, disse bem baixinho:
  - Louis morreu j  faz um ano.
  Eu sabia que madame tambm estava pensando no filho, o pe-
queno Franois, de quem se despedira em Dieppe. Resolvi no
dizer nada para que ela no lembrasse que eu m recusara a ir
com o merno; eu, porm, objetava no ... companhia da criana,
e sim ... da av. Levantei-me e passeei pelo navio, at dar com
uma vis o que muitos achariam c"mica, embora eu no tenha rido:
o duque Claud de Guise, aquele famoso guerreiro, estava inclinado
sobre a amurada, vomitando como um c o. Pareceu-me estar em
perigo de cair, e corri a Ihe segurar os braos; o duque estremeceu,
e percebi que eu tocara no bracelete de ferro espigado que ele
usava como penitncia. Retirei a m o; debaixo do enchimento da
manga, eu sentira o brao ferido, retorcido e disforme. O duque
servira bem a seu rei. Ele olhou em volta e me agradeceu, to
enjoado que mal notou quem eu era. Foi uma poucas vezes que
meu pai falou comigo.
  Deixamos para tr s a costa da Inglaterra; no ousamos nos apro-
ximar demasiado de l . No domingo,12 de junho de 1538, avis-
tamos o litoral da Esccia, que parecia cinzento e pouco convida-
tivo. Um castelo assomava num penhasco. N o podia ser j  o porto
de Saint Andrews, pois no se via cidade.
  -  Balcomie - murmuraram, referindo-se ao castelo prximo.
- Logo vir o para dar-lhe as boas-vindas.
  Madame Marie suportara bem a viagem e parecia ter-se recu-
perado da tristeza. Sussurrou para mim que estava feliz por des-
cobrir que no enjoava no mar; um retorno ... Frana no seria


                          62
#muito penoso. Descemos juntas para um pequeno bote a remo,
que nos levou a Balcomie.

  A coisa que mais me impressionou na Esccia foi o frio pene-
trante, mesmo em meados de junho. Era pior no leste, pois para
alm dos promontrios sopra va um vento permanente. Saint An-
drews no tem  rvores, s as velha s e slidas construes que
resistem ...s constantes ventania s; a catedral, erigida no tempo do
rei Roberto I Bruce para abrigar os ossos de Santo Andr, padroeiro
da Esccia; as arcadas que os escoceses chamam de Pends; o New
Inns, onde a rainha ficou alojada depois que o rei Jaime chegou
a Balcomie com uma bela comitiva de cavaleiros, escoltando-a para
a cidade. Ele estava muito bem-vestido, com uma jia no chapu;
quanto a ns, us vamos a ltima moda, e isso pode ter sido parte
do problema. Antes, na Frana, os vestidos tinham gola alta e ru-
fada, do tipo que s era confort vel se a mulher, como Madame
Marie, tivesse pescoo de cisne. Agora, porm, os vestidos deixa-
vam ombros e pescoo ... mostra, expondo bastante a pele ...s ven-
tanias; e o chapeuzinho, embora elegante, no servia de proteo.
Numa de suas primeiras aparies pblicas com o rei, a rainha
usava um vestido dessa espcie. O longo pescoo e os ombros
ficavam nus; as mangas, forra da s de arminho, dobravam-se para
mostrar o suntuoso material; e os braos esguios estavam cobertos
de debruns at os pulsos. A roupa no aquecia em nada onde
deveria aquecer, e esquentava demais onde no precisava - assim
 a moda. O rei se mostrava belo e galante, trajando casaco de
peles.
  N o acho que aquele fosse um matrim"nio feliz; isso, ali s, era
coisa que no se poderia esperar, embora no comeo o rei Jaime
tenha pelo menos sido corts com nladarrre, e esta sempre tenha
sido tolerante com ele. O rei da Frana os unira, e ambos haviam
deixado a dor para tr s; em outras circunstncias, poderiam ter
confortado um ao outro. Mas certos fatores vieram impedir isso.
Para comear, havia um menino moreno de oito anos, James, o
filho bastardo do rei, que o fizera prior de Saint Andrews; sua
m e era Margaret Erskine, uma paix o do rei Jaime que fora ob-
rigada pelo pai a desposar Douglas de Loch Leven. Jaime a tomou
do marido e a conservou como amante at que ela lhe deu um


                           63
#filho; depois disso, Margaret voltou para o castelo de Loch Leven
e teve uma prole bastante grande. Madnrrie seria sempre bondosa
para o menino, que Ihe retribuiria mal. Havia tambm uma bas-
tarda, Lady Jane, filha de outra m e; madrtrne viria a cuidar da
menina como se fosse sua. No total, o rei teve nove filhos bastardos,
todos de m es diferentes. Mas nenhum deles (exceo feita ao prior
de Saint Andrews) apareceu naquele primeiro dia, quando o ca-
samento teve lugar na catedral. Foi um evento to grandioso e
fulgurante como o de Notre-Dame; o rei Jaime usava um chapu
adornado de fios de ouro, e o povo se apinhava do lado de fora,
tal eomo acontecera em Paris. Destacava-se na cerim"nia o cardeal
Beaton, cujo castelo se erguia l  perto; tambm em Saint Andrews,
viviam sua amante e seus filhos.
  Mais tarde, ajudei a despir a rainha e a pentear seu magnfico
cabelo louro-avermelhado. Quando recostou a cabea nos traves-
seiros, no vi felicidade em seus olhos. Estendeu a m o, puxou-me
para si e murmurou:
  - Claudine, reze por mim.
  Foi o que fiz, a noite toda.

  - Ele no  mesmo bonito? E, mesmo depois destes anos todos,
no peleja melhor do que cavaleiros bem mais moos? Conta-se
que  mulherengo e que, ao mesmo tempo,  fiel ... mulher.
  Quem disse isso foi Joanna Grisenoir, uma das damas de com-
panhia que eu j  conhecera a bordo da galera. Ela agora conversava
com outra dama, Marie Pierres. Ambas tinham uma posio que
Ihes permitia se vestirem de branco e prpura, as cores escolhidas
pela rainha. Como eu usava as mesmas cores, e elas no tinham
certeza de minha situao, as duas me evitavam. N o liguei para
isso, pois a rainha me agraciara com um lugar excelente para assistir
.. justa, e pude ver meu belo pai, Claud de Guise, passar como
um trov o; o brao ruim estava disfarado por uma manga acol-
choada, e a perna ruim ficava protegida por uma couraa, em cujo
metal se viam delicados padres cinzelados. Ele usou bem o chuo,
atirando-o mais longe do que o rei; e a chuva de aplausos mostrou
quanto a Casa de Guise se tornara popular desde que o duque
Claud assumira o ttulo. A rainha e Madame Louise, suas filhas,
assistiam juntas, aplaudindo orgulhosamente. De todos os lados,


                           64
#chegavam-me os sons da lngua escocesa, e sabia que Madame
Marie e eu precisaramos aprend-la se no quisssemos ter de
ficar sempre caladas. N o me importava de permanecer em silncio,
mas rnadnrrre gostava de mostrar a inteligncia . O rei falava um
pouco de francs, porm no o bastante. Agora, na justa, ele estava
feliz montando seu grande cavalo. Logo as festividades teriam fim,
e iramos para diferentes pa l cios - Linlithgow, Falkland, Stirling,
Holyrood e de novo Saint Andrews. No dia seguinte ao do casa-
mento, rnndnrrie foi levada para passear pela cidade, com o povo
outra vez se aglomerando para v-la e se espanta ndo com sua
estatura . Ela no beijara o solo da  Esccia, ao contr rio do que
Madame Madeleine fizera um ano antes; havia, no entanto, mais
esperana de que desse um herdeiro ao rei.

  Linlithgow  um lindo pal cio, e Falkland, uma jia , mas meu
preferido  Stirling; fica num penhasco sobre o qual as nuvens
costumam formar uma coroa, e ali perto se ergue o Abbey Craig,
um rochedo verdejante aonde v o captura r falces. Foi de Stirling
que a rainha decidiu sair para visitar a sogra, a ra inha Margarida,
que vivia em Methven, prximo a Perth, com o terceiro marido e
os filhos dessa uni o. O casamento no ia bem, pois Marga rida
Tudor brigava com Lord Methven tal como fizera antes com o
conde de Angus, e, ainda por cima, queria divorciar-se daquele
para tornar a casar com este. Desnecess rio dizer que o rei no
levava nada disso a srio - e, de qualquer modo, jamais permitiria
que o conde de Angus voltasse para a Esccia. Por isso, as brigas
continuavam, deixando todo mundo infeliz. Ali s, acho que a rai-
nha-m e era infeliz desde os tempos da batalha de Flodden, j
que Jaime IV fora bom para ela e tolerara suas manias, chegando
at a desistir das amantes. Fosse como fosse, todas ns (rrlndnrrte,
eu, Joanna Grisenoir, Marie Pierres e dua s damas escocesas, La dy
Craigie e Lady Drummond) viajamos para o leste atravs das co-
linas at chegar a Methven, um ca stelo de pedra feioso, onde os
criados corriam pelo p tio, os dejetos iam sendo joga dos num mon-
turo e os cavalarios se aprestavam a cuidar das montarias. Mndnrrte
no mandou avisar que viria, pois achava que seria melhor co-
nhecer a sogra sem formalidades. A situao poderia ficar difcil;
o rei fazia bom juzo do jovem pa drasto e dependia dele para


                        65
#                                                                                                                                  i

manter a turbulenta m e na linha; Jaime lhe conferira o ttulo de
Lord Methven, o qual Henrique VIII (que aprovava o casamento
da irm com o conde de Angus) pronunciava "Muffin", nome de
uma espcie de bolinho; Henrique no perdia ocasi o de ridicu-
larizar o jovem, que, ali s, diziam ter mulher e filhos em outro
lugar. Lord Methven no estava presente no dia em que visitamos
a velha rainha, pois os dois nem se falavam mais. Madarrre subiu;
ns, j  tendo desmontado e nos refrescado, fomos instrudas a es-
perar no sal o. N o sei o que as duas rainhas conversaram, mas
depois viemos a conhecer Margarida Tudor, e ela tinha muito a
dizer.
  Era uma mulher corpulenta, com marcas de varola no rosto e
um cisto na pestana. Ficava difcil v-la como a Rosa Inglesa que,
uma gerao antes, enchera o pas de jbilo; ...quela poca, Mar-
garida era uma moa de catorz.e anos que, com o cabelo louro
solto, atravessara Edimburgo na sela do noivo, Jaime IV, em meio
.. multid o que se apinhava nas ruas a beber. Agora, as coisas
eram diferentes.
  - Meu filho, o rei, tem uma dvida comigo, assim como a Esccia
- afirmou em voz petulante. - Quando ele era menino e acon-
teceram aqueles tumultos em Edimburgo... Por que  que no posso
casar de novo se quiser? Sou filha de um rei da Inglaterra!... Pois
, naqueles tumultos, eu o segurava com a m o direita, pois ele
j  sabia andar, e no brao esquerdo carregava Ross, meu beb, que
era to bonzinho e que, vocs sabem, nasceu depois do passamento
do rei. Eu gostava muito de Ross, mas ele morreu quando mal
tinha dois anos... Bem, fui at os portes do castelo de Edimburgo,
que a plebe estava empurrando. Eu gritei: "Baixem a ponte", e
assim fizeram, e a multid o foi embora. Coragem nunca me faltou,
e agora ningum presta ateno no que digo...
  Continuou a falar assim por algum tempo, e Madame Marie ia
concordando, ansiosa por fazer dela uma amiga e no uma inimiga;
mas j  era sabido, at mesmo do rei Jaime, que Margarida espionava
para a Inglaterra, enviando informaes pelas quais o cardeal Wol-
sey, o falecido chanceler de Henrique VIII, no costumava pagar
uma quantia l  muito grande; mesmo hoje, porm, no sei o que
ela fazia exatamente. N o gostei de seu jeito lamuriento e fiquei
feliz quando a visita acabou; antes de partirmos, trouxeram um


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#menino e uma menina, os filhos da rainha Margarida e do ausente
Muffin. Havia tambm uma filha de Margarida e do conde de
Angus, chamada Lady Margaret Douglas, que era ma ntida na corte
de Henrique, em Londres. Suponho que a rainha Margarida no
visse Lady Margaret desde que a moa era um beb.
  Meu maior prazer na viagem no foi ver a velha rainha, e sim
conversar com Lady Drummond, uma alma alegre; nada moa,
tinha uma barriga que sobressaa debaixo das roupas, mas isso
no parecia incomod -la. Tambm se lembrava de Margarida como
a Rosa Inglesa, e achava uma pena que a rainha tivesse se trans-
formado tanto.
  - Voc sabia - disse-me quando volt vamos para casa - que
o rei Jaime IV ia casar com Margaret Drummond, uma parenta de
meu marido? O rei a amava. Dizem que ela foi envenenada junto
com as irms. Talvez tenham sido os ingleses, mas tambm podem
ter sido os lords escoceses, que no queriam uma terceira rainha
Drummond. A primeira, que casou com o rei David, apareceu dian-
te do papa com um travesseiro debaixo do vestido para fingir que
estava gr vida. - Ela deu uma gargalhada. - A segunda, a rainha
Anabela, era muito bonita, e pode ter certeza de que uma terceira
j  seria demais para eles... Mas, seja como for, Jaime IV casou com
uma Tudor, e por isso temos nosso rei Jaime V.
  Essa ltima frase foi formulada mais por prudncia (um tanto
tardia), pois Joanna e Marie estavam perto. Eu me dei conta de
que meu escocs estava melhorando: entendera e guardara na me-
mria quase tudo o que Lady Drummond tinha dito.

  Naquele ms de fevereiro, poca do ano em que faz muito frio
em Edimburgo, tive oportunidade de assistir ... construo da his-
tria. Certo dia, Jaime V estava junto a uma janela com Sir Ralph
Sadler, o enviado do rei da Inglaterra, e muita papelada ia sendo
trocada pelos dois. Perto deles estava o cardeal Beaton, no centro
de um grupo; no sei qual deles tinha o olhar penetrante, se o
cardeal ou o ingls, mas um vigiava o outro. Um pouco mais adian-
te, Margarida Tudor conversava com alguns nobres. Quanto a mim,
fiquei junto de minha prpria rainha , que j  falara com o enviado
ingls e lhe assegurara os bons sentimentos que dedic vamos a
Henrique VIII. Fiquei observando, e, de repente, vi Sir Ralph sacar


                         67
#mais um papel do gib o e mostr -lo ao rei. Dizia respeito aos
alegados vcios do clero. Jaime olhou, riu e fez que no; a audincia
estava terminada. Mais tarde, fiquei sa bendo que Henrique VIII
tentava convencer Jaime V a seguir seu prprio exemplo e romper
com o papa , expropriar os mosteiros e enriquecer. O rei Jaime no
quis saber de nada disso, nem deu atenlo ao conselho do tio para
que pusesse fim ao costume campons de criar ovelhas nas char-
necas do pas. Na Esccia, ganha-se mais dinheiro com a l  do
que com o ouro. E, naquele fevereiro gelado, quando se discutiam
esses assuntos to insignes, certamente precis vamos de l ; e em
outras pocas tambm.

  O rei usava sela francesa e casaco de veludo negro confeccionado
.. francesa. Essas modas eram vistas em toda a Esccia, nos chapus
das damas e nas longas caudas dos vestidos, copiando a rainha;
as mulheres dos citadinos eram alvo de troa por usarem tais rou-
pas, pois as caudas se sujavam no lamaal das ruas. O rei Jaime
gostava de vestir-se com esplendor, e os lords o imitavam; hoje,
seu antigo domstico, Oliver Sinclair, tambm usa casaco preto.
Nunca gostei de Sinclair, sem saber bem por qu; mais velho do
que o rei, era funcion rio do pal cio e tinha modos cordiais que
muita gente tomaria por honestos e confi veis. Nunca pensei assim;
quanto ... rainha, no sei o que achava, pois guardava as opinies
para si mesma. Fosse como fosse, ela j  no andava pelas ruas
nem usava veludo preto; encomendara um vestido roxo e dourado,
bastante la rgo, para o final da gravidez, e permanecia em seus
aposentos. S eu sabia (ela fa lara pouco sobre isso com quem quer
que fosse) quanto estava aliviada com a gravidez; mais de um ano
se passara desde o casamento, sem que nesse perodo tivesse havido
sinal de criana. Madame Marie se ocupara com obras e jardinagem,
mandado buscar enxertos de  rvores frutferas que, esperava, pros-
perassem no clima frio da Esccia; e falara de tornar a minerar
em Crawford Moor, para extrair mais ouro, como o que o rei levara
para seu casamento com Madame Madeleine. Nada disso, porm,
iria satisfazer o povo ou o rei se no houvesse um herdeiro; e este
demorava a vir. Acredito que a demora se devesse ... falta de von-
tade - no existia amor naquele casamento. Com o duque Louis,
madarrie concebera de imediato, e tornara a faz-lo depois do pri-


                          68
#meiro filho. No final, uma peregrinao ... ilha de May, ao largo
da Esccia, acabou por resolver o problema, e s restava orar para
que a criana fosse um varo.
  Tenho poucas habilidades, mas sei costurar e fazer uma boa
casa-de-abelha. Certo dia, eu estava sentada perto da janela, por
causa da luz, fazendo um casaquinho de linho para o beb (que
deveria nascer na primavera), e nem ergui o olha r qua ndo uma
sombra pousou sobre mim.
  - Ora, ora, freirinha, levante o rosto.
  N o apenas levantei o rosto, como tambm me pus de p e fiz
uma reverncia. Era o rei. Seu estreitos olhos castanho-claros mi-
raram a mim e depois a meu trabalho de costura; demonstrou
algum interesse por este e o pegou. Seus dedos, embora no to
longos quanto os de madarne, eram muito bem proporcionados.
Ele me devolveu o casaquinho.
  -  uma pena que a senhora no tenha um filho seu; poderia
ento fazer esse tipo de badulaque para ele - disse o rei. - Por
que fica sempre sozinha, sem nunca danar nem rir com o resto
das pessoas?
  - N o  de minha natureza, senhor.
  Isso no era bem verdade; em certa poca, eu estivera bastante
disposta a rir e danar, mas a terrvel ameaa da duquesa Antoi-
nette me dominava havia muito tempo, e embora ela no pudesse
me ver nem me punir agora, eu no conseguia deixar de crer que,
se cometesse alguma transgress o, o castigo viria de algum modo.
Ouvi o rei rir. Ele me beliscou a face.
  - Permita ento que eu mude sua natureza - ele disse. -
Uma criaturinha bonita como a senhora no deveria se portar como
freira, sempre olhando para o ch o. Sabia que seu olhos, quando
os levanta, s o verdes como o mar? Pois faa isso agora, e olhe
para mim.
  Tirou a m o de meu rosto e foi deslizando-a por meu brao.
Recuei, e isso o deixou furioso.
  - A senhora est  rejeitando seu rei? - perguntou, e lembrei
que parte dele era Tudor; em v rios aspectos, Jaime V se parecia
com o tio ingls, que, quando rejeitado, condenava ... morte. Ergui
a cabea e respondi com altivez:
  - N o, mas rejeito o marido de minha rainha.


                         69
# o osi  o e  virou e foi embora. Eu sabia q
           que eu cara em d           ue o rei no perdoava
 p                      esgraa. Mas, enquanto conservasse
 as graas da rainha, isso no   p     p
 Jaime estava           me  reocu aria muito. Em todo caso,
            para viajar at as ilhas Hbridas
                     m prn              , e, q
 talvez j  tivesse nascido u   p             uando voltasse,
 tirar-Ihe da cabe a detalhes   i  e, e essas boas novas poderiam
                       menores como eu
            , qua
  o da rainha   ndo ela estava            J  ocorrera a coroa-
         pas viera ao      gr vida de seis meses, e gente
pe todo o           pal cio de Holyrood, em Edimburgo   ; os
 lebeus se sentaram do lado de fora, em ar uibancadas de madeira
erguidas especialmente               q
                     para a ocasi o, e
tendo uma r ra e b lara de Suas Majestadelsamos l  dentro,
vestido de p                               ; o easal estava
            p       ranco e usava coroas cintilantes, feitas com
o ouro de Crawford Moor. A rainha tinha um cetro de p   rata e,
no cintur o, uma grande pedra preciosa. O rei tinha vinte e
1                                           q
ias na coroa (granagas e uma esmeralda) e um anel de turques 
Tudo brilhava: os arti os de capela trazidos de Stirling
                                             , os relic rios,
o grande aneabMeadme enviado pelo papa, que

lado a uasnd                     lga Lady D   o cardeal Beaton
   , q   e nem se             rummond, tagarelando a meu
                             deu ao trabalho de baixar a voz quando viu
a figura magra e esplendorosa do cardeal             p
vestes escarlates.                 , 'ajado com as am las
 Op   q              ;
                     ,
    apa disse a ele  ue no se incomodasse em ir buscar
suas honrarias como o resto dos mortais, p   I
- ela murmurou ento. - IVosso bom Dav ois lhe seriam enviadas
                                   y Beaton est  no melhor   '
dos mundos; a amante  uma O ilv          j  tiveram oito
filhos                      g  y, e os dois
    ; todos vivem juntos em Saint Andrews e Arbroath.
  Algum olhou em volta e fez Lady Drummond se calar. O
deal comeou a rezar a                               car-    '
                 missa; sua voz nada tinha de not vel, mas
para ter che sincera. Pensei ento que ele devia ser bem esperto
      gado ...s altas esferas da Fran a e da Esccia; dizia-se


 -- = e a ramha finalmente saram
ram-se as vozes   do coro. Madame Mpela nave da igreja; ergue-
deu um   pequeno sorriso, o   arie olhou para mim e me
no fim das contas      mo se dissesse: "Olhe s para mim
                             p                         ,
          , eu no fiz mal em vir  ara a Esccia".
  Tudo isso acontecera trs meses antes e a                 I
estava morta.                 ,   gora Lady Drummond



                       70
#  Eu e ela est vamos caminhando juntas at os Pends, pois o parto
deveria acontecer em Saint Andrews. A respirao de Lady Drum-
mond ficou um pouco pesada enquanto and vamos, mas no aten-
tei para isso, uma vez que ela caminhava como de h bito. A cor-
pulenta rainha Margarida Tudor seria a madrinha do beb e j
estava na cidade, dando motivo para Lady Drummond falar de
seu assunto favorito sem precisar temer que ali, ao ar livre, algum
viesse cal -la.
  - Margarida  bem audaciosa, mas, no lugar dela, eu teria
vergonha de mostrar a cara. J  teve trs maridos, o ltimo moo
o bastante para ser seu filho. Lembro de um bom tempo atr s,
quando ela dizia que o segundo casamento era nulo, porque Jaime
IV no tinha morrido em Flodden, e sim ido em peregrinao para
purgar-se de seus pecados. Pois bem, eu sei uma ou duas histrias
sobre isso tudo. O rei morreu ... distncia de uma lana do conde
de Surrey, o comandante ingls, e leva ram seu corpo para a In-
glaterra. Ainda est  por l , sem ter sido enterrado. Naquele tempo,
e apesar do que possa ter acontecido desde ento, o rei Henrique
se achava um bom filho da Igreja; e Jaime foi excomungado por
ter ajudado o rei da Frana. O corpo est  num sto em Sheen, e
vai continuar ali at algum ter piedade de sua alma; mas ela s
se importa com a prpria luxria, e isso depois de Jaime IV ter
sido to bom marido! Acho que vou me sentar um pouco.
  Usou o pano das saias para enxugar uma l grima e se sentou
na mureta de pedra de uma igreja; no gostei da cor de seu rosto,
cinzento como as pedras da mureta.
  - Milady, a senhora est  bem? - perguntei, muito preocupada.
  Ela no deu resposta, s uma espcie de gemido sibilante, e
nisso uma grande quantidade de fludo jorrou sob suas saias, en-
charcando o cho. Algumas pessoas vieram olhar, e eu disse a
elas:
  - V o ao pal cio, digam que Lady Drummond est  doente e
tragam uma maca.
  Um menino saiu correndo. Tomei a pobre Lady Drummond em
meus braos e lhe falei:
  - Anime-se; a serihora logo estar  na cama.
  - Minha querida, eu estarei  num caixote estreito.


                             71
#  Seus olhos estavam fechados, e ela sorria um pouco; vi que a
grande protuberncia em seu ventre diminura de tamanho.
  Depressa trouxeram a maca, e um padre veio da igreja; mas ela
j  estava morta antes que cheg ssemos ao pal cio. Era como se
tivesse me confidenciado o ltimo segredo antes de ir-se. O marido
veio de suas propriedades para o funeral; logo depois, casou com
uma jovem.

  Senti muita falta de Lady Drummond. As dua s damas de com-
panhia francesas, das quais eu nunca gostara muito mesmo, j
haviam desposado lords escoceses. Eu, ainda mantendo o olhar
baixo, no era considerada para casamento. Minha principal com-
panhia passou a ser outra senhora de idade, e dessa vez realmente
velha: a viva Lady Maxwell, a intendente de Garlies. Nascera em
Galloway, no sudoeste da Esccia, e era parenla distante do rei;
tivera seis filhos e assistira a muita histria. N o era uma narradora
to prdiga quanto Lady Drummond, mas costumava descrever
coisas pitorescas e ainda assim lapidares, como, por exemplo, as
faixas e os cintures de pele de enguia que os cavaleiros de Gal-
loway usavam em batalha. Tendo se casado com um dos Maxwell,
famlia poderosa da fronteira com a Inglaterra, conhecia muita gen-
te em toda aquela regi o e alm, mas preferia ficar bastante tempo
na corte. Ajudava a rainha com bordados brancos e dourados; Ma-
dame Marie sempre gostou de lidar com agulha e linha, e costu-
mava criar padronagens prprias de flores e folhas. A vista de
Lady Maxwell j  estava demasiado fraca, e os dedos demasiado
rijos, para que conseguisse usar a agulha, mas eu e ela segur vamos
os novelos cintilantes enquanto a rainha costurava. Fic vamos to-
das ouvindo os gracejos de Senat, uma tru que viera da Frana.
Havia tambm uma an chamada Jane. As palhaadas das duas
ajudavam a passar o tempo.

  A velha Lady Maxwell, assim como eu e grande nmero de
outras pessoas, estava presente ao parto, que aconteceu em fins
de maio; com tanta gente junta, o quarto ficou bastante abafado.
Dois grandes leitos haviam sido preparados para a rainha, um
amarelo-damasco e o outro branco, com lenis frescos de tafet ;
mas, ... medida que o tempo passava, foi muitas vezes necess rio


                           72
#passar no rosto de mndnrne panos com  gua de rosas. Ela ficou
mordendo os l bios, nada ansiosa para que todas aquelas pessoas
(metade das quais nem conhecia) a ouvissem gritar. Que diferena
de Chteaudun, onde duas vezes ela dera ... luz com toda a pri-
vacidade! Na primeira ocasi o, entretanto, o duque Louis ficara
por perto; agora, o rei Jaime viajara para as Hbridas. A natureza
de Jaime V era tal que t-lo prximo de rrmdome nesse perodo s
deixaria os dois agitados; tinha sido mesmo boa idia embarcar
com tantos lords quanto quisesse e navega r para aquelas ilha s re-
motas. Lady Maxwell me contara certas coisas a respeito dos an-
tigos senhores das Hbridas; um deles continuava na pris o, tendo
estado ali a vida toda, exceto pela ocasi o em que se evadira e
liderara uma revolta nas Highlands para tentar reaver os direitos
de nascena. Isso acontecera havia muito tempo, antes do nasci-
mento de Jaime V; seu pai, Jaime IV, fora at a s Hbridas e se
fizera amar por aquela gente selvagem. O atual rei no conseguiria
isso, pensei comigo mesma; mas talvez eles atentassem para sua
figura, to bela com aquele cabelo ruivo! De qualquer modo, ele
j  se fora; ou pelo menos era o que pens vamos. Madarne estava
preocupada com as notcias de tempestades no mar, e, a certa al-
tura, temeu que o rei houvesse perecido.
  De repente, a rainha gritou e chamou por mim.
  - Claudine, segure minhas m os! J  est  vindo!
  Corri a apertar suas longas e belas m os, e ela fez fora at que,
finalmente, a criana nasceu. Era um bonito prncipe, um herdeiro
para a Esccia. Sem ligar para a etiqueta, inclinei-me e beijei a face
da rainha, sussurrando-lhe a notcia ao ouvido e recebendo olhares
feios daquelas pessoas de alta posio, que, sem dvida, achavam
caber a elas a tarefa de informar a rainha.
  Ergueram o prncipe da Esccia, limparam-no e o deitaram em
seu bero de madeira entalhada, enquanto as criada s se ocupavam
de madarne. Fiquei imaginando quando a notcia chega ria ...s damas
da falecida Madeleine, que havia m deixado a corte por ocasi o do
segundo casamento, mas ainda continuavam na Inglaterra. Made-
leine, coitada, poderia ela mesma ter dado um filho ao rei se es-
tivesse viva.
  Quando j  levantavam ncora em Dumbarton, o rei Jaime foi
informado de que ganhara um belo filho; ele ento esqueceu as


                          73
#Hbridas e voltou ...s pressas para casa. Ficou debruado sobre o
filho e adulou bastante a mulher. Era to raro v-lo feliz que at
parecia outra pessoa: os olhos castanho-claros brilhavam, a boca
sorria acima da barba pontuda, o rosto p lido e comprido estava
corado de contentamento. O beb dormia bastante e se desenvolvia
com o leite da ama; a rainha ia v-lo sempre que possvel, pois
logo o menino seria afastado dela para viver em sua prpria casa
em Saint Andrews, ao passo que madarne acompanharia o rei pelas
diversas residncias da corte. Entrementes, a criana ia quase to-
mando o lugar do pequeno Franois, a no ser pelo fato de que
seu nome,  claro, seria James.

  O brilho alaranjado das tochas contra o cu noturno iluminava
os rostos da multid o de espectadores, alguns humildes, outros
bem-nascidos, pois nem todos puderam entrar na catedral. Mas,
.. luz das tochas, todo mundo p"de ver o prncipe da Esecia ser
levado ao batismo nos braos da velha rainha Tudor, a madrinha;
atr s dela, estava o padrinho (agora preterido como herdeiro do
trono), o atual conde de Arran, que tinha o rosto crispado e um
certo ar de incerteza. Depois se via o prprio rei, em roupas cobertas
de jias, e o cardeal, em vestes de tecido escarlate e de renda.
Notei duas mulheres que conversavam perto de mim e pareciam
esta.r a par de muita coisa. Eram lavradoras e tinham o toucado
em forma de barril que essa gente usa; suas saias deixavam as
an guas ... mostra, para economizar pano. Conheciam toda a his-
tria da Esccia desde os tempos de Roberto I Bruce, e falavam
disso enquanto o coro cantava no interior da catedral. Quando a
velha rainha passou, elas lembraram que certa vez um pavilh o
de galhos cheios de folhas fora feito na floresta para ela e para o
filho, e que toda espcie de pratos suntuosos fora trazida para os
dois.
  - Ela vai gostar de ser madrinha - disse uma. - A rainha
Maria  quem ganha com isso.
  - De outro jeito, a velha rainha no daria ateno - refletiu
a segunda mulher.
  A primeira ento comeou a recitar as desgraas dos reis Stuart,
que agora pareciam felizmente terminadas.
  - Dois morreram de corao partido, e o herdeiro do ltimo


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#destes ficou numa torre at morrer de fome. Dizem due ele, o
duque de Rothesay, sendo moo e bonito, era muito mulherengo.
  - O menino tambm vai ser duque de Rothesa y.
  - , o ttulo do herdeiro  esse. - A conversa continuou. -
Veio entc3o o primeiro rei Jaime, que era irmo do duque de Rothesay
e foi apunhalado depois de ter ficado bastante tempo nas cadeias
inglesa s; e o segundo Ja ime, o nico filho sobrevivente, foi feito
em pedaos na guerra, com uma bala de canh o; e o terceiro caiu
em batalha contra o prprio filho.
  - Eu gostei de Jaime IV - disse a outra. - Ele no morreu
na cama.
  - N o mesmo. Flodden no foi cama para homem nenhum. E
este rei agora j  perdeu uma mulher e o filho due ela esta va es-
perando, e isso foi mesmo uma pena. Mas agora tudo  alegria.
O menino vai ser o sexto Jaime. Dizem que  bem sa dio.
  - A rainha  boa mulher. Vai ter outros filhos.
  Afastei-me o mais que pude na multid o, pois no tinha ne-
nhuma vontade de ouvir coment rios sobre Madame Marie; m1s
ainda ouvi a primeira mulher dizer placidamente:
  - L  est  Lady Marion, o amor do cardeal, com os filhos.
  A luz brilhou no rosto bonito e resoluto de uma mulher enca-
puzada; ela estava rodeada por um bando de crianas de idades
diferentes. Nos olhos e no cabelo escuro das crianas, notei uma
semelhana com o cardeal, mas s porque esta me fora assinalada;
em outras circunstncias, talvez no tivesse reparado em nada.
  O canto se elevou na catedral: o batizado termina ra. As tochas
foram se apagando, mas, quando ficou escuro, apareceram foguei-
ras em cada colina do pas, desde os vales selvagens do norte at
a distante fronteira, comunicando ... nao inglesa e a seu rei que
a nossa agora tinha um herdeiro.

  Eu muitas vezes tive ocasi o de observar a estranha natureza
do rei Jaime, mas seu lado vingativo ainda no se revelara a mim.
Nessa poca, ele deveria ter continuado feliz com o nascimento
do filho; trs meses depois, no entanto, fez uma coisa que lembrava
sua vingana contra os Douglas. Jaime os exilara e queimara a
irm deles, Lady Glamis, no por feitiaria, como muitos erronea-
mente acreditaram, mas por tentativa de envenenamento. Lady


                        75
#

Glamis era inocente de ambas as acusaes, e, disseram-me, morreu
com muita bravura. Eu ouvira tudo isso da velha Lady Maxwell,
a mesma que me falara das peles de enguia de Galloway. Agora,
ningum conseguia entender a repentina pris o de Sir James Ha-
milton de Finnart, que parecia ter sido amigo ntimo do rei. Mas
Lady Maxwell sabia o motivo e me contou; tudo comeara muitos
anos antes.
  Hamilton de Finnart era filho bastardo do falecido conde de
Arran, e enriquecera comprando terras. Sempre se vestia com faus-
to, e sua mulher, uma Livingstone, fazia o mesmo. Eu n o os co-
nhecia bem, pois estavam muito acima de mim, pavoneando-se
na corte, ele na condi o de supervisor de Linlithgow e de outros
pal cios e principal intendente do rei. Tinha modos nada cerimo-
niosos, um pouco como os de Oliver Sinclair, e parecia t o prximo
do rei quanto este. Mas ent o soubemos que fora aprisionado, jul-
gado e executado no mesmo dia, tal como acontecera com Lady
Glamis.
  Houve muitos mexericos na corte, e ouvi alguns. Uns diziam
que quando o rei resolveu pela primeira vez ir ... Frana arranjar
esposa, acabou adormecendo no navio, e Hamilton teria virado o
leme e trazido Jaime de volta ... Esccia, contra a vontade do soberano.
Outros afiimavam que as autoridades eclesi sticas controlavam Ha-
milton e o teriam feito confiscar bens dos reformadores. E outros, ainda,
diziam que ele estava mancomunado com os Douglas, conspirando
para assassinar o rei e o prncipe, e que Jaime descobrira tudo.
  - N o  nada disso - contou Lady Maxwell. - Quando o rei
era menino e estava nas m os dos Douglas, o conde de Lennox,
de quem Jaime gostava muito, tentou resgat -lo n o muito longe
de onde fica Linlithgow. O conde de Angus e o irm o seguraram
as rdeas do cavalo do rei e disseram que preferiam fazer Jaime
em pedaos a deix -lo ir. O rei ent o foi forado a ficar assistindo
enquanto o conde de Lennox era morto por Hamilton de Finnart.
Dizem que Arran, o prprio pai de Hamilton, veio chorar sobre
o cad ver do conde de Lennox, pois este era muito amado. Os
filhos de Lennox fugiram para a Frana e continuam l .
  - Ent o o rei preparou sua vingana todos estes anos disse eu
-, ficando amigo de Hamilton, ou fingindo s-lo. Agora o homem
est  morto.


                             76
#  - N  o fale t o alto - ela me disse, tal como outros costumavam
dizer a Lady Drummond.
  Isso n o era tudo. O rei se apossou da s possesses de Hamilton,
incluindo os artigos de capela, o crucifixo, a pia de  gua benta, o
sino de prata e o cibrio, gravou nelas as armas do prncipe e as
deu de presente ... criana. Usar as coisas de um morto n o tra z
sorte, e achei que o rei estava se arriscando muito quando agiu
dessa forma; mas, naturalmente, eu n o disse nada ... rainha.

  Ela continuou a ser muito gentil comigo e at me levou em sua
nova e grande liteira negra, que mostrava em ouro os cardos da
Esccia e as flores-de-lis da Frana. Logo, porm, rnadnrne voltou
a cavalgar e me disse que em breve ela e o rei iriam visitar o
eastelo de Glamis juntos; seria a primeira vez que Jaime a levaria
l .                                                                   ei
  - Dizem que  muito bonito - ela me contou. - Tudo que
sei  que o rei adora visit -lo e que uma vez trouxe de l  doze
grandes jarras de prata para serem fundidas na casa da moeda.
- Recostou a cabea nas almofadas e sorriu para mim. -Claudine,
voc quer vir?
  Fiquei vermelha de alegria; havia tantas outras damas, de muito
mais posi o, que ela poderia ter convidado para acompanh -los!
Arrumei minha bagagem (eu n o tinha criada, nem precisava de
uma) e me preparei para cavalgar atr s do rei e da rainha com
toda a sua comitiva, no dia marcado, que cairia no outono.
  A Esccia  uma terra de tantos contrastes que nos deixa um
pouco perplexos; eu ainda n o conhecia o pas todo. Depois das        r'
escarpas de Stirling, do Abbey Craig e do castelo de Edimburgo,
a plancie de Forfar s podia me recordar a Frana. As  rvores j      l
mudavam de cor, e ... nossa frente vi erguer-se uma nova e extensa
floresta - e, contra essa paisagem que parecia o plano de fundo
de uma tapearia, estavam o rei e a rainha, cavalgando esplendi-
damente com roupas suntuosas e brilhantes. Tantas vezes imagi-        i.,
nam Maria de Lorena como uma figura serena e imvel que n o
costumam lembrar que rnadanie era excelente amazona, filha do
duque Claud e descendente do poderoso conde de Dunois, o pa -         y.l
ladino da Frana. Com a velocidade em que ia, sua capa vermelha    I .  r I
esvoaava ao vento de outono; tivemos todos de correr pa ra al-


                           77
#canar a ela e ao rei; este tinha no chapu uma pena, presa por
um broche. Foi um momento de felicidade; e, de repente, demos
com o castelo de Glamis.
  Era t o lindo que me tirou o f"lego. Suas inmeras torres e a
muralha de sustenta o lembravam Joinville. Vi a rainha puxar as
rdeas, olhar e ent o dizer alguma coisa ao marido.
  - Sim,  um belo castelo - ele respondeu.
  Vi o perfil do rei, e a express o de seu rosto s podia ser descrita
como presunosa; recordei que aquele homem tomara os artigos
de capela do falecido Hamilton de Finnart e os dera ao filho ainda
beb. O que mais havia a respeito de Glamis? Eu j  ouvira esse
nome, que martelava em minha mente. Aquela n o era a hora de
perguntar, mas iria descobrir, ... minha prpria maneira, quando
pudesse.

  Isso logo aconteceu. Indicaram quais seriam nossos quartos, e
eu deveria dividir um com Lady Grant de Freuchie, uma vzva
idosa que era dama de companhia da rainha; esta, em especial
desde os casamentos de joanna Grisenoir e Marie Pierres, tentava
substituir as damas francesas pelas escocesas; quanto a mim, s
esperava que ela n o me substitusse. Entrementes, n o conversei
com Lady Grant; em vez disso, fui passear sozinha pelo castelo,
subindo as escadas at a s torres. Era hora do crepsculo; o sol do
fim de tarde ainda atravessava as janelas mais distantes. A essa
luz, vi a figura de uma menina. Tinha cabelos castanhos e vestido
muito siznples; poderia ser uma criada, ou n o. Mesmo com risco
de parecer intrometida, fui at ela e perguntei:
  - Est  procurando algum?
  Afinal, j  que a rainha se encontrava no castelo, era minha obri-
ga o ver se havia algum intruso.
  A menina me olhou, e eu nunca vira tal express o em algum
t o jovem. Seus olhos castanho-claros eram como os de uma velha,
cheios de desesperana e resignao.
  - N o - respondeu com voz ap tica. - A senhora est ?
  - Vim com a rainha. Meu nome  Claudine de Vouvra .
                                                y
  Sem saber exatamente como, eu conclu que n o se tratava de
uma criada. Ela mais parecia um fantasma.
  - Eu me chamo Margaret Lyon. Meu irm o  Lord Glamis.


                           78
#Ele est  preso no castelo de Edimburgo, junto com meu outro ir-
m o. O marido de minha irm  eles executaram. Minha m e eles
queimaram viva.
  - Menina... - O horror daquilo tudo e o tom sem emo o
com que ela falava me deixaram arrepiada. - Quem fez isso?
Quando foi que isso aconteceu?
  - Foi o rei. Aconteceu trs anos atr s. E por isso que n o quero
descer para v-lo. Ele disse que minha m e era uma envenenadora.
Mas n o era. Minha m e era bondosa e bonita, e nunca fez mal a
ningum. O rei s se vingou porque ela era uma Douglas. O jri
disse que minha m e era inocente, mas o rei disse que ela precisava
ser queimada . O rei gosta de vir a Glamis sozinho e ficar se rega-
lando com o castelo, que ele tomou. N o sabe ue estou aqui; j
se esqueceu de mim. Minha m e mandou que eu me escondesse,
e por isso n o me prendera m.
  - Falarei com a rainha sobre os seus irm os - prometi. -
Eles n o podem ser deixados na pris o. A ra inha  gentil e n o
tem nada de vingativa. Voc n o quer conhec-la?
  - N o quero conhecer nenhum deles. Vou ficar aqui at estar
bem velha. Ningum vai ter coragem de casar comigo, por medo
do rei. Ele n o se esquece.
  Margaret se virou e foi embora. Desci as esca das, pensativa.
Tinha certeza de que a rainha faria algo para libertar os irm os
Glamis - eles n o podiam ser mais do que crianas. Naquela
noite, quando fui at a rainha, eu j  estava  pronta para  contar
tudo o que descobrira. Ma s ela me olhou com o rosto radiante.
  - Claudine, querida, depois de meu marido voc  a primeira
a saber: estou gr vida de novo! Foi t o cedo! Devo estar ficando
como minha m e.
  Beijei suas m o,s, mas n o Ihe disse que ela nunca se pareceria
com a duquesa  Antoinette. Diante da novidade, porm, eu n o
poderia incomod -la com a quest o dos Glamis. Tocaria no assunto
quando fosse possvel; tal como o rei, eu n o me esqueceria .

  E n o me esqueci. Nossa estada em Glamis foi curta, mas senti
que deveria dizer alguma coisa a ntes de seguirmos pa ra Dundee.
Refleti bastante e, uma vez que Lady Grant parecia ser pessoa
discreta, discuti o assunto com ela; foi numa noite em que est -


                        79
vamos as duas na cama de dossel, com as cortinas bem fechadas
para que no f"ssemos ouvidas por cria dos ou abelhudos. Ela ,
na tura lmente, sabia o que acontecera a Lady Glamis; ... poca, a
morta despertara muita simpatia.
  - Lady Glamis morreu com bravura - contou Lady Grant. -
Ela havia acabado de ca sar pela segunda vez, e seu jovem marido
tambm foi aprisionado no ca stelo de Edimburgo. No dia seguinte
.. execuo da esposa, ele tentou escapar e morreu a o ca ir do pe-
nhasco do castelo, pois a corda era curta demais. Foi tudo muito
triste. Acho que, se por agora voc n o pode falar com a rainha ,
deve tentar o rei. Pode ser que a ira de Jaime tenha diminudo;
ele provavelmente j  se esqueceu da existncia dos dois meninos
e os libertar  sem demora.
  I'onderei tudo, sem dizer muita coisa, pois Lady Grant no sabia
da atitude do rei comigo, nem esta va ciente de que eu o enfurecera.
Mas, talvez, ele j  houves.se perdoado tambm isso. O que eu no
sabia era que o rei andava muito agoniado com seus pesadelos,
nos quais Hamilton de Finnart aparecia de espada na m o, dece-
pava seus braos e lhe dizia que voltaria outra noite para cortar-lhe
tambm a cabea. Em resumo, era o pior momento que eu poderia
ter escolhido para ir incomod -lo; mas eu n o tinha como saber
disso.
  No dia seguinte, forcei um encontro com o rei; um pouco antes,
eu o vira entrar na floresta que ficava  alm da muralha. No o
segui de imediato, achando que talvez ele quisesse se aliviar. Fiquei
andando por ali e acabei ouvindo sua voz, que me chamava sem
raiva, muito embora n o convers ssemos desde aquele episdio
a nterior, quando me recusara a dar-Ihe prazer. Agora, com um
filho crescendo e outro a caminho, ele certamente j  se esquecera.
  - Ora, ora, se no  a freirinha... Bom dia , riiodarne.
  Fiz uma reverncia e, deliberadamente, o encarei. Ele de fato
dava a impresso de ser um homem que no conseguia dormir;
estava mais p lido que de costume, e tinha sombras sob os olhos.
No se fizera acompanhar de nenhum de seus fidalgos, e esperei
n o t-lo enfurecido perturbando sua solido. Mas ele me pegou
pelo brao, e n o recuei.
  - O que posso fazer pela senhora? - perguntou, corts; ele
podia ser muito galante.


                             80
#  Sorri e, com poucas palavras, falei dos meninos aprisionados
em Edimburgo.
  - Majestade, esta poca t o feliz n o seria o pretexto para li-
bert -los?
  Vi suas finas sobrancelhas se erguerem.
  - A senhora  muito xereta - falou. - Onde foi que ouviu   f
tudo isso?                                                   I i"
  Eu j  esperava por isso e me limitei a dizer que escutara a falao
                                                             u
                                                             a
das mulheres quando est vamos vindo para Glamis; essa histria
devia ser suficiente. Em nenhuma circunstncia eu iria menciona r   , ,
Margaret Lyon.
  De repente, o rei segurou meu queixo e me beijou nos l bios.
  - A senhora me agrada - disse. - Venha, vamos para o meio
das  rvores, onde ningum nos ver . Se der o que Ihe peo, eu       ,i I
soltarei os irm os Glamis.
  Os olhos castanho-claros me fitavam. Desvencilhei-me dele.
  - Liberte-os - eu disse, alto e bom som. - N o serei sua
rameira. A rainha est  esperando outro filho seu; isso j  n o lhe
basta? N o  hora de ser infiel.
  - Por Deus! Voc merece que um homem erga essas suas saias
e a possua, quer voc queira, quer n o! Tire sua cara de freira da
minha frente; se tornar a falar assim, eu mandarei aoit -la.
  - Mas n o far  que me queimem em Edimburgo. Foi por isso
que Lady Glamis precisou morrer?
  N o sei o que me fez ter a coragem de dizer aquilo; mas, quando
ouvi o sibilar de sua respira o atr s de mim, segurei as saias e
corri para longe da floresta e do rei, de volta 1 minha posi o,
sem ter conseguido nada. N o conseguira salvar os meninos pri-
sioneiros, e, no que me dizia respeito, provocara um ressentimento
que iria crescer no cora o de Jaime V da Esccia, tal como o
rancor causado por Hamilton de Finnart muito tempo antes.
  Mais tarde, naquele mesmo dia, fomos para Dundee.

  Devo dizer que, de incio, fiquei mais preocupada comigo mes-
ma do que com a famlia Lyon, a qual, no fim das contas, eu nem   j .;
conhecia; mas o futuro daquela menina, que permaneceria aban-
donada at a velhice no alto do castelo de Glamis, parecia-me t o   r
triste quanto o de seus irm os encarcerados. No entanto, nada acon-


                           81
#teceu que viesse a alterar minha rotina; permaneci junto da rainha,
guardei silncio e fiquei muito aliviada quando nos mudamos pa ra
Falkland - onde ela resolvera esperar o segundo filho enquanto
o rei ficava em outro lugar. Tal decis o n o provocou nenhum
mal-estar; nesse perodo, o casal estava se entendendo muitssimo
bem. Mas n o pude deixar de pensar que, se o filho tivesse sido
do duque Louis, ela no se ausentaria da companhia do marido
nem por um minuto sequer, e o mesmo valeria para ele. Aquilo,
entretanto, j  era outra existncia.
  Falkland  um pequeno e gracioso pavilh o de caa, construdo
num bosque. Fica perto de Saint Andrews, e eu sabia por que
madarrte o escolhera. O rei preferira que o prncipe James tivesse
seu prprio pal cio, para n o vir a ser mimado pela m e; o prncipe
contava com capel es e amas, que deveriam bastar. (Mas o prprio
rei adorava visit -lo e costumava levar-lhe presentes feitos sob en-
comenda: um mordedor de ouro quando os dentes do menino mal
comeavam a nascer; um apito de ouro quando era novo demais
para soprar; uma colher de prata quando ainda mamava na ama-
de-leite. O herdeiro, ali s, adoeceu quando o leite da primeira ama
secou, e foi preciso arranjar outra; mas o prncipe, ou duque de
Rothesay, como devamos cham -lo, n o ficou enfermo por muito
tempo, e a duquesa Antoinette, que devia saber do que estava
falando, escreveu dizendo que esse tipo de problema era bem co-
mum. E, agora, a criana estava crescendo tanto que precisava de
novos casacos e camisas, feitos pelo alfaiate do rei.) Em resumo,
a rainha escolhera Falkland porque ficava prximo de Saint An-
drews, e, assim, ela poderia visitar o filho sempre que quisesse.
MndanTe foi para Stirling a fim de passar o Natal com o rei, mas
n o pediu que eu a acompanhasse, e logo estava de volta.
  Em fevereiro, entretanto, ela j  desistira de viajar de liteira, e,
claro, de cavalgar ou mesmo caminhar. J  eu gostava de passear
com a velha Lady Maxwell, que nunca se intimidava com o clima;
na ocasi o que irei mencionar, ela estava envolta em suas velhs-
simas peles de toupeira, e usava um cajado para se firmar no ch o
gelado e escorregadio. Com ela estava a noiva de seu neto, que
patinhava para l  e para c  como uma menina de muito menos
idade (tinha uns catorze anos); seus olhos arregalados se mexiam
sem parar, como os de uma lebre, e ela dava risinhos estridentes
quando o ch o Ihe permitia brincar de escorregar; achei que n o


                          82
#devia ser muito boa da cabea. Lady Maxwell falava de sua terra,
Galloway, um assunto do qual sempre tinha algo interessante para
contar; agora, estava dizendo que l  nunca fazia tanto frio quanto
em Falkland.
  - Em Clary e Logan, crescem flores que s se vem no sul da
                                                                                                                                                  ,I
Inglaterra ou mesmo na Frana. O bispo tem em Clary um jardim
murado onde cresce todo tipo de flores e ervas. Fica na antiga                                                                                     ,I
estrada de romaria, do tempo em que os peregrinos passavam
pelos grandes salgueiros junto ... parte rasa do rio.
  - Para que santu rio iam? - perguntei, por delicadeza.  Ela
olhou para mim e depois para a noiva do neto.
  - Beatrix, n o corra tanto, sen o vai acabar quebrando o torno-
zelo... - disse, sem esperana de ser atendida. - O santu rio  em
Whithom, l  onde ficam a gruta em que S o Niniano desembarcou
e a capela que ele construiu. Jaime IV costumava ir bastante l , mas                                                                              , i
n o o rei atual. - Ela piscou para mim. - Todo mundo sabe que                                                                                     I, 
n o era apenas S o Niniano quem fazia o antigo rei visitar Whithorn.
Havia tambm Janet Kennedy, e ela era bem tresloucada.
  - Mas ele amava Margaret Drummond.
  - Pois , mas h  amores e amores... Se n o ficar quieta, Beatrix,
vou bater em seu traseiro com este cajado. Talvez Madame de
Vouvray Ihe ensine francs, se voc pedir.
  Eu n o conseguia imaginar Beatrix se concentrando tempo su-
ficiente para aprender francs ou o que fosse, mas sorri e disse
que faria o possvel. Na mesma hora, a menina se aconchegou
junto a mim e perguntou como se dizia gelo em francs. Quando
respondi, ela teve outro de seus acessos de riso. Mais tarde, vim
a saber que, para o casamento dela e o das irm s, o dote fora
particularmente grande, pois o rei pretendia destituir de todos os
bens o pai das moas, o terceiro conde de Morton, que era um
Douglas. Era tambm inv lido; tinha um problema na perna e es-
tava sempre fraco, tanto que fora dispensado do servio militar.
 poca, ningum imaginou que desposar uma de suas filhas seria
o mesmo que casar com uma maldi o. A doena francesa (ou
italiana, ou espanhola), como a chamavam, fora trazida ... Esccia
pelas tropas do falecido duque de Albany e se espalhara.l Todas

I  Claudine est  se referindon sifilis, que se dissemrisnva pefa Europo desde os tiltimos anos                                                    ,
  do sculo XV. (N. do T.)


                           83
#as trs filhas do conde de Morton carregaram esse legado de lou-
cura - duas em si mesmas, e a terceira no herdeiro. Eu ainda n o
estava a par disso quando olhei para a jovem Beatrix naquele dia,
mas j  sabia (pois Lady Maxwell me contara) que, se o rei estivesse
presente em Falkland, n o teria tolerado a presena da menina.
Beatrix era uma Douglas, e s isso interessava a Jaime V.
  Ensinei-lhe francs o melhor que pude, algumas palavras a cada
dia, at o momento em que rrtadarrre foi novamente de liteira para
Stirling, onde daria ... luz em maro. A essa altura, Lady Maxwell
e Beatrix j  havia m voltado para Galloway, uma terra mais quente,
onde havia flores que s cresciam l  e na Inglaterra...

  Era o quarto parto de Madame Marie, e foi uma alegria ver
que, mais uma vez, se tratava de um menino. De dentro das mu-
ralhas, escutamos o troar dos canhes l  fora; vimos o rei (que
estava demasiado feliz para lembrar-se de mim) chegar e inclinar-se
sobre o bero. Ali havia um beb de traos delicados, como todos
os Stuart; iria chamar-se Robert, tal qual os primeiros reis da di-
nastia, e seria o novo duque de Albany. Os ingleses, erroneamente,
disseram que o nome do menino era Arthur; mas este  um nome
ingls, muito embora Jaime IV o tenha usado para um filho que
morrera e que fora assim batizado em homenagem a um irm o
da rainha Margarida.
  O trabalho de parto havia sido breve. A rainha foi depois capaz
de sentar-se na cama e tomar uma gemada, mas o frio cortante
de maro ainda se fazia sentir no quarto.
  - Claudine, traga meu casaco de pele de coelho - sussurrou,
e fui busc -lo. Madame sempre o usava na liteira, e o forro de pele
estava ficando gasto; mas ela adorava esse casaco, que tinha exterior
de veludo preto.
  Madarne se aconchegou, e ficamos escutando enquanto o povo
bradava de satisfa o l  fora; o rei apareceu diante da multid o.
Em especial, foi uma felicidade que o nascimento tivesse se dado
naquele castelo; Stirling era o lugar onde Jaime V, quando menino
fugitivo, se libertara dos Douglas, atravessando a Esccia a cavalo.
Era seu reino particular, e a gente de l  o amava; Jaime costumava
descer Ballengeich Road disfarado de homem comum, e o povo
nunca se permitia demonstrar que sabia ser ele o rei. Agora Jaime
V tinha dois filhos; o duque de Albany foi batizado trs dias depois,


                          84
#na capela real. Como j  n o se tratava do herdeiro, a cerim"nia
foi menos grandiosa do que o batizado do prncipe James; mas
tochas brilhavam, brindes eram feitos e se ouvia o som das gaitas
de fole, pois Perthshire n o ficava longe, e os membros dos cl s
tinham vindo dar boas-vindas ao filho do rei; s que o beb, depois
de aceito na religi o crist , dormiu o tempo todo.

  Mais tarde, naquela mesma noite, Madame Marie n o conseguiu
dormir e me chamou para que ficasse com ela. Disse estar preo-
cupada com o rei.
  - Ele hoje estava feliz, mas continuam os pesadelos. Aquele
homem - rnadrrme n o pronunciaria o nome Hamilton de Finnart
- ainda vem cortar-Ihe os braos e ameaar decapit -lo. O rei
est  deprimido, e muitas vezes j  mandei buscar ervas para ele
na Frana.
  - Talvez ele melhore ao ver os meninos crescerem.
  Foi tudo o que consegui dizer. Aqueles olhos cinza-azulados
me encararam.
  - O rei est  preocupado com o tio - disse madrrrrle. - Henrique
 um inimigo resoluto, ainda mais sabendo que Jaime n o aban-
donar  o papa e se manter  fiel ao cardeal Beaton. O rei ingls
odeia o cardeal, e n o perderia nenhuma oportunidade de preju-
dic -lo, pois sabe que Beaton est  decidido a conservar a aliana
com a Frana. - Ela riu e continuou: - Ora, eu mesma estou
aqui como penhor dessa aliana.
  Eu sorri e disse:
  - A senhora j  provou duas vezes o seu valor. Dizem que o
nico filho var o de Henrique n o tem boa sade; o rei Henrique
certamente deve invejar a senhora e seu marido.
  Envolta em peles, Madame Marie sentiu um calafrio.
  - A inveja de Henrique  perigosa. Ele tem tantos lords escoceses
a seu soldo que meu marido n o pode confiar em ningum.
  - Exceto no cardeal.
  Ela deu de ombros.
  - , talvez no cardeal. N o  um homem de quem eu goste;
mas devemos distinguir o homem do sacerdote.
  Madarrre me estendeu a m o e perguntou:
  - Claudine, voc n o ficaria feliz como eu se tivesse seus pr-


                        85
#prios filhos? Est  sempre t o solit ria! Sendo moa, talvez ache
que isso n o tem importncia; mas, quando ficar velha, as coisas
ser o diferentes.
  Baixei os olhos, tal como a duquesa Antoinette ordenara, e res-
pondi:
  - N o preciso de filhos, madarrte. Para mim, basta poder cuidar
dos seus.

  No stimo dia de festividades, o medo chegou a Stirling na
forma de um mensageiro. Ele exigiu ver o rei.
  - O que est  acontecendo? - perguntou Jaime.
  Vestia roupa carmim, uma cor de que gostava muito, e tinha
por perto Oliver Sinclair e a mulher deste; ela viera para o batizado
desde Tantallon, o antigo reduto dos Douglas, onde, agora, n o
restava nenhum membro da famlia. As finas sobrancelhas de Jaime
se ergueram, questionando o mensageiro, que estava respingado
da lama das estradas. O homem caiu de joelhos.
  - Majestade,  o jovem prncipe. Ele est  muito doente e n o
deve sobreviver at o senhor chegar a Saint Andrews.
  O rei ficou lvido. N o disse nada, exceto por uma ordem seca
para que preparassem o cavalo. Partiu a toda a velocidade, ao
rumo leste, sem acompanhantes. Mais tarde, eu ficaria sabendo
que caminho ele fez; seguiu a estrada que tomara em sua fuga
dos Douglas, indo por Stirlingshire at Fife, passando por Kinross
e Loch Leven, onde vivia sua antiga amante; mas n o pensou nela.
Finalmente, chegou a Saint Andrews e atirou as rdeas para um
cavalario, que j  sabia do pior, pois nada falou.
  O rei foi a passos largos para o quarto do filho, onde tantas
vezes entrara com alegria e onde, debaixo das cobertas de veludo
carmim, n o mais jazia a criana para a qual ele mandara fazer
em ouro um apito e um mordedor. Agora, havia apenas uma pe-
quena figura p lida, que nunca se moveria outra vez.
  O pai se virou e foi embora; e nisto chegou outro mensageiro,
fazendo a dor parecer totalmente irreal - pois aquilo n o podia
estar acontecendo.
  - Majestade, o jovem prncipe adoeceu em Stirling uma hora
depois que o senhor partiu. Est  ...s portas da morte. Se o senhor
galopar a toda a pressa, talvez consiga v-lo antes do fim.


                           86
#  O rei voltou, percorrendo todas aquelas temidas milhas com a
rapidez de um cavaleiro nato; entrou em Stirling na noite do mesmo
dia em que deixara o castelo, caminhando com o cora o pesado
at o quarto do segundo beb, um ber rio que fora preparado
naquela mesma semana.
  O prncipe Robert ainda vivia, mas s isso. Respirou algum tem-
po mais, sob os olhares tristes da m e e do pai, e ent o morreu.
J  n o havia prncipes na Esccia.

  - Madarne! Minha senhorinha!
  Eu n o a chamava assim desde os tempos de Joinville ou mesmo
de Bar; lembrei-me de que era quase um ano mais velha do que
Madame Marie e de que, em certa poca, quase tomara conta da-
quela criana de cabelo reluzente que nunca me negava um de
seus brinquedos nem um pedao de seu marzip , mesmo tendo
sido a herdeira de Guise at o nascimento de seus irm os. Agora,
para mim, mndame voltava a ser uma menina, e uma menina em
grande afli o. Ela j  dispensara as criadas; estava deitada no es-
curo, sozinha e imvel, com as chamas cada vez menos vivas da
lareira Ihe iluminando as formas, ainda envoltas no casaco de pele
de coelho. Vi o brilho de seus olhos; ritadame estava acordada.
  Aproximei-me dela e a enlacei. J  n o importava que fosse a
rainha da Esccia ou de qualquer outro lugar. Encostei sua cabea
em meu ombro e me ajoelhei a seu lado, perguntando apenas isto:
  - Ele n o est  com a senhora?
  Sabia que eu falava do rei. Virou um pouco o rosto e sorriu
muito de leve.
  - N o sei onde ele est  - respondeu. - N o h  nada que eu
possa fazer por ele. Tudo considerado, acabei perdendo seus dois
filhos.
  - A senhora n o teve culpa. Cria nas morrem.
  - Todos os meus filhos morreram, ... exce o de Franois, e
este eu n o posso ver. Minha m e tem manda do retratos do me-
nino, e  s.
  - Haver  mais crianas. Uma crueldade dessas n o pode acon-
tecer de novo.
  - A vida  cruel, Claudine, e foi cruel tambm com voc. Agora
chegou minha vez. Preciso escrever a minha m e.


                        8
#  Eu tinha certeza de que a duquesa Antoinette teria algumas
palavras de sabedoria para a filha; mas, enquanto isso, cabia-me
consolar Madame Marie. Continuei ajoelhada, e depois de algum
tempo ela pegou no sono; meu brao adormeceu com o peso de
sua cabea, mas n o a acordei.
  A porta se abriu nas primeiras horas da manh , e o rei surgiu
na soleira; tinha os olhos vermelhos. Levei o dedo aos l bios, pe-
dindo silncio; outros decerto n o teriam esse tipo de familiaridade,
mas eu j  n o ligava. Ele me olhou fixo por alguns instantes e
ent o foi embora. Quando a rainha acordou, contei que Jaime viera.
Ela sorriu um pouco.
  - Ele  como criana - disse. -  impossvel n o am -lo.
Sofreu um golpe muito duro. Tenho medo de que isso n o melhore
em nada seus pesadelos. Os dois braos cortados significavam dois
filhos mortos...
  Comeou a tremer, e perguntei se n o gostaria que as criadas
a banhassem e lhe penteassem o cabelo. Quando elas chegaram,
fui embora.

  No fim daquele outono, adoeci no funeral da rainha Margarida
e demorei a sarar. Era um dia mido, e cavalguei junto com um
bando de pessoas vestidas de preto; a meu lado estava ningum
menos do que Lord Maxwell, que sabia ser eu amiga de sua idosa
m e. Fosse como fosse, lisonjeava-me que ele, o almirante-mor da
Esccia, prefeito de Edimburgo, juiz da Corte de Sesses (o supre-
mo tribunal) e tudo o mais, se dignasse a falar comigo quando
havia tantas outras pessoas a exigir-lhe a aten o. Ele por certo
me considerava bastante serena se comparada ... sua mulher, que
j  tivera muitos maridos e teria outros mais. A barba de Lord
Maxwell ainda era cheia e grisalha, tal como se mostrara na Frana
trs anos antes, quando ele fora procurador do rei Jaime no casa-
mento com Madame Madeleine na Catedral de Notre-Dame.
  N o conversamos sobre a falecida rainha Margarida. 1 nossa
frente, o volumoso caix o ia sendo carregado para o convento dos
cartuxos de Perth, onde estavam enterrados Jaime I e a bela rainha
inglesa, Joana Beaufort. Pensei comigo mesma que n o mais ve-
ramos a Rosa, uma mulher que poderia ter pedido ao povo escocs
tudo o que quisesse, quando, com um filho pequeno e outro a
caminho, enviuvara depois da batalha de Flodden. Mas, com dois


                           88
#matrim"nios impensa dos, Margarida Tudor jogara fora a honra e
o respeito que Ihe tinham. Lord Ma xwell repetiu esses pensamen-
tos, como se eu os tivesse pronunciado em voz a lta , mas o fez
com cuidado, pois o rei cavalga va logo adiante, junto do jovem
vivo, de quem continuava muito amigo.
  - Agora que a irm  est  morta, o rei Henrique invadir  a Es-
ccia.
  O som apavorante dessa s palavras foi como um dobre de fina-
dos.
  - O senhor acha que ele s estava espera ndo a morte da velha
rainha?! - exclamei.
  - Essa morte e outras coisa s mais. Dizem que, ultimamente, ele
tem falado muito de seu direito a governar o norte e o sul. Alm
disso, Angus agora n o ter  escrpulos de liderar um exrcito vindo
da Inglaterra. Vivo, ele h  de casar novamente para gerar um var  o,
pois Marga rida s lhe deu a jovem Lady Marga ret Douglas.
  Olhou em volta cautelosamente, com o veludo preto do traje
fazendo um leve rudo a o roar no tecido do forro. Depois, mur-
murou:
  - Ele e o irm o, George, vivem 1s custas do rei Henrique j
faz basta nte tempo, desde que fugiram para a Inglaterra. Agora,
precisar o fazer o que ele manda. Logo, logo, teremos novidades.
  As novidades acabariam vindo sc5 no fim do ver o; de modo
geral, porm, havia uma inquieta o no ar, que se devia n o aos
ingleses, ma s ao prprio rei da EsccScia. Ele fica va cada vez mais
suspeitoso, em especia I aps a morte dos filhos; ainda n o esta va
certo de que as criana s n o haviam sido envenena da s por seus
prprios lords. N o tinha como confiar em nenhum, e eles sabiam
disso. A Inglaterra Ihes pagava mais do que Jaime V poderia fazer.
E, temendo uma sbita vingana de Ja ime, muitos se passavam
para o rei Henrique em segredo ou at ...s cla ras.
  Eu tinha conhecimento de muito pouco disso, pois ... poca estava
acamada, doente dos pulmes, numa situa  o que s piorou com
o vento frio e mido que tomei a ps a morte da rainha -m e; tratada
por criados e mdicos, cheguei por vezes a acha r que morreria.

  - Voc est  um pouco melhor, Claudine. Agora, precisa de sol
e descanso.
  Fiz fora para me levanta r. A rainha estava de p junto ... cama,


                        89
#e n o achei respeitoso continuar deitada. As sanguessugas que me
haviam colocado nos braos e nas pernas continuavam l .
  - Madame, eu j  descansei todas essas semanas. Ainda n o lhe
agradeci o presente de Natal.
  Ela me enviara uma caixinha de marzip , mas n o viera me
ver. Eu a achei abatida, tanto quanto no ano anterior, quando ela
e o rei, enlutados, fizeram uma melanclica visita a Perth e a Aber-
deen.
  - Eu teria vindo pessoalmente no Natal - disse madarrte -,
mas, para falar a verdade, tenho andado com muita coriza e n o
quis lhe passar meu resfriado, nem pegar o seu. Agora, escute o
que vou dizer.
  Parecia ter recuperado o jeito pr tico e seguro, e fiquei feliz
com isso. Mas, quando ouvi o que madame tinha para conta r, n o
soube se deveria ficar triste ou contente: Lady Grant oferecera aco-
modaes para que eu passasse o ver o no norte, no novo castelo
de seu enteado, em Freuchie. Madame disse:
  - Voc lhe far  companhia na viagem, e sua sade melhorar
com o ar fresco. Dizem que h  muito salm o no rio Spey; eu a
invejo.
  - Madame, l  eu serei uma estranha. N o poderia ficar por
aqui? J  me sinto muito melhor.
  No estado em que me encontrava, a idia de afastar-me da rainha
era mais do que eu podia suportar; Madame Marie era tudo para
mim; era minha famlia e meus amigos. J  Lady Grant, por mais
gentil que seu oferecimento tivesse sido, n o era nada disso.
  - N o, voc precisa recuperar as foras. N o tem se olhado
muito no espelho; est  p lida e magra, bem diferente da Claudine
de que me lembro. V  para Freuchie... Mon Diel<, n o consigo pro-
nunciar esses nomes!... V  para l , tome leite de cabra, coma salm o
e ganhe algum peso. Eu mandarei busc -la no fim do ver o.
  - Promete, rnadarne?
  J  me imaginava abandonada e esquecida num vale das High-
lands, enquanto a corte se mudava de um lugar para outro. Ela
sorriu.
  - Eu prometo. E, agora, preciso ir.
  Aquela figura alta deixou o quarto, e fiquei pensando na pers-
pectiva (que em outras circunstncias deveria ter sido agrad vel)


                            90
#de cavalgar com Lady Grant e sua escolta para o norte, at as
margens do Spey.

  A jornada acabou sendo mais prazerosa do que eu imaginara,
embora de incio tenha ficado espantada com o fato de nossa nica
escolta consistir em dois montanheses que conduziriam a p, des-
calos, os p"neis. Eu j  vira alguns montanheses, a gente das High-
lands, em Perth, onde suas camisas tingidas de aafr o se desta-
cavam na turba opaca; mas era coisa muito diferente estar sozinha
com eles por muitas e muitas milhas. Armados com espadas e
facas curtas e negras, tinham aspecto feroz. O lder carregava uma
bolsa de moedas de prata, ganhas cam as vendas feitas no mercado
de gado, pois haviam trazido uma boiada e agora retornavam com
os proventos de seu laird, nome que na Esccia se d  aos proprie-
t rios de terras.
  - N o roubar o nem um tost o que pertena a meu enteado
- observou Lady Grant, que, mesmo sendo t o idosa, montava
com uma perna de cada lado da sela. - Ele  James Grant, ou
Am Grantach, como o chamam por l , e esses a Ihe s o totalmente
fiis. Pela mesma raz o, a senhora pode estar certa de que chega-
remos em segurana. Nas Highlands, um hspede  sagrado, e
jamais sofreria nenhuma trai o.
  Ajeitei-me um pouco melhor na sela, na mesma posi o de Lady
Grant, a nica possvel naquelas montarias de pernas curtas; lem-
brei-me ent o de como a duquesa Antoinette viajara de Vend"me
a Chteaudun. Eu disse a Lady Grant que fora muita bondade
convidar-me, e ela respondeu que a sugest o partira de madnme.
  - Acho que a rainha tambm precisaria passar uma temporada
conosco no norte - acrescentou a velha senhora, pensativa.  -
Ela n o parece bem, e o rei,  cla ro, j  voltou para as amantes faz
tempo. Dizem que o fato  conhecido at no exterior, e que a m e
da rainha se prontificou a mandar o duque de Guise ... Esccia
para resolver a situa o. A rainha  orgulhosa, e escreveu respon-
dendo que tal situa o nem sequer existe. Mas existe,  claro; Jaime
sempre foi dado a essas coisas, e a morte dos meninos s o fez
retomar a vida que levava antes do casamento.
  A essa altura, j  est vamos bem adiantadas em Ballengeich Road,
e por isso era seguro falar desse modo, a cima do rudo dos cascos


                             91
#dos p"neis. Os dois montanheses s entendiam galico - seu es-
cocs se limitava ao necess  rio para negociar gado. Vi o lder ve-
rificar cuidadosamente as moedas da bolsa e depois seguir em
frente, caminhando a passos largos. Talvez caminhar n o seja bem
a palavra; seus movimentos mais lembravam um lobo a correr.
N o comentei o comportamento do rei Jaime, que ali s n o me
surpreendia; em vez disso, observei:
  - Mesmo descalos, esses homens v o bem depressa.
  Pensei comigo mesma que eles deviam ter vindo assim desde
os seus vales, tocando o gado.
  - Espere at conhecer Alasdair Dorch - disse Lady Grant. -
Quando era moo, andou at Carlisle, do outro lado da fronteira,
carregando um barco nas costas. Ao chegar l , ele o p"s no rio
Esk, e o povo jogou moedas dentro do barco. Isso foi antes de
meu marido morrer, talvez uns doze anos atr s, e me lembro de
como o falecido ficou rindo. Alasdair Dorch trouxe as moedas para
easa e as deu a meu marido, dizendo que eu as usasse como di-
nheiro mido.
  Ela sorriu com a lembra na. Apesar de toda essa sua fala o,
era uma mulher reservada, que se tinha em alta conta; eu ainda
n o sabia se gostava dela. Mas, em todo caso, precisava cumprir
minhas obrigaes de hspede. J  estava comeando a achar que
aquele suave exerccio ao ar livre me fazia bem. Os p"neis se li-
mitavam a trotar, com nossa baga gem atr s das selas e os mon-
tanheses correndo ao lado. Eu ia deixando para tr s a sensa o
de fraqueza e desesperana que me assaltara no castelo de Stirling;
l , meu qua rto era pequeno e mido. J  longe da cidade, ergui a
cabea e respirei o ar fresco, que trazia o cheiro das Highlands,
visveis ... nossa frente. Uma ou duas milhas depois, adentramos
a antiga floresta caled"nial, e precisamos seguir com cuidado, pois
haviam crescido galhos bai.xos nas nicas trilhas existentes ali,
aquelas usadas pelos boiadeiros. Obviamente, todos os chefes de
cl  viviam do dinheiro que o gado lhes dava, alm do que conse-
guiam cultivando a terra. Mas o reduto dos Grant teria tambm
o salm o do rio, como a rainha me disse, e a caa das montanhas.

1  Cnled"nla  o nntiqo trornc da Esccia. (N. do E.)


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#  No caminho, Lady Grant me contou mais coisas. Casa ra muito
jovem, e, como j  tinha dito, o marido morrera havia muitos anos.
  - Ele se foi no ano em que o rei escapou dos Douglas; lembro
que o falecido n o estava mais em condies de receber a notcia,
que teria alegrado seu cora o.
  Ela arranjara bons casamentos para todas as filhas, ... exce o
de uma, que era gastadora.
  - Christiania  minha cruz - disse Lady Grant. - Eu n o a
levaria ... corte por nada neste mundo: ela logo iria cobrir-se de
dvidas com roupas e jias. E h  Ian Mr, que tambm  uma
maada.
  Franziu o cenho e se calou, enquanto a sombra verde das  rvores
nos eobria.
  - Ele  seu nico filho homem? - perguntei, para demonstrar
interesse. Mas ficou evidente que havia sido a coisa errada a dizer.
  - N o, n o  - respondeu, com firmeza. - Ele  filho natural
de meu marido; o nico filho natural, ali s. Est  passando por um
divrcio que  uma vergonha para todos ns. Meu enteado James
Grant, ou Seumas man Creuch ("James das Pilhagens", como o
chamam), lhe d  abrigo. Eu n o faria tal coisa, s que n o tenho
mais direito de opinar. O castelo  novo; acabaram de constru-lo
faz apenas cinco anos, e l  me recebem de m  vontade.
  Imaginei ent o que uma convidada de Lady Grant talvez n o
fosse bem recebida, mas depois fiquei tranqila, tendo em vista o
que ela me dissera sobre os hspedes serem sagrados. Mais tarde,
vim a saber que Lady Grant casara uma filha em cada cl  das
Highlands, com exce o dos Campbell (a famlia do conde de Ar-
gyll). Fiquei intrigada com o nome James das Pilhagens; esse per-
sonagem talvez tivesse uma espada no cintur o, como os dois ho-
mens que nos escoltavam, inclinando-se e contorcendo-se gracio-
samente sob os galhos baixos e guiando os p"neis at seu destino.

  Passamos a noite numa choupana, com os montanheses dor-
mindo junto ... entrada, do lado de fora, enrolados em mantos axa-
drezados. Encontramos a choupana vazia; eu muitas vezes depa-
raria com lugares assim, conservados para comodidade dos via-
jantes. Um leito de urzes frescas fora preparado para ns, e o achei
mais confort vel do que muitos nos quais eu dormira em pal cios.


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#Quando amanheceu, estava faminta, mas n o teramos nada para
comer at chegarmos a Freuchie. Fiquei mais uma vez admirada
com a resistncia de Lady Grant, que naquela idade se dispunha
a fazer tal viagem.

  Ainda era dia quando alcanamos Freuchie. O castelo (do tipo
comum, erguido com pedra e argamassa de cal ainda branca) me
impressionou menos do que o rio; este era grande e impetuoso e
formava lagoas profundas, da cor do mbar. Uma mulher estava
ajoelhada na margem, lavando roupa, com a cabea coberta por
uma mantilha xadrez; depois levantou-se para, descala, pisar as
roupas. Pensei comigo mesma que, naquela poca do ano, a  gua
ainda devia estar bem fria. Ela nos viu chegar e fez uma reverncia
para a m e do laird. Ou melhor, eu  que ainda o considerava um
laird, um termo das Lowlands; Am Grantach era, na realidade, um
ckieftain, visto como rei pelos subordinados e dependentes.
  Ele n o estava no sal o do castelo quando entramos. Olhei para as
marcas de fuligem das paredes ainda novas, marcas produzidas por
tochas que seriam acesas logo mais ... noite. Levaram-me escada acima
para meu quarto, depois que Lady Grant me deixou aos cuidados de
uma moa, a perdul ria Christiania; apesar do nome grandiloqizente,
era evidente que a jovem n o tinha nem sequer permiss o para sair
de casa. Imaginei que seus gastos deviam ser mesmo tremendos.
  Num escocs agrad vel e musical, ela perguntou se eu gostaria
que a comida me fosse trazida no quarto ou se preferia descer.
Respondi que gostaria de um pouco de leite, pois n o comera nada
o dia inteiro, mas que, de resto, acharia melhor ir ao sal o mais
tarde. Eu n o via a hora de p"r os olhos no James das Pilhagens
e nos membros de sua famlia. Trouxeram  gua para que eu pu-
desse me lavar, e me arrumei; na bagagem, trazia s mais um
vestido, que estava bem amarrotado; por isso, continuei usando
aquele mesmo com que viajara; penteei os cabelos e mudei de
coifa. Christiania j  descera, e fiquei sozinha no quarto, que tinha
o ch o coberto de urze, em vez de palha, o que servia para deixar
o piso aquecido. Afora isso, o ar era t o frio e limpo quanto o
rio Spey; fui at a janela, que era menor do que as costumeiras
no sul, e respirei profundamente, agradecida. Trouxeram o leite,
e o tomei devagar; estava fresco e cremoso, e ajudou a matar
minha fome.


                          94
#  1 noitinha, desci para o sal o e o encontrei repleto; l  estavam
a famlia do chefe e outros membros do cl . As mulheres e as
crianas se sentavam juntas, apartadas dos homens. Vi de relance
James Grant, ou Am Grantach, sentado sozinho ... mesa que havia
num tablado alto; parecia um homem pacato, nada merecedor de
um nome como James das Pilhagens. Seus trajes eram esplndidos,
consistindo num grande manto xadrez de um vermelho suave (a
mesma padronagem que se repetia nas toucas das mulheres e nos
ombros dos homens), uma camisa de fino linho fra nzido, de um
tipo que n o faria feio na corte, um broche de prata redondo e a
sgian dublt, a faca negra que todos eles usavam. Am Grantach me
viu chegar e, para embarao meu, ergueu-se em toda a sua mag-
nificncia, passou pelos subordina dos que estavam junto ...s tochas
nas paredes e se aproximou de onde eu, naquele vestido surrado,
me encontrava. Tinha voz suave e falava escocs com a mesma
cadncia musical de sua meia irm  Christiania.
  - Seja bem-vinda - disse.
  Fez sinal para uma mulher que s podia ser sua esposa. Ela
usava diversos anis de prata e uma coifa ... moda das Lowlands;
veio at mim, e pude ver que era bem mais moa do que o marido.
Na realidade, tratava-se da segunda mulher de Am Grantach, uma
Barclay vinda do sul, como descobri mais tarde. A velha Lady
Grant permaneceu no quarto; com certeza estava cansada, mas
n o mais se dirigiu a mim, exceto quando n o tinha como evitar,
e parecia ter-se recolhido a um estado de altivez s seu.
  Am Grantach tornou a falar.
  - Christian, esta  Madame de Vouvray, que ser  nossa hs-
pede. Apresente-a ...s outras mulheres.
  Ele ent o sorriu, fez uma ligeira reverncia e voltou ... mesa alta,
onde depois notei um padre que, envergando um manto xadrez
de sete cores j  bem gasto, jantava em sua compa nhia. Junto deles
havia tambm um homem alto, que devia ser Ian Mr, o meio
irm o bastardo; ele e Am Grantach se parecia m bastante.
  Christian Grant (seu nome devia criar confus o com o da cu-
nhada, mas as duas eram muito diferentes) me convidou a sentar
no banco das mulheres e trouxe os filhos para que me cumpri-
mentassem. Eram todos meninas, ... exce o de um garotinho cha-
mado Archibald; mas Am Grantach tinha outros filhos vares do


                        95
#primeiro casamento. Saudaram-me com polidez e voltaram a seus
lugares. Todos usavam o mesmo tecido xadrez vermelho. Comentei
isso com Christian Grant, que me fizera sentar a seu lado; lembrei
que, nas Highlands, a pessoa do hspede era sagrada.
  - Esse  o tart  de nosso cl , que n o costumava ser usado no
tempo em que a regi o era governada pelos Lords das Ilhas -
ela explicou. - Naquela poca, os padres usavam sete cores, como
a senhora pode ver agora, e os reis, seis; as outras pessoas podiam
usar o que quisessem. Hoje, cada cl  tem uma padronagem prpria.
Aqui, a senhora muitas vezes ver  dois tipos: um para ns, e o
outro para os Gregarach, ou MacGregor, que s o nossos amigos
e aliados de sangue. Nenhum Grant deixaria de ajudar ou dar
abrigo a um MacGregor em dificuldades, e um MacGregor sempre
viria em socorro de um Grant.
  - Por qu? - perguntei, sabendo que n o havia nada assim
nas Lowlands nem, muito menos, na Frana, muito embora, de-
pendendo das circunstncias, os homens de l  pudessem ajudar-se
uns aos outros.
  Ela sorriu, e ent o falou como se tivesse nascido nas Highlands:
  - J  faz muito tempo, as trs coroas de nossos brases nos
foram dadas por trs reis do norte. E descendemos, ambos os cl s,
dos antigos reis de Alba. Mais que isso n o sei responder, mas a
amizade existe; se surgirem grandes dificuldades, a ajuda vir .
  Continuou a sorrir, serena, e beliscou o salm o. O peixe estava
delicioso, mais fresco do que qualquer um que eu tivesse experimen-
tado no sul. Em seguida, serviram um pastel o de carne de gamo,
tambm excelente. As mulheres bebiam cerveja, e os homens, usque.
  - A senhora no gostaria de tomar um golinho para dormir
melhor? - perguntou Christian Grant, matreira.
  Fiz que n o; j  estava bastante sonolenta com a comida, o calor
das tochas e o ajuntamento das pessoas. As mulheres e as crianas
comearam a se levantar e ir embora, deixando os homens a ss;
eles continuaram bebendo, ao som de uma pequena harpa. Fui
para a cama e, com o cheiro da cal fresca nas paredes, dormi um
sono sem sonhos.




                          96
#Terceira parte




               medida que os dias foram passando, acostumei-me com os
            h bitos da famlia e dos domsticos em Freuchie e os ajudei o
            melhor que pude. Eu n o era de todo intil, pois a duquesa An-
            toinette, em Joinville, as claristas, em Pont-...-Mousson e Madame
            Sanserrato, em Vouvray, me ensinaram todas a assar p o, fazer
            conservas e executar outras tarefas. Essas coisas agora se faziam
            necess rias, pois n o havia feira nem armazm em Freuchie, muito
            embora se obtivesse comida fresca pescando no rio ou caando
            nas charnecas. Em minha primeira manh  no castelo, encontrei a
            prpria Christian Grant ocupada fazendo bolos; tinha o rosto ver-
            melho pelo calor dos fornos e a cabea enrolada num pano de
            linho, para que o cabelo n o se sujasse de farinha de aveia. As
            criadas estavam abrindo a massa e cortando-a em bolinhos redon-
            dos. Perguntei se poderia ser de alguma ajuda, mas Christian fez
            que n o.
              - Se a senhora puder, v  ver se os salmes est o vindo ... tona
            no rio e nos avise se estiverem - ela disse.
              Eu sabia que estavam se desvencilhando de mim, como geral-
            mente se faz com estranhos, e n o tive pressa de voltar; fosse como
            fosse, n o vi peixe nenhum. No entanto, fiquei mais encantada do
            que nunca com as profundas lagoas cor de mbar e o mpeto das
             guas, e acabei me demorando bastante. N o havia nenhuma mu-
            Iher a lavar roupa, pois isso s era feito nos dias em que n o
            tinham p es e bolos para assar e cerveja para preparar. Caminhei
            um pouco pela margem do rio, e, de repente, uma pequena criatura
            branca e  gil saltou de entre as  rvores; era uma cabritinha, com
            guizos no pescoo. Seus olhinhos, verde-claros e fendidos, fitaram-
            me, e n o recuou quando pus a m o em seu pescoo; era mansa.
              - Venha comigo - disse-lhe, e assim fez; eu n o saberia dizer
            se j  estava habituada a eompanhia. Falei com ela em francs, bem


                                    97
#baixo. Seguamos satisfeitas quando, de repente, notei que vnha-
mos sendo observadas, e j  havia algum tempo, por um homem
de aspecto extraordin rio, que estava sentado junto ...  gua, usando
um gorro redondo. Ele parecia n o estar fazendo nada; pelo menos,
n o estava pescando. Eu nunca vira algum como ele; tinha uns
quarenta anos e, sem dvida nenhuma, devia ser imensamente
alto; era muito moreno, quase tanto quanto um mouro; n o usava
barba, mas tinha um longo bigode, preto e esvoaante, e cabelos
compridos. Os olhos eram pequenos, negros e desconfiados. Ves-
tia-se tal como se trajava Am Grantach na noite anterior, mas n o
com o mesmo tart , embora o seu fosse quase idntico; a diferena
estava numa listra branca, muito estreita, que atravessava a pa-
dronagem. Tambm n o usava um broche de prata redondo. Vi
de imediato que n o se tratava nem de um chefe nem de algum
de grande importncia, exceto, talvez, na opini o dele prprio.
Mesmo assim, levantou-se de modo bastante corts; eu j  observara
que todos os montanheses demonstravam muita polidez.
  - A senhora  a nova hspede, a dama que veio do sul?
  Respondi que sim, e, como ele n o se dignasse a dizer o nome,
parecia n o haver mais nada a dizer. Continuei a caminhar com
a cabritinha, que ainda me seguia. Nisto, a voz dele tambm me
seguiu; era funda e musical, com as inflexes do galico, a despeito
de falar bem o escocs.
  - Ela se apegou ... senhora.  uma cabra que j  tem leite, mas
ainda n o cruzou.
  Agradeci e, percebendo que era tempo de retornar ao castelo,
voltei. O homem continuava de p no mesmo lugar, e pude sentir
seus olhinhos negros se fixarem em minhas costas. Tornei a aca-
riciar o pescoo da cabritinha, falei com ela e o esqueci. Eu j
decidira que precisava pensar num nome para a cabra. E, sem
nenhuma raz o em particular, lembrei que Lady Drummond, antes
de morrer, me falara das duas lindas rainhas que haviam pertencido
.. sua famlia, de modo que os lords escoceses n o quiseram uma
terceira. Recordei que uma dessas rainhas se chamara Anabela.
  - Venha, Anabela, venha - chamei.
  A cabritinha baliu, e, quando chegamos aonde seu rebanho es-
tava amarrado, voltou para junto dele. Fiquei imaginando por que
n o fora tambm amarrada; de qualquer modo, eu estava feliz por


                          98
#ter tido sua companhia no passeio. Talvez ela viesse atr s de mim
outra vez.
  Naquela tarde, encontrei Christiania quando ela fiava e lhe per-
guntei por que a cabra branca estava solta.
  - Esperam que ela cruze - respondeu. - Enquanto isso, 
dona do proprio nariz.
  Tornei a perguntar se eu podia ser de alguma ajuda. A l  bruta
estava numa pilha no ch o, e a roda ficaria parada quando Chris-
tiania precisasse cardar. Ela disse:
  - Se voc quiser, eu mostro como se carda, e a poderei con-
tinuar fiando.
  Ela me ensinou. N o havia mais ningum ali. Fiquei sabendo
que o padre presente ao jantar na noite anterior servia de tutor
para as crianas, o que explicava o silncio que se fazia agora: elas
estavam em aula. Os homens estavam na montanha. Comecei a
trabalhar na carda e logo peguei o jeito.
  - Isso j   uma grande ajuda - disse Christiania. - Outra
hora, eu a ensino a fiar;  agrad vel e n o d  tanto trabalho.
  Eu, no entanto, estava condenada a nunca aprender a fiar; uma
voz soou ao p da escada, e apareceu Lady Grant, que descera
em silncio e agora dizia:
  - Christiania, quando voc recebeu a tarefa de fiar a l , foi
justamente para que n o ficasse ociosa. Por isso, n o deveria aceitar
ajuda de nossa hspede. Ponha a carda de lado, Madame de Vou-
vray, e deixe Christiania fazer o que Ihe mandaram.
  Senti pena de Christiania; afinal, j  n o era criana para ser
repreendida daquele modo. Ela ficou vermelha, mas n o disse
nada. Decidi que, quando eu voltasse ... cidade, lhe enviaria um
presentinho, talvez um broche. Para diminuir a tens o, deixei a
carda de lado e disse em voz alta:
  - Hoje, quando fui passear, vi um homem fora do comum.
  Descrevi a personagem de gorro, e ent o m e e filha comearam
a rir. O ambiente se desanuviou.
  - Era Alasdair Dorch MacGregor, o tal que carregou o barco
at Carlisle - explicou Lady Grant. - A senhora teve sorte de
v-lo assim t o depressa. Ele costuma ficar nas montanhas, caando
gamos ou visitando sua gente, ou ent o ir para o sul, tocando
gado como fazem Donald Gorm e Angus Dubh, aqueles dois que
nos trouxeram ontem.


                            99
#  Percebi que os nomes de todos os membros do cl  eram conhe-
cidos e tidos em apreo, como se essas pessoas fossem da famlia.

  N o me recordo quando foi que pude perguntar a Christiania
sobre Alasdair Dorch. Eu j  sabia que os cl s eram muito unidos
e fechados; se Alasdair era um MacGregor, deveria estar em sua
terra, e n o na dos Grant. Ela riu e explicou:
  - , ele  mesmo um MacGregor, s que um pouco diferente.
A m e morreu no parto, por causa do tamanho do menino. Ela
estava aqui conosco porque, como voc j  sabe, os Grant e os Mac-
Gregor sempre se ajudam. N o  necess rio dizer uma palavra
sequer; basta que um coloque a m o no ombro do outro, e este
vir  ajudar, sem fazer perguntas.
  Christiania, como muita gente das Highlands, tendia a desviar-se
um pouco de qualquer assunto; no entanto, acabou retomando o
fio da meada:
  - A coitada morreu, e o marido precisou voltar para seu cl .
Deixou o menino conosco, para que fosse amamentado; minha
m e cuidou dele. Cresceu aqui, e, por isso, passa mais tempo co-
nosco do que com a prpria famlia. Mas sempre vai v-los, n o
deixa de considerar-se um deles e os ajuda quando h  problemas.
S que gosta de levar a vida e aparece sempre que h  salm o no
rio e gamos na montanha. Quando estamos numa rixa, ele luta
por ns; e Alasdair Dorch  um grande guerreiro. Tocou nosso
gado para o sul muitas e muitas vezes; at para a Inglaterra j  foi,
e fala escocs melhor do que a maioria. Ele  uma coisa impres-
sionante de ver, n o  mesmo?  um gigante de bom cora o.
  Fiquei imaginando se Christiania n o estaria apaixonada por
Alasdair Dorch MacGregor; mas, se estava, nada resultou.

  No domingo, o padre rezou missa em Freuchie, e notei a pre-
sena de um ou dois membros do cl  MacGregor, com seu tart
de listra branca. Alasdair Dorch se colocou atr s dos outros fiis,
pois, do contr rio, obstruiria a vis o de todo mundo. Depois da
missa, sa novamente para passear, e, quase de imediato, minha
cabritinha branca veio correndo.
  - Anabela, Anabela! - chamei.
  Ela pareceu estar se acostumando com o nome, mas talvez s


                            100
#estivesse atendendo por ser eu a cham -la. N o pude deixar de
pensar que era a primeira criatura que eu possua na vida - exceto,
 claro, pelo fato de que pertencia n o a mim, mas ao James das
Pilhagens.
  Estava com o bere pesado, e parecia que ningum pensara em
ordenh -la; talvez ela n o deixasse. Falei-Ihe, acariciei seu pescoo
e, por fim, pus as m os em suas tetas macias; n o eram como as
de uma vaca. Enquanto fazia isso, percebi algum atr s de mim,
o prprio Alasdair Dorch. Sc5 desejei que ele n o ficasse me se-
guindo por toda parte. Olhei para sua figura portentosa e disse:
  - Eu gostaria de tentar ordenhar esta cabra, j  que ningum o
fez. O senhor me arrumaria um balde?
  Esperei que ele entendesse meu escocs e minha gesticula o;
enquanto isso, Anabela permanecia quieta, com a cabea baixa.
  - Posso fazer isso - respondeu. - A senhora sabe ordenhar
uma cabra?
  O tom era respeitoso, mas pr tico. Disse-lhe que sabia ordenhar
vacas; fizera isso uma ou duas vezes em Vouvray, quando a mulher
encarregada desse trabalho estava doente. Fechei os olhos; n o
gostava de me lembrar de Vouvray, e s precisava faz-lo quando
chegava o dinheiro de minhas rendas. O primo de meu marido
morava l  agora, assim como, eu presumia, Andelot e Madame
Sanserrato. A voz de Alasda ir Dorch me chegou como se viesse
de um outro mundo.
  - Ordenhar cabras  diferente. A senhora deve segurar o bere
todo, n o apenas a teta. Se permitir, eu mostro como se faz.
  Anabela n o pareceu se importar que minha m o ou a manopla
de Alasdair Dorch espremessem seu ibere aveludado; pouco de-
pois, ele se afastou e voltou com uma cuia, clue arra njara em algum
lugar; eu viria a descobrir que ele sempre se mostra va capaz de
providenciar o que lhe pedia m. Comecei a ordenhar Ana bela, e
ela agentou bem; o fino jato de leite jorrou para a cuia. Pude
perceber que a cabritinha ficou aliviada.
  - Deviam t-la ordenhado ontem - eu disse. - Afinal, orde-
nharam o resto.
  De modo geral, n o tom vamos leite de cabra em Freuchie; o
que se tirava do rebanho era usado para alimentar os novilhos;
bebamos era leite de vaca. Alasdair Dorch ergueu a cuia, bem


                            101
#cheia, e a estendeu para que eu provasse o leite. Assim fiz, e era
delicioso; ao contr rio do leite de cabra comum, n o tinha gosto
de nabo, e comentei isso com Alasdair Dorch.
  - Ela  de uma raa diferente - explicou -, e  por isso que
a deixam solta. Faz dois anos, Lady Lovat, a filha da cailleach,
mandou para a me uma cabra branca prenhe. A cabra morreu,
mas esta aqui  a cria. Dizem que a raa  de alm-mar. Eu, de
minha parte, nunca tinha visto uma assim.
  Despedimo-nos, e ele afirmou que todos os dias lavaria a cuia
no rio e a esconderia para mim em certo lugar entre as  rvores.
Agradeci, mas n o tinha nenhuma vontade de transform -lo em
companhia permanente, e por isso Ihe disse adeus. Quando voltei
ao castelo, perguntei a Christiania (de quem ficara amiga) o que
era uma cailleach. Ela riu.
  - Uma velha - respondeu. - N o  um termo educado.
  Fiquei bastante ruborizada; no tinha como explicar que Alas-
dair Dorch falava de Lady Grant, mas Christiania j  sabia.
  - Ele n o liga a mnima para a posio de ningum. Tem certeza
de que os MacGregor descendem dos reis de Alba, e talvez des-
cendam mesmo, e ns tambm, por intermdio deles. Por isso,
Alasdair Dorch se julga t o bom quanto qualquer um. Minha m e
 uma Ogilvy de Deskford, mas, para ele, n o passa de nobreza
recente.
  - Pensei que ele tivesse trazido moedas de Carlisle para sua
m e, para que as usasse como dinheiro mido; ela mesma me
contou isso.
  - Isso deve ter sido para mostrar como era esperto. Preciso
voltar ...s tarefas, pois sen o ela vir  atr s de mim.
  Lembrei quanto, na viagem para Freuchie, eu me sentira inse-
gura em relao a Lady Grant, e decidi que n o gostava dela; mas,
sendo sua hspede, no podia demonstr -lo. Tambm nunca mais
lhe mencionei o castelo de Glamis, onde nos conhecemos. Eu me
sentia muito culpada por ter sido incapaz de ajudar a menina Mar-
garet Lyon e os irm os; ali s, s piorara as coisas. No entanto, se
o rei estava com suas amantes, era menos prov vel que tivesse
tempo para vingar-se ainda mais dos Glamis - ou de mim.

  Na P scoa, tivemos uma grande reuni o dos cl s, e todas as
filhas de Lady Grant, com os maridos e filhos, vieram a Freuchie;


                          102
#havia gente dos Lovat, dos Cameron, dos Mackenzie, dos Mackin-
tosh e de uma famlia das Lowlands chamada Cumming. Estava
presente, ainda que um tanto envergonhada, a chre amie de Ian
Mr; era uma Fraser de Lovat. Lady Grant n o tomou conheci-
mento dela, mas o restante da famlia foi bastante gentil com a
mulher. Os dois se casariam no ano seguinte, e, enquanto isso,
passeavam juntos. Na maior parte desses dias, fiquei impedida de
ver Anabela e, ali s, Alasdair Dorch MacGregor. Este resolvera ser
meu servial, ou coisa que o valha; e, embora nunca me incomo-
dasse com suas atenes, raramente deixava de aparecer quando
eu saa do castelo. Fiquei me perguntando como ele se mantinha
alimentado; com certeza, ia pescar no Spey quando eu me encon-
trava em outra parte. No domingo de P scoa, veio para a missa,
e o vi ajoelhar-se reverentemente quando a hstia foi consagrada.
No dia seguinte, as famlias visitantes se prepararam para ir em-
bora; iriam escoltar-se umas ...s outras pelas trilhas dos vales.
  J  eu comeava a ficar preocupada por n o ter recebido notcias
da rainha. Sabia que ela pretendia passar o ver o nas Highlands,
mas n o era de seu feitio deixar de me escrever. Depois de algumas
semanas, acabei falando disso ... cailleach (que era como eu me acos-
tumei a sempre pensar em Lady Grant). Ela sorriu, com ar de
quem estava bem informada.
  - Ainda  muito cedo, mas eu soube por uma carta de minha
filha Margaret Cumming, a qual a senhora j  conhece, que a rainha
est  esperando outro filho para o comeo de dezembro. Rezo para
que desta vez ela tenha sucesso.
  Decerto foi por isso que Madame Marie n o teve tempo para
escrever; mas me incomodou o jeito cheio de superioridade com
que aquele velha, m e de tantas filhas vivas, desejava sucesso a
madame.
  - A rainha tem um belssimo filho na Frana - afirmei. -
Foi uma desventura, ou talvez um acaso, que os prncipes tenham
morrido.
  - Bem, desventuras acontecem a todos ns. Mas, seja como
for, duvido que ela esteja precisando da senhora no momento. S
espero que o marido lhe d alguma aten o.
  Eu tambm ansiava por isso; a infidelidade do rei devia abor-
recer madame, ainda que ela n o comentasse o assunto nem com


                           103
#f


        a prpria me. Desisti de esperar cartas, mas peguei papel e pena
        e escrevi para dizer que esta va bem e que na P scoa rezara muito
        especialmente por ela. A criana devia ter sido concebida nessa
        poca.

          Pa ssa ram-se semanas, e continuei a caminhar com Anabela, que
        n o dava sinal de ter se acasalado. As outras cabras, quando soltas,
        pastavam placidamente junto ...s  rvores, comendo folhas e grave-
        tos; so animais capazes de destruir uma floresta em pouco tempo.
        Eu j  me acostumara a ter atr  s de mim a sombra de Alasdair
        Dorch; raramente me dava ao tra balho de falar com ele. Por outro
        lado, James das Pilhagens vinha ...s vezes conversar comigo, fosse
        no sal o do castelo, o que era grande honra para uma mulher,
        fosse ao ar livre, se a contecesse de me encontrar quando voltava
        de uma caada na montanha ou de uma pescaria no Spey. Estava
        bastante a par do que acontecia nas Lowlands e mesmo na Ingla-
        terra, a qual ele chamava de o velho inimigo.
          - O nico homem forte que eles tm l  embaixo para resistir
        ao rei ingls  o cardeal Beaton - afirmou. - Enquanto ele estiver
        numa posi o de poder, o perigo ser  menor.
          Eu disse que considerava o cardeal um homem presunoso e
        que n o gostava dele, j  o tendo visto na Frana e na corte.
          - Pouca gente gosta de Beaton - disse Am Grantach. - Ele
        manipula na"es, a Frana, a Esccia, a Inglaterra, tal como outros
        homens jogam xadrez. N o gosta m dele porque  bem-sucedido.
        Tem inimigos numerosos e sa be muito bem disso. Mas eu me jun-
        tarei a Beaton em qualquer liga de nobres escoceses; o rei Jaim.e
        n  o pode confiar naqueles que esto a soldo dos ingleses.
          - O cardeal, pelo menos, n o est  entre eles - comentei.
          - , n o est . Ele sempre se opor  ... fac  o dos Douglas. Dizem
        que estes vm preparando uma invaso da Esccia, por ordem do
        rei Henrique.
          - J  falam disso h  muito tempo; ouvi essa mesma histria
        antes de sair de Stirling - afirmei, hesitante; n o queria parecer
        saber mais do que ele, pois era bvio que se trata va de um homem
        bem informa do.
          - Bem, o ataque acontecer  mais cedo ou mais tarde - res-
        pondeu.


                                104
#                                I


                                         Ele se foi, com sua linha de pesca. Fiquei pensando naqui:
                                       tudo, e acariciei o pescoo de minha cabritinha.

                                         Ainda n o recebera notcias da rainha, e comeava a ficar pre
                                       cupada: ...quela altura, a gravidez devia estar bem adiantada,
                                       madarne j  teria tido tempo de escrever-me. Mandei outra carta,
                                       mais uma vez n o houve resposta; por fim, perguntei a Lady Grar
                                       que parecia estar ao eorrente de tudo, se as coisas andavam ber
                                       Respondeu que sim, pois tornara a receber notcias de Ernesid
                                       a casa de sua filha Margaret Cumming.
                                         - A rainha est , ou estava, em Peebles. O rei anda muito prec
                                       cupado com rumores da Inglaterra e tenta formar um exrcito. 
                                       velho Henrique Tudor est  furioso porque Jaime n o quer abai
                                       donar a Igreja.  tanta confus o que ningum ter  tempo de e
                                       crever.
                                         Eu tambm estava muito angustiada e desejosa de ficar junl
                                       da rainha para ajud -la, se me fosse possvel. Mas como poder.
                                       partir se ela n o me chamava?

                                         - O velho diabo ingls tentou provocar o rei Jaime a atravess;
                                       a fronteira ... fora; isso porque os direitos de Henrique na Escc
                                       n o foram ratificados e ele n o est  nada feliz com isso - explicc
                                       James das Pilhagens.
                                         Ian Mr, que caara com ele na montanha, assentiu; seu long
                                       brao balanava um par de lebres mortas. Os olhos das lebres e
                                       tavam vidrados, e o sangue se coagulava no focinho; Ian Mr 
                                       segurava pelas patas traseiras. A urze estava vermelha; era agost
                                       e a poeira tremeluzia com o calor do ver o. Ouvi consternada
                                       que diziam; se o rei tivesse sido capturado, o que aconteceria
                                       rainha e ... criana que estava para nascer? Exceto pelo carde;
                                       Beaton, n o haveria ningum mais para proteg-las.
                                         Eu disse isso, e os olhos dos dois homens se fixaram em mi
                                       com uma express o que n o consegui decifrar.
                                         - Se acontecer uma coisa dessas - falou Ian Mr -, a senhoI
                                       ver  que os cl s marchar o para a luta.
                                         Devo ter parecido espantada, pois Am Grantach disse genti
                                       mente:
                                         - Desde os tempos de Jaime IV, que se fez amar por ns, 


105
#Highlands tm sido fiis aos reis Stuart.  como o que sentamos
pelos Lords das Ilhas; s que, agora, eles n o est o mais conosco.
  - A n o ser pelo fato de que o usurpador Donald Gallda veio,
queimou o vale Urquhart e ficou l  por trs anos - resmungou
Ian Mr.
  Eu, porm, n o tive vontade de ouvir falar daquilo. Entrei no
castelo, voltei a pegar da pena e escrevi:

  "Madarne, suplico que me informe se posso ir ter com a senhora,
para ser-Ihe til de alguma maneira. Se, ao contr rio, a senhora
n o quiser que eu v , imploro que tambm me informe. Temo que
minhas cartas tenham se extraviado, pois n o recebi nenhuma res-
posta. Soube que as notcias s o muito ruins. Se a senhora permitir,
eu irei; sen o, rezarei. Sua sempre fiel e dedicada Claudine de
Vouvray".

  No final do ms, um mensageiro chegou a p, correndo. O rei
da Inglaterra armara Angus e o irm o; eles invadiram a Esccia,   ;
mas foram fragorosamente derrotados em Kelso e depois perse-
guidos at o sul. Quanto ... rainha, caminhara sete milhas em pe-   !
regrina o desde Edimburgo at o santu rio dedicado a Nossa Se-
nhora de Loreto, muito embora a gravidez j  estivesse bastante
avanada. Fiquei feliz em saber que o rei percorrera a cavalo parte
desse mesmo caminho. Mas continuei sem receber nenhuma cor-       ;
respondncia de madame.

  O ver o acabou, as  rvores da floresta se adelgaram, o gado foi
abatido, e as carcaas foram salgadas para o inverno e penduradas
nas cozinhas do castelo. Vi Christiania matar uma boa galinha
poedeira - estava ficando mais difcil arranjar comida, e comecei
a me achar um "nus. Em novembro, veio o alvio: finalmente che-
gou uma carta para mim, com selos escarlates. De incio, n o vi
que era de rnadame; na correspondncia particular, ela sempre usava
cera verde e um pequeno sinete que o pai lhe dera, com o p ssaro
her ldico sem ps e a cruz de Jerusalm. Os selos escarlates os-
tentavam o le o da Esccia; sem dvida, Madame Marie passara
a us -los agora que era rainha.


                          106
#  Abri a carta. Era curta e fora escrita numa caligrafia que eu n o
conhecia, provavelmente a de um secret rio.

  "Venha para a casa de Lady Maxwell, o castelo de Caerlaverock,
no sul", dizia. "L  ter  mais notcias. Marie R."1

  At a assinatura parecia diferente, menos esparramada; eu, en-
tretanto, n o vira muitas vezes a caligrafia de rnadarrte, pois n o
fora necess rio. A mensagem toda era estranha, mas quem se daria
ao trabalho de me escrever algo que n o fosse verdade? A velha
Lady Maxwell, pelo menos, era amiga; ansiei por v-la novamente
e ter mais notcias da rainha. Os Grant haviam sido gentis, mas,
no fim das contas, eu era uma estranha entre eles. Agradeci-lhes
a hospitalidade e anunciei que precisava partir.
  - E uma pena que a senhora precise viajar pelas estradas agora
em novembro, mas elas estar o piores em dezembro ou fevereiro
- disse Christian Grant, com a previdncia de uma mulher do
campo.
  Christiania me beijou, e lembrei a promessa que eu fizera a
mim mesma de mandar-Ihe um presentinho. Am Grantach, o pr-
prio James das Pilhagens, concedeu-me a honra de me escoltar
pelas primeiras milhas do caminho; depois disso, minha guarda
consistiu num nico homem, que valia por muitos: Alasdair Dorch
MacGregor, o qual ningum (e certamente n o eu) teria ousado
impedir que viesse.

  Atravess vamos a floresta, e a imensa estatura de Alasdair Dorch
ia facilmente se adaptando para evitar os galhos baixos; todos os
msculos de seu corpo se retesavam,  geis, e suas poderosas pernas
trabalhavam tal como deviam ter feito na caminhada para Carlisle,
muito tempo antes. O gorro redondo tinha uma pena de  guia e
se assentava na cabea como um elmo; as feies implac veis do
rosto eram de inspirar medo, e qualquer homem que encontr s-
semos teria hesitado em me atacar com aquela escolta. A essa altura,
eu quis me aliviar e tambm comer um pouco dos alimentos que
Christian Grant generosamente provera para a viagem: ovos co-

1  Forma abreviada dc Mnrie Regiria, ou rainhn Mnrin. (N. do T.)


                        107
#zidos com uma pitada de sal; um p ozinho fresco e v rios bolinhos
de aveia, que n o se estragariam; um pedao de carne de gamo;
e uma garrafa de  gua do Spey. Disse firmemente a Alasdair Dorch
que deveramos parar e comer; ele n o parecia trazer nenhum man-
timento consigo, a n o ser por um frasco no cintur o, e eu n o
podia deix -lo com fome.
  Ficou em p, segurando o p"nei, enquanto eu me afastava por
alguns momentos; quando voltei, ele estava esfregando, com mo-
vimentos circulares, uma espcie de pasta na agulha do p"nei.
Ofereci comida, mas recusou.
  - Estou preparando drnrnrrroch - explicou.
  Eu n o sabia do que ele estava falando, e fui comer um pouco
das provises. Alasdair Dorch tambm n o quis sentar-se, muito
embora eu o convidasse; depois de haver andado toda aquela dis-
tncia, sentar-se um pouco n o seria m  idia.
  - Fico em p para tomar o drarnrnoch - foi tudo o que disse,
e voltou a revirar a substncia na agulha do animal.  Perguntei o
que afinal era aquela coisa, de que eu nunca ouvira falar. Os olhi-
nhos negros me fixaram.
  - E farinha de aveia que eu trouxe na bolsa do cintur o e um
pouco de uisge-beatha, ou usque, como vocs o chamam. Um ho-
mem pode passar o dia inteiro com esse mingau. Ns, dos cl s,
n o lutamos a cavalo; por isso, s aprendi a fazer drarnmoch na
fronteira, no tempo em que andei por l . Eles levam a farinha nos
p"neis, misturam um pouco de usque e a preparam tal como a
senhora me viu fazer; quando saem para pegar gado dos outros,
isso os sustenta pelo dia todo.
  Ele agora estava tirando o mingau da agulha do p"nei e se
alimentando com aquilo; nada do que fez foi vulgar ou repugnante,
e, de algum forma, conseguia comer com os modos de um aristo-
crata. Quando terminou, disse:
  - S n o ofereo ... senhora por causa do usque.
  Falou com gravidade; sua fisionomia raramente se alterava. De-
pois, sumiu entre as  rvores, e, quando voltou, eu montei o p"nei.
Continuamos a viajar, parando de vez em quando num rio para
que Alasdair Dorch enchesse minha garrafa de  gua.
  Foi assim por todo o caminho at as Lowlands, e, quando pas-
samos por Stirling, eu j  estava me dando muito bem com o enorme


                           108
#MacGregor. As pessoas na rua olhavam espantadas quando nos
viam: eu, de coifa e vestido, montada com uma perna de cada
lado da sela, e junto a mim aquele montanhs gigantesco, de apa-
rncia t o temvel. N o ousavam mexer conosco, nem muito menos
nos molestar. A certa altura, paramos para comprar algumas ma s
que eu achara bonitas; e a mulher da banca nos contou que as
ltimas notcias eram bem ruins.
  - O rei mandou um grande exrcito para o sul, contra os in-
gleses, e outro est  no leste, em Haddington, com o cardeal.
  Ela estava bem informada, como os feirantes costumam estar,
pois ouvem todos os rumores. Guardei as ma s, pesarosa e apres-
sada. Pensei ter descoberto por que a rainha queria que eu fosse
para Caerlaverock: ela decerto viajara at a fronteira para ficar
junto do marido, mesmo com o parto estando j  t o prximo. Eu
precisava alcan -la quanto antes; n o dei mais aten o a Alasdair
Dorch, exceto para pedir que se apressasse, o que foi injusto; ele
n o perdia tempo durante a viagem, nem mesmo quando se de-
tinha para fazer drarnrnoch. Enquanto seguamos caminho, ele disse:
  - Se meu rei vai ... guerra, lutarei ao lado dele. Levarei a senhora
a seu destino e depois partirei.
  - Ent o, que Deus o acompanhe.
  Eu sabia que nada do que dissesse o impediria de ir e que ele
lutaria bem, mesmo tendo trazido apenas uma espada curta e ne-
nhum escudo.

  Caerlaverock era um castelo vermelho-rosado que se erguia num
cen rio verde e isolado. Por todo o camiriho, encontramos grupos
de homens armados que cavalgavam para a reuni o das tropas
em Solway Moss - e, tendo eu a escolta que tinha, mais uma vez
n o fui perturbada, muito embora olhassem cheios de curiosidade
para ns quando, finalmente, chegamos ao castelo. N o vi a cons-
tru o em seu melhor aspecto, pois, fazia uma ou duas horas, caa
uma chuva cada vez mais pesada. At ent o, n o chovera durante
a viagem, mas logo fiquei ensopada; a chuva me causava repug-
nncia desde aquela dia de aguaceiro em Fontainebleau no qual,
recm-violentada por Andelot, eu fora levada a uma alcova para
servir aos prazeres do rei Francisco; agora, meus pensamentos vol-
tavam ...quele episdio, e, por isso, acabei esquecendo o pobre Alas-


                       109
#dair Dorch, que estava t o encharcado quanto eu. Sua voz me
trouxe de novo ... realidade.
  - A senhora est  muito molhada, mas no castelo ter o uma
lareira para aquec-la.
  Seu rosto moreno estava voltado para mim, e gotas de chuva
corriam por suas faces. Eu lhe disse:
  - E para aquecer voc, Alasdair Dorch; precisam deixar que
voc tambm se sente junto ao fogo. Voc me acompanhou por
todas essas milhas e me trouxe em segurana at aqui.
  Eu sabia que no se oferece dinheiro a um montanhs, mas n o
tinha idia de como agradecer-Ihe de outra forma. Ele tornou a
desviar suas atenes para o p"nei, e disse tranqilamente:
  - A senhora n o se preocupe por minha causa. Posso torcer
 gua de meu manto e me deitar nele. J  fiz isso muitas vezes. O
pano molhado fica quente, e  bom dormir nele.
  Fiquei admirada com seu tremendo vigor; nada parecia abat-lo.
  - Vai levar o p"nei para a batalha? - perguntei. - N o devo
mais precisar dele.
  - N o, eu me saio melhor a p. Os ingleses ficar o com medo
quando me virem chegando, embora eu preferisse ter trazido minha
espada boa e o escudo. Mas o exrcito talvez tenha armas para
me emprestar, quando eu o encontrar.
  - Rezarei para que voc saia s o e salvo da luta.
  - Fico feliz com suas preces. E, se a senhora alguma vez estiver
em dificuldades ou em perigo, basta me avisar, e virei n o importa
onde estiver.
  Alcan ramos a pequena ponte levadia, que estava abaixada.
  - Prometo que assim farei - respondi.
  N o houve tempo para dizer mais, pois a porta se abrira, como
se estivssemos sendo esperados.  meia-luz, pude ver tochas mais
alm e uma figura alta de mulher, que usava coifa redonda.
  - A senhora  Madame de Vouvray?
  Respondi que sim. Ela olhou com desagrado para Alasdair
Dorch, que ainda esperava com o p"nei, encharcando-se na chuva;
o aguaceiro n o diminura.
  - Saia daqui, homem. - A voz era alta e impertinente. - Leve
a montaria com voc ou ent o deixe-a com os cavalarios e v
embora. Entre, madame.


                          110
#  Hesitei; n o gostei nem da mulher nem do que dissera a Alasdair
Dorch.
  - Ele n o pode entrar para se secar? - perguntei. - Fizemos
uma longa viagem, e ele est  com fome.
  Sabia que ele sobreviveria bastante bem com seu drctmmoch, mas
eu faria o possvel para n o v-lo maltratado. A mulher, no entanto,
mostrou-se inflexvel e me puxou para dentro, como se eu fosse
uma criana.
  - Preciso fechar a porta; a  gua j  est  entrando na casa.
  Olhei inutilmente ao redor, ouvindo as passadas do p"nei se
afastarem; Alasdair Dorch se fora sem ter nada quente no est"mago.
Decidi me queixar com Lady Maxwell quando a visse; ela n o
toleraria aquela desaten o para com um servidor, e um MacGregor
n o era qualquer um.
  Mas a mulher alta, removendo minha capa, deixou-me descon-
certada quando disse:
  - Sou Lady Maxwell.
  Tratava-se de uma pessoa fora do comum, pois n o era jovem,
e, mesmo assim, devia ser tremendamente atraente para os homens,
como eu bem podia imaginar. O busto se mostrava t o belo e
cheio que dominava sua silhueta, mas n o era nem cado nem
fl cido. Quando moa, seu cabelo devia ter sido muito claro; havia
escurecido um pouco e se assentava bem debaixo da coifa. Tinha
cintura fina, embora mais tarde eu viesse a descobrir que j  dera
.. luz muitas vezes. Os l bios eram cheios e, ao mesmo tempo,
firmes, como se estivesse acostumada a ser obedecida. As ma s
do rosto eram altas como as de uma gata, e a tez, bastante rubra.
Meu espanto a fez sorrir.
  - Com certeza, a senhora esperava encontrar minha sogra -
disse. - Ela est  em Galloway, junto com aquela demente, Beatrix.
Esta  minha enteada, Margaret, que ainda n o casou; e esta 
minha filha, Lady Fleming.
  Havia duas mulheres sentadas junto ... lareira - uma jovem, a
outra nem tanto. A tal Margaret que ainda n o casara mantinha
os olhos prudentemente baixos. J  Lady Fleming me encarou de
frente; ela tambm era atraente, com a mistura de fecundidade e
encanto que distinguia a m e. Convidaram-me a sentar com elas
e me serviram cerveja quente. Ainda que estivesse contente com


                           111
#a cerveja, hesitei em beb-la, desejando que Alasdair Dorch esti-
vesse ali para compartilh -la; ...quela altura, se eu o conhecia bem,
ele j  devia estar longe. Fiquei imaginando por que teriam me
chamado a Caerlaverock; prova velmente, acabariam me contando.
Mas Lady Maxwell (seu primeiro nome era Isabel, e era a mulher
do idoso lord barbado que eu vira pela primeira vez na Frana e
que conversara comigo no funeral da rainha Margarida) n o deu
nenhum sinal de que pretendia me informar da situa o. Em vez
disso, falou de si mesma.

  - Onde est  a rainha? - perguntei, depois que j  est vamos
sentadas havia alguns momentos junto ... grande lareira, onde o
fogo luzia bastante, apesar dos pingos de chuva que caam pela
chamin e sibilavam ao pousarem nas achas. Minhas roupas j
exalavam vapor, e eu comeava a ficar aquecida; mas ainda estava
muito apreensiva. N o parecia haver raz o alguma para que eu
tivesse sido trazida a Caerlaverock; e, agora, estava sozinha com
aquelas trs mulheres.
  - A rainha? A senhora pode muito bem me perguntar, j  que
tenho sangue de rainha nas veias.
  Eu n o queria ouvi-la, pois n o me respondera; mais tarde, po-
rm, eu lembraria sua histria, contada quando essa Lady Maxwell
estava em p diante do fogo; seu rosto parecia sereno, e o vestido
envolvia em dobras decorosas aquele corpo sedutor. As outras duas
n o diziam nada, e, cheia de incredulidade, percebi que, se Lady
Maxwell era m e de Lady Fleming, ent o j  era idosa. Lady Fleming
devia ter uns trinta anos, embora fosse difcil determin -lo. Mar-
garet era mais nova, mas n o chegava a ser muito mocinha. Depois,
vim a saber que, da prole de seu pai, ela era a nica mulher, e
que a mantinham em casa. Beatrix, a quem eu tentara ensinar fran-
cs em Falkland, estava casada com um dos outros filhos de Lord
Maxwell. Eu duvidava que ela fosse uma esposa sensata - toda
a famlia da moa tinha aquela loucura. O velho Lord Maxwell
fora com o exrcito para Solway Moss, e seu filho Robert se dirigira
para Lochmaben, onde o rei Jaime estava acampado; por isso as
mulheres estavam ss. Resolvi escutar Lady Maxwell, ou pelo me-
nos o fiz com metade de minha aten o. Foi um relato bastante
estranho.


                            112
#  Ela era filha natural do conde de Buchan; este, por sua vez,
descendia do segundo casamento da rainha Joana Bea ufort com o
cha mado Cavaleiro Negro de Lorn. Tal matrim"nio se dera aps
o assassnio do primeiro marido de Joana, o rei Ja ime I, j  que,
como viva, ela estaria desprotegida. Refleti que Ma rgarida Tudor
talvez houvesse estado na mesma situa o depois da morte de
Jaime IV na batalha de Flodden. Devemos ter falado disso, pois a
velha lady (embora eu n o devesse cha m  -la assim, uma vez que
n o dava sinais da idade, como rugas ou cabelo branco) sorriu,
com uma express o maliciosa no rosto.
  - O falecido rei era um homem ador vel. Foi meu amante.
Janet  filha dele. Ela gosta que a cha mem de Joan.
  Janet, ou Joan, ergueu o olhar e tornou a ba ix -lo. Parecia que
ela e Lady Fleming j  estava m habituadas ...s narrativas de Lady
Maxwell; tudo considerado, poucas mulheres tm tais histrias
para contar. Lady Maxwell continuou a falar de Ja ime IV. Disse
que ele era bondoso com todo mundo, mas n  o resistia a uma
mulher, "e aquela vadia de Galloway o deixou enfeitiado por mui-
tos anos". Segundo Lady Maxwell, ele costumava sair em peregri-
na o, caminhando milhas e milhas pa ra o norte, at o santu rio
de S o Duthac, em Tain, e para o sul, at o de S o Niniano, em
Whithorn. Tambm prendia asa s de p ssaro num homem e o fazia
voar. E praticava cirurgia e alquimia.
  - N o havia nenhuma novidade que ele n o quisesse conhecer
e experimentar. No final, tinha timas couraas e canhes franceses,
mas n o lhe serviram de nada, e todos os seus navios de guerra
foram perdidos no mar. Meu Lord Ma xwell perdeu muitos. - Seu
rosto se encheu de desprezo. - Acredito que as mulheres guer-
reariam melhor, pois n o s o tolas.
  Janet Fleming encarou Lady Maxwell e disse:
  - M e, est  escurecendo.
  - Pois n o  que est  mesmo? Precisamos levar Madame de
Vouvray at o quarto. A senhora jantar  l ; n o pomos a mesa
quando estamos sozinhas. Mas eu ainda n o lhe falei de meus
dois falecidos maridos. - Ela agora subia as escadas, segurando
as saias bem alto, e eu a seguia, sentindo-me exausta. - O primeiro
foi o conde de Bothwell, que morreu em Flodden; eu Ihe dei Patrick,
o Belo Conde, como o chamam; Patrick e eu temos o mesmo tom


                            113
#de pele. Depois veio Lord Home. Se meu Lord Maxwell for morto
esta noite, n o duvido de que eu arranje um quarto marido; rara-
mente fico sem um homem na cama.
  Sorriu para mim por cima do ombro; era o sorriso de uma bruxa.
  Vi a cama ... minha espera. Apareceu uma criada, e ela e Lady
Maxwell me despiram; depois, puseram em mim um vestido que
estava sobre uma cadeira; era de cetim forrado com plo de carneiro
e me aqueceu bastante naquela noite de novembro.
  - Secaremos as roupas da senhora l  embaixo - disse Lady
Maxwell, e foram embora com todas as minhas coisas, at os sa-
patos, deixando-me apenas com o vestido de cetim no corpo.
  O jantar estava l , conforme prometido; tentei comer um pouco,
mas n o consegui. Sentia-me como se tivesse sido lograda para
vir a Caerlaverock, embora ainda no conseguisse imaginar o pro-
psito daquilo. N o havia notcias da rainha; a pergunta que fiz
a seu respeito fora simplesmente ignorada. No dia seguinte, quando
estivesse descansada, insistiria em saber o que se passava com
madame e por que eu me encontrava ali.
  No havia lareira, mas o quarto tinha um braseiro; eu me deixei
ficar na cadeira junto a ele, certa de que ali estaria mais aquecida
do que na cama. As brasas refulgiam contra a escurid o. A certa
altura, julguei ter ouvido algum chegar a cavalo e, um pouco
depois, subir as escadas; no entanto, era difcil ter certeza, por
causa do barulho da chuva. Fiquei imaginando o que acontecera
com Alasdair Dorch e se ele encontrara o exrcito. Lochmaben era
mais perto; Alasdair, no entanto, preferira o camiriho para Solway
Moss.
  O trinco da porta foi levantado, e um homem de barba ruiva,
segurando uma vela acesa, entrou no quarto. Era o rei da Esccia.
  - E ent o, freirinha? Como a senhora v, eu a encontrei mais
uma vez.
  Percebi que seria intil gritar. A tempestade abafaria o som, ou
ent o as mulheres l  embaixo fingiriam n o ouvir. Naquele mo-
mento, lembrei o olhar que Lady Fleming lanou ... m e quando
disse que estava escurecendo; a alcoviteira ent o me levou para
cima.
  O rei colocara a vela no ch o e j  se pusera em cima de mim;
estando bastante habituado a fazer isso com tantas mulheres, logo


                           114
#me possuiu, ainda na cadeira, com meu vestido t o aberto quanto
sua braguilha. Depois, acabou de tirar minha roupa e me carregou
nua para a cama. Lutei em silncio; n o importava que ele j  hou-
vesse me possudo na cadeira; n o lhe daria t o facilmente uma
segunda vitria, nem uma terceira.
  Chutei e mordi - e Jaime V ficou furioso. Ele me deitara na
cama e agora estava de p, olhando para mim; seus olhos estreitos
pareciam cheios de uma raiva gelada.
  - Por Deus, madame, se a senhora n o atender a seu rei, eu a
entregarei aos soldados. Eles acabar o com esse seu pudor.
  Fiquei aterrorizada, mas n o deixei que ele percebesse; no en-
tanto, permiti que se deitasse sobre mim e fizesse o que desejava.
Virei o rosto; quando ele acabou, percebeu o que eu estava fazendo
e riu, furioso.
  - Isso n o adianta nada.  s eu apertar seu narizinho. V? A
senhora agora ter  de abrir a boca, e a...
  Quando fiz isso, ele enfiou a lngua e fez todo tipo de outras
carcias (se  que se pode cham -las assim), e nenhuma parte de
minha nudez deixou de ser exposta ou tocada. O grande leito j
estava sacudindo, e eu sabia que as mulheres no andar de baixo,
se ainda estivessem l , perceberiam isso e sorririam umas para as
outras, cheias de malcia. Uma fria e uma altivez imensas tomaram
conta de mim; decidi que em hiptese alguma eu me queixaria ou
choraria; n o daria tal satisfa o ...quela gente.
  Satisfa o, no entanto, foi algo que Sua Majestade, o rei da Es-
ccia, acabou por obter, e tanta que s saiu de cima de mim quando
j  amanhecera. Partiu sem que eu lhe perguntasse se e quando
voltaria; mais tarde, a criada trouxe comida fresca e tambm  gua
para que eu me lavasse. Fiz isso; depois, penteei o cabelo e pus o
vestido enquanto levavam embora as cinzas do braseiro e tornavam
a acend-lo. Ningum mais se aproximou de mim o dia todo.
   noite, o rei voltou; era possvel que houvesse estado em Loch-
maben, mas n o perguntei. N o trocamos palavra, e ele n o pareceu
desejar nenhuma conversa comigo, limitando-se a possuir-me tal
como antes, s que agora com ainda mais urgncia. No dia seguinte,
veio quando ainda havia luz e tornou a fazer amor daquela sua
maneira; mas parecia distante e pensativo, como se meu corpo o


                          115
#confortasse em lugar de alguma outra coisa que ele preferiria ter
e n o podia.
  Depois que foi embora, vistoriei minhas machucaduras. O tempo
passou. A certa altura, ouvi o trinco e pensei que o rei estivesse
de volta; mas era Lady Maxwell, e estava lvida. Trazia minhas
roupas e meus sapatos.
  - Nosso exrcito sofreu uma grande derrota em Solwa y Moss
- ela disse. - Os escoceses ficaram a tolados nos charcos e foram
aniquilados. S que muitos j  haviam voltado para casa, pois o
rei n o estava no comando, e sim Oliver Sinclair. Meu marido e
meu genro foram feitos prisioneiros.
  Olhou-me de modo acusador, como se dissesse que por minha
causa o rei n o estava na batalha.
  - Seu p"nei est  na cava laria - continuou. - Se posso lhe
dar um conselho, monte e saia daqui bem depressa. H  falta de
cavalos, e logo os nossos soldados vir o procurar montarias e su-
primentos; talvez os ingleses faam o mesmo.
  Amontoei minhas roupas e fiz o que ela dizia. Meu nico consolo
era que parara de chover.

   O p"nei estava indo s a meio trote, e ainda assim de um jeito
arisco, pois fora bem alimentado no castelo e n o queria partir.
Eu n o me encontrava em condies de montar sem sentir dores,
e cheguei a achar que desmaiaria antes mesmo de sairmos de Caer-
laverock; mas mordi o l bio e agentei firme. O que me salvou
foi a vis o do caminho que Alasdair Dorch tomara para trazer-me
1 ponte do castelo trs dias antes. Seguindo a estrada da esquerda,
eu iria encontrar o exrcito em retirada e possivelmente ser objeto
da rapinagem dos ingleses. Por isso, a nica coisa a fazer era pegar
a estrada da direita e ir para as colinas; em minha mente, estupi-
dificada pelos acontecimentos dos dias e das noites anteriores, pa-
recia que no final eu chegaria ... costa leste e encontraria Madame
Marie num de seus pal cios; se ela retornara a Stirling, eu precisava
alcan -la t o logo houvesse descansado em Edimburgo ou Falk-
land, onde me conheciam. Por um momento, temi que estivesse
sem dinheiro, mas verifiquei que minha bolsa ainda estava comigo,
e cheia; n o havia muita coisa para comprar na viagem de Freuchie
at ali, e Lady Maxwell, a despeito de todos os seus defeitos, no


                             116
#roubara minhas moedas. Fiquei muito aliviada por ainda estar com
elas; no entanto, senti falta das ma s que compramos em Stirling
e que n o comemos; alm disso, n o tinha ma is a bagagem, pois
n o tivera tempo de peg -la. Pensei em Alasdair Dorch e desejei
que estivesse ali comigo; eu j  chegara ...s colinas, descalvadas e
solit rias; o caminho me era estranho, mas fui em frente.

  N o sei como consegui concluir a jornada. Felizmente, eu podia
parar quando via um monte de feno, perguntar se havia alguma
forragem para o p"nei e me prontificar a pagar por isso e por um
pouco de leite para mim mesma (desde aquela poca, aprendi que
um ser humano, se n o tiver p o, pode sobreviver s com leite).
Por vezes, as pessoas do campo nem deixavam que eu pagasse;
em uma ou duas ocasies, olharam-me cheias de curiosidade, pois
uma mulher cavalgando sozinha n o era coisa comum.
  - Houve uma batalha no sul; muitos morreram - eu lhes dizia,
e ficava desejando que achassem que meu homem estava entre os
mortos e tivessem pena de mim; do contr rio, poderia ser atacada e
usada tal como o rei Jaime me usara; ou, pior, acabar sendo morta.
  Quando conseguia pensar no rei, s podia concluir que ele, es-
tando casado com tal esposa e tendo se portado daquela maneira
comigo e com outras mulheres, n o merecia sen o o desprezo mais
completo. Em meu caso, eu sabia que o comportamento do rei
fora em parte uma puni o: j  o contrariara diversas vezes, e lem-
brei que o sangue Tudor o fazia alimentar rancor por muito tempo
e vingar-se inesperadamente. Enquanto estivera deitado comigo,
Jaime dissera algumas coisas que deixaram claro que ele armara
todo aquele logro complicado, com a carta e os selos escarlates,
por vingana; eu fora mesmo uma tola por ter-me deixado enganar.
N o consegui me livrar da sensa o de que agora esta va conspur-
cada, mais ainda do que no episdio com Andelot. Afinal de contas,
o que se passara em Vouvray s dizia respeito a mim; mas o que
acontecera em Caerlaverock iria magoar a rainha. Quando eu sa-
rasse das machucaduras, talvez conseguisse parar de pensar na-
quilo. Se pelo menos Alasdair Dorch estivesse comigo! Quais ha-
viam sido mesmo suas palavras? "Se a senhora alguma vez estiver
em dificuldades ou em perigo, basta me avisar, e virei n o importa
onde estiver." Mas, ainda que estivesse vivo, eu n o tinha como


                        117
#mandar avis -lo no meio de um exrcito em fuga. A idia de que
pudesse estar morto me trouxe l grimas aos olhos; mas era bem
prov vel, pois Alasdair Dorch certamente teria estado na linha de
frente, mesmo n o tendo mais do que a espada curta. Lembrei-me
da cabritinha branca e de como ele me ensinara a ordenh -la. Re-
cordei muitas coisas mais.
  A viagem tomou v rios dias. Numa ocasi o, dormi num monte
de feno, enrolada na capa, pois estava ficando escuro e frio e n o
me foi possvel seguir caminho. O p"nei se alimentou do feno, e
de manh  cedo fui rudemente despertada pelo dono do lugar, que
me tomou por andarilha e me enxotou. Minha aparncia n o se
beneficiou em nada com essa histria toda: meu cabelo estava cheio
de palha, minhas roupas estavam sujas, e mais tarde, quando tentei
arranjar uma cama numa estalagem de Hawick, n o me deixaram
entrar. Assim, continuei viagem, e j  me parecia que eu estivera
cavalgando a vida toda e que continuaria a faz-lo pela eternidade
afora. Felizmente, n o encontrara ningum na estrada; aquelas co-
linas tm lugares bem ermos.
  Acabei chegando ao vale do Teviot e depois ao do Tweed; por
fim, avistei ao longe uma cidade cintilante, onde se viam sentinelas
nas muralhas. Sabia que s podia ser Berwick-upon-Tweed, do
outro lado da fronteira; por isso, afastei-me desse basti o ingls,
fui para o norte e me alegrei muitssimo quando vi o mar. Tudo
o que precisava fazer agora era seguir a costa at onde desejava
ir; mas estava muito cansada, assim como o pobre p"nei. Desmontei
e caminhei um pouco com ele; logo depois, apareceu um homem
a cavalo. 1 distncia, havia um castelo vermelho-rosado, muito
parecido com Caerlaverock, s que maior; tratava-se de uma for-
taleza. O cavaleiro vinha de l . Ele tomou a estrada principal, e
vi que era o rei.
  Eu me encolhi, esperando que Jaime n o notasse uma n"made
que caminhava com seu p"nei; e n o me notou mesmo, pois j
n o percebia mais nada. Seus l bios se moviam - estava falando
sozinho. Parecia um sonmbulo. Quando passou por mim, ouvi
as palavras que ele n o parava de repetir:
  - Que vergonha! Oliver fugiu? Pegaram Oliver?
  Oliver Sinclair estava no comando em Solway Moss. A notcia


                         118
#da derrota parecia ter abalado a mente do rei. Fiquei olhando at
que ele sumisse de vista.

  Cerca de uma hora depois, tive menos sorte; dois brutos surgi-
ram diante de mim, num local que eu n o soube determinar. Eu
voltara a montar, e eles me arrancaram da sela; comearam a fazer
gracejos sobre mulheres que andavam sozinhas pelas estradas, e
vi que n o pretendiam apenas roubar o p"nei. Pode parecer que
o que j  me ocorrera tornasse irrelevante o que acontecesse a seguir,
mas eu ainda tinha meu orgulho; lutei contra eles e os chicoteei;
em v o tentei lhes dizer que estava ndo a Edimburgo para me
encontrar com a rainha.
  - A rainha?! Ela n o vai querer ver algum como voc. Passe-a
para c , Geordie.
  Geordie, que estava olhando para a vala ... beira do caminho,
respondeu:
  - N o, eu a vi primeiro e por isso vou ser o primeiro.
  Foi ent o que percebi l  longe o clar o das armaduras e um
rasgo de vermelho vivo. Comecei a berrar e tentei correr at esses
cavaleiros; mesmo se fossem ingleses, n o poderiam ser piores do
que aqueles dois rufies (se eu j  n o tivesse perdido todo o senso
de dire o, teria visto que os cavaleiros vinham do norte, e, por-
tanto, s podiam ser escoceses).
  O homem que estava ... frente do grupo usava elmo e vestia um
manto escarlate por sobre a armadura brilhante. Eu o reconheci e
gritei seu nome, enquanto Geordie e seu amigo continuavam a me
puxar.
  - Milord! Cardeal Beaton! Au sccours! Au secours! fl moi!
  Disse todas as coisas que consegui pensar em francs; falei que
o vira em Paris e que era amiga da rainha; tornei a implorar:
  - Ajude-me! Je vous prie! A moi!
  Os dois brutos deixaram que eu cambaleasse at ele; haviam
recuado e j  mostravam no rosto uma resigna o sombria, pois o
nome do cardeal era conhecido em toda parte. Ele me olhou do
alto do cavalo e disse, tambm em francs:
  - N o a conheo, madame. Como veio parar aqui?
  Eu sabia ser bem duvidoso que ele se lembrasse de mim, e minha
aparncia suja e abatida n o ajudava. Respondi sem mencionar


                             119
#nada do que acontecera em Caerlaverock; limitei-me a dizer que
atravessara a cavalo as colinas da fronteira.
  - Estamos ... procura do rei - explicou o cardeal. - Desde
que chegaram notcias da derrota, n o se sabe onde ele possa estar.
H  um rumor de que foi visto pela ltima vez em Tantallon.
  O cardeal olhou para a frente, protegendo os olhos com a m o
para enxergar melhor. Percebi ent o que a fortaleza vermelho-ro-
sada pela qual eu passara era Tantallon, o antigo basti o dos Dou-
glas, agora livre daquele cl . Lembrei que algum, talvez Lady
Drummond ou a velha Lady Maxwell, dissera que o rei mantinha
ali uma amante, que administrava a residncia da mulher de Oliver
Sinclair. Aparentemente, eu n o fora o bastante para Jaime. Ou,
ent o, ele talvez tivesse cavalgado at l  apenas para levar ... esposa
de Sinclair a notcia da derrota (mas, na estrada, ele n o parecia
um homem que estivesse levando notcias para algum). Em todo
caso, contei ao cardeal que o rei acabara de passar por mim.
  - Ent o sou grato ... senhora - respondeu, enquanto seus olhos
escuros me avaliavam; tive a sensa o de que ele saberia dizer se
eu estava mentindo ou se me equivocara. - Talvez o tenhamos
perdido no ponto em que a estrada se bifurca.
  Virou-se e, como um militar, deu ordem para que um destaca-
mento se desligasse do grupo principal e fosse procurar o rei na
dire o que eu indicara. Esse destacamento nos alcanou mais tarde
e informou que n o achara nenhuma pista do rei (s depois se
descobriria aonde ele fora). O cardeal fez sinal para um dos sol-
dados que cavalgavam a seu lado e tambm para um homem sem
armadura, que usava h bito negro.
  - Patrick, irm o Melville, levem esta dama at Saint Andrews.
Digam a dona Marion que prepare comida quente e um quarto.
N o precisam voltar; faremos de novo o caminho at Haddington
e, depois que tivermos verificado tudo, iremos para casa.
  Isso significava que o cardeal, por ordem do rei, estivera de-
fendendo os acessos ... capital, para a eventualidade de um avano
ingls rumo ao norte; mas, pelo menos at aquele momento, o
inimigo ainda n o fizera tal coisa.
  O p"nei fora recuperado e veio conosco, mas eu j  n o o mon-
tava. Fui na garupa de Patrick; sentia-me um trapo, e fiquei grata
por poder me segurar no casaco de couro daquele soldado. O mon-


                           120
#ge vestido de preto tinha montaria prpria e nos acompanhava
em silncio.

  Minhas lembranas dessa outra jornada n o s o mais ntidas
do que as que tenho da anterior; acho que dormi a maior parte
do caminho e que s fui impedida de cair por algum anjo da guarda
que nos protege durante o sono. Quando acordei, j  havamos dei-
xado o campo aberto e est vamos percorrendo as ruas de uma
cidade. Vi o estu rio do Forth e o Queer s Ferry: est vamos em
Edimburgo. Pagamos a tarifa de travessia e embarcamos com os
cavalos numa balsa que nos levou at a outra margem. Ent o,
como antes, eu estava tonta demais para perguntar por que motivo
o cardeal me despachara t o para o norte; mais tarde, porm, per-
cebi que ele, muito naturalmente, pensara em me mandar para
sua casa, e que, naquelas circunstncias, aquele era mesmo o melhor
lugar para me enviar, sobretudo porque a rainha entraria a qual-
quer momento em trabalho de parto. Eu estava ciente disso, e a
meus outros males se somava uma ansiedade tremenda. Teria sido
intil pedir a minha escolta que me deixasse em Edimburgo, de
onde eu poderia ter viajado mais depressa para qualquer local em
que rnadame estivesse. Os dois homens tinham recebido ordens e
as seguiriam. Ocorreu-me ent o que o cardeal, se n o fosse clrigo
e diplomata, daria para comandante de exrcitos, pois estava claro
que era um homem de muitos talentos.
  Isso me veio novamente ... cabea quando me recuperei um pou-
co. Havamos parado para comer o p o que compr  ramos no ca-
minho, e perguntei a Patrick quem era a tal dona Marion. Eu j
imaginava quem fosse, e tinha certeza de que a vira antes; mas
queria saber o que ele iria dizer. Mastigando, o soldado respondeu:
  - Ela consola o cardeal. Os dois tm oito filhos.
  O jeito simples como falou me fez cair na gargalhada; depois
de tudo por que eu passara, de repente n o conseguia mais parar
de rir, tal como, um pouco antes, n o conseguira parar de chorar.
  O homem de h bito preto disse serenamente:
  - Tenha calma.
  Ele quase n o falara durante a viagem. Estava curiosa a seu
respeito, e, quando tornamos a montar, perguntei a Patrick, em
voz baixa, quem era ele.

                            121

#  -  um frade franciscano - respondeu o soldado. - Ele tra-
balha bastante para o cardeal e o ajuda com o trabalho de escrita.
- Olhou para tr s, a fim de se certificar de que o frade no nos
ouvia, e avisou: - Se a senhora escrever alguma carta, fique de
olho em dona Marion. Ela  muito boa em imitar a letra dos outros.
  Eu estava morrendo de curiosidade de ver dona Marion, que
consolava o cardeal, dera-Ihe oito filhos e sabia falsificar caligrafias.

  As surpresas no acabaram a. Chegamos a Saint Andrews, e
fiquei aliviada quando vi o castelo, que se projetava acima da ci-
dade; imaginei que iramos at l , mas, em vez disso, os dois ho-
mens desmontaram em frente a uma casa despretensiosa, com fa-
chada de pedra, e bateram ... porta. Fomos recebidos por uma cria-
da, que usava um avental limpo, e pouco depois surgiu a dona
da casa. Eu no conseguia imaginar Beaton aparecendo por ali em
suas vestes cardinalcias; mais tarde, descobri que, quando ele pre-
cisava de consolo, Marion Ogilvy ia at o castelo e entrava de
mansinho pelo port o dos fundos. Olhei um pouco espantada para
ela. Muito tempo antes, na noite do batizado do prncipe James,
eu vira seu rosto resoluto ... luz das tochas, ali mesmo em Saint
Andrews. Era um rosto impossvel de esquecer.
  Por um momento, no consegui falar nada. Ela olhou para mim
e disse:
  - A senhora precisa  de um bom banho quente e de uma
cama macia. Providenciarei para que se cuide disso.
  Voltou-se e deu ordens ...s criadas. Conclu que ela e o cardeal
formavam um bom par; ambos sabiam o que queriam, tinham
talvez poucos escrpulos e no alimentavam iluses a respeito um
do outro. Mas Marion Ogilvy percebera que eu precisava de cui-
dados, e por isso Ihe fiquei grata.

  Passei quatro dias na casa de Marion Ogilvy e me vi tomada
por uma espcie de lassid o, de tal modo que nem sequer pensei
em minhas obrigaes para com a rainha, muito embora soubesse
que precisava ir encontr -la de imediato. Quando enfim me levantei
da cama e desci trmula para o andar de baixo, conheci os oito
filhos do cardeal Beaton, ou pelo menos a maioria deles, que iam
desde rapazes j  crescidos at uma garotinha agarrada ... sua boneca


                          122
#de madeira. Todos se pareciam com o cardeal: tinham seus tra os
marcantes e seus olhos escuros e atentos; ou talvez o cardeal e a
amante, como muitos casais, tenham acabado por ficar parecidos
depois de tantos anos juntos. Enquanto eu estive no Zuarto, Ma rion
veio sentar-se na beira da cama e conversar comigo; tinha cabelo
escuro por baixo da coifa de linho, e, quando sorria, duas covinhas
fundas apareciam em suas fa ces. Seu corpo era forte e ereto, e ela
no ostenta va roupas suntuosas - a li s, no tinha nada de a fetada.
J  no lembro como foi que tocamos no tema do sacerdcio; talvez
tenha sido Marion quem o trouxe ... baila, sem fingimento nem
pudor. N o pude deixar de admirar sua honestidade.
  - Os clrigos s o homens, e os homens tm necessidades. Por
que no poderiam atend-las e ainda assim ministrar os sacramen-
tos? Isso  o que o cardeal sempre diz, e ele  um servidor da
Igreja t o bom quanto qualquer outro; o papa sabe disso e at o
dispensou da viagem a Roma para buscar o capelo. Eu e ele nos
conhecemos quando j  no ramos moos, e nos da mos bem; se
no fosse assim, j  teramos nos separado h  muito tempo. - Ela
sorriu, e as covinhas se aprofundaram. - Eu era a mais nova da
famlia; minha m e era jovem, mas meu pai j  havia casado outras
trs vezes e tinha mais de sessenta anos quando nasci. Depois que
ele morreu, minha m e no tornou a casar, e a vida foi muito
solit ria at eu conhecer Davy; todos os meus meios irm os tinham
idade suficiente para ser meu pai, e minha m e e eu vivemos so-
zinhas por muitos anos. Agora sou amante dele e dona de meu
prprio nariz, e fico feliz com isso - afirmou, leva ntando 1 cabea
com altivez. - Um dia desses, a senhora precisa ir conhecer minha
casa em Arbroath;  maior do que esta, mas fico aqui a maior
parte do ano, para estar perto do cardeal.
  Tinha sempre o cuidado de referir-se a Beaton pelo thilo, mas
gostei ainda mais dela quando cometeu o lapso de cham -lo de
Davy.
  Foi pouco depois disso que desci para o andar de baixo; vi
ent o que uma das meninas, Margaret, ou Mag, de uns catorze
anos, era a imagem da m e e tinha o mesmo ar confiante de quem
sempre conseguia o que desejava, no importando como. Quando
eu disse que precisava viajar para me encontrar com a rainha (que
descobri estar em Linlithgow), Marion Ogilvy replicou que eu no


                       123
#estava em condies de ficar cavalgando o dia todo, pois ainda
no me restabelecera por completo.
  - A senhora deve ir de liteira, pelo menos at a balsa. Mag ir
acompanh -la at l .
  Era muita gentileza; a liteira tinha almofadas e se mostrou bas-
tante confort vel; Mag me contou que, no auge do inverno, colo-
cavam um braseiro ali dentro. Mas, embora j  fosse comeo de
dezembro, ainda no fazia frio; longe da costa leste, o ar ficava
mais quente. Recostei-me nas almofadas e pensei como seria rever
Madame Marie. N o iria dizer-Ihe nada, absolutamente nada, do
que acontecera. Madarne precisava acreditar que eu apenas levara
mais tempo para vir das Highlands do que o esperado; eu no
iria mencionar a falsa carta. Foi a melhor solu o que consegui
encontrar, e s esperei que funcionasse, pois rnadame era esperta.
Tambm desejei que ela se alegrasse por rever-me.

  O lago de Linlithgow j  estava congelado quando l  cheguei em
companhia de um grupo de viajantes pelos quais, por motivo de
segurana, eu esperara na estalagem da balsa. O ca valo que eu aluguei
era bastante dcil, e Marion Ogilvy, cuja bondade eu jamais esque-
cerei, me emprestou dinheiro para a viagem, uma quantia que eu
iria devolver t o longo dispusesse novamente de minhas rendas.
  Por fim, entrei no castelo, um pouco esfarrapada, mas limpa;
estava exausta, o que se devia ... viagem; mas meu rosto, quando
o vi de relance num espelho de parede, estava branco como giz.
Belisquei as faces e mordi os l bios para deix -los vermelhos -
no queria parecer doente quando encontrasse Sua Graa. Refleti,
e no foi a primeira vez, que ela preferia essa forma de tratamento,
enquanto Jaime V e Henrique VIII insistiam sempre em ser cha-
mados de Majestade. Eu j  voltara a pensar no rei Jaime como
algum distante, quase desconhecido; o que acontecera em Caer-
laverock poderia ter sido apenas um sonho desagrad vel. Mas a
derrota militar no era sonho nenhum; ouvi falar do assunto na
estalagem, e as pessoas j  diziam que fora uma desgraa pior
do que Flodden; em Flodden quase todos os nobres da Esccia
tombaram lutando bravamente com seu rei, ao passo que em
Solway Moss no houvera luta, apenas retiradas nos charcos,
com poucos mortos em batalha e muitos prisioneiros sendo le-
vados para a Inglaterra.


                           124
#  Eu j  estava quase chegando aos aposentos da rainha, pois seu
criado, Alan Leboeuf, me conhecia bem e mostrara o caminho;
puxei a cortina da porta com cuidado, no caso de madarne se en-
contrar em trabalho de pa rto, e me preparei para entrar. Pude ver
que ela estava sentada diante da lareira, com o ventre bastante
dilatado; usava um manto de peles e uma coifa leve de linho. Suas
longas m os estavam pousadas no colo, e vi a luz do fogo refletir-se
nos anis. Era como se rnndnrne estivesse t o-somente aguardando
o parto; no entanto, j  devia saber da batalha e de seu triste re-
sultado.
  Hesitei, e nisto outra porta se abriu, e o rei entrou. Emagrecera
desde que eu o vira na estrada. Sua boca se movia continuamente,
como se no parasse de falar sozinho; parecia no saber onde es-
tava. A rainha olhou, mas no se levantou para fazer a reverncia;
naquele seu estado, isso no seria possvel, e, ademais, pensavam
estar a ss - se  que o rei ainda era capaz de pensar. Foi rnadnrne
quem falou primeiro.
  - Anime-se. Nada est  perdido. Ainda h  muitos homens leais
na EsccScia, e lutar o se necess rio. Nosso filho, quando nascer, ir
confort -lo.
  Estendeu a m o para ele, mas a deixou eair; pode ser que o rei
nem a tivesse ouvido.
  Ele comeou a falar. Talvez at fosse sua ltima fala com algum
sentido; ainda assim, no passava das divagaes de um menino.
Falou de vingana, sempre vingana, contra os lords que o traram,
impedindo-o de combater quando era essa a sua inten o; jurou que
iria capturar todos os que tinham fugido de Solway Moss sem lutar,
como alguns de fato fizeram; e, por fim, culpou o cardeal Beaton.
  - Ele  o grande respons vel - eu o ouvi dizer. O cardeal o
aconselhara a reunir tropas contra uma possvel invas o inglesa.
  - Ele  seu amigo. Tambm  amigo da Frana, que pode nos
mandar auxlio - replicou a rainha. - Por isso, e porque o cardeal
no quer mudar a Igreja neste pas, o rei da Inglaterra o teme.
Esta  nossa garantia, e voc precisa ater-se a ela; no tenha receio,
pois logo chegar  ajuda do exterior.
  Mas o rei se virou e foi embora; e, antes que eu pudesse entrar
no quarto, algum me agarrou ... altura do cotovelo. Era Lady Rot-
hes, uma coitada cujo marido vivia atr s de outras mulheres; por
essa raz o, passava o tempo sozinha na corte. Atr s dela estava ,


                            125
#jovem Marion Seton. Puxaram-me pela manga, e tive de acompa-
nh -las; quando olhei para a rainha, ela estava como antes, aguar-
dando o nascimento.
  - Sua Graa pediu para no receber ningum - sussurrou
Lady Rothes. - A senhora precisa ir embora.
  Marion Seton no disse nada, mas se p"s entre mim e a porta.
  Eu estava trmula e indecisa: ser  que madame no receberia
nem a mim? A vis o do rei, o som de sua voz t o alterada me
levaram de volta a Caerlaverock. Com pernas nada firmes, segui
Lady Rothes e acabei dormindo na mesma cama que ela, pois ainda
no havia ordens para que eu fosse alojada no pal cio. Mas Lady
Rothes providenciou para que me alimentassem e ia me contando
as notcias; segundo ela, o rei cavalgara at Hallyards, a casa da
idosa Lady Grange, e ceara l .
  - Aceite sem ofensas a vontade de Deus - dissera Lady Grange,
inutilmente.
  - Minha parte neste mundo ser  breve - respondera o rei. -
N o estarei com vocs nem por quinze dias.
  Os servidores de Jaime vieram ent o perguntar onde queria pas-
sar o Natal, e ele sorriu amargamente, dizendo:
  - N o sei; escolham vocs o lugar. Mas uma coisa eu lhes digo:
vocs ficar o sem patr o antes do Natal, e o reino ficar  sem rei.
  Repetia interminavelmente as palavras que eu escutara na es-
trada de Tantallon:
  - Que vergonha! Oliver fugiu? Pegaram Oliver?
  Por fim, ele rumou para Falkland e se recolheu ao leito, anun-
ciando que no iria levantar-se mais - e no o fez.
  - Dizem que um medo horrvel est  tomando conta do povo
- contou Lady Rothes.
  Eu estava mais preocupada em ouvir os sons que me chegavam
dos aposentos da rainha; ouvira passos que sabia serem os da
parteira. Rezei para que minha senhorinha no morresse de parto,
depois de todo o sofrimento pelo qual passara. Mas no morreu,
e as dores do parto foram curtas; a criana, ali s, nasceu antes do
esperado. No devido tempo, recebemos a notcia: era uma menina
lindssima. Esperava-se que sobrevivesse.

  O rei, por outro lado, no sobreviveu. As baladas nos falam de
homens que morreram de confus o mental e de cora o partido;
mas eu no acreditava que isso pudesse acontecer no mundo real.


                          126
#Talvez jaime V no fizesse parte de nosso mundo; como j  men-
cionei, ele tinha um qu de magia, sendo o nico filho sobrevivente
de Jaime IV e Margarida Tudor, o soberano que se disfarava de
homem comum, o poeta que escrevera Christ's Kirk on the Greert.
Agora, desejava morrer, pois no achava que tivesse motivos para
viver. Certos lords estavam com ele em Falkland: Sir David Lindsay
of the Mount, o velho tutor do rei; o prprio cardeal Beaton; e
outros mais. O cardeal foi o nico a tentar extrair ordens sen-
satas do rei; Jaime V j  delirava. Mais tarde, acusaram Beaton
de ter forado o rei moribundo a assinar um documento que
nomeava o prprio cardeal e os condes de Moray, Huntly e
Argyll como regentes; a notcia do nascimento de uma prin-
cesa no alegrara o rei.
  - Comeou com uma mulher e vai terminar com uma mulher
- sussurrou o moribundo. Muito tempo antes, os Stuart haviam
chegado ao trono por intermdio de Margarida, a filha de Roberto
I Bruce que morrera dando ... luz um herdeiro. Jaime V tivera uma
revela o; ou talvez ele, como seu pai, sempre as tivesse. De qual-
quer modo, o cardeal pegou Jaime pelo brao, quando o rei j  se
aproximava da morte, e Ihe disse ao ouvido:
  - Majestade, pense em seu reino!
  O rei, no entanto, j  no ouvia.
  Pouco antes da meia-noite de 14 de dezembro, ele despertou
da febre, virou-se na cama, reconheceu todos os que ali estavam,
deu o que descreveram como "um risinho", jogou um beijo para
eles e morreu.
  A nova soberana da Esccia nascera seis dias antes e agora tinha
um nico protetor: sua m e, Maria de Lorena.

  Tais notcias ainda no haviam chegado a Linlithgow quando
consegui ser admitida ao quarto da rainha. Tomara-se muito cui-
dado na sele o da nova ama-de-leite, pois dizia-se que o prncipe
james adoecera e morrera em decorrncia de uma mudana de
amas, j  que o leite de uma teria diferido do da outra. Fiquei es-
perando nos corredores, sabendo que mais cedo ou mais tarde a
ama teria de sair; e, quando ela assim fez, eu a abordei.
  - Voc ser  recompensada se disser ... rainha que Claudine est
aqui, nos aposentos de Lady Rothes.


                       127
#  Eu no estava em condies de recompensar ningum, pois ain-
da no tivera acesso a meu dinheiro. A ama-de-leite, no entanto,
fez uma reverncia, e seu rosto vermelho me pareceu confi vel;
tive certeza de que ela faria o que lhe fora pedido. Obviamente,
ningum pensara em utilizar-se de criatura t o humilde, ma s em
meu ca so o plano funcionou ba stante bem: logo depois, uma das
criadas de quarto veio avisar que a rainha me receberia de imediato.
Segurei as saias e corri para seu quarto.
  Ela ainda estava de cama , mas j  se recuperava. Estendeu a
m o, que beijei. Eu a ouvi murmurar:
  - Ah, Claudine, Claudine! E bom v-la.
  Mas disse isso de modo um tanto distrado, como se muitas
coisa s houvessem se interposto entre mim e ela. Fez um gesto em
dire o ao bero, e me ajoelhei pa ra olhar a criaturinha que estava
dormindo a li. Era uma criana belssima, e tinha os traos dos dois
falecidos irm os. O cabelo, este era louro-avermelhado.
  - Fique comigo, Claudine. Eu no sabia que voc estava no
pal cio. Quando foi que chegou? Lady Grant a reteve por muito
tempo nas Highla nds.
  N o tive tempo de responder, pois surgiu um criado que, meio
encoberto pelas sombras, anunciou:
  -  o ca rdeal, rrindrrie. Ele gostaria de falar com a senhora.
  Fiquei apa vorada.
  - Mrrdnrne, o cardeal no pode me ver!
  Lembrei-me de como eu estava andrajosa e despojada na estrada
de Tantallon, quando o cardeal e seus homens me salva ram de
mais um estupro. Talvez no me reconhecesse ali em Falkland,
mas, com aqueles seus olhos penetra ntes, isso era bem improv vel.
  A rainha no fez perguntas; com certeza, o assunto no Ihe
interessava muito.
  - Esconda-se atr s da cortina - disse serenamente, e eu obe-
deci.
  Vi o cardeal Beaton entra r, com o solidu na cabea e uma ex-
press o grave no rosto. De incio, a rainha ficou feliz em v-lo;
talvez achasse que ele trazia informaes do rei e de como este
recebera a notcia do nascimento.
  - Seja bem-vindo, milord!
  Mas aquela fisionomia sria Ihe disse mais do que as palavras


                            128
#do cardeal teriam sido capazes de fazer. Ouvi a rainha perguntar,
ainda com voz controlada e ainda sem emo  o:
  - O rei est  morto, no?
  Falou em francs. O cardeal assentiu e lhe contou de modo som-
brio o que se passara em Falkland. A rainha escutou pacientemente.
No final, mencionou um assunto que, mais tarde, causaria grande
discuss o.
  - Quem ser  o regente? O senhor, eu ou o conde de Arran?
  Fiquei com o corpo duro de tanto esperar atr  s da cortina. A
quest o no foi decidida ali, e s o seria depois de muitos debates
tempestuosos no Conselho, em meio ...s acusaes de que Beaton
forara o rei moribundo a nomear como regente o prprio cardeal
e ningum mais seno Moray, Huntly e Argyll, trs lords que fariam
o que ele mandasse.

  O cardeal, porm, nunca chegaria a regente. No havia dvida
de que era detestado pela maioria dos lords, em especial por aqueles
que favoreciam reformas; alm disso, quem no sabe o que quer
e por isso no consegue nada se ressente de quem sabe e costuma
conseguir. Assim, o poder ficou interinamente nas m os dos irre-
solutos, graas a uma decis o dos lords que invalidou o documento
de Beaton, supostamente assinado pelo rei. O resultado foi que
um homem bastante diferente assumiu o governo.
  J  contei que, muito tempo antes, ... poca da batalha de Flodden,
Lorde Maxwell perdera grande nmero de navios. Mas o coman-
dante que ent o perdeu toda a armada escocesa, provocando a
derrota em terra e no mar, foi o conde de Arran, o segundo nome
na linha de sucess o ao trono. Seu filho, ao qual estavam agora
entregando o poder, era como ele: uma criatura influenci vel e
fraca, incapaz de decidir-se, sempre mudando de fac o, tendo
por h bito crispar o rosto, ficar olhando os ps ou se entregar a
sbitos acessos de raiva, como costuma acontecer ...s pessoas in-
constantes. Arran podia ser bem violento; uma vez, no Conselho,
tiveram de cont-lo ... fora para que no desembainhasse a espada
contra o cardeal. Talvez tivesse razes para essa indecis o; o ca-
samento de seus pais fora discutvel, e Arran ficava furioso por
ser chamado de ilegtimo; estava casado com uma Morton, uma
moa que era irm  da insana Beatrix, e tinham um filhinho que,


                             129
#      ... poca, parecia belo e promissor, mas que, quando adulto, tambm
      se mostraria bastante louco e incapaz de a dministrar suas proprie-
      dades. Ali s, foi bom que o plano de Arran de casar o menino
      com a rainha recm-nascida no tivesse dado em nada; a mesma
      coisa aconteceu com a idia semelhante que Henrique VIII tinha
      para seu filho Eduardo, idia cuja rejei o acarretou muita angstia
      para a Esccia. A soberana ainda era uma criana de colo, que
      talvez nem sobrevivesse! Madame Marie permaneceu serena e cor-
      dial, aparentemente simp tica a todos, manipulando uns e outros:
      dizia que ambos os casamentos seriam sem dvida excelentes. Eu
      pude ouvir tudo isso. Ma is tarde, ela me explicou:
        - A nica coisa a fazer, Claudine,  concordar com todo mundo.
      Do contr rio, haveria uma invas o inglesa, e Arran tiraria a criana
      de meus braos.
        Madame se virou ternamente para a menina, que ela mantinha
      ali mesmo, no prprio quarto. Os olhos da criaturinha se abriram;
      eram castanho-claros como os do pai e t o oblquos que pareciam
      ser ainda mais estreitos do que de fato eram. O que aconteceria ...
      criana j  preocupava naes - a Esccia, a Inglaterra, a Frana.
        Entrementes, sepultaram seu pai em Holyrood, com muita pom-
      pa. Comprou-se bastante tecido para roupa de luto, e se acenderam
      tochas para o prstito que escoltaria o corpo, que ficara todo esse
      tempo em Falkland. Trombetas e gaitas de fole soaram em torno
      da carruagem mortu ria, e centenas de pessoas choravam pelas
      ruas; esqueciam-se as crueldades passadas, como a morte de Lady
      Glamis na fogueira e a infame trai o a Johnnie Armstrong;l o
      povo lembrava apenas que Jaime V fora o rei dos pobres, o soberano
      que tantas vezes caminhara disfarado entre eles; e caram em l -
      grimas quando sua efgie passou. Foi sepultado na mesma tumba
      de Madame Madeleine, coisa que teria agradado a ambos.
        Madame Marie no estava presente. Levara a nova soberana
      (que recebera o nome de Maria) para ser batizada na capela de
      Linlithgow, onde certa vez um completo estranho viera dizer ao

      1  Johrrrrie Armstrorrg pertencin n rrnra poderosa fnrnlin de Indres da frorrteira. Os irtleses
        o corrsidernvanr, conr rnzno, um bnndido rnuito perioso; e os escoceses, um pntriotn que
        s ntncava os detestndos irrleses. Enr 1630, foi enforcado por ordenr de Jninre V, o qunl,
i,.,.
        segrrtdo diversos relntos, terin ntr'nido Arntstronq ronr fnlsns nrnrrtins de intunidnde.
        (N. do T.)



                                130
#rei Jaime IV que no marchasse para o sul at Flodden. Mndame,
mais uma vez, trajava luto. Fiquei sentada a seu lado, relembrando
o tempo em que fic ramos juntas em Amiens depois da morte do
duque Louis e em que ela se consolara brincando com o pequeno
duque Franois. Agora, parecia que o crculo se fechara e que es-
t vamos de volta ao princpio de tudo.
  Uma coisa eu consegui. T o logo pude, falei com Sua Graa
sobre os dois meninos Glamis que estavam prisioneiros em Edim-
burgo. Ela ent o deu ordem para que fossem libertados de ime-
diato. Nessa poca, suas ordens ainda eram cumpridas.

  - Madame, a senhora no consideraria voltar para a Frana,
talvez daqui a algum tempo, quando a rainha for mais velha?
  Eu estava pensando em tudo o que Madame Marie poderia des-
frutar mais uma vez: a companhia do filho, os lugares que adorava,
como Chteaudun, Amiens, Joinville, Tancarville e mesmo a corte,
embora dissessem que esta j  no era a mesma desde que o rei Fran-
cisco se tornara um obediente filho da Igreja e comeara a perseguir
os huguenotes. Madame tivera poucas alegrias na Esccia, com um
marido infiel e desalentado, Eilhos mortos e lords rixentos. Mas ela
me olhou por baixo do capuz, sorriu e balanou a cabea.
  - Como eu poderia deixar minha filhinha? Ela seria uma ovelha
entre lobos. Arran  o herdeiro do trono; voc acha que ele a dei-
xaria viver? O rei da Inglaterra no a protegeria mesmo se a menina
desposasse seu filho. Preciso ficar aqui para defend-la, e insistirei
para que me deixem faz-lo. Alm disso, fui coroada rainha desta
terra; no poderia abandonar a pobre Esccia e seu povo.
  - O povo no mostrar  gratid o - repliquei, irritada.  Eu es-
tava aborrecida; andava com clicas e no me sentia bem. Ouvi
madame dizer que no se poderia esperar gratid o, pois tal senti-
mento no  da natureza humana, mas que, mesmv assim, deve-
ramos cumprir nosso dever.

  Meus enj"os continuaram dia aps dia, em especial. de manh,
e meus perodos se interromperam. Fiquei apavorada, e no sabia
como contar a rrtadame; mas, pelo menos, no precisava dizer-lhe
ainda. Sem dvida, era uma honra dar ... luz um filho do falecido
rei; eu, no entanto, preferiria mil vezes no me ver forada a isso.


                        131
#Felizmente, os vestidos de luto tinham corte bastante amplo, e
levaria algum tempo at que se percebesse a gravidez. 1 noite, na
cama, eu ficava pensando no que fazer e imaginando se o parto
no poderia ocorrer em segredo; talvez eu pudesse ocultar a gra-
videz e depois mandar o beb para ser criado em outro lugar, tal
como se fazia na Frana. Mas, como a rainha viva (um ttulo que
de incio me pareceu muito irreal) ansiava por minha companhia,
eu ficava tanto com ela que seria difcil afastar-me, mesmo que
por pouco tempo. Decidi esperar; era a mica coisa a fazer.

  N o consigo descrever, nem mesmo lembrar com clareza, as
disputas e problemas que nos afligiram a todos enquanto o inverno
ia lentamente dando lugar ... primavera. Para comear, Arran, tendo
nomeado a si mesmo governador da Esccia, deu uma demons-
tra o de fora mudando-se para o castelo de Edimburgo e tambm
para o pal cio de Holyrood; ali, conservou alguns aposentos para
uso da rainha viva, a fim de pelo menos preservar as aparncias.
Quanto ao cardeal Beaton, voltou a visitar Linlithgow, examinou
com ar de dvida o belo e sadio beb e afirmou que nenhuma
mulher, e em especial nenhuma menina, poderia governar a Es-
ccia; sugeriu para o trono no Arran, a quem ele desprezava,
mas o conde de Lennox, que, tal como o governador, descendia
de uma princesa Stuart. Lennox estava na Frana, servindo como
oficial dos arqueiros escoceses da Guarda, e dizia-se que era bonito.
  - O irm o de Lennox  parvo - murmurou Sua Graa depois
que o prelado saiu.
  Aos poucos, dissuadira Beaton dessa idia; era h bil o suficiente
para rivalizar com o cardeal no jogo dele; rrlrzdrrrrie o convencera
de que ambos deviam fingir no que se referia ao casamento com
o herdeiro da Inglaterra. Rejeitar a proposta por completo s pre-
cipitaria uma guerra.

  A essa altura, fizeram voltar para a Esccia um homem que
causaria grande mal: Sir George Douglas, irm o do duque de An-
gus. Eu depois viria a saber muito mais a seu respeito; ele veio
com as bn os do rei Henrique e com ordens de fazer todo o
possvel para derrubar o cardeal. Sir George se vangloriou de que
mil cavaleiros o esperavam quando cruzou a fronteira, e isso talvez


                          132
#fosse mesmo verdade. Vivera na Inglaterra,1s custas de Henrique,
desde a meninice do falecido Jaime V, e naquele perodo jamais
ousara pisar no pas natal. Depois de ter lido a Bblia traduzida
por Tyndale para o ingls, tambm abraara ardorosamente a re-
ligi o reformada, e apenas por essa raz o a rainha viva temeu
seu regresso. Era um homem grosseiro, desagrad vel e desonesto,
e seu filho James Morton se mostrava ainda pior. De incio, Sir
George tentou ver o governador Arran, mas este estava conosco
em Linlithgow, tentando ganhar os favores da rainha viva e fin-
gindo admirar a pequena soberana, que ele adoraria ver morta: se
a menina no tivesse nascido, Arran seria rei da Esccia. Ele se
contraiu todo, fez caretas, manteve uma conversa o polida que
nada significava e finalmente partiu.
  - N o  homem que inspire confiana - disse madame. - Fica
impossvel at mesmo suborn -lo, pois pegaria o dinheiro e depois
no cumpriria o combinado.
  Ela se inclinou sobre o bero. A ama-de-leite que me ajudara a
ser admitida aos aposentos de rrradame ainda estava com o beb,
sentada numa cadeira e mostrando contentamento no rosto ver-
melho e bom. A menina no dera trabalho e mamara tranqila-
mente; agora estava dormindo, e seu rosto j  mostrava a forma
oval que iria adquirir, puxando ao pai; os cabelos louro-averme-
Ihados comeavam a se encaracolar um pouco nas pontas. Uma
orelha estava graciosamente ... mostra, como se fosse uma mins-
cula concha abaixo da touca.
  Entrementes, Sir George Douglas foi enfim recebido pelo go-
vernador Arran; este o fez jurar que ele e o irm o haviam retornado
pelo bem da Esccia. Sir George jurou, se  que isso era garantia
de alguma coisa. Foi ent o admitido no Conselho, mas logo o pu-
seram para fora da sala; na volta, o cardeal o chamou de lado.
Lembro-me de ter ouvido o relato da conversa. Beaton perguntou:
  - O senhor  um bom crist o?  dado aos novos ensinamentos
que vm da Inglaterra?
  Sir George replicou:
  - Fui batizado. Se no sou um bom crist o, s me resta pedir
a Deus que me transforme num. E fao votos de que os crist os
da Esccia no sejam piores do que os da Inglaterra.
  Esse era o tipo de resposta que ele costumava dar. O cardeal,


                            133
#suspirando profundamente, deu-lhe vinte mil coroas e prometeu
ser seu amigo. Depois, no entanto, disse ao governador que tomasse
cuidado: os Douglas iriam atraio -lo se tivessem oportunidade.
Arran ent o contou a Sir George o que foi dito, e os dois compac-
tuaram que, t o logo Angus retornasse ... Esccia, iriam "p"r as
m os no citado cardeal e arranc -lo de suas pompas", mandando-o
prisioneiro para a Inglaterra. Mais tarde, Arran fez papel de tolo
ao tirar do gib o o papel errado e entreg -lo a Beaton; era nada
mais nada menos do que uma descri o do que pretendiam fazer
com o cardeal.
  - Esta carta fala de um plano que diz respeito ... minha pessoa!
- gritou o cardeal.
  Depois, quando explicou tudo a Sir George, Arran reconheceu
que "se excedera".

  Ao ficar sabendo de toda essa histria confusa, Sua Graa tomou
de imediato uma decis o: precisava sair de Linlithgow e viajar
para Holyrood, onde talvez pudesse influenciar os acontecimentos.
  - N o  apenas Sir George Douglas que eu temo, mas o prprio
Angus. Ele  esperado a qualquer momento, e com certeza j  ter
chegado a Holyrood quando eu os alcanar. Nas m os de Angus,
o governador Arran ser  t o facilmente manipulado quanto a m e
do falecido rei. At o rei Henrique adulou Angus e cuidou de que
sua estada na Inglaterra fosse bastante confort vel. Por mim, Angus
pode ficar t o ... vontade quanto queira nas suas terras, mas no
prejudicar  o destino de minha filha.
  Em p, t o alta e imponente que no parecia jamais ter dado ...
luz, ela j  estava instruindo as criadas para que preparassem a
bagagem. Lancei um olhar para o bero em que estava a criana;
o que aconteceria com ela enquanto a m e estivesse fora? O beb
no poderia viajar para o frio da capital em janeiro.
  Como se tivesse lido meus pensamentos, Madame Marie se vol-
tou para mim.
  - Claudine, voc no vir  comigo. Quero que fique com a rainha
dia e noite; no a deixe nem por um instante sequer. H  tantos,
tantos... - Madame se interrompeu -  que fariam mal a ela, at
por meios traioeiros e dissimulados, se eu no estiver aqui... Con-
fio em voc como em ningum mais. Cuide bem dela.


                          134
#  Prometi que o faria. Observei a pequena comitiva partir para
Holyrood: os fardos de vestidos e capas, pois, a despeito do luto,
Sua Graa precisava parecer rgia; a grande liteira negra, com os
cardos e flores-de-lis dourados, na qual eu tantas vezes viajara ao
lado de rnadarne; os cavalos da escolta e das poucas damas de com-
panhia. Quando se foram, senti-me solit ria em Linlithgow, e fazia
frio; as cerejeiras debaixo das quais Jaime IV caminhara com Mar-
garet Drummond estavam desfolhadas, como esqueletos contra o
vento inclemente. N o se podia permitir que o frio prejudicasse a
pequena rainha; ordenei que se acendesse um bra seiro e que ele
fosse colocado perto do bero; tambm providenciei para que hou-
vesse fogo na lareira. Eu ficava sentada junto da menina o dia
inteiro, costurando ou simplesmente no fazendo nada. Era um
prazer v-la desabrochar tal qual uma flor, erguendo as m os lon-
gas como as da m e e rindo para mim; colocaram-lhe uma touca
bordada bem fechada, que a protegia do frio, e havia muitos co-
bertores no bero. N o pensei demais em como a rainha viva
estava se saindo em Edimburgo, nem fiquei imaginando se ela
conseguira lograr Arran e Angus. Eu sabia que ela faria tudo no
com protestos, mas com astcia. Era a nica maneira de derrotar
aqueles nobres e pagar-lhes na mesma moeda. Quanto ao cardeal
Beaton, Sua Majestade no chegava exatamente a gostar dele, mas
o tinha como aliado, pois era amigo da Frana ; como j  contei, o
rei da Inglaterra o detestava por isso e por causa de sua religi o.
  Madarrle, porm, retornou ...s pressas, muito alarmada. Veio di-
reto para o quarto, tirou as luva s, inclinou-se sobre o bero e ent o
se virou para mim, com uma express o sombria no rosto.
  - Prenderam o cardeal - disse. - Aqueles rufies podem at
mand -lo para a morte na Inglaterra.
  - Pedirei que tragam vinho quente, rrTadarne. A senhora est
gelada. Fique perto do fogo e me conte tudo.
  Ela se sentou com alvio junto ... lareira e falou.
  - Pobre homem! N o sei onde est  agora. Eles o tiraram ...
fora do Conselho, puseram-no num cavalo e o levaram embora;
um padre ainda correu atr s com o crucifixo. N o acho impossvel
que os Douglas matem o cardeal a mando de Henrique. Aquele
Angus! Mesmo velho, ainda tem muita l bia; no  de admirar
que tenha convencido a rainha Margarida a casar com ele depois


                       135
#da batalha de Flodden. Em t o poucos dias, j  tem completo con-
trole sobre o governador. Ele e o irm o, Sir George... - ela riu
um pouco - j  espalharam pela cidade, e agora certamente pelo
pas inteiro, que meu pai est  vindo com um exrcito francs para
conquistar toda a Esccia. Quem dera isso fosse verdade!
  Eu concordava com ela. O vinho quente chegou, fumegante;
coloquei a vasilha junto ao fogo, despejei cuidadosamente o vinho
numa caneca e servi madarne; ela bebeu com gosto e disse:
  - Est  timo. Eu estava agitada demais para conseguir comer
na viagem. Voltei para ver se alguma coisa havia acontecido com
a menina, mas ela est  a salvo, graas a Deus, e graas tambm a
voc.
  Sorriu para mim, e no pude deixar de notar como seu rosto,
antes t o sereno, comeava a perder um pouco do vio - e Ma-
dame Marie tinha apenas vinte e sete anos. Os olhos oblquos e a
boca espirituosa ainda eram os mesmos; o longo pescoo estava
oculto pelo traje de luto.
  P"s de lado a caneca de vinho vazia, e seu sorriso ficou mais
largo.
  - Acabei jurando em falso. Eu e o cardeal, coitado, j  havamos
decidido que deveramos ter por aqui outro pretendente ao trono,
algum que fosse o grande rival de Arran; ambos se acusariam de
serem ilegtimos.
  - O conde de Lennox? - perguntei, pois estava um pouco a
par do que acontecia.
  Madame fez que sim.
  - Ele mesmo. Dizem que tambm no  de confiana. Mas
quem , alm de voc e do pobre cardeal Beaton? Seja como for,
prometi casar com Lennox.
  - Madame!
  Ela riu bastante.
  - N o tema, Claudine; foi a que jurei em falso.  uma isca
para traz-lo ... Esccia, depois que tiver abandonado as atribuies
na Guarda francesa e aquele uniforme branco e dourado, que por
sinal deve lhe cair bem, se for um homem t o bonito quanto dizem.
Quando estiver aqui, poderei adiar o casamento; o mais importante
 confundir Arran e os Douglas; e o casamento ingls de minha
filha tambm pode ser t o adiado quanto o meu.


                           136
#  Levantou-se e comeou a andar de um lado para outro, como
se sua energia no pudesse ser contida; parecia uma loba a proteger
o filhote.
  - Se pelo menos pudssemos salvar o cardeal! - repetia . -
Ele era meu brao direito.
  Eu me perguntei como Marion Ogilvy teria recebido a notcia
de que haviam aprisionado seu Davy, mas fiquei duieta.

  O tempo passou. Eu j  no sentia enj"o pela manh  e esperava
poder ocultar minha condi o por mais algum tempo; no entanto,
um grande desassossego me afligia, em particular no terceiro ms,
quando um aborto  sempre possvel. Isso no aconteceu, e a crian-
a crescia dent de mim dia a dia; minha barriga j  se dilatava,
e os seios incha vam. Mas, diante do que estava acontecendo na
Esccia, meu problema no tinha relevncia para ningum, e, fe-
lizmente, tambm no era notado. Quando possvel, eu ia caminhar
junto ao lago, cheio de peixes saltitantes que supriam nossas ne-
cessidades di rias. Certa tarde, eu estava ali, bem a gasalhada, ob-
servando-os em companhia de Joanna Grisenoir; ela se tornarl Ma-
dame Delareyneville e se encontrava entre as pessoas que haviam
acompanhado a rainha viva para Edimburgo. Joanna agora se
mostrava mais cordial do que antes, certamente por achar que
valia a pena melhorar relaes com a lgum que esta va sempre t  o
perto da rainha. Ela me falou de muitas coisas que irlndarre no
contara.
  - Sua Graa ficou muito assu.stada quando invadiram a sala
do Conselho e o cardea 1 foi leva do; ela gritou, o que no  de seu
feitio. Mais tarde, disse ter pensado que estavam todos se ma tando
uns aos outros. O conde de Angus ent o apa receu. Ele ainda 
muito bem-apessoado e a convenceu de que estava tudo bem. -
Joanna sorriu, como se algum pudesse persuadir irrndrrme se ela
assim no desejasse. - Afirmou que tudo o que tinham feito fora
prender um homem falso e mentiroso. S no falou que se tratava
do cardeal. Dizem que levara m Beaton no para a Inglaterra , mas
para Dalkeith, o reduto dos Douglas. O falecido rei foi t o s bio
quando os baniu! Desde que voltaram, eles s criaram problemas.
  Concordei meio distrada, mas j  esta va pensando nas outras
coisas que haviam acontecido naquele meio tempo. Entre elas, o


                       137
#retorno de alguns dos prisioneiros feitos em Solway Moss; o rei
Henrique os libertara depois de t-los feito jurar que apoiariam o
casamento de nossa soberana com o herdeiro da Inglaterra e tra-
balhariam pela religi o reformada quando chegassem ... Esccia.
At onde eu sabia, Alasdair Dorch MacGregor no estava entre
eles, muito embora no estivesse certa do que quer que fosse; ele
poderia muito bem ter ido direto para casa, e, fosse como fosse,
no teria feito o tal juramento. Mas temi que estivesse morto; Alas-
dair Dorch no teria sido tolo a ponto de afundar nos charcos de
Solway com o resto; afinal, j  conhecia o caminho para Carlisle e
sabia safar-se em qualquer lugar. N o, estava morto, e seu corpo
enorme e vigoroso fora pilhado pelos ladres da fronteira, tal como
acontecera aos que tombaram em Flodden. Era intil continuar
pensando no assunto ou ter esperanas.

  - J  no estamos seguras aqui, Claudine. Este  um pal cio
ador vel, mas no foi construdo para resistir a um cerco. Preci-
samos ir embora, talvez para Stirling, que me pertence por direito
de herana. L  poderei proteger minha filha, pois  uma fortaleza.
  Falava-me em voz baixa em seu prprio quarto, onde a pequena
soberana ainda estava acomodada; era o nico local seguro. O cas-
telo se enchera de criados; s no eram suspeitos aqueles poucos
que serviam o falecido rei e agora no queriam trabalhar para
Arran; os outros talvez tivessem sido mandados por ele, e nisso
estava o perigo. Como poderia uma mulher, duas mulheres, pro-
teger de assassinos uma criancinha? Com a menina morta, Arran
seria rei da Esccia.

  Madame Marie deu mostras de muita presteza e determina o
naquele assunto. Cavalos carregados com bas partiram sob os
cuidados de Leboeuf; dezesseis outros levaram potes e panelas.
Nossas camas tambm foram para Stirling; dormamos no ch o;
at os urinis foram amontoados em cestas e mandados para l .
Ficamos sem nenhum conforto, mas isso no importava; aguard -
vamos apenas a ordem de partir e cavalos para montar. A rainha
viva, no entanto, veio at mim com uma manchinha vermelha e
brilhante, de raiva, em cada face.

                            138
#  - N o estamos autorizadas a sair - disse. - O governador
proibiu.
  Fiquei estupefata.
  - Mas ele mesmo j  dera permiss o!
  - Eu no Ihe disse que Arran no inspirava confiana? Ele
falou a Sir George Douglas de minhas intenes, e este o convenceu
a me impedir, dizendo-lhe que o rei da Inglaterra ficaria furioso
se f"ssemos para um local fortificado. Obviamente, agora estamos
sujeitas aos caprichos de Henrique.
  - Ent o somos prisioneiras.
  - S at eu arranjar algum modo de tirar-nos daqui. Sou menos
tola do que Arran; no ser  difcil, mas talvez leve tempo.
  Assim, continuamos em nosso desconfort vel acantonamento,
comendo peixe sem talheres e bebendo vinho da garrafa, tal como
chegava da Frana. Felizmente, nunca faltou comida em Linlith-
gow; os franceses nos mandavam frutas secas, o padeiro Marshall
continuava a trabalhar, e havia manteiga e leite das vizinhanas.
Certo dia, Madame Marie at riu de mim, pois ela continuava de
bom humor a despeito de todas as dificuldades; mas fiquei cons-
ternada.
  - Ora, ora, Claudine! N o  que voc est  engordando? Deve
ser por comer manteiga demais.
  Sorri, corei e baixei a cabea; o que mais poderia fazer7 A cada
dia ficava mais difcil ocultar meu estado; j  no est vamos de
luto, e, com as roupas agora mais leves, a barriga comeou a apa-
recer sob as dobras de meu vestido de ver o. Para tentar escond-la,
eu mantinha as m os cruzadas sobre o ventre, enfiadas nas amplas
mangas da roupa; meus seios j  estavam inchados como os de
uma matrona. O que seria de mim? Eu me encontrava na mesma
situa o de minha m e, exceto pelo fato de que em meu caso o
pai da criana j  no vivia. Iria Madame Marie agir tal como fizera
a duquesa Antoinette quando de meu nascimento? Se isso acon-
tecesse, destruiria o afeto que havia entre ns; e eu preferia morrer
a suportar tal coisa.
  Madame mudara; os acontecimentos a obrigaram a tanto; no
era mais a moa feliz e serena que eu conhecera na Frana. Tor-
nara-se uma mulher astuciosa, uma diplomata, at mesmo uma
mentirosa, se isso se fizesse necess rio para salvar a filha. Eu j


                       139
#no conseguia prever como ela encararia minha situa o. O pro-
blema, no entanto, era importante apenas para mim.

  A gente comum estava descontente com Arran, e no apenas
por causa da deten o ilegal da rainha em Linlithgow. Ele trouxera
.. Esccia grande nmero de Bblias dos reformadores, e os padres
agora cumpriam suas obrigaes a rmados, por medo de receberem
o mesmo tratamento que fora dispensado ao cardeal. O povo sabe
pensar; um grupo de citadinos foi ao governador para pedir que
a soberana ficasse aos cuidados de quatro lords escoceses at chegar
.. idade de casar; tambm solicitaram que o cardeal fosse libertado
e que o clero pudesse voltar a rezar missa em paz, mesmo con-
trariando a insistncia dos ingleses e o juramento extrado aos pri-
sioneiros de Solway Moss, que, como j  disse, haviam se compro-
metido a promover a religi o reformada se fossem libertados. "D-
nos o livro de rezas e o saltrio", dizia o povo, falando dos vene-
randos livros que muitos conheciam de cor e que eram parte da
antiga f. Mas o conde de Angus e Sir George Douglas, que j
haviam destrudo tanta coisa, intervieram, e a solicita o popular
no foi levada em considera o pelo Parlamento, que ia encerrando
suas atividades. A essa altura, j  est vamos em meados de maro.




                           140
#Quarta parte




             A moblia que dois meses antes retornara bastante sofrida de
           Stirling foi espanada e polida; Sua Graa mandou dizer a Sir Ralph
           Sadler, o enviado ingls, que viesse visit -la em Linlithgow. Ele j
           estivera em Edimburgo e conversara com o governador Arran, que
           na ocasi o havia caminhado pelos jardins de Holyrood como se
           estes lhe perteneessem. Sadler,  claro, tambm fora encontrar-se
           com Sir George Douglas, que o regalou com a histria de como
           ele, e somente ele, salvara o reino. Angus estava ocupado em outro
           lugar; agora que sua primeira mulher, a velha rainha Margarida,
           estava morta, ele se comprometera a casar com a filha de Lord
           Maxwell, aquela moa serena que eu conhecera durante os trs
           dias em que fui violentada no castelo de Caerlaverock. Angus j
           estava velho, mas, justia Ihe seja feita, no pensara antes em tornar
           a casar, muito embora fosse divorciado; isso porque Lady Margaret
           Douglas, a filha que tinha com a rainha, correria o risco de ser
           declarada bastarda se o pai casasse de novo. Lady Margaret ainda
           estava na corte de Henrique VIII, e dizia-se que era uma papista
           convicta e muito amiga da princesa Mary. S que, agora, Angus
           obviamente queria um herdeiro do sexo masculino.
             Sir Ralph chegou com mil mesuras. Os ingleses tm modos cor-
           teses, mas, quando se trata de barganhar, s o implac veis. Saba-
           mos que, em parte, ele fora mandado ... Esccia para descobrir se
           a pequena rainha era saud vel; havia informaes de que no era.
           Madame a colocara sob meus cuidados, dispensando a ama-de-
           leite; como Sir Ralph no sabia que eu falava francs, eu poderia
           ouvir tudo que ele e rnadnrrte dissessem.
             - Com essa sua aparncia, Cla udine, voc poderia at passar
           por ama-de-leite da rainha - comentou Sua Graa, alegremente.
           - Ainda acho que  por causa da manteiga.
             Ela sempre ficava em sua melhor disposi o antes de uma ba-


                                       141
#talha verbal; j  sabia muito bem o que dizer a Sir Ralph e como
lev -lo a aceitar.
  Depois de uma r pida conversa, entraram juntos no quarto.
A rainha no o apresentou a mim; afinal, eu era apenas a ama-
de-leite. Em vez disso, ela logo pediu que eu despisse a menina
e a mostrasse nua.
  - Como o senhor pode ver e talvez relatar a seu rei, ela 
bastante saud vel, e acho que ser  alta como eu.
  O beb de fato crescera, e j  tinha o tronco e os membros com-
pridos. Sir Ralph jurou nunca ter visto criana t o bonita. Tornei
a vesti-la, pois ainda est vamos em meados de maro, e fiquei
balanando o bero enquanto os dois continuavam a conversar. O
enviado dizia quanto estava feliz com o fato de a rainha viva ter
aprovado o casamento ingls. Mantive os olhos baixos, para no
demonstrar minha surpresa.
  Madame suspirou.
  - De fato, serihor, a Inglaterra  o nico lugar seguro para
minha filha; aqui, h  perigos que a ameaam de todos os lados.
Agradeo a Deus, por, depois de ter levado meus dois outros filhos,
dar-me esta recompensa: Maria, rainha da Esccia, poder  consu-
mar a uni o de Esccia e Inglaterra. Quanto a mim, acatarei o
conselho do rei da Inglaterra em todas os assuntos.
  Ela ent o passou destruir o governador Arran:
  - A despeito de seus fingimentos, ele no  a favor do casamento.
Ali s, aconselhou-me a conservar minha filha comigo at ela chegar
.. maioridade, quando seu rei j  teria partido deste mundo.
  Sir Ralph empalideceu; sem Henrique VIII, o mundo certamente
se desintegraria. Os olhos cinza-azulados de madarne pareciam
cheios de astcia.
  - Foi por isso que quis ver o senhor em pessoa, meu amigo
- ela murmurou. - Aqui, no posso confiar nem nos escoceses
nem nos franceses, pois no h  gente minha no pal cio. Arran o
atulhou de homens seus. Por isso, estamos em constante perigo,
mas acho que ele talvez no queira o assassnio de minha filha,
j  que a deseja para seu prprio filho. - Madame suspirou. - Se
pelo menos o cardeal estivesse livre! Ele cuidaria de que o casa-
mento ingls se realizasse.
  Pude notar que o enviado teve um sobressalto.


                            142
#  - O cardeal Beaton ajudando meu rei?! Mas eles sempre foram
inimigos! Madarrre, a senhora est  se iludindo, e talvez espere iludir
a mim tambm. Beaton odeia os ingleses e a religi o reformada.
Sendo papista, ele nem poderia agir de outra forma.
  Madame levou a m o delicadamente at a cruz de ouro que
trazia no peito.
  - O cardeal  um homem s bio - disse, bem devagar -, e
sabe melhor do que ningum o que seria melhor para o reino.
  Eu no a vira atrapalhar-se muitas vezes, mas essa foi uma delas;
ela sabia disso, e voltou rapidamente ao tema das fraquezas de
Arran.
  - T o logo o senhor saia daqui, Arran vir  ...s pressas, tentando
descobrir o que foi discutido entre ns. - Madnrrte usou de seu
encantador sorriso. - Quando ele vier, eu, como j   de meu cos-
tume, darei a entender que no estou muito disposta a aceitar o
casamento ingls. E a o governador me revelar  todos os seus
planos. O senhor sabe, ele  um simplrio. Mas, se eu no Ihe der
aten o, Arran se fechar  todo e no me contar  nada.
  - E quanto a Leruzox? - perguntou de repente o bestificado
Sir Ralph.
  Ele fora instrudo a descobrir se aquela mulher alta e ardilosa
pretendia mesmo casar com o conde ausente. Madame riu.
  - N o h  nenhuma verdade nesses rumores. Fui esposa de um
rei, e tenho o cora o demasiado elevado para que aceite algum
abaixo de mim.
  Foi uma boa resposta. Fechei os olhos por um instante, lem-
brando-me do libertino voraz que estivera em minha cama em
Caerlaverock. Mas, afinal, ele era mesmo da realeza. Quando voltei
a prestar aten o no que diziam (ainda falavam em francs), madanle
estava pondo fim a outro rumor, aquele de que o duque Claud
chegaria ao pas com um exrcito.
  - O exrcito de meu pai ser  usado contra o imperador, e no
contra a Esccia. Qualquer informa o segura que o senhor receba
da Frana confirmar  isso.
  Sir Ralph suspirou, como se estivesse sendo bastante difcil obter
informaes seguras onde quer que fosse. Continuaram a falar por
mais algum tempo, agora sobre a menina, que voltara a dormir,
com respira o clara e regular.


                            143
#  - Entreg -la aos cuidados do governador seria perigosssimo
- afirmou madarne. - Ele agora  o primeiro na linha de sucess o;
que homem nessa situa o deixaria de aproveitar a oportunidade
de prejudicar a rainha? O prprio Arran lhe disse ser improv vel
que ela sobrevivesse; agora que o senhor a viu, ainda acredita que
ele estivesse falando verdade?
  O ingls concordou que Arran no fora honesto e partiu. Ns
tornaramos a v-lo.
  T o logo o enviado saiu, Sua Graa veio beijar-me.
  - Claudine, contei muitas mentiras e preciso me confessar, mas
foi apenas para escolher entre o perigo maior e o menor. Arran
no ousaria desagradar ... Inglaterra, e, se pudermos contar com a
prote o de Henrique, estaremos seguras por mais algum tempo,
desde que ele acredite no tal casamento. Mas eu juro: no haver
casamento nenhum.
  Voltou a andar de um lado para outro, como se o quarto no
lhe oferecesse espao suficiente, e continuou:
  - J  sei quem devemos ver agora. Precisamos tentar tudo. Se-
gundo dizem, trata-se de um homem cujo preo  muito mais alto
do que o da maioria. Isso  bom ou ruim? Juro que no sei. Como
ela dorme bem! Est  crescendo depressa. - Alisou as cobertas da
menina, bem suavemente, para no acord -la. Depois, olhou para
mim e disse, bem-humorada: - Voc est  gorda demais, minha
amiga.

  Nos dias seguintes, eu me distra um pouco de minhas aflies
vendo os v rios nobres que Sua Graa chamou para ajud -la a
escapar de Linlithgow e de seus perigos. O primeiro foi o conde
de Moray, que eu nunca vira antes; ali s, poucos o conheciam,
pois era muito retrado e geralmente permanecia em suas proprie-
dades no norte. Era filho de Janet Kennedy, a endiabrada de Gal-
loway, e do rei Jaime IV, cujo fantasma, ainda insepulto na Ingla-
terra, parecia caminhar sem descanso. Mas o homem sbrio que
chegou usando o colar da Ordem de S o Miguel no tinha nenhuma
semelhana com a imagem que eu fazia de Jaime IV ou de Janet
Kennedy. Estava na casa dos quarenta anos, e nem a aparncia
nem sua conversa tinham alguma coisa de not vel; no entanto,
passara parte da juventude na Frana, e p"de falar fluentemente


                           144
#em nosso idioma com Madame Marie. Senti muita vontade de
participar; s que, mais uma vez, eu pa ssava por ama-de-leite.
  A rainha viva tentou convencer Moray a procurar o governador
Arran e manipul -lo de tal forma que aquela mente volvel final-
mente permitisse nossa ida para Stirling. Moray prometeu faz-lo,
e talvez tenha at conseguido; mas Sir George Douglas, esse gnio
mau, tornou a intervir, dizendo que no se poderia autorizar a
mudana. Ele era mais governador da Esccia do que o prprio
Arran; este, nas palavras de Sir Ralph Sadler, quando voltou para
nos ver, era "a pessoa mais vacilante e inst vel do mundo, bastando
que qualquer um usasse de lisonjas e bela s palavras para faz-lo
mudar as opires de imediato". Quanto a libertar o cardeal, isso
ficara mais improv vel do que nunca; nem mesmo Arran hesitou
antes de se recusar a faz-lo.
  O nobre seguinte me interessou mais do que Moray. Tratava-se
do conde de Huntly, que fora muito amado por Jaime V, pois era
seu sobrinho ...s tortas; Jaime IV e Margaret Drummond tiveram
uma filha, que viria a ser m e de Huntly. O conde era um jovem
de rosto franco e amig vel, adora va esportes viris de todo tipo e,
pelo menos, tinha um plano para livrar o cardeal Beaton:
  - Coloquem-no com Lord Seton, longe dos Douglas, e ele em
breve estar  solto.
  Madarne aplaudiu.
  - Esplndido! - ela disse.
  Lord Seton desposara Marie Pierres, que fora dama de compa-
nhia da rainha em seus primeiros tempos na Esccia, e era nosso
amigo; passava a maior parte do tempo no burgo de Tranent, mas
a idia era que o cardeal aprisionado fosse transferido para o pr-
prio castelo de Seton.
  - E como fazer isso? - gritou rrtadame. - Como persuadir
Arran?
  - Sem a lngua de vibora de Sir George no ouvido do gover-
nador, pode-se conseguir muita coisa.  bem prov vel, e direi isso
a Arran, que a longa deten o do cardeal em Dalkeith no seja do
agrado da gente comum, e que esta teria melhor opini o do go-
vernador se ele fizesse vista grossa para uma muda na de pris o;
talvez uma que levasse ... liberdade, o que certamente no  o caso
de Dalkeith.


                           145
#  - Mas Arran disse a Sir Ralph que preferia ir para o fogo do
inferno a soltar o cardeal.
  - Bem, ele talvez v  para l  de qualquer modo - observou
secamente o jovem Huntly.
  Ns o vimos partir cheias de esperanas, que dessa vez no se
mostraram infundadas. Jaime V gostava muito de Huntly; e, pelo
que depois soubemos, o jovem conde logo se fez apreciar tambm
por Arran. Posteriormente, Sir George Douglas o chamou de o
moo mais falso e mais vil de todo o mundo, o que significava
cue Huntly fora bem-sucedido; o cardeal foi tirado de Dalkeith,
decerto sem lamentar ter de sair dali, e levado sob guarda para
Seton. A partir de ent o, multiplicaram-se os rumores de que logo
seria libertado. Era um triunfo para rriadairie e para Huntly. Talvez
outras vitrias se seguissem.
  O ltimo nobre a vir foi o conde de Lennox. Ele chegou a Dum-
barton com navios franceses e promessas de ajuda.

  Terei mais para dizer sobre Matthew, conde de Lennox. Entre-
mentes, ns nos distraamos com a confus o do pobre Sir Ralph,
due foi prontamente repreendido por seu monstruoso senhor quan-
do se soube da remo o do cardea I Beaton para um local menos
seguro. Era bvio que a transferncia no poderia ter ocorrido sem
o conhecimento do governador. Os ingleses queriam saber o que
Arran estava fazendo. Ele caiu na gargalha da quando Sir Ralph
sugeriu lue o cardeal fosse mandado para a Inglaterra; disse ent o,
mais uma vez, que preferia ir para o inferno a fazer aquilo. Mas
ta mbm afirmou que iria mesmo para l  antes de libertar Beatol.
  - Ele certamente  o maior hipcrita que j  existiu - disse o
enviado, melanclico.
  Nesse meio tempo, o hipcrita o prevenira de que, no impor-
tava quantas vezes nos visitasse em Linlithgow, ele s conseguia
ver em rriadarrie uma francesa (o que era bastante natural).
  - Pelo que me contam, Arran diz que sou muito ardilosa e
que tenho inteligncia para alcanar todos os meus propsitos -
relatou rriadariie, ba stante alegre. - Mas nisso ele talvez me honre
em demasia.
  Quando Sir Ralph voltou a Linlithgow, ela lhe afirmou suave-
mente ter certeza de que o cardeal, se fosse libertado, iria de ime-


                         146
#diato ... In7laterra para oferecer SeLlS ServloS ao rei Henri(lue --
Llma 5ltLlaaO ta0  abSLlrda  lLl(' IlaO Sf' p(ldla  1111.(lgltlar OLltrl  1llalS
lmprOVlVl.  ...  E  la  alnda  S  f SfOra  pOr  t()d()S  OS  111e1(1S  parfl
colOcar o cardeal em llberdad, T'L'Snlllllgal'a AI'Ta.ll.
  A rai.nha viva ta nlbln collvllceu o envildo itlgls de dLle Sir
George DoLlglas era o honlem mais ladillo e malllloso de toda a
Esccia; uma afirmao qLle Henrilue VIII dificilmellte colocaria
em dLlVlda, pOlS maIltIVera O.S lrmilOS DOLlglaS ('l11 Slla Ort dLlraIlt.
d IlOS.
   ElllLlantO lSSO,  OS  planOS  de  illnlfl7ill(' OmaValll  a  dar  fYLltOS.
De algllma manPlra, O ardal f01 atltOrlZadO a cavalgar Sob f'Scoltl
desde o ca stelo de Seton at o seu, em Saillt Alldrews; ele ll o
parecia nada abatido, e seu manto lri.lllante adejava ao vell.to de
fins da primavera . T o logo chegaraln a Saint Alldrews, a escolta
fornecida por Lord Setoll desa pareceLl misteriosamente; em oLltras
palavras, aqLlele prncipe da Igreja se viu devolvido ... liberdade e
a sLlas dignidades. Eu esta va feliz por Marioll Ogilvy; ela certa-
mente correLl a reencontrar o anlallte. O rei da Inglaterra ficou
fLlrioso, como se poderia prever, e cLllpoLl o governador Arran,
que jLlrou no ter cincia da qLlela possibilidade e qLle se compro-
metia a atravessar o prprio cora o eom Llma espada se no es-
tivesse dizendo a verdade.
  De um modo oLl de outro, lrrncfn>lie e eu contillLl vamos bastallte
alegres; a situa  o estava ficando mais f cil. E, logo depois, unl
cavaleiro veio a Linlithgow; era Llm llomem a lto e loLlro, due se
sobressairia em qualquer multid o. Sua chegada foi anunciada a
ns e ao rgio beb, que ia da ndo chutes delltro do bero.
  O homem era o conde de Lenllox, e sua presena sigllificava
que j  ll o seramos mais prisioneiras. Ele era o inimigo de Arrall.

  Antes qLle eu pusesse os olhos nele pela primeira vez, e des-
confiasse de sLla duplicidade, Matthew Stua rt, conde de Lenllox,
tinha minha simpatia. Quando menillo, ele e o irnllo mais novo,
Jolln, foram tirados ...s pressas da Esccia depois do assa ssnio do
pai por Hamilton de Finnart, na fracassada tentativa de resgatar
o jovem Jaime V da custdia dos Douglas. Os dois garotos foram
ent o criados na Frana, e Lennox sem dvida j  se considerava
quase um francs quando se tornou oficial dos arqueiros escoceses


                        147
#
do rei Francisco. Decerto fizera belssima figura no uniforme branco
e dourado daquela tropa, mas, quando chegou a Linlithgow, usava
uma cota de malha bastante comum. Tirou o chapu respeitosa-
mente, mostrando cabelo louro e basto. Devia ter uns vinte e oito
anos. Nessa primeira ocasi o, e em v rias outras, inadnme estimulou
a fidelida de de Lennox com repetidas insinuaes de que o des-
posaria; ela ta mbm agiu assim com o conde de Bothwell. Mais
tarde, chegou a prometer que casaria Lennox com a soberana. Na
ba talha para conserva r a menina viva e longe da Inglaterra, madmrie
diria qualquer coisa. Essas coisas aconteceram depois que fui para
outro lugar, mas eu soube que houve muita dana, msica e riso
na corte enquanto Lennox e Bothwell disputavam a noiva real;
Bothwell at se divorciara para entrar na contenda. Era filho do
primeiro casamento daquela mulher estranhamente sedutora que
me recebera no castelo de Caerlaverock; por isso, fico feliz de no
ter topado com ele. Em toda parte, as pessoas o conheciam como
o Belo Conde.
  Lennox e o governador Arran eram inimigos heredit rios, e foi
esse o motivo de mrdarne ter chama do Lennox ... Esccia. Os dois
homens se encontraram em Edimburgo, discutiram e tornaram a
se encontrar; ent o, quando Arran exigiu ser reconhecido como
herdeiro do trono, Lennox se recusou a faz-lo e acabou dizendo
na cara do governador que ele no passava de um bastardo. Depois,
Lennox se negou a devolver a Arran o castelo de Dumbarton, que
ficava num rochedo bastante elevado; fez isso a conselho do cardeal
Beaton, que estava voltando a desempenhar seu papel nos aconteci-
mentos. O que o cardeal no sabia era que Lennox guardara para
uso prprio uma grande soma em moedas de prata que o rei Francisco
enviara para ajudar a rainha viva. Matthew Stuart era essa espcie
de homem. Sua presena acabaria nos tirando da pris o, depois de
duas ocasies em que o pal cio ficara repleto de canhes de Arran
e quase houvera luta; um pouco antes disso, o govemador tomara a
mostrar em Linlithgow, muito rapidamente, sua fisionomia crispada e
evasiva. Mas, no final, Lennox se cansaria das reiteradas promessas de
rrindariie - (e talvez no se possa realmente culp -lo, pois ela nunca
as concretizava; ela no era nenhuma Margarida Tudor. J  havia
algum tempo, Lennox cortejava prudentemente por carta a filha
de Angus, Lady Margaret Douglas, que era mantida quase como


                            148
#refm na corte de Henrique VIII. E, muito mais tarde, Lennox a
desposaria com o consentimento do velho rei, que queria os ser-
vios do noivo para a projetada invas o da Esccia, numa poca
em que a pequena soberana j  no estava mais prometida ao prn-
cipe Edward, o herdeiro da Inglaterra.
  O casamento de Lennox seria, ... sua maneira, por amor. Margaret
Douglas fora negligenciada e aba ndonada tanto pelo pai quanto
pela m e; a rainha Margarida s lhe escrevera uma vez, quando
a filha estava agoniada por lhe ter sido proibido ficar noiva de
um Howard. Embora j  estivesse com duase trinta anos ... poca
do casamento, dizia-se que Lady Margaret era muito bonita, e tinha
o cabelo louro como estriga de linho. O ca sal perderia o primeiro
filho, mas o segundo seria Henry, Lord Darnley, e infelizmente
sobreviveria. Como j  disse, eu estava muito longe quando tudo
isso aconteceu. Voltemos aos outros acontecimentos.

  - Agora que o cardeal foi libertado, podemos ter esperana de
dias melhores. Alm disso, o meio irm o de Arran, o abade, voltou
da Frana e j  est  influenciando bastante aquela mente fraca, tanto
que o rei ingls precisou comprar novamente o governador: Hen-
rique prop"s o casamento de sua filha ba starda, Elizabeth, com o
herdeiro de Arra n.
  Madarne di.sse isso enqua nto brincava com a filhinha, que estava
sentada, rindo e estendendo as m  os para tentar pegar uma bola
de l  tingida que Sua Graa segurava por um fio de linha. Fiquei
espantada com aquela alegria: se os ca nh"es colocados em Linlith-
gow tivessem comeado a dispa ra r, poderiam ter ensurdecido ou
mesmo matado o beb com seu troa r. Mas no haviam sido usados,
ainda; era tpico de Arran ter fortifica do o pal  cio e depois t-lo
abandonado.
  - O rei da Inglaterra no precisa se preocupar - murmurou
madarne, fazendo a bola de l  girar suavemente. Os longos dedos
do beb a ga rraram a bola e a puxaram. - Isso, ovelhinha, voc
conseguiu.
  Sua Graa tirou cuidadosamente a bola das m os da pequena
soberana dos escoceses; a l , se mastigada ou engolida por um
beb,  perigosa. Em seguida, recomeou a brincadeira, que aliviava
suas ansiedades e divertia a criana .


                            149
#  - O cardeal reuniu todo o clero em Saint Andrews, mas eles
no podem fazer nada seno concordar em que, se Lennox apia
a Frana, Arran apia a Inglaterra ;  claro que, se um dos dois
mudasse de lado, o equilbrio seria altera do. O povo escocs no
est  nada  satisfeito com o ltimo tratado. Para mim, ele tem a
vantagem de nos dar tempo; afinal, esperar at minha filha com-
pletar onze anos antes de ir para a Inglaterra, e receb-la de volta
.. Esccia caso o prncipe Edward morra sem ter filhos,  razo vel,
pelo menos por enquanto; e muita coisa pode mudar at lz. Mas,
como eu ia dizendo, o povo no est  gostando na da do tratado.
  Continuou a girar a bola. Pensei no que madame e outras pessoas
me haviam contado; o povo estava t o insatisfeito com o tratado
que disparou contra Sir Ralph Sadler (sem, felizmente, acert -lo)
e depois invadiu seu jardim em Edimburgo, destruindo seus pre-
ciosos alvos de arqueiro, nos quais ele costumava praticar nas horas
vagas. E isso era o de menos. Mndczrrre ficava a par de muita coisa
graas a sezzs espies, que ela remunerava bem e prontamente e
que podiam ir e vir em segredo; fazia pouco, enviara um mensa-
geiro a cavalo at o cardeal Beaton (que se encontrava em Stirling,
jzzntando foras eom os partid rios da Frana) para inform -lo de
nossos apuros e dos eanhes de Arran. Adivinhei que, t o logo
Beaton recebesse essas notcias, marcharia com muitos cavaleiros
at Linlithgow, como um eomandante experimentado. Ezi come-
ava a admir -lo.
  E foi o que aconteceu. Dois dias depois, ouvimos o tropel de
cava los que se aproximavam. Passaram por onde est vamos e cer-
caram o pal  cio; o cardeal, usando uma reluzente cota de malha,
liderava aquela fora, na qual se viam espadas e lanas. S que
rrindarne juntou as m os, em desespero.
  - Eles no tm ca nhes! Como poder o superar o que Arran
preparou aqui? N o importa que ele j  tenha ido embora; seus
subordinados podem abrir fogo se receberem ordem para faz-lo.
Por que o cardeal no trouxe canhes? Por qu?...
  - Se ele tivesse feito isso, rrndnme, o pal cio seria destrzdo, e
talvez acab ssemos sendo mortas ou feridas, a ssim como a soberana.
  - Isto no acaba! A guerra continua, continua, e no  zzma
guerra de batalhas, mas de palavras. Palavras e mensagens. Voc
ver : os lderes dos dois exrcitos se conhecem e, daqui a um ou


                          150
# dOlS dlaS, IlVlara O emlSSa rlOS  L1111  para O OLltrO f  CllSCUtlril0 O aS-
 SLIIltO. Bm, lSSO a0 mnOS IlOS da algLlma eSpera Ila; PZmOS parc
 qU  aCOIltea.
    FOnlOS rZar n0 peCUf n0 OratrlO CUe IIIlIdlIIllL llSa Va para d
 VOOS  partICUlareS; lVamOS a  Crlana  C0I105C0, pOlS  Uma de llS
 eStaVa Sempr a SeLl lad0. FlCaInOS Um IOIlgO tlnpO alOelhada S; ld
 fora, s havia silncio; e, dentro, s os balbLlcios do beb.
   Ellto chegou a notcia, tardia , como esse tipo de llotcia costunla
 ser. Uma frota fl'a ncesa fnra a vistada ao largo da costa; dizia-se
 que os navios ti.nhanl VlllCjo pilra levar a soberalla para a Fra lla,
 e por isso Arran se assustara e malldara fortiEicar o pal cio; mas
 a frota j  se fora.

   Madarllc tinha raz o. No poderia hlver batal.lla, pois uln lado
 tlllha SOldadOS e O OLltrO tlnha  artll.harlil. NOSSOS SUpOStOS llbrtd-
 dores acampa ram fora do pal cio por um dia oLt dois, e houve
 muita movimellta o e a Igumas escaramuas desaninla das. Mal
 dormimos, esperando no sei o du, selnpre rodeadas pelos espies
 de ArraIl, 52rVlalS qUC  f Sta Vanl f rl1 IlOSSO mel0 11 fa Lla Sf manaS;
 felizmente, nem todos sa bia m frallcs, e por isso podamos con-
 versar em voz baixa. De algLlm modo, a rainlla viva se ma ntillha
 informada do que a contecia z1o mulldo l fora; ela soube, un1 pouco
 antes do fato, que os lderes das duas forls esta va m enfim orga-
 nizando um eneontro e o lue o ca r<jeal iria propor ellt o. Tal como
 sLlgerido antes, a criana que era a sobera na do pas deveria ser
 entregue aos cuidados de qua tro lords escoceses, coisa cLle,11a pr -
 tica, n1o queria dizer nada. Arran colltillua ria  a governar, mas
 seguilldo as recomendaes de um con.selllo, e no as de Allgus
 e Sir George, que foram descritos sem lisonjas. Se o goverllador
 rejeitasse tudo isso, seria fol'ado 1 re11Llllcia r. QLla.llto aos DoLlgla s,
 teriam de afa star-se da corte por trs meses; parecia uma exigllcia
 ba stallte bellfica, mas ela foi discLltida a caloradalnente; ali s, che-
 gou-se a propor, sem sucesso, que a quest o fosse resolvida pela
 espada. De algum modo, possivelmellte gra as aos inesgot veis
 a rtifcios do cardeal, todos ficaram amigos de repellte, conl apertos
 de m o, abraos e collversas; isso se aplicava a t a Angus e Beaton.
 O velho conde talvez estivesse de bom humor; sua llova esposa ,
 Margaret, ficara gr vida, e ele ansiava por um menino.


151
#  J  minha gravidez me preocupava cada vez mais; no esta va
mal de sade, ma s sabia que a criana nasceria logo. Parecia no
haver op o: teria de dar ... luz um filho de Jaime V no pal cio de
sua viva, pois eu no tinha como escapar dali. A barriga me
parecia enorme, mas rnrzdrrrrie no percebera nada; devia andar ocu-
pada demais com aqueles acontecimentos todos. Certo dia, eu a
encontrei em p ao lado da filha, que fora desaleitada e agora
tomava mamadeira. O olhar de >rtndo>rte parecia distante e sombrio;
a boca, franzida.
  - O combinado foi que poderamos ir, mas ser  assim mesmo?
- disse. - Lord Glencairn vem vindo para render os homens de
Arran. Fico grata pelo menos por isso; mas Glencairn no  mais
confi vel do que o resto. Foi aprisiona do em Solway Moss; s o
libertaram depois que pagou um grande resgate, e, como todos os
outros, prometeu fazer do rei Henrique o protetor da Esccia e
apoiar o casamento de minha filha com o herdeiro da Inglaterra.
Ali s, tambm me dizem que Gleincairn afirmou que guiaria um
exrcito ingls em segurana de Carlisle a Glasgow. Como posso
confiar em tal homem?
  - Madame,  isso ou nada. Ao menos a senhora sair  daqui e
ir  para Stirling, onde estar  em segurana.
  - Parece que sim, mas precisarei esta r atenta a traies durante
toda a viagem. Henrique agora exige que eu me separe de minha
filha. Voc ir  comigo na liteira, Claudine; tra ga a rainha.
  Assim, fui eu que carreguei Maria, rainha da Esccia, pa ra a
antiga capital de seus ancestrais; o corpinho quente descansava de
encontro a minha gravidez, ocultando-a. Era final de julho, e as
cortinas estavam abertas; por todo o caminho, a gente comum se
enfileirava ... beira da estrada para aclamar a soberana e sua m e,
libertadas depois de quase oito meses em Linlithgow. De tempos
em tempos, eu erguia um pouco a menina para que a vissem;
como de h bito, ela estava tra nqila; suas faces j  se mostravam
um pouco arredondadas no rostinho oval, e os olhos brilhantes,
como os do pai, sempre pa recia m ainda mais estreitos do que na
realidade eram. Pensei em como era estranho que eu estivesse ali
carregando nos braos a filha do rei Jaime e no ventre um bastardo
do mesmo soberano.
  A desgraa me atingiu quando finalmente chegamos a Stirling


                            152
#e fomos carregadas na liteira at o castelo, para onde Jaime V,
muito tempo antes, cavalga ra fugindo dos Douglas. Depois de atra-
vessar a ponte levadia e nos afastar dos gritos de a legria da mul-
tid o, desci da liteira logo depois de Sua Majestade, que agora
carregava a menina. Antes de ser saudada pela s pessoas que es-
tavam dentro do castelo, mrdnme se virou para mim; meu vestido
se prendeu na ponta de uma das flores-de-lis doura das que deco-
ravam a liteira, mas no percebi e continuei a andar at sentir o
pux o no tecido, que revelou claramente o contorno de minha
ba rriga. Era muito difcil clue rrlrdanre tivesse deixado de notar,
mas tudo continuou como de h bito at estarmos dentro do ca stelo,
sozinhas em nossos aposentos; j  tinham sido descarregados os
vinte e quatro cavalos que haviam trazido as enormes camas, o
bero da menina, a despensa de Linlithgow, o material do padeiro,
os potes e as panelas, a adega de vinhos e todas as coisas que
haviam sido mandadas para Stirling antes de Arran ter proibido
nossa partida, oito meses antes.
  Esperei, de olhos baixos; sabia que deveria submeter-me ao que
rrmdarne dissesse. Eu a ouvi, mas no consegui olhar para ela. Falou
com calma.
  - Claudine, voc est  para dar ... luz. Quem  o pai?
  Ergui os olhos, que estavam cheios de l grimas. Elas escorre-
garam por minhas faces e caram no corpete do vestido que me
denunciara . Permaneci em silncio, mas a inda chorando, pois no
havia o que dizer de um homem que j  estava na tumba. N o se
lana descrdito sobre os mortos. Eu ja mais poderia descrever para
irindarne o que acontecera em Caerlaverock.
  Ela, no entanto, tirou suas conclus"es. Surgiram em suas faces
aquelas duas manchinhas brilhantes de ra iva , t o pouco freqentes,
e sua altivez, a altivez dos Guise, me fez gelar.
  - Voc deixar  este lugar agora mesmo - ela disse. - N o
ficar  mais em companhia de mim ou de minha filha. O desastre
de Solway Moss foi culpa sua e de mais ningum; na ausncia do
rei, no obedeceram a um comandante de menos importncia. Nin-
gum conseguiu entender por que ele n  o estava com o exrcito.
Agora, sei a raz o. Enquanto voc se entregava ... libertinagem com
ele, a Esccia se desgraava.
  - Madnme...


                         153
#   - NO m dlrlla a 7alaVra .  POde paSSa r  a nOlt aClll, pOlS I110
deSO Ser dLlrd Om VO depOlS dSSa Vlagm ta0 dlTlOrada; maS
dormird f'IT1 0lltrOS aposelltOs. Anlanhil, pegUe slla S OISaS E O dl-
nheiro que lhe  devido e v  embora. H  pens"es e estala gens por
a. Aconselho qlle volte para Vouvray t o logo possa; l , voc po-
der  manter-se com as rendas que tem. E  possvel que agora
ache o intendente mais a sel1 gosto. Sem dlvida , voc tambm.
deve t-lo encorajado. Minha m e estava certa; eu  due me enganei
com voc desde o comeo. Mas no quero tornar a ver sua ca ra.
Agora, saia.

  Madame Marie no era cruel. No estado em que eu me encon-
trava, no teria me mandado embora se j  houvesse tido alguma
experincia de encontrar acomodaes; ma s n1o tivera, nem mesmo
na Frana - e a Frana no  a Esccia. Ademais, com a notcia
de que a coroa o estava prc5xima, Stirling ficara repleto de gente
anSIOSa  pOr  V2r  a  pqLl2Ila  rallllla  paSSar;  e,  depois  de  a  terem
visto, foram beber porque queriam comemorar a liberta o da me-
nina e porque, afinal, os escoceses bebem muito mesmo. Na rua,
havia muito barulho de canes e gaitas de fole e muitos mendigos,
desocupados e punguista s, como s percebi quando j  era tarde
demais. Ainda no sa bia aonde ir e prometi a um menino que Ihe
pagaria se ele ca rregasse minha bagagem em seu carrinho de m o;
o garoto veio atr s de mim enqua nto eu tenta va primeiro as es-
talagens, que no me aceitaram por j  esta rem lotadas, e depois
as penses. Estas eram, com freqncia, imundas, e a experincia
que tive delas se resllmiu ... vis o de uma mulher de avental cin-
zento e cabelo grisalho e seboso; ela abriu a porta, olhou-me de
alto a baixo e perguntou de modo belicoso:
  - Onde est  seu homem?
  Respondi que ele esta va em outro lugar, o que era bem verdade.
  - Precisa pagar antes de entrar - disse a mulher, e peguei a
bolsa, apenas para descobrir que ela fora cortada e esvaziada em
minha passagem pela rua. Eu agora estava sem nenhum dinheiro.
  - Fui roubada - ba Ibuciei --, mas pagarei ... senhora t o logo
me seja possvel.
  Mesmo ent o, tive certeza de due a rainha viva cobriria minhas
despesas at que eu pudesse reembols -la; ela no poderia ter pre-


                        154
#visto aquele roubo. Mas a mulher da pens o fez um gesto grosseiro,
cuspiu e disse:
  - Com certeza! Gente da sua laia sabe como fazer mais dinhei-
ro... V  embora!
  Bateu a porta em minha cara. Voltei-me, sentindo as pernas
bambas, e vi que o menino desaparecera na multidlo levando todas
as minhas coisas, pois percebera que no seria pago. Eu no tinha
mais nada - nem dinheiro, nem bens, nem amigos. Estava ao
abandono e no sabia o que fazer. N o podia voltar ao castelo e
contar minha humilhante histria; tambm no podia continuar a
percorrer aquela rua, que estava coberta de estrume. Fiquei onde
estava, desamparada; e disse uma prece.
  Preces s o atendidas, e, com freqncia, bem depressa. Desta-
cando-se naquele apinhado, apareceu uma criatura portentosa que
usava um gorro redondo com pena de   guia. Mesmo sem acreditar
em meus prprios olhos, corri para ele, gritando e abrindo caminho
com os cotovelos na multid o que nos separava.
  - Alasdair Dorch! Alasdair Dorch MacGregor!
  Finalmente o alcancei e me joguei de encontro a seu corpo slido
e musculoso; podia senti-lo atravs do manto. Eu soluava en-
quanto as pessoas a meu redor riam e troava m de mim: um1
leviana gritara por homem e conseguira um. Chamaram-me de
muitos nomes, mas Alasdair Dorch os dominou com o olhar, e
ficaram quietos. Ele j  me enlaara, pois de outro modo eu teria
cado. Sua expresso era sombria; desalinhada daquele jeito, ele
percebeu meu estado.
  - Gr vida - disse, gentilmente, e p"s a m o em minha barriga.
- Por que a senhora est  sozinha?

  S depois de estarmos casa dos eu fiquei sabendo tudo o que
aconteceu a Alasdair Dorch aps a derrota dos escoceses em Solway
Moss. Ao contr rio de muitos que bateram em retirada ou se en-
tregaram, ele lutou valentemente; mas, por causa de seu extraor-
din rio tamanho, que chamou a aten o do comanda nte ingls,
Alasdair escapou de ser morto; teve os bra os amarrados (para o
que se fizeram necess rios quatro homens) e foi levado rumo ao
sul com o resto dos prisioneiros. Uma vez l , ele e alguns outros
ficaram sob guarda do duque de Norfolk. Este era tio da rainha


                            155
#Catarina Howard e parente de Ana Bolena, e vira as duas perecerem
no cadafalso; no entanto, dera um jeito de continuar como auxiliar
de confiana do rei ingls. E, a fim de prover divertimento para
seu amo, Norfolk no exigiu um resgate para que Alasdair pudesse
retornar ... Esccia, nem tentou extrair dele as promessas que os
prisioneiros restantes precisaram fa zer.
  - Os ingleses sabiam muito bem que eu no prometeria nada
- contou meu marido. - Foi o que eu disse a eles quando vieram
falar comigo.
  Alasdair foi levado sob escolta ... presena de Henrique VIII, em
Londres, e o rei olhou espantado para aquele homem que era t o
grande quanto ele. Henrique talvez no visse algum assim desde
aquela ocasi o, muito tempo antes, em que ele e o rei Francisco
se encontraram e mediram foras (o rei da Frana derrotara o rival
na luta romana; Henrique, porm, no gostava que lembrassem
isso).
  - Ele veio sentir os msculos de meus braos - disse Alasdair.
-  um velho de barba branca e tem uma chaga na perna. Por
isso, no pode mais cavalgar como antes, mas se recusa a andar
de liteira. Ficava mancando pelo pal cio, comigo ao lado; ele queria
estar a cavalo, para que eu pudesse correr junto da montaria, como
costumo fazer. Fingi no entender tanto a lngua deles. 1s vezes,
o rei tocava alade, e eu e Will Somers, o bobo da corte, fic vamos
ouvindo. A rainha  uma mulher triste. Deve ser bem duro para
ela lembrar o que aconteceu ...s outras cinco.
  - Como voc conseguiu escapar? - perguntei.
  Estava comendo uma ma  que ele comprara pa ra mim em Stir-
ling; parecia estar sempre comprando ma s l . Eu no estava sen-
tindo muito desconforto, embora o p"nei que Alasdair alugara para
que eu pudesse viajar no me aliviasse em nada a situa o. Ali s,
foi por causa dessa viagem que, um pouco mais tarde, a criana
acabaria nascendo antes da hora; mas, naquele meio tempo, se-
guamos alegremente pela floresta, com Alasdair conduzindo o
p"nei.
  - Esperei a hora certa, que chegou quando ele finalmente de-
cidiu montar a cavalo, pois adorava caar e nunca iria reconhecer
que estava velho e manco demais para isso. Tnhamos ido para
Oxfordshire. Eu seguia ao lado do cavalo do rei quando pulei num


                          156
#rio, nadei at a outra margem e me escondi entre alguns salgueiros.
Ele no tinha como me perseguir, e s p"de fica r gritando com
aquela voz estridente. Ningum o ouviu: mesmo sendo t o estro-
piado, havia deixado os fidalgos bem para tr s. Fiquei escondido
at irem embora e depois segui para o norte, sempre ... noite. Foi
ent o que descobri uma coisa estranha: h  gente na Inglaterra que
s vive na escurid o e que nunca  vista ... luz do dia. S o aqueles
que o rei Henrique persegue e que, se fossem encontrados, seriam
enforcados ou decapitados, como j  aconteceu a tantos por l . A1-
guns pertencem ... F - ele fez o sinal-da-cruz - e d o ou recebem
os sacramentos em segredo; isso porque o rei matou seu santo
bispo, os monges cartuxos e todos os que no concordavam com
ele em matria de religi o. Outros s o de famlias que o rei decidiu
exterminar, como os Pole e os Buckingham; no se sabe quantos
desses ainda est o vivos. Eles se uniram, e, quando se encontram,
reconhecem-se uns aos outros por um sinal. Tive sorte de topar
com essa gente, e eles me deram abrigo e me mostraram o caminho;
fui sendo passado de um para outro por toda a Inglaterra, de
modo que os homens do rei nunca me encontrariam. Afinal, con-
segui atravessar a fronteira, e aqui estou.
  - Voc tem dinheiro? - perguntei, acrescentando em seguida:
- Depois que fui roubada, fiquei sem nenhum, mas dever  chegar
mais da Frana quando souberem para onde fui.
  - Deram-me algum dinheiro, que pagarei mais tarde. Voc fi-
car  numa botkart, uma casinha, l  na terra dos Grant, ou ent o
em Glenorchy. N o levar  a vida luxuosa a que est  acostumada.
  Seu rosto raramente mudava de express o, mas na quele mo-
mento ele parecia um garotinho triste. Estendi o brao e lha toquei
a face.
  - Fiquei mais agradecida quando o vi aparecer naquela rua
do que em qualquer outro momento de minha vida. Estou orgu-
lhosa por ter-se casado comigo na situa o em que me encontro.
  - Vou proteger e criar o filho do rei como se fosse meu -
prometeu, pois eu j  Ihe dissera quem era o pai, embora no lhe
tivesse contado tudo.

  Casamos na igreja dominicana de Stirling, onde me sentei um
tanto apreensiva enquanto Alasdair ia procurar o padre. Fiquei


                       157
#olhando a efgie pintada na parede; mostrava um homem deitado,
de barba e cabelos louros. Depois dos votos, perguntei ao padre
quem era ele. O religioso baixou os olhos, pois no me aprovava
muito; gr vidas no d o boas noivas. Ele por certo achou que a
criana era de Alasdair, e provavelmente nos considerou um casal
bem tresloucado.
  - Dizem que  Ricardo II da Inglaterra; presume-se que tenha
sido assassinado no castelo de Pontefract, na prpria Inglaterra,
mas alguns acha m que ele escapou, acabou se tornando o buf o
do Lord das Ilhas e depois de muitos anos morreu na pris o e foi
enterrado aqui. Ningum nunca saber  onde est  a verdade disso
tudo. Eu Ihes desejo boa sorte; v o com Deus.
   O padre se virou e foi embora, sem dvida muito satisfeito
por ver-se livre de mim.
   Alasdair j  ouvira a histria de Ricardo II; ali s, conhecia a
maioria dos relatos desse tipo. Mas, naquele momento, no se mos-
trou muito interessado naquilo; estava olhando para mim.
   - Foi Deus quem nos reuniu - disse. - Eu soube que voc
seria minha mulher desde que a vi caminha ndo ... beira do rio com
aquela cabritinha branca.
   Fiquei com muito medo, pois a idia de fazer amor naquele
estado me repugnava e assustava. Mas no precisava ter-me preo-
cupado. Durante toda a viagem, meu marido no me tocou nem
uma nica vez; ... noite, dormi s, envolta em seu grande manto
xa drez, e Alasdair foi deitar-se entre as  rvores, a alguma distncia
de mim. Parecia nunca sentir frio. Com o dinheiro que os foragidos
de Henrique VIII lhe forneceram, compramos provises em Stirling,
e Alasdair continuou a fazer drnnrnoch como antes, preparando o
mingau na agulha do p"nei (se tivesse feito o juramento cue os
governantes ingleses pedia m, eles Ihe teriam oferecido dinheiro,
como aos outros escoceses libertados, e tambm um cavalo, que
poderia depois ser vendido). Tudo considerado, eu me sentia quase
como se estivesse voltando para casa, a no ser pelo fato de que,
com os solavancos, as dores do parto me vieram no meio da flo-
resta; um constrangedor fluxo de  gua ensopou os flancos do p"nei,
e depois, ... sombra das  rvores, forcejei muito e grunhi bastante.

   Alasdair acabou se mostrando mais capaz do que qualquer
parteira; ele sabia exatamente o que fazer. Mais tarde, contou-me


                            158
#     lILl  IlLlIla  aIltS  trOUXf ra  1  ILlz  Um  bb;  n0  nta 11t0, ld  alLldara
     uma vaca , uma gLla e tambm Llma porcl. A compara o talvez
     no fosse lisonjeira, mas IneLls grLlnllidos lembravam de fato uma
     porca parilldo; eLl podia oLlvi-los e ma I percebia qLle provinham
     de mim; esta va descontrolada, escLltalldo a criatura berrante e gru-
     nhidora em que me transformara e sentindo as malloplas rijas de
     Alasdair me confortarem. Por fim, depois de mLlitas horas, a cabea
     saiu; tinha cabelo vermelllo, e Alasdair a pressionoLl como as par-
     teiras costLlmam fazer. Pouco depois, o beb saiLl por inteiro; era
     um mellino, nascido aos oitc lneses por causa de meLl sacolejar
     I1a sela. Alasdair o deitou a 111eu lado, envolvendo-o numa das
     pontas do manto xadrez, depois de ter limpado a boca e o nariz
     do beb com a mallga da camisa; pLlde ver a mancha que ficou
     no linho, uma manclla qLle, depois c-le seca, no sa iria mais.
        - V  procLlrar  gua para linlpar a camisa - disse-Ihe, muito
     fra ea.
        Ele ajeitoLl o manto pa ra dLle eLl ficasse mais collfort vel e se
     foi.
       - Vou  a rralljar  gua para voc - gritotl ellqLlanto se a fastava,
     e me dei conta de due gostaria nlesmo de Lln1 poLlco de  gua;
     olhei ent o para o filllo do rei Jaime.
       Havia certa semelhana , dLle de ilnedia.to me chamou a aten o.
     Eu vira o esplndido prillcipezillho qLle Mada me Marie dera ... lLlz
     em Saillt Andrews. Meu filho era a inlagem do prncipe Ja mes,
     dLlqLle de Rothesay, que nlorreLl com Llm ano de idade. N o sei
     se ali, I1a floresta, Llm plano surgiu em minlla mente; mas tenho
     certeza de que, a partir d.e ent o, percebi dLle no corta ra todos
     os laos com a ra inha vlva e qLle, na qLlele assLlnto, aillda me
     restava algLlma esperana.

        Nunca  conheci homem t o d.esembaraado qLlanto Ala sdair
     Dorch MacGregor. Depois do parto, dLlrante aIgLlIl.s dias estive
     fra ca demais para cavalgar, e as provises de Stirling se acabara m,
     exceto pelo drnrli>Iloclt. N o collsegLli comer daduilo, embora esti-
     vesse faminta, amamentalldo o beb com os seios cheios de leite.
     Em vista disso, Alasdair desaparecia por longos perodos, ficando
     hora s dentro de um riacho para apanhar a s trutas jovens, qLle ele
     acertava na cabea com Llma pedra de bom tamanho; depois de


15)
#ter pescado o bastante, acendia uma fogueira friccionando dois
gravetos e assava os peixes, que comamos com os dedos, sem sal.
Em outros dias, Alasdair ia caar o pequeno cabrito monts, que
era o maior animal encontrado naquela parte da floresta. Fiquei
triste quando o vi carregar o primeiro deles, uma fmea, que parecia
um c ozinho morto; Alasdair a segurava pelas patas, e, ao perceber
minha rea o, logo se arrependeu.
   - Eu no pretendia magoar voc. Vou levar a cabrita e des-
carn -la longe de suas vistas.
   Assim fez, voltando com a carne, que cortara em bifes usando
a faca. Ele a preparou num espeto; e eu, de minha parte, j  estava
em condies de alimentar a fogueira com gravetos, mantendo-a
acesa o dia inteiro. Devo dizer que a carne era boa. Alasdair co-
mentou que no gostara de ter matado a cabrita, mas que era uma
quest o de vida ou morte.
   - Logo voc estar  bebendo o leite da cabritinha branca -
anunciou em tom grave.
   - Anabela?! Ela est  bem?
   Para mim, era como se estivssemos falando de uma pessoa.
Ele fez que sim.
   - N o a vejo desde que partimos para Caerlaverock, mas eu
j  saberia se ela no estivesse bem.
   Percebi ent o, como j  deveria ter feito antes, que Alasdair
possua o dom da prescincia, que nas Highlands chamam de Vi-
s o, e que no havia nada que eu no pudesse lhe pedir ou per-
guntar. Tampouco havia algo que eu pudesse Ihe ocultar; deixei
um bocado de coisas por dizer, mas seus olhinhos escuros eram
sagazes, e tive certeza de que ele sabia muito mais do que eu Ihe
contara. De outra forma, ali s, teria sido estupidez perguntar da
cabritinha branca; Alasdair no poderia estar informado do modo
normal, pois da ltima vez que eu o vi a  gua da chuva corria
por suas faces, no port o do castelo de Caerlaverock, onde Lady
Maxwell no o deixara entrar, e depois disso ele viajou sozinho
para Solway Moss e no voltou para Freuchie.
   Eu andara pensando num nome para o beb. N o queria cha-
m -lo de James, pois esse nome me trazia lembranas desagrad -
veis; tambm no o chamaria de Alasdair. Os Grant, quando vol-
t ssemos, certamente iriam pensar que se tratava do filho de Alas-


                          160
#dair, j  que ns dois havamos passado muito tempo fora; e tive
a sensa o de que seria injusto e agourento dar ao menino o nome
de um homem que no era o pai. Lembrei-me do meu primeiro
marido, Jea n de Vouvray. Ele foi bondoso comigo, ta nto quanto
possvel; eu no Ihe dei nenhum filho, e, em sua memria, decidi
que o menino tambm seria Jean. Quando falei disso com Alasdair,
ele de imediato disse que aquilo era nome de mulher.
   - N o,  francs - expliquei, rindo.
   Seu rosto ficou severo.
   - N o temos franceses em Freuchie. Se voc batizl-lo de John,
nome de nosso ama do a pc5stolo, a gente da qui ir  chaml-lo de
Iain Ruadh, John, o Vermelho, por causa da cor do cabelo. Assim
ele estaria em casa e no seria nenhum estranho.
   Assim, ficou sendo Iain Ruadh.
   Lembro-me de mais uma coisa a respeito daqueles dias, que
foram estranhamente felizes, muito embora os mosquitos-plvora
me incomodassem (eles no mordiam Alasdair Dorch) e eu esti-
vesse sempre ocupada afastando-os do beb.
   - Fique perto da fumaa - dizia meu marido, que tinha re-
mdio para tudo.
   Andava ocupado com um objeto que de incio no reconheci,
feito do osso de um dos cabritos monteses que ele abatera. Eu
estava desgrenhada, pois o menino de rua que fugira com todas
as minhas coisas em Stirling levara meu pente; vi-me obrigada a
desembara ar o longo cabelo com os dedos. Agora, Alasdair me
trazia o tal objeto, um pente belssimo que ele mesmo fizera en-
talhando o osso, um material bastante resistente. Era muito melhor
do que o pente que eu perdera; Alasdair o chamava de cir. Corei
de satisfa o, fiquei na ponta dos ps e o beijei na fa ce.
  - Voc  bom para mim - disse-lhe. - Tentarei ser boa esposa.

  As coisas no foram muito f ceis com os Grant. As mulheres,
 claro, fuxicaram bastante; quando nos viram voltando com um
beb aps aquela ausncia t o longa tiveram certeza de que Alas-
dair no estivera na Inglaterra e de que, muito pelo contr rio, pas-
sara uma temporada comigo em algum ninho de amor. Era de
esperar que elas o conhecessem melhor, como o conhecia Am Gran-
tach, o james das Pilhagens; muitas vezes, este vinha a nossa botlzan


                           161
#e se sentava do la do de fora, nLlm banco qLle meu ma rido fizera;
enquanto isso, eu me ocupava das tarefas da casa , que eram nova s
para mim, ma s na s quais Alasdair me ajudou ba stante no comeo.
A velha Lady Grant, porm, resolveu no da r por minha presena,
e, se por acaso nos encontr va mos (coisa qLle no a contecia com
freqncia), ignorava-me desdenhosamente. Com certeza, uma
Ogilvy de Deskford podia permitir-se desprezar algum lue casara
com um simples subordinado, mesmo sendo ele Llm MacGregor.
N o havia dvida de que eu perdera prestgio; no entanto, Chris-
tian Grant, a mulher do chefe, foi mais bc>ncosa . Um dia depois
de  termos  chegado  a  Freuchie,  uma jovem  cria d  V210  a  IlOSSa
porta, trazendo a cabritinha branca. CIZristian manda va dizer qLle
eu devia fica r com o animal; era um presente de casamento.
   - A cabra l  CYLlzoL1- disse a criada.
   Olhando para Anabela, ningLlm diria que estava prenhe, pois
parecia a mesma de sempre. Veio para perto de mim t o logo a
soltei, e balia de satisfa o sempre que me encontrava . Mas havia.
uma ordem do castelo que me angLlstiava: se ela parisse Llm macho,
este deveria ser sacrificado. Mais de uln bode no rebanho levaria
a disputas entre os animais.
   Eu no sabia pa ra qLla ndo espera r a cria de Anabela ; mas, certo
dia, ela foi para tr s da botltnrt sem fa zer ala rde, e, na manh  se-
guinte, a encontrei ali com um lindo filhote branco, que estava
abanand.o a cauda e mamando na In e. Pensei dLle se tratasse de
uma fmea e por isso fiquei feliz; mas, pouco depois, vi um arco
de urina jorrar entre suas patas. Alasdail' estava caando, e no
lhe contc:i; mais tarde, porm, ele perguntou. Eu ent o implorei:
   - N o o leve para longe dela. Os dois est o felizes.
   Relembrei como o cabritinho malna va sa tisfeito o leite da m e.
Aquilo me fazia pensa r em Ia in Ruadh e em mim mesma; agora,
aI'rFgaVa  m2L1  fllh0 nLlma dObra  d0  tartil  ClU(' f'11 paSSal'a  a USar,
C: O menln0 eStaVa flaIldO ada VCZ malS pSad0.
   Alasdair no disse nada. Foi buscar uma tina de madeira que
us vamos para lavar roupa e a encheLl com  gua do rio. EL1 no
queria assistir ao que a conteceria em seguida, mas acabei vendo
assim mesmo: Alasdair pegou o filhote e mergulhou a cabea dele
na  gua, segLlrando firmemente o pescoo. O animal se afogou em
poucos segundos, e seu corpo ficou lasso como o da fmea de


                             162
#cabrito monts l  na floresta. Eu no quis cozinhar nem comer a
carne do filhote, e Ala sdair o levou para o casal da bothnn mais
prxima, que ficou muito contente.
   Anabela nunca mais foi a mesma ; tive certeza de que sentiu
que eu trara sua confiana. Deixava-me ordenh -la, e por muito
tempo nos deu leite; mas, um dia, fui v-la atr s da bottnrt, onde
ela ficava amarrada, e a encontrei morta, de alguma causa que
desconheo. Agrada-me poder dizer clue Alasda ir no nos fez
com-la; ele at a enterrou para  mim. quela altura, j  haviam
acontecido muitas outras coisas, tanto no norte quanto no sul.

   Am Grantach mais do que comeara a merecer o nome James
das Pilhagens, e  de espantar que no tivssemos topado com ele
em nossa viagem, pois cavalgara pa ra o sul com um grande grupo
de homens para assinar um compromisso com o cardeal Beaton
em favor da rainha viva e contra os inimigos dela. O principal
destes era a Inglaterra, pois Arra n se encontrava agora num esta do
t o vacilante que dificilmente inspiraria medo - muito embora
Henrique VIII ainda oferecesse a m o da princesa Elizabeth, a filha
de Ana Bolena, ao herdeiro do governador. Am Grantach nos con-
tou tudo isso diante de nossa casa, enquanto os dias de ver o se
alongavam com a proximidade do outono e o usque borbulhava
lentamente nos alambiques da s bothans. Os dois homens ficavam
sentados com quaigues de usque na m o; eu a inda no bebia da-
quilo. Quando terminavam minhas tarefas, eu vinha ouvir a voz
tranqila de Am Granta ch; j  estava comeando a entender galico,
de tanto falar com Alasda ir.
   - Os lords que deveriam ficar com a custdia da pequena
ra inha foram a Stirling para lev -la embora , mas no conseguiram.
A viva tomou a bagagem deles, e no puderam sair.
   Houve risos, dos quais participei; Mada me Marie era  muito
engenhosa nessas coisas. Am Grantach continuou:
   - Lord Erskine, due  a migo da rainha viva , est  com as
chaves, e ningum conseguir  pa ssar por ele; e, em todo caso, o
castelo  mesmo dela. O rei da  Inglaterra deu ordens para que
m e e filha sejam separadas, mas isso  o lue ele tentou fa zer com
a primeira esposa, quando esta no Ihe obedeceu.
   Engoliu o usque e estendeu o brao para receber mais. Eu. o


                            163
#servi de uma jarra e continuei escutando. Madnrrre enviou mensa-
gem urgente a Huntly dizendo temer que o castelo de Stirling
fosse sitiado pelo governador; Huntly Ihe garantiu que, se isso
viesse a acontecer, ele e Arran desbaratariam as foras de Arran.
Sir Ralph Sadler foi novamente convocado e novamente Ihe a sse-
guraram de que madrzrrre ansiava pelo casamento ingls. Fiquei ima-
ginando at quando ela conseguiria manter aquela farsa. Fosse
como fosse, o meio irm o de Arran, que era abade de Paisley e
bom amigo de Beaton, estava influenciando o membro fraco da
famlia; e, ao menos uma vez, o rei Henrique acabou fazendo papel
de tolo com uma carta.
   - Ele se ofereceu para fazer de Arran rei de todas as terras
ao norte do Forth, mas Arran possui terras muito melhores ao sul
- explicou, sorrindo, James das Pilhagens. O sorriso desapareceu
rapidamente. - Homem nenhum pode confiar em Arran. Ele es-
teve na missa solene em Holyrood, celebrando o tratado ingls
que os escoceses no querem. Dizem que havia at msica.
  - O cardeal estava l ? - perguntei, e Am Grantach me olhou
como se percebesse pela primeira vez que uma mulher podia ter
cabea.
   - N o, no estava - respondeu. - O cardeal toma muito
cuidado com os lugares e as companhias em que  visto. Ele no
recebeu Arran quando este foi a Saint Andrews para v-lo.
   Mais tarde, porm, soubemos que Arran sara discretamente
da capital, dizendo que Margaret, sua mulher, ficara doente depois
de um parto. Depois, ele foi da casa dela para Falkirk, onde o
cardeal o recebeu em particular.
   - Dizem que trocaram abraos amistosos - comentou Alas-
dair. - Os tempos mudaram...
   E mudaram mesmo. Em pblico, o cardeal e o governador
cavalgaram lado a lado, seguidos de grande comitiva , at Stirling.
Desejei ter estado l  para ver a recep o que rrradnme lhes dera. O
governador arrependido teve de engolir tanto suas palavras quanto
suas aes; penitenciou-se abertamente na mesma igreja domini-
cana onde Alasdair e eu casamos e onde eu vi a efgie do homem
louro que talvez tivesse sido um rei. O cardeal concedeu a absol-
vi o ao governador da Esccia, o mesmo que andara importando
bblias inglesas por ordem do rei Henrique; depois, Argyll e o Belo


                         164
#Conde participaram com Arran da missa, que este acompanhou
de joelhos, finalmente recebendo o sacramento que tantas vezes
trara.
   No dia seguinte, houve a coroa o da rainha; a menina usava
gola plissada e touca. O penitente Arran carregou a coroa de ouro
escocs e a p"s sobre aquela cabecinha; Lennox segurava o cetro,
e Argyll, a espada real. A soberana chorou o tempo todo; talvez
os lords a tenham saudado bruscamente. Depois houve dana s e
representaes teatrais para a pequena rainha , que j  devia estar
sonolenta; tambm se ofereceu um banquete, com muitas brinca-
deiras da tru  Senat, que nunca  deixou rrtrrdartre, e da an  Jane,
que continuava por l .
   Olhei para o cabelo ruivo de meu filho, e ocorreu-me que, no
fosse por ele, eu estaria entre a quela gente em Stirling; mas me
obriguei a lembrar que tinha um bom marido em Freuchie e que
era bem tratada.

   Raramente amos ao castelo, exce o feita ... missa de domingo,
ao Natal e ...s ocasies em que algum pescava um salm o-rei.
Quando isso acontecia , o peixe era cozido no caldeir o de prata
que Lady Grant trouxera de Deskford ao se casa r. Meu filho tinha
trs anos quando Alasdair pescou um deles, uma beleza que pesava
mais de dez quilos. Ns o levamos orgulhosos para o castelo, com
Iain Ruadh cambaleando vigorosamente a nosso lado; ele crescera
forte com os bons peixes do Spey e o leite da pobre Anabela. Quan-
do chegamos ao castelo, agarrou-se a minhas saias; havamos re-
comendado que se comportasse enquanto estivesse ali.
   O sal o estava cheio, e o peixe foi alvo de muitas exclamaes
de espanto. Deparei com Lady Grant, a quem eu no via de perto
desde meu casamento e com quem no mais fala ra. Contrariando
seus h bitos, deteve-se a meu lado; mas no havia amizade em
seus olhos quando contemplou Iain Ruadh.
   - Este  o filho do rei - disse-me bem baixo, em francs. -
Eu estava com a rainha em Saint Andrews e vi bastante o jovem
prncipe. Alasdair Dorch no consegue ter filhos prprios? Encar-
regue-se disso.
   Fiquei vermelha como fogo, e, qua ndo ela j  se afasta va, disparei:


                            165
#   - Eles aqui a chamam de cailleach, e tm raz o. Nunca mais
se dirija a mim dessa forma.
   Eu no me sentia mais a mulher do humilde membro do el ;
agora, era t o boa cuanto ela. Lady Grant me deu as costas, e
percebi que fizera uma inimiga; mas, em todo caso, ela nunca
se mostrara minha amiga desde que eu viera a Freuchie pela
primeira vez.
   Fiquei sentada num canto com meu filho, e comemos nossa
por o do peixe. Quando est vamos volta ndo para casa, disse a
Alasdair uma coisa que deveria ter sido dita muito tempo antes:
   -  hora de eu lhe dar um filho, uma criana que tenha o
sangue dos MacGregor.

   Em todos aqueles anos de casamento, ele nunca me tocou. N o
me negava nada, e, ainda por cima, me a judava no trabalho, na
cria o do menino, na coleta dos ovos das galinha s, no preparo
da comida, na lavagem das roupa s ... beira do rio. Tratava -me como
se eu fosse uma rainha, e eu no lhe dera nada em troca.  noite,
dormia sozinha num confort vel leito de hastes de urze; j  Alasdair
se deitava na terra batida, perto da porta da botltnrl. Certa vez, eu
perguntei se no gosta ria de compartilhar o leito, apenas pa ra que
tivesse menos desconforto; mas ele balanou a cabeorra.
   - Consigo dormir em dualquer luga r, at na pedra.
   N o tornamos a tocar no assunto, ma s eu sabia que as outra s
esposas davam ... luz todo ano e considera riam um desdouro ao
vigor de seus maridos se no o fizessem. Eu permiti que Alasdair
suportasse tudo isso, e sabia o porqu: estava amedronta da. J
fora estuprada por dois homens e queria guardar meu corpo para
mim mesma. Mas, em gratid o ao devotamento de Ala sdair, e
depois daquilo que a crrillerrclt dissera com desprezo, eu precisava
dar a meu marido o que ele nunca exigira e nunca usara de fora
ou de argumentos para conseguir. E, quando lhe disse o que pre-
tendia, vi um rubor profundo se espalhar por seu rosto e seu pes-
coo. Sorriu um pouco e continuou em silncio.
   Naquela noite, como em toda s as outras em que dormimos
juntos, ele se desfez do velho leito de urzes, cortou hastes novas,
trouxe-as para dentro e a s colocou no ch o. Pus Ia in Ruadh para
dormir e, quando o menino pegou no sono, me despi. Senti-me


                            166
#toma da pela timidez, como uma recm-ca sada, e cobri o corpo
com o longo cabelo. Quando Alasda ir entrou, j  estava bem escuro;
ouvi seus movimentos enqua nto ele tirava o manto e a camisa e
senti o calor de seu corpanzil qLiando se aproximou de mim. Meu
cora o disparou de pavor, e ele deve ter percebido; na escurid  o,
eu o ouvi me dizer:
   - N o tenha medo. Tlin nol ncrm ort.
   Essa ltima frase significava "Eu te amo". Ele ent o se deitou
e me abraou gentilmente. Nunca conheci algum t o forte e, ao
mesmo tempo, t o suave. Era como se, por ca usa de meus temores,
ele retivesse nove dcimos de sua fora; mesmo assim, as l grimas
j  escorriam de meus olhos fechados, e eu emitia sons que as mu-
lheres produzem quando est o sofrendo, e no quando est o sen-
tindo prazer. Isso o preocupou, e ele ainda tentou me acalmar,
mas dali a pouco comecei a soluar bem alto; no final, sendo
ele homem, fez o que os homens costumam fazer e me penetrou
por completo; depois, quando enfim nos tornamos um s corpo,
sussurrou-me coisas em sua prpria lngua. Eu parara de tremer,
mas ainda no estava nem desejosa nem feliz; naquela noite e
nas outras, fui uma esposa indigna de Alasdair, e ele se mostrou
muito pa ciente.
   - Eles no foram gentis com voc - disse-me certa vez, e
percebi que ele entendia.
   - Voc  gentil - respondi ent o. - Tem sido gentil desde
o incio. Possua-me quando cluiser. N o d aten o a minhas tolices.
   - Como voc quiser.
   Levei quatro meses para conceber. Se estivesse disposta, teria
sido antes.

   Quando o beb nasceu, no pude me ueixar de ser negligen-
ciada pelo ca stelo de Freuchie, ou ao menos pela ma ioria dos nobres
que l  moravam. A prpria Christian Grant, a esposa do chefe,
cuidava de todas as mulheres do c11, atendendo a suas necessida-
des; Christian a gia  ta 1 como Madame Marie  fazia muito tempo
antes, quando assistia os pobres de Chteaudun; se Ihe tivessem
permitido, rnadrrrrte teria feito o mesmo pelos escoceses, e, nas cir-
cunstncias, at conseguira alguma coisa, indo levar auxlio aos
lares pobres de Stirling e Edimburgo sempre que podia. Lembrei-


                        167
#me dela quando as m os gentis de Christian Grant me ajudaram
em meu segundo parto; ...quela altura, Christian j  tinha muita
experincia nisso e tambm muitos filhos. Christiania, de sua parte,
no me visitou nem durante a gravidez nem depois; talvez a m e
tirnica a proibisse, ou talvez Christiania ainda me invejasse por
causa de Alasdair. Era uma pena, pois eu teria gostado de ser sua
amiga; de certa forma, ramos almas afins.
   Dessa vez, o parto foi r pido e f cil, pois a criana, para meu
alvio, era pequena; mas era uma menina, e temi que Alasdair
ficasse desapontado. Ele entrou quando Ihe foi permitido, com o
corpanzil bloqueando a luz na porta da bothan, e veio direto a
mim, ajoelhando-se para perguntar como eu estava e se me sentia
descansada. Ent o Alasdair viu a menina, morena como o pai, e
um sorriso de criana satisfeita se abriu em seu rosto.
  - Leariabh beag, pequenina - falou, suavemente; e, quase como
se tivesse medo, tocou-a com a manopla.
  - Segure-a - eu disse, rindo. - Ela no vai se quebrar.
  Mas Alasdair no quis ergu-la, embora comeasse a faz-lo
um ou dois dias depois, e tambm a observ -la timidamente quan-
do eu lhe dava de mamar no peito. Acho que estava mais feliz e
menos solit rio do que j  estivera em toda a vida, ainda que fosse
um homem que sempre ansiara por isolamento.
   Batizei a menina de Mhairi, que  a forma galica do nome da
rainha viva e da soberana. Quando os olhos de Mhairi se abriram,
eram verde-claros como os meus. Com a morenice de seu rosto,
isso Ihe dava um encanto curioso.
   Depois do nascimento, nossa vida continuou como antes, s
que mais alegre durante algum tempo. Am Grantach vinha quase
todos os dias; tomava seu trago conosco e despenteava os cabelos
ruivos de Iain Ruadh, que estava crescendo depressa, mas nunca
seria muito alto. Achei que Mhairi acabaria ficando mais alta do
que o menino; ela poderia muito bem chegar ... estatura do pai e
dos Guise. Seria uma mulher imponente, uma verdadeira MacGre-
gor. Antes mesmo de aprender a andar, j  dava mostras de deter-
mina o. Alasdair a adorava; de certo modo, a amava mais do
que a mim. A menina era parte dele, sangue de seu sangue. Talvez
ele se lembrasse de como era ser um garoto solit rio, crescendo
num cl  que, embora amistoso, no era o seu. N o posso ter certeza,


                           168
#pOlS 11O COIlVCYSaVanlOS SObrC: 1550; CLI O ObSC'rVaVil,  tlCaVa  fC`I17
pOr Cle O CLlllaVa dC mLIS ataZf YC'S; COlll Cj.UaS CI'IaIlaS ptll'a  CLlldar,
IlaO n12 SObYilVa  mUltO  tf'mp0. 5flbla  CILlC' f'StaVa  lCaIldO  COmO  aS
Outras mulherf S d0 C11, Oellpadas lItllCamOntf  COn1 OS nlaYldOS, OS
f111105  C'  aS  prOCf S.  De  V('Z  C'n1  CLlatld0,  110  lltlnl0,  tUdO  lSSO  171t'
delXa Va dC'.SC(711tf lltE'. EU TOSta Vd dC' 5tr O Cf IltYO CaS atl'IlC'S, C' 
na0 Eri1 ITlalS. lSSO prOVa vf'lmentC  l'x>lica O Cllf  aCOntCC('L1 d.epOlS.
ELI no sabia resistir a minl mesma; devia ter tiLlo collscizlcia de
qLlanto era afortllllada.
     la lI1  RLladh  IlaO  f StaVa  SC  df Sf'IlVOlVE'nd0  S  dC'  C0Y170.  Jc1  5f
eX7rf SSaVa  ta O  bem  m  franCeS  ClLlallt0  f n1  aC'11C0,  pOlS  L1  lhf
enSlnilYa. F;n1 mUItO.S aSpl'CtOS, OS dOl.S 1dl0nlaS Sfl() Slmllar('S; OOY-
rera Llm lnterCdmbl.0 de palaVraS C' t XpreSSOCS I1a C'pOCa dOS I.Ord.S
CilS 1111a5, CUlaS COI'tf S eram a 2nOSaS  mlllt0  VlSlta daS. 11111 nLlIlCa
f01  df  falar  mUltO;  n0  entaIltO,  ObSC'rVaVil  tudO  cOm  OS  0l11I11105
f StYltOS, (' lSSO aClbOU prOVOCandO L11I1 lllCIdntt' ClU.e IlaO COIlSlTO
eSClUCC'r. MalS dC  Llm  a110  apS O naSClnllltO de MhalYl, ClUalldO
.la li1 E'Sta Va d.E'5I2lama da, Ala Sdalr tE'IltOl1 tC'Y Lln1 f11110 VaraO. QLlal1-
d0 01C  COYtaVa  nOVaS  haSt.S d0  LIYlO, C'U 11  m(' prC'pfIYaVa . lICSSlS
IlOlteS,  alnda  ChOYaVa  COmO  Uma  tOla,  mUl.tO mbOra  Ala5dillY  tl-
VeSSO tOdO O dlrltO dC' CXerCCY SLIaS prrrOTatlVilS df  marld0 C  p01'
C2rt0 la  IlOUVESSC  Se  aCOStLmladO  COm  mlllh S  llrinlas.  AO  COn-
trdrl0 da lnalOrla  dOS 1lOmOnS  11('5Sa  51tLllaO,  I1LlllCa  f01  dUYO CO-
mlTO; meSmO  aSSlm,  ClLlC'rld  Llnl  men1110. lLlma  dC'SSaS 1101tC'S, f'll
pLlS  a5 CYlaIllS paril  dOYm.lr IlLlm  CaIltO, COnlO Semprf  faZla; maS
f ra VEraO C' IlaO f.StdVa CSCLlYO.  AlaSCdlr SC' dltOU C0n110 n0 ItltO
df  UI'ZeS; SELI COYpanZll SC' COlOCOLl pOr ClIIla  dC  1711II1, SLla S IlldC'Lt7S
cOmearam i1  movCr-sC  ritmicanlC'ntf , C', cOmO dt` COStum, a S  li1-
grima s escorreram por n1i1111as faces. De repente, oLlvimos Llma
VOZ f111d;  C'I'i1 lalll RUadh, ClllC',  tambm IlLl, e.StaVa  dC p  I10 Cllc O
de  trra batida C' llos Observfl Va .
   - M e, o (ue  clue ele est  fazendo coln a sellllora?
   SeLzs oll7inhos estreitos no peYd.ianl llada; ele talvez estivesse
assi.stindo a hzdo j  fazia alLlm tempo. Alasdair se leva.ntou, foi
at o mellino e 111e deLl trs dolorosas palmadas no tra seiro; Iail7
RLladh eomeoLz a berrar, e nleu ma.rido lhe oz'denoll:
   - Volte para seu canto e fique l .
   Foi a primeira ocasi o em qLle vi Alasdair enfurecer-se com


         169
#algum. Ele voltou, e a chei que tornaria a me penetrar; mas, em
vez disso, deu-me as costas e adormeceu. Continuei acordada, e
pela primeira vez me dei conta de que estava ressentida com Alas-
dair. Meu filho fora gerado por um rei, mas estava sendo eriado
como um campons. Quando crescesse, no seria mais do que
um membro do cl , vivendo numa botharT, bebendo usque, talvez
tocando gado para o sul ou seguindo seu chefe em tempo de
guerra. Por direito, deveria estar na corte, como outros bastardos
de Jaime V, que haviam recebido cargos na Igreja e gordos be-
nefcios eclesi sticos. Eu fora negligente e me preocupara de-
masiadamente com meus prprios problemas. Agora, precisava
fazer mais por meu filho.
   Por algum motivo, no dei outra criana a Alasdair Dorch; 
possvel que, caso ele tivesse me forado mais, eu houvesse con-
cebido. Mas Alasdair sempre pensava em mim antes de pensar
em si prprio; se eu houvesse feito o mesmo por ele, teria sido
melhor para ns dois. Nunca mais se zangou com o menino, a
no ser mais uma nica vez, quando ent o sua ira se mostrou
terrvel, e ele se enfureceu tambm comigo.

   Quando ponho uma idia na ca bea , ela no p ra de me ator-
mentar at que eu faa alguma coisa. N o demorou muito, caminhei
at o castelo, levando meus filhos, para pedir papel, pena e tinta,
com os quais escreveria a Sua Graa. Alasdair no sabia de nada;
estava na montanha , e justamente por essa raz  o escolhi aquele
momento. Pensei em esperar pela  resposta de rrindnrne antes de
expor o assunto a ele; ali s, talvez no viesse resposta nenhuma,
e nesse caso ningum sairia prejudica do.
   Christiania estava fiando, mas se arriscou a interromper o tra-
balho e pega r Mhairi no colo. Imaginei que Lady Grant no poderia
importar-se com isso se aparecesse; naquela poca, o reumatismo
mantinha a velha no quarto a maior parte do tempo. Vi Christiania
alisar o cabelo escuro do beb e me ocorreu que, perdul ria ou
no, ela seria melhor esposa para Alasdair Dorch. Tambm lembrei
que, por causa de tudo o que aconteceu, no tive tempo de com-
prar-Ihe um broche de prata em Edimburgo, como planejara fazer.
Se mndame respondesse e permitisse que eu a visitasse com Iain


                             170
#Ruadh, eu mandaria o broche. Talvez Christiania pudesse ficar
cuidando da menina. Eu escrevi:

  "Freuchie, 2 de maio de 1545

  Madame, ouso escrever-lhe depois de tanto tempo na esperana
de que no esteja mais zangada comigo. Gostaria que a senhora
conhecesse meu filho. Ele  a imagem do prncipe James, que fa -
leceu em Saint Andrews. Tem cabelo ruivo e os traos dos Stuart,
e  bastante precoce. Acho que a senhora iria adorl-lo. Est  sendo
criado aqui, como filho de um membro do cl , e, se as coisas con-
tinuarem assim, no ser  mais do que um tocador de gado e um
guerreiro comum. Se a senhora permitir, eu gostaria que ele esti-
vesse na eorte".

   Afinal, havia tambm os outros bastardos, que tive o cuidado
de no mencionar. Minha carta continuava:

   "Estou casada com um bom homem, um MacGregor, que cuida
muito bem de mim. Temos uma filhinha, ... qual demos o nome
de Sua Graa e da rainha. Espero que a soberana esteja bem; re-
cebemos poucas notcias por aqui, e mesmo assim muito depois
dos acontecimentos.
  Caso a senhora no deseje receber a mim ou a meu filho, eu
lhe rogo que recorde os tempos em que estivemos juntas na Frana.
  Que Deus a acompanhe.
  Sua sempre fiel e dedicada meia irm ,

  Claudine de Vouvray".

  Depois que a carta foi enviada, fiquei me perguntando se eu
no fora demasiado atrevida. Durante muitas semanas no tive
nenhuma resposta, e acabei desistindo de receber alguma; mas ela
finalmente chegou, e dessa vez trazia a Cruz de Lorena e os selos
verdes. Aquilo me animou, pois rriadame escrevera no como rainha
viva, mas como minha querida irm , que partilhava comigo o
orgulhoso sangue dos Guise. Abri a carta, que estava endereada
a "Madame MacGregor"; Alasdair estava brincando com a filha,


                             171
#C Ll'. C'lt' i3dOraVa  f  COStUnlaVE1 Carrf.`gaY  IlOS Onlbl'US, l',  lllill5 tflrdf',
COIldLlGIr IlUln 7()IlCl.  ,IS D ClLlf  illllCl(IIIlL  dlZll:

  "Stirlillg, 3 d.e agosto de 1545

  FlClUC'I  mLlltO  alllnlada,  mlIlha  CLIlYlda  ClaLldlnf ,  a0  rCtbtr  SLla
Carta f  Sabr ClLl VOCt' Sta Uem. FU 70Y CCrtO f StLlVa ZaIlglCla, COnlO
VOC dlG, maS a lra 11a0 p.rCUril,  t(1lltaS COlSilS plOrS tf m. ()COI'YldO
  Eu gostarla de collhecer seLT filllo, que voc diz parecer-se com
o lneu. A tlTmba do prllcipe enl Holyrood, assim colllo 1 de sell
IrmaOZlllll0 2 a d0 r21, fOraln df StrLllda S pC lOS lnglCS('S n0 a110 paS-
SadO,  e  O  meSmO  aC0lltCC('U    abadla .  HOUV  nlLllti3S  Cldadf S  lIl-
Celldl.adaS, f  pOr tOda pa rt (1S COIlheltaS dOS pObYC'S fOYln1 dCStrlll-
da.S. Tambm hil trallO 110 COnSlllO, OIld algLlIlS SCmpr flnglra0
m  alLldaY f'Ilqllallt0  COTltlIlLlam  a  rf CCb('Y d1111lf'lr0 lngIS.  ELI 1h
COntaYf l malS qUandO  VOC  Vlr.
   Ma S ll0  Venlla  llnda .  AS COlSaS pOr a qUl ('StdO COnf USaS, paYa
dlCr O mlIllmO, C nd0 f' SCgLlYO VlaaY paI'a OIldC' Clllr CLl Sfa;
pOr  eSSa  raZclO;  pCYnlan20  C m  mC U  CLlStelO;  at2  OS  pldYf S  USam
COtaS df  malha e Carr2ganl lanaS. SOL1 a fOrtLlnada pOI' t('1' IlI3llgOS
CLl ChCgaram da FYana  CIUE m aLlXlllam V2rdddf'lI'amelltl'. l'la5
OS IOYGS 11a0 gOStam dlSSO;  VOCC' Sab(' COmO Sd0 OS ( SCOCeSS.
   VeIllla  ClUaIldO  SOUbf Y  qLlC  O  palS  eSta  Cm  pi7Z.  ELI  a  rCberCl
COn1 alegrla, aSSlm COmO a  S('US flll05 2 a sf 11 ma rido. Tivf  c0I111e-
cilnento de como ele lutou em Solwa y Mo.ss e de como regressou
da lnglaterYa. HOmC:IlS a,SSlm Sa0 I'aYOS, e nOSSa YalIllla pOd('rE Utl-
lizar setls servios.
  Sua sempre dedicada a miga e irm ,

  Marie R."

  Fiquei imaginando como Ilradalrle soLlbe de Ala sdair Dorch ou
como descobriu qlle ele era meu nlarido; lembrei ent o lue Jallles
das Pilhagens estivera outra vez no sLll e qLle, mais cedo oLl mais
tarde, a rainha viva se iTlteirava de tudo.

  J  contei que Alasdair idolatravzl a filhinlla .  medida que Mhai-
ri crescia, ele ficava mais e n3ais en1 sua  companhia, levalldo-1
                                                           1

                        172
#para caminhar ou para cavalgar o p"nei. Era um.a menina corajosa   ,
que no tinha medo de na da, fosse dos animais, fosse do rio; ela
adorava chapinhar e bater as m os na  gua do Spey, enquanto o
pai a segurava e eu ficava a alguma distncia, calcando a roupa
lavada. Iain era mais sossegado e no costumava rir muito; em
geral, permanecia junto de mim. Esperei que, quando o menino
fosse mais velho, Alasdair o levasse para caar e o ensinasse a
usar arco, espada e escudo. Mas, por enquanto, era s Mhairi para
c  e Mhairi para l ; parecia at que ela me substitura no amor de
Alasdair, depois que eu me revelara uma esposa intil e no lhe
dera um var o. Mesmo assim, era bom v-lo t o feliz com a filha;
suas manoplas estavam sempre prontas a segurl-la, para que a
menina no casse, pois ela pa ssou a correr como uma flecha t o
logo aprendeu a andar. Todo mundo a adorava; Am Grantach a
punha no joelho quando vinha tomar nosso usque e falar dos
iltimos acontecimentos. Mhairi fora ensinada a ficar quieta se o
chefe a estivesse segurando; nessas ocasies, porm, seus olhinhos
verdes no paravam de se mexer, como se toda a agita o do corpo
se expressasse neles. N o sei o que eu sentia pela menina; Iain era
todo o meu orgulho, e eu sem dvida devia achar que Mhairi
pertencia unicamente ao pai.
   A tragdia aconteceu quando minha filha tinha trs anos. Am
Grantach estava conosco, relatando tudo que sabia sobre a terrvel
destrui o que os ingleses trouxeram ... Esccia. Fiquei junto dos
dois homens, prestando aten o no que se dizia, pois desde a carta
de Madame Marie eu queria mais informaes. As crianas foram
passear juntas; Iain levava a irm zinha pela m o.
   - Cuide dela - falei.
   Mas ele no se voltou, e ambos foram andando at sumirem
de vista.

   Am Grantach esticou o brao para que eu lhe servisse mais um
trago, e achei que nosso usque devia ser melhor do que o dele.
Alasdair Dorch usava uma receita que sua famlia lhe dera em Gle-
norchy, e nenhum dos Grant a conhecia. O chefe falava da inquieta o
que tomava conta de Edimburgo, onde estivera pouco antes.
  - As coisas est o melhores agora, mas dizem que havia cinco
ou seis mil homens nas ruas, e eles juravam destruir todos os mos-


                           173
#teiros e igrejas em quatro dias. Isso aconteceu por culpa dos ingleses
e de Arran, que estragaram muita gente com suas bblias e a nova
religio. Mas os franceses da rainha acabara m dissuadindo a mul-
tido.
   Ele no explicou como fizeram isso.
   - E Arran? - perguntei, lembrando-me das vezes em que
vira esse personagem em Linlithgow. - Quanto tempo v o tole-
r -lo como governador? Sua Graa  muito mais capaz do que ele.
  - Talvez, mas no aceitaro uma mulher - disse gentilmente
James das Pilhagens. - Claro, j  era tempo de terem enforcado
Arran; dizem que ele gastou todo o dinheiro do rei Jaime, e foi
uma quantia enorme, pois o rei era zeloso.
   Pensei em como Madame Marie poderia ter empregado o di-
nheiro.
  - Homens de menor importncia j  foram enforcados por me-
nos - eu disse, e ent o percebi que estava falando demais; se
quisesse ficar, deveria me manter em silncio.
   - Sadler, o enviado do rei Henrique, retornou ... Inglaterra
jurando nunca mais voltar. Dizem que o tratado ingls ser  anu-
lado, j  que Henrique se apossou de nossos navios. Acho que, se
o ingleses no fizessem mal ... rainha nem tomassem a terra para
si, o divino casamento, como alguns o chamam, seria boa coisa.
Mas uma criana pode morrer muito facilmente.
   Tais palavras devem ter sido de mau agouro. Eu, entretanto,
no lhes dei aten o; continuei ouvindo Am Grantach, que falava
de rriadame e de como ela mais uma vez caminhara at o santu rio
de Nossa Senhora de Loreto (como j  fizera antes do nascimento
da pequena rainha), ali permanecendo dura nte vinte dias a rezar
pela paz entre a Inglaterra e a Esccia.
  - Se preces adiantam mesmo alguma coisa, ela certamente h
de conseguir o que deseja - disse James das Pilhagens. - O conde
de Angus, aquele que era casado com a velha rainha, ficou furioso
e enviou um exrcito contra o cardeal. Mas os soldados de Angus
fugiram todos. Depois, o governador anunciou que ia se divorciar
da mulher, Margaret, que talvez seja demente como a irm . Ele
pretendia, adivinhem s, casar com a rainha viva!
   Rimos desbragadamente, e at o rosto de Alasdair se abriu
num sorriso largo. Depois, Am Grantach contou que o cardeal e


                            174
#Arran marcharam no rumo oeste, sitia ram o castelo ce Glasgow
e tentaram capturar Lennox, cue acreditavam estar l  dentro; Arra n
subornou a guarni o pa ra que esta se rendesse, e, cua ndo os vinte
e oito defensores saram, ele enforcou todos.
  - S que no pegaram Lennox. Ele  esperto como uma raposa
e j  partiu h  muito tempo para a Inglaterra. Mas tudo isso s o
notcias velhas.
   Foi nesse momento que ouvi uma criana gritar. Alasdair se
virou para olhar.
  - Voc devia ir ver o que esto fazendo - disse-me. - Talvez
estejam machucando um ao outro.
   As duas crianas costuma va m se pegar como cachorrinhos, mas
eram s brincadeiras; alm disso, Iain era mais velho e no faria
nenhum mal ... irm .
   Fui at eles e encontrei Iain, que voltava correndo do rio; seu
rosto estava lvido.
   - Mhairi caiu na  gua! - ele disse. - N o consigo alcan -la!
   - V  chamar seu pai - ordenei, e corri para o rio.  Para a lm
das pedras, havia uma lagoa profunda , mais afastada da margem
do que as outras. O corpo da menina flutuava de bruos, e logo
vi que Mhairi estava morta.
   Entrei na  gua, mas Alasdair se antecipou a mim. Ergueu aquela
forma escura e lassa, que a ntes fora sua filha, e a levou para a ma rgem,
carregando-a de cabea para baixo; deitou Mha iri no ch o e se ajoelhou
sobre ela, pressionando-lhe o peito com movimentos regula res e fa-
zendo respira o boca-a-boca. O cabelo escuro da melina pa recia
uma alga pousada na grama; os olhinhos estavam abertos.
   Iain escondeu o rosto em minhas sa ia s. Eu ent o me ouvi per-
guntar:
   - O que aconteceu?
   Murmurando, Iain respondeu que os dois estavam brincando
e que ele segurara Mhairi tal como o pai costumava fazer, mas a
menina se soltara e fora para a parte mais funda. Iain comeou a
chorar. Alasdair finalmente se voltou para ns; estava arrasado,
pois os esforos para reavivar a filha tinham sido inteis.
   - Poupe suas l grimas - ele disse asperamente ao menino.
- Os dois no estavam brincando coisa nenhuma. Voc est  seco.
Nunca chegou nem perto da  gua.

                             15
#   - Ci.rile... - comecei a dizer, usando uma palavra que ele me
ensinara e que significava "marido"; mas ele me interrompeu.
  - Tenho certeza de que ele a jogou na  gua. Tire-o da minha
frente. Se voc estivesse onde devia estar, cuidando das crianas,
em vez fica r sempre escutando conversa de homem, a menina ainda
estaria viva. N o queria levar seu filho de rei para a viva? Pois
bem, leve-o. N o quero nunca mais ver a cara de vocs dois.
  Am Grantach viera at ns; seu rosto se encheu de pesar quando
viu o que acontecera. Tentou argumentar com Alasdair, cujas pa-
lavras ele ouvira; disse que Iain era apenas uma criana e no
poderia ter feito aquilo.
  - E quem morreu foi apenas uma criana - replicou Alasda ir
Dorch.
   Ergueu o pequeno corpo de Mhairi e o levou embora. N o
ousei segui-lo. Mais tarde, a menina foi velada no sal o do castelo,
e muita gente compareceu. Ala sdair partiu antes mesmo que sas-
sem. Achei que ele talvez viajasse para Glenorchy e ficasse com a
famlia, ao menos por algum tempo; mas podia ser que nem fizesse
isso. Eu no sabia se tornaria a v-lo.
   Entrementes, falava-se de uma invas o inglesa; tropas teriam
desembarcado em Leith. Como tudo que fic vamos sabendo, essas
coisas j  tinham acontecido fazia algum tempo. E, pelo menos uma
vez, meus primeiros pensamentos no foram para Madame Marie.

   Como poderia eu descrever a poca amarga que se seguiu?
Estava sozinha, e ... noite dormia nas urzes da bothan com Iain
Ruadh a meu lado para que nos aquecssemos. Durante algum
tempo, esperei que Alasdair retornasse e at rezei para que isso
acontecesse; eu repetia as preces que, muito tempo antes, as cla-
ristas de Pont-...-Mousson me faziam recitar e para as quais eu no
ligava nem um pouco. No entanto, essas oraes no trouxeram
meu marido de volta. Eu j  nem chorava mais; certo dia, vi o
reflexo de meu rosto na  gua, e era o de uma velha, com a pele
queimada de sol e o cabelo desgrenhado. Estendi as m os e percebi
que estavam vermelhas e  speras. Mas isso deixara de ter impor-
tncia.
   Todos sabiam que Alasdair se fora, e Christian Grant no era
cega. Um dia, veio ... bothan e me disse:


                           176
#                 - CIilLl(j111(',  V(7Ct'  )I'f ISil  flClT C()IlOSC() f 171  Frt'uchif  f  c01-lllil'
             11L1I111 Clmil  (f'  V YClilCjC'; f Stil  VlCi1 Ili70   ilr1  VOC.
                 "11 Slblil CLlt  iilSl 11Y Illf' dLICil Vil f'll1  tLl(O, blISC IlCO ilLlil f
             If'nld, ClllCjO, 7l'5CilllCjO, C0Z1llliln(l), ilt  ilYilnClO S 7ilnf ll5.
                 be(jCCl,  f  Cjf'I'1171-IIlf'  lllllil  CilIlll  nlilClil  llLlnl  C05  il7O.Sf'11t(7S
             5L17f'YlOYf'S.  S  711'f Cj.t.S  illllCjil  Clf lT V1171  i1  Ciil  Ll.IIllCjl,  171i15  f'L1
             tlnl  Lln1 CLtilI'tll S( 7ilYil  IT111T1  f  7ilYil  O n1f'111110.  DLlYilIltf  llfUnS
             CjlilS,  flCUf'I  (j.ltilCj ,  tYl:nllllil,  ()lilnCjO  7ilI'1  il  7c Yf'Cf.  TI'G1i11)1-
             11()S 1 COnll(i1 I1() ClLIilYt(). I()Y Elnl, CIlYl.Stllnlii  VtlO COII1  Lllllil LilY-
             Yilt  CE'  ilLLlc3  Cf'  T'OSilS,  ClLlf  nlf'  f`11t1'f'f()Lt  Stlll  CIZf Y  IllCjil;  flli)5,
             7OLICO  (CpOlS,  f'il  CISSt':
                 - Cllf dYillT1  tIlilS  I1()tIClilS  (j0 5L1.
                 EU   lbTIY1 1  YTilEl1 f' lIlillc Til  SEL1 CjOCf 'TtLlmf, Cllf  n1f' t7
             lembYar a corte, pitl cin5 e Maditnle Marie. Sabia dLlf:, com o tel7lpn,
             d  1L11  Ce  YOSitS  SUilVl7lYl1  I1111l115  1I1105  C  n1f'L1  YOStO,  f'  7LlS  il
             TlYY3f  C IilCO. D)()IS, OLIV1 ilS IlOtIClc1S f' f SlILlf'C1 1 i1L11 Cf  YOSlS.
                         VelbO  Tf'1  Jf IlYlCLlf'  IIlilll(jOLl  ClLlC`  OS  111If Sf S  VlSSf'I7l  il
             ESCOCld  f' CeStYtIlSSf Ill  tLICO  7f 1()  f00   7I1  f 57(il, f' f'  ISSO  fLlf
             StdO flZellCjO ilT()Ti1- CjlSSC Cll'15t111111; Sf'L1 TOStO lSSLlT7llL1 ilClLltlil
             SU1  eXpY('5510  CLlYil  C  I'SlTIli(il,  I'f'5LlltilCjO  Cil  f 5tY111111  VlC1  ClLtf:
             If VlV3,  L1T111  V1(jil  Clllt  il  fi171  ilYf f 1'  tCY  (LIilYf Iltil  11105  ClLliltl(O
             dlllCji3  lhem  C0nl7f'tilT1  tYlnt.  - Mf'LI  lYM C)  f Sti1  Sf'  7Tf'7ilrilllCj O
             plYi7  If VilT OS 1OIIlCnS l  ILltil.  S SOIClCjOS lllIf SfS CLl7TlprlYillll  i15
             OY(ellS  Cf  SL1  YC1  f'  7iISSrillTl  b(117lIlS,  ITlLltlC'TC'S  f  CTllIl3S  7f O
             f10 Cji1 f SlCl3. Jj CLl.llllilYiltll FCInlblIl'O, C', il() (lLlf Sf  Olltil, flClrlm
             bdStdlltf  5i1tl5ff`ltOS  C0I71  lSSC):  CIlilTTlilYllll  (7 ItlCt'IlCjlO  Cjf'  llllld  b1
             fOTLlelrl.  Mllltil =f'lltf'  f'Stil  SII1  tf t0.  L C0llCjf'  (f  HTtfOTCj,  O  CO-
             m ndinte  inlf S,  flCOL1  1lLlITl  C01111il,  Vf'IlCj O  E1S  ClllTTllS  SUblTfll7l
             COm O  Vf nt0 IC'Stf.  f' C7LIVlllCO  i1S  1llLlltlf'YS Sf  Ic ITlLIYlil1'.IIl.  ,  tLIC'CT
             lSSO  7OYCUe  1110  C11115f'1'ilnl  CilSilY  1  t'CIUC'llil  Y111111  C017l  O  OVf ll1
             T1  Cj1 IIlTIitCYYi7...  f(7Yil,  IlilO SC CilSlYilO  nlCSITlO...
                 EL1 mf If VilIltf'1. MillS til Y(j., flCdTld Silbf IlCjO Clllf' O 7Y7Y10 CdYC'C I
             BeltOn ILtt T1 UIltO COIl1 O X.YCltO f SCOCS. f5 IlOtlClilS 1105 ClCfi1-
             V1m Clf  mOCO CESOYCjf'll.il((l, pOlS C'Vf'lltOS dntf YIOYf S Sf  COnfLln(jliinl
             C0111 OLItYOS m 1S I'f'Cf'IltS. MlS, 1lilClUf If' mOIllf'11t0, il f Y1 lnClSCL1-
             tlVel (U2 lOUVeY1 Cf'SOIililO, Y171111en1  LlC'TYl, e f Lt Silbll CLlt',
             Se Im GTlIltdCll eStil Vil nllYCllc I1(j0 plYil O SLII, nleL1 nllTICO tilmblll
             lYld, SOZlIl110 O11 C0I71 Sf Ll  Clii.


177
#   - Fa larei com Am Grantach a ntes que ele parta - eu disse.
   Christiania olhou para mim em silncio; nunca se acostumou
com meu h bito de falar a o chefe tal como um homem, sem medo
nem adula o. Isso me custara a filha e o marido, e eu tornaria a
fazer a mesma coisa. Arrumei-me, usei um pouco da  gua de rosa s
para me perfumar e ajeitei o cabelo com a quele pequeno pente
que Alasdair fizera para mim. Em seguida, desei.
   Am Grantach estava ocupado com os homens do cl , distri-
buindo escudos e espadas, e se preparava para partir. Quando me
viu, ficou impaciente, e seus belos olhos faiscaram.
  - V  dizer ...s mulheres que partiremos em uma hora - falou.
- Os ingleses queimaram Leith, os navios do porto e as cidades
costeiras de toda aquela regi o. N o ousaram chegar a menos de
seis milhas de Stirling; mesmo assim, comenta-se que a pequena
rainha ser  mandada para um local seguro.
  Voltou a cuidar do escudo e de outras coisas; desde que Alasdair
fora embora, Am Grantach no me visitara mais.
   - Eu e meu filho iremos com o senhor e com seus homens
- disse-lhe. - Vou procurar meu ma rido.
   Ele bufou, continuou a se armar e nem olhou para mim.
   - A senhora deu bem pouca aten o a Alasdair Dorch quando
ele estava a seu lado - replicou. - Ser  uma cavalgada  rdua, e
iremos o mais r pido que os p"neis e os homens agentarem. N o
temos tempo para levar mulheres.
  -Se eu no for com o senhor, irei logo atr s. Ao menos, leve-me
at a rainha viva, em Stirling.
  James das Pilhagens tornou a bufar, e, por certo, a maldioou
todas as mulheres.
   - Pois ent o a senhora e seu filho estejam prontos em meia
hora. Donald Gorm levar  o menino em seu p"nei, e meu filho
John carregar  a senhora na garupa. Ns os deixaremos na ponte
do castelo, e depois a senhora faa o que quiser. Agora me deixe.
  Agradeci e sa. Havia pouca coisa a levar: uma taa, para beber
 gua, e a faca negra de Alasda ir, para cortar comida. Embora es-
tivssemos no ver o, deixei Iain Ruadh bem agasalhado, por causa
do frio noturno; o menino resmungou, e eu Ihe disse:
   - Voc  um soldado, e um soldado faz o que mandam.
   Perguntou se eu tambm era um soldado; eu lhe dei um sorriso
cansado e respondi:


                             178
#   - Talvez.
   Nisto, seus olllos castallho-claros se entrecerrlram, tal como os
do rei.
    - AS mUlllereS IlaO Sa0 SOldadOS, lna.  ElaS faZf'111  a lOmlda.
EO1 O que Aongha 1S Ill 0IltOLl.
   - Ent o talvez eu v  cozillhar para eles.
   Pa rtimos, e mal tive tempo para me despedir dos Grallt, ou
de Christiania. A vaiclade das mullleres  tal lue, I1o corpete, junto
com a faca, eu levava a garrafa de  gua de rosas.
   N o  necess rio dlIe eu descreva o percurso, pois j  fiz isso
antes. Mal ouvi o sonl agudo das ga itas de fole ou os pa ssos ligeiros
dos homens que corriam jullto aos p"neis. Eu ficava procurando
entre as  rvores a estreita listra branca do tart  dos MacGregor,
pois sabia que o outro cl  marcharia collosco. Mas os lgeis guer-
reiros vindos de Glenorchy haviam deixado para  tr s os Grant,
que eram mais indolentes, muito embora eu jamais me atrevesse
a dizer isso; um honlem que podia carregar um barco nas costas
tinha ancestrais fortes. Seguimos viagem; passanlos a Iloite a o a r
livre, e me deitei enrola da 11a malltilha; Iail1 Rua dh se aconchegou
junto a mim, e agora se mostrava sa tisfeito com os agasalhos. Ape-
sar de ter fica do exausta com o sacolejar do p"nei do bondoso
John Grant, permalleci a Igun1 tempo a cordada , plallejando o que
faria com Iain. Primeiro, eII o leva ria a Ma dame Marie e esperaria
que ela o recebesse e o nlantivesse junto de si, como un1 b lsa mo
para suas tribula es. Depois, iria procurar meu marido. Se illadaltte
no ficasse com o nlenino, se ela rejeitasse a lls dois, Iain teria de
vir comigo, ma s seria um estorvo. Eu j  no tillha mais llenhum
medo de viajar sozinha; o que tinlla de a contecer acollteceria. Ouvi
o suave ressona r dos homens do cl  Grallt e senti o odor tallto do
estrume fresco dos p"lleis quallto dos tart s nlidos de orvalho. Ne-
nllum dos homells se aproximou de mim, e Il o conversamos no
caminho. Uma mulher a camillho da guerra  como uma mulher
num navio: traz m  sorte. Mas, naquela longa viagem, no me tra-
taram como uma vivandeira, pois os monta nheses s o cavalheiros.

   Eu nunca antes ellcontrara a verdadeira desola o. NIlIlca vira
o horror da desola o: casas destrudas,  rvores queima da s, la vou-
ras devastadas. E est  va mos em maio, ms de primavera. N  o


                              179
#IlilVl.a pfSSOaS; C'laS t111111Tl1 tLlgldO, tllVeZ para aS CldadS. COIltl-
nUilm05  a  a.VaIlaI';  OS  pC'S  CndUreCIdOS  dOS  hOmCnS  d0  Cla  mar-
CllaVarn  f lll  rltlll0  rC'gLlar,  C1S  ga lta S  i1111da  gL1lllChaVam,  2 nOSSOS
gLlf rrelrOS dt' Olhar lllgUbr  Vlam O CILIC  O  lnlmlg0  flZ2ra  at 5f.lS
n11111a5  d0  CaStC'10  dC'  5t1r11I1g,  Um  llmltf  tlUe  OS  IIlgIf SeS  amalS
LIItI'lpaS,Saranl;  taIVC'Z  tlVCSSf m md0, OL1  talV.Z Sf?U COmandante,
CLIC rcebra  OrdC'nS, tOSS pI'Lldf'Ilte. (S lnglC'SCS OS SftSSClllICl, COmO
Alasdair os chanlava) s o assim; tm fama de no serem bons
amalltes. Decerto Il o amaram a Esccil. N o gostaram de nenllLlm
hOmCm, IlllllLlllla  mLllher, lhellllLlma CrlaIla da ClLltlC  palS; algLlnS
dOS  COrpOS  llnda  pOdlam  Ser  VlStOS  a0  IOIlgO  d0  Camlnh0  para
Stlrlltlg. A eXa taS Sf'1S m1111a5 da Cldade, 11 Ond ordenaram a  Hf rt-
ford que plrasse, eles se detiveram; ali, os campos ainda eram
verdes, mas no tillhaTn ma is habitantes vivos, pois eles tambm
haVlam  fUgldO.  AgOra,  'SSaS  pCSSOaS  Se  a p1111laVam  llaS  rUaS
StlrIlIlg, enCOlhldaS lla,S SOIClraS, apaVOradaS f  SLlaS de fUllgCm;
CrlanaS  ChOraVam ILlntO  daS  mdCS,  e bfbS  .ram  anlamCntadOS
Cm plf'na rLla. S marldOS tltlham partld0. AS mLllhereS, aS CrlanaS
C OS feiranteS, ClllaS banCaS CStaVa m VdZlaS, OIllaVanl Sm lntC'rESSe
para os gLlerreiros de tart  e oLzviam aS galtaS de fole. J  as llaviam
escLltado antes, em tempos de a legria oLl eTlt o de tristeza, como
nu dia em qLle o rei foi eTlterra do enl EdimbLlrgo; tinllam sido
tCIIlpOS dC paZ. AgOt'a I180 haVla nlalS paZ.  Era gLIrrEl, e Cla COn-
tlIlLlarla dLlra IltE' anOS.
   Chega mos a Ballengeich Roa d, e, a inda marcllalldo, subimos
para O CaStelO. A pOIltC IC'Vadla tOra balXada , pOlS OS lngISC'S tl-
nha m pa rtld0 C  haVla  SOldadOS de lrma dLlra 11 dC IltrO, lTldOlC'nte-
mellte postados ao sol. Am Grantacll nle tscol.tou at a ezltra da,
delXaIldO OS mOlltallhf SES a  eSpera. AntCS ClLle elC' partisse, pCrtei
sua m o; palavras de despedida eram. desTlecess rias elltre ns.
   - Mandarei Aozlgllas acompanhar a seTlllora e o menino -
disse o cllefe, rapidamente, e percebi que ele, com sua cortesia
halihlal, Lleria ter certeza  de que eu chegaria em segLlrana ...
presena da rlinha vlva e de qLle no seria illcoTnodada pelos
soldados. Aonghas ca rregava Ia in Ruadh, e Tl o nos perguntaranl.
dLlem ramos; j  coTlhecia m de vista James das Pilllagens. Atra-
vessei a qLleles sales t o familiares e, ao faz-lo, vi um velllo bar-
bado e mLlito bonito sair da sala de au.dincils. N1o seria a nica


                          180
#ver dLle eu poria os olllos 11o conde de Alllls, o segundn marido
dd  fllCld3  Yllnhtl Mlrtlrldl TLId()r   OLltYOr1  lIllITllO dfClilrild0
dC'  llllll(7lIIL.  S('  i S  l'lldldC'S  OI)OrtlllllStilS  dOS  I7()UIdS  1lilVldnl SC'
mOdlflCddO em  flVOr d1  rlIlllfl  VlUVl, 11t80 lSSO ('rd b()1 nOtlCl;
nldd mdlS m(' SLlrpr( C'ndlfl.  A11l15 m 0lllOLl SC nl d('mOIlStrlr Ill-
freSSf  e f01-SC  mbOril; f I(' Vlr1 f'ITl IT111I1 1pf'Il115 LlITl  TIlOntlnllCS1
(lU(, 5U1 dd  Vli3enl, CObYl1 1 Cbf 1 COn1  Lt1111 ITllTlltlllll (' t'ri1 Sf-
TUldd  pOr Um  SrVlll f' llllll CYlc Il.
    - ESperf' i3(IU1 COm  O Illf'l11110 - dlSS C'U  1 AOnIlllS.
    EIltrCl,  2  n10  mf  r('COrdO  d(`  tC'r  CIlC'tld0    dtY VeSSlr  il  S ld
tOdd; lVlc3ddme Nldrl(' S 11C011tr1V1 illl, f  S('L1S OlhOS ('StlVdm  VCY-
me11105 de ChOrO, C0151 (IUC' IlLtIlCf1 dCOIltC'CC r11tC' ('lltl0, nenl mf Sm0
ClUlIldO  dd  mOrtC  d0  dll(lllf'  LOLllS.  ESClLIE'CI  i1  Yf Vf'T('11C11;  fLll  dt(
lllrldrlllle e a abracei.
    - C11lldmE',  dll,  CldLldlll(  - f'li1  (lSSE'. -  VOC(' l1  Sdbf  (LlE'
2leS (LlelmdYi3m 1 Cdp( I1 d IlOl VYOOd, ltl OIld. f 5t210 OS COrpOS d0
Yl, de IlheLIS  f111105 C dC  lVIldlnl  NI d('lf'lllf .  I7015 bm, df  tOdilS
dS  COlSlS  ClLI  flZCrlm,  eSS1  f01  d  Tllf)1S  CYLlf 1,  1  nl115  t('YYlVFl.  At
hoje sinto um (5dio e um pesar (llle eLI alltes ll o conhecia, e agora
h  tOd1 eSSd pObrC f'llte, il(lui, l0 1()IlO dd COSt1 lStf' f' Cm Edlm-
bllrgo.
   Ela j  parecia ter esqLlecido (llle antes no fora capaz de me
p('YdOdr.  FlClUE1 COntf'I1t(  COnl  lSSO ('  Il O pC'n5C'1 ITlc 1S I10  ElSSLlntO.
Ell Ille disse em voz alta:
    - MOl llllll',  lChl  ( LIC'  tllll(7 llLlf n1  fll LII  COIIllTO  ( L1  pOdC Yd
COn5013-11. S n10 COnSETLllr, SC'll  lC VldO f'ITlbOrl.
    - 11d1 pOdf  mC COIlSOIr, ITlilS Cl7ntlllLlt'f'1 ILl.tIldO. EU, Llmd
C,UlS d LOYenl, lLltcYe1 1te O 11tlIlTO SLlSpIYO. ArYlln fYilClSSOLl; C12
n10  t('II1  Utllldld('  C0n10  1l017lClll.  AOr,  f  LlTllc.  nl.Lllhr  ClUf'  C'Stil
defelldelTdo o reillo. Talvez Sea mellTor assim, eIl(luallto essa mll.-
111er for eu.
   Eu j  deixara IIIrIcIalllc, qLle parecia estar falalldo sozinha, e forl
buscar mell filho com Aollgllas, pdilldo ao montallhs (lue es-
perasse, para o caso de vir a precisar dele. Levei Iain Ruadh pela
md0, e elltrdmOS ni1 Sdl1 de lUd1('nCllS. IOr llLIIlS lllStilntC:S, YIIOllIIllC
continuou rlgldamente em l, mas depois foi relaxando, at es-
telld('r  os  brdo5;  5eus  Olhos  Cstilvi7m  cheios  d  IlOVdS  IdgYlmlS.
Iain, um pouco perplexo, talvez assllstado conl lquela dama zltl


                            181
#e vestida de preto, foi at ela depois que o empurrei. Vi o menino
ruivo ser abraado por trtndnrrte, que o segurou firmemente, escon-
dendo-o na s dobras da s vestes de cetim escuro.
   - Ele  igual a meu filho - afirmou rrtndnrrTe. - O prncipe
James, se tivesse sobrevivido, seria como ele. Deixe-o comigo. Do
jeito que as coisas est o, em breve eu talvez precise me separar
de minha filha.

   Mais tarde, a prpria rrtndnrrte me levou ao quarto onde estava
a soberana. A menininha crescera e estava mais alta que meu filho,
a ssim como ntndnrne era mais alta que o rei Jaime. Durante alguns
instantes, Iain Ruadh olhou solenemente para a pequena rainha,
e esta retribuiu o olhar com curiosidade e um pouco de malcia;
estava habituada a estranhos, embora talvez no a meninos de sua
prpria idade. Eu sabia que logo os dois estariam brincando juntos
e que isso seria bom para ambos; afinal, no era possvel que Iain
Ruadh houvesse esquecido a irm . A rainha viva os contemplava,
e seu rosto cansado estava novamente sereno.
   - O menino ficar  conosco - ela disse. - E voc, Claudine?
Tambm ficar  um pouco por aqui? N o sei como est o as coisas
com voc.
   Fal vamos em francs, e no fiz perguntas sobre o conde de
Angus;  prov vel que, naquela poca, eu nem soubesse de quem
se tratava; s mais tarde ele se fixaria em minha memria. Encarei
os olhos oblquos de trtndnrrte e Ihe disse que meu marido desapa-
recera, que ele fora para a guerra e que logo eu precisaria ir pro-
cur -lo onde quer que ele estivesse. Muito sria, ela disse:
   - Talvez j  esteja morto. Muitos est o. O cardeal e os outros
precisaram recuar para Linlithgow, de onde ha viam partido para
a luta. Fique um pouco, Claudine; durma numa cama macia. Isso
 uma coisa que ainda temos por aqui.
   Mndante, como de h bito, pensava no bem-estar dos outros;
parecia no ter mais nenhum ressentimento contra mim. Mais tar-
de, ordenou que me trouxessem comida, lenis de linho limpos
e  gua quente para que eu pudesse me lavar, e fiquei grata por
tudo isso. Providenciou tambm sapatos e um vestido; eu os co-
loquei para agradar-lhe, mas no pretendia us -los por muito tem-

                           182
#po. Iria procurar meu marido montanhs, e o fa ria nas vestes de
uma montanhesa.

   Lembro-me, no entanto, de uma da s ocasies em que usei o
vestido. Madairie mandou que me chamassem; quando me apre-
sentei, seu rosto no estava ma is cansado, e parecia bastante forte.
Nunca vi tal coragem num rosto de mulher, muito embora ela s
fosse masculina na estatura e no destemor. Ficou olhando para
mim e depois me levou ... pequena rainha, que esta va brincando
com Iain; os dois se divertiam com um jogo de contas. Madarrte
falou:
  - Quero que voc me acompanhe ao Conselho e carregue Sua
Graa. Ser  em 29 de maio. Arran est  vindo, e pode haver pro-
blemas; se isso acontecer, pegue a rainha e saia imediatamente.
Muita gente estar  l , inclusive os Douglas.
  E muitos estavam mesmo presentes. A idia de que uma mulher
pudesse convocar o Conselho em tempo de guerra era estranha e
decerto intrigava os lords escoceses; ainda se lembravam de quando
Margarida Tudor fora rainha -regente, na menoridade do falecido
rei, e de como ela costumava convoc -los sem motivo algum. Ago-
ra, eles estavam ali, senta dos bem junto uns dos outros; usavam
armadura, mas tinham a ca bea descoberta. Quando entramos, le-
vantaram-se em sbita confus o; ouvimos o fragor do metal, e
ent o os lords, de chapu na m o, olha ram em silncio para a linda
rainha menina. Arra n, o governa dor, tinha os olhos fixos no ch o;
a fisionomia jocosa que cativava certos homens desaparecera tem-
porariamente, e seu rosto irresoluto se contorcia. Todos os demais
examinaram dos ps ... cabea a figura alta e ereta de niadame, que
estava junto da rainha da Esccia; senti o corpo quente da pequena
soberana de encontro ao meu, e ela no fez nenhum estardalhao.
N o era uma criana comum, e permaneceu quieta na quele mo-
mento tenso, observando tudo. Era como se compreendesse o que
estava acontecendo, muito embora poucos parecessem faz-lo. Mn-
dame se sentou com um farfa Ihar de saias pretas, e fiquei em p
atr s dela. O governador se levantou de repente e comeou a vo-
ciferar; ningum lhe deu aten o. Tentou explicar que ordenara
ao Conselho que se reunisse em Linlithgow no dia anterior.
   - Talvez seja prefervel aqui - disse rnrrdrrme.


                             183
#    Vi surgir em seu rosto um sorriso t o grave (luanto colLlet(:,
qLl(  OS  Sd UZlrlfl  ,SC  lSSO  pUdf SSt'  S('1'  felt0;  Madame  Marl(  tlnlltl
mUltOS ellCaIltOS, (? OS DYlS a 5a bl Ill (115S0, milS alIld(1 dSCOIltla VaIl1
d('Id.  Nl4lplll  tG  Llm  dlSCUTSO  pOlldO,  pYltlCO    reV(',  n0  CLlal
IllenClOnaVa  a  pYC'SeIla  dO  COnd('  d  AllgLlS  e  dC  Sf'L1  IYmaO,  Slr
George. Ela disse:
    - COmO pOdC'Yla nlOS IlaO  tlYaY  VlIltagCIT1 d0  fat0 df  dOlS dU-
XlllareS  til0 Ca pa7CS  C'Starm  aCl,ll  Cn1 Stlrllllg  JLlIltOS, meUS bOIlS
e  COralOSOS  (0I'CS,  70demOS  derYOtaY  O  lIllmlg0  (lU('  111Va d  1lOSSa
tEYYa. AgOra  lSSO  tUdO (lU0 lmpOrta. E ellta0, ITl('L1S amlgOS, O ClLlC'
OS S( I11l0reS ITle dlZf m
    DelXOL1  aS  SLlgeStOC:S  a  CargO  dOS  IOYCjS,  a O  meSmO  tmp0  qLl('
lnSlnUaVa SUa S prprla S ldf'laS d(  n10d0 CLle OS prCSntOS pellSa S-
sem que se originavam deles;  o que sempre se deve fazer com
os 1lonlens.
    NO dla  SegLllllt(, IlaO f01 apellaS O C0llSelhO qLlf  SC' SgLIIrOLl
para fora de Stirlillg; Arran tambm o fez, partindo no rumo a o
leste. Eu comeara a achar que Alasdair Dorch devia estar por l ,
uma vez qLl.e, na poca, os a taqLzes ingleses geralmellte ocorriam
naquela parte do pas. Na reuni o do Conselllo, eLI disse isso a
Irtrldnllle, e ela me olhou cheia de aten o, apesa r de todos os pro-
blemas qLle enfrenta va.
    - ClaUdlll,  f'Spf Yf  at  eStS  fldillgOS... - O  SOrYlSO  CaIlSadO
rFaparf COU mOlIlC IltallC'amC'Ilte em SU. rOStO - ... aCabarem d C' d15-
cutir e troCar ameaaS. J  pedi ao conde de Angtls que a escolte
at Tantallon e a hospede durazlte a lgLlm tempo; ficando ali., voc
poder  rea lizar sua busca no leste. Ele partir  em breve; sLza jovem
esposa logo dar  ... ILlz, e o conde est  ansioso para ter outro ller-
deiro var o. N o sei o qLze Lady Margaret, sLza filha , estl pensando
de tudo isso l  na Inglaterra; ela sempre esperou herdar o ttulo
de AngLzs. Mas no h  como deixar de admirar o conde; j  ll o 
moo, e ainda assim persiste. E Llm homem franco; gosto de sua
companhia. - Espa ntou com desagrado uma mosca qLle poLlsara
na manga de seLl vestido; o inseto se afastoLl, mas depois voltou. -
J  o irm o, Sir George,  diferellte. N o confie nele; ali s, no confie
em nenhum dos dois; s o todos Douglas. Como voc sabe, o conde
teve a custdia de meu marido, o rei, quando ele era menor.
  Ela no disse mais nada a esse respeito, mas eu sabia qLle Jaime


                            184
#V fizera pouca coisa boa quando adulto - e que a infncia passada
com os Douglas era em grande parte respons vel por isso.
   - No entanto, ser  melhor para voc - continuou madarne -
cavalgar sob o estandarte da salamandra verde, o emblema dos
Douglas, do que viajar sozinha.
   Ela estava certa, e eu lhe agradeci; mas a salamandra verde
que cuspia fogo j  estava em Stirling, no apinhado sal o do castelo,
nas ruas e nas tavernas, onde os soldados uniformiza dos dos Dou-
glas praguejavam, jogavam dados, discordavam ruidosamente de
todo mundo e esperavam a ordem de partida. Eu tambm a es-
perava. Nesse meio tempo, uma proclama o veio anunciar que
o governador Arran destrura o reino, rompera a trgua com a
Inglaterra e estava obrigado a transferir seu posto para as m os
da rainha viva. N o se mencionava o fa to de que ele a deixara
sem nenhum dinheiro, tendo-o gastado com seus caprichos.
   N o digo que Arran fosse perverso; pelo menos, era melhor
do que alguns outros homens. E, tal como acontece a muitas coisas
decididas em conselho, a proclama o acabou no significando
nada. Deixei meu filho cotn madairie (j  est vamos em meados de
junho) e cavalguei para o leste em meio a uma massa sacolejante
de soldados dos Douglas. Levava no corpete uma carta secreta e
deveria despach -la t o logo isso me fosse possvel; destinava-se
ao rei da Frana, que um dia tentara me possuir em Fontainebleau.

   - A rainha viva  apenas uma mulher fr gil, assim como
a senhora. Ela tem seguido minhas recomendaes, e eu insisti
para que se mostrasse muito circunspecta em suas relaes com
o Conselho.
   Embora ...quela altura j  tivesse passado alguns dias na com-
panhia de Sir George Douglas, eu ainda conseguia me espantar
com sua fatuidade. Todos sabiam que Sir George oscilava entre
os ingleses e os escoceses conforme Ihe conviesse, mas mesmo assim
conseguia ser ouvido no Conselho. Como de h bito, ele cavalgava
a meu lado; ramos acompanhados pela estrepitosa soldadesca dos
Douglas, que levava as armas nas selas. O estandarte tremulava
acima de ns, e ... nossa frente estava o prprio conde de Angus;
fazia calor, e ele montava de cabea descoberta, mas seu elmo
estava preso ao rabicho dos arreios para ser colocado caso surgisse


                           185
#algum problema. No momento, no havia problema nenhum. Os
cavalos iam sacolejando uniformemente rumo ao leste, e Sir George
continuava a falar. Gostava de ouvir o som da prpria voz, e eu
Ihe respondia distraidamente, sabendo que ele estava demasiado
cheio de si para que desse por minha falta de aten o. Eu estava
rezando para que Alasdair estivesse bem e para encontr -lo vivo.
Parecia ter-se passado um tempo enorme desde que ele se fora,
tanto que agora eu tinha a impress o de hav-lo conhecido em
outra vida. Ali s, j  era bem esse o caso. Teria sido eu, Claudine,
quem vivera numa botltart semelhante ...quelas choas enegrecidas
do sul e quem agora dormia entre lenis? Depois da morte do
rei Jaime V, o conde de Angus e toda a sua gente podiam ser
recebidos ...s claras na Esccia; o exlio fora revogado por decreto.
Mesmo em seus dias de fora-da-lei, Angus sempre recebera secre-
tamente as boas-vindas, pois era um velho canalha encantador; tal
qual rrradame, eu entendia como ele seduzira a rainha Margarida
Tudor. E agora, qualquer um que fizesse parte da comitiva de
Angus tambm era bem acolhido. Fomos hospedados nos cas-
telos e abadias que ainda pontilhavam o pas; isso foi antes da
pior destrui o, e as casas dos pobres ainda eram as que tinham
sofrido mais. No entanto, Sir George me contou que Tantallon,
depois de ter recebido as atenes dos ingleses, transformara-se
numa runa atravessada por ventos sibilantes (ventos que, a bem
dizer, sempre sopra ram nos sales daquele castelo). Por isso, a
jovem condessa fora temporariamente alojada numa casa de alu-
guel.
   Eu apenas escutava o que Sir George dizia; no me interessava
saber se iramos ficar numa casa de aluguel ou num castelo. Pensei
rapidamente no que acontecera a Angus e a sua filha, Lady Mar-
garet Douglas, quando ele fora ba nido da Esccia; lembrei o que
ouvira acerca das andanas dos dois, quando precisavam viver
como fugitivos na fronteira. Margaret Douglas permanecera ao lado
do pai e o apoiara em todo aquele perodo, muito embora fosse
filha de uma rainha e pudesse ter ido morar com a m e em pal cios.
Concordei com o que ntadame dissera: Lady Margaret, l  onde era
mantida na Inglaterra, talvez se ressentisse de que o pai, na velhice,
houvesse tornado a casar para conseguir um herdeiro var o. O
atual, que tinha uns trs anos de idade, er1 doentio, conforme me


                             186
#disse Sir George. Lembrei-me de Marga ret Ma xwell, a atual con-
dessa, que eu conhecera em Caerlaverock, a moa reservada de
quem a madrasta fazia troa por ainda ser solteira . Lembrei-me
de muitas coisas que acontecera m l ; por exemplo, de como Alas-
dair fora enxotado do castelo na chuva e no escuro. Meus olhos
se encheram de l grimas e os fechei; o ca valo continuou a sacolejar,
e Sir George continuou a falar, sem ter percebido na da do que se
passava comigo. Quando tornei a abrir os olhos, as atenes dele
estavam fixadas em meus seios. Eu j  estava habitua da a isso, e
s desejei que a carta secreta no desse na vista. O filho de Sir
George, James Morton, que fazia parte da comitiva , era ainda mais
lascivo do que o pai. Dizia-se que sua mulher, uma das irm s de
Beatrix Maxwell, j  estava meio louca; mas, para sermos justos, a
culpa no devia ser de Morton, pois a insanidade estava na famlia
da moa desde o incio. Morton parecia um porco de olhos ver-
melhos. Eu ficaria feliz quando a viagem terminasse.

   Sir George andou lendo .sua Bblia, cujas cpias estavam, se-
gundo ele, inundando a Esccia, tamanha era a demanda. Acos-
tumara-se a l-la na corte de Henrique VIII, at mesmo enquanto
aguardava com o irm o na sala de audincias do rei ingls. Procurei
demonstrar algum interesse quando ele tentou me instruir na f
reformada, mas expliquei-lhe que eu era francesa e que sempre
fora catlica (ou papista, na express o de Sir George).
   - Pois  - ele disse.
   Olhou de novo para meu corpete e ficou quieto por algum
tempo. Depois afirmou que eu precisava  me alimentar melhor,
pois estava magra demais; acrescentou que talvez eu pudesse des-
cansar um pouco quando cheg ssemos ... casa onde estava a con-
dessa.
   - N o tenho nenhuma vontade de descansar - respondi. -
S quero meu marido.
   - Pois , as mulheres precisam dos maridos.  antinatural
tranc -las em conventos, e os homens em mosteiros. Mas tudo isso
est  mudando no sul, e, em breve, aqui tambm, mesmo que algum
dia chegue a ajuda francesa.
   Senti o papel farfalhar contra meus seios demasiado magros,
e mais uma vez desejei que Sir George tivesse notado os seios, e


                         187
#no a carta. Talvez tenha mencionado a ajuda francesa por acaso,
mas permaneci quieta enquanto ele falava de outros assuntos, aos
quais no prestei aten o. Madame Marie disse que Sir George era
muitssimo inst vel, mas que sabia cuidar dos prprios interesses,
e ela estava certa. Nisso, Sir George lembrava o governador, s
que Arran falava menos, e, tendo aquela cabea, provavelmente
tambm raciocinava menos. Esperei que rrirrdame j  tivesse chegado
a algum acordo com Arran. Eu j  perdera a conta dos dias de
viagem; sabia apenas que ainda era ver o e que o inimigo poderia
reaparecer a qualquer momento. No comeo, no houve campanhas
no inverno; os ingleses preferiam vir pouco antes da colheita para
que pudessem queimar os campos de aveia, principal cultura es-
cocesa, e deixar ... mngua o povo comum. Mais tarde, passariam
a atacar tambm no inverno, de modo que morresse de frio quem
quer que se visse obrigado a deixar para tr s uma moradia incen-
diada. Nunca consegui gostar dos sassenach; eles, tal como Sir Geor-
ge Douglas, compraziam-se com a prpria crueldade.

  A jovem condessa de Angus deu ... luz prematuramente, e no
sei se foi menino ou menina, pois quando chegamos a criana j
morrera. O conde, embora desalentado, subiu imediatamente para
ver a mulher, de quem parecia gostar muito; permaneci no andar
de baixo da casa de aluguel, enquanto Sir George ficava indeciso
com a Bblia. Pouco depois, o conde desceu, pesaroso. Sir George,
que conseguia ser t o famoso pela franqueza quanto pela hipocri-
sia, foi logo dizendo:
   - Precisamos confiar em que Deus logo tratar  de restaurar
sua boa sorte, meu irm o.
   Mais tarde, fui ver a pobre Margaret, deixando os dois irmos
a olharem um para o outro na sala; a partir dos muitos buracos
no telhado, a  gua da chuva escorria pelas paredes. N o era uma
casa confort vel, e o lgubre vulto de Tantallon, que se erguia ...
distncia, deve ter trazido ... memria dos Douglas a lembrana
de dias melhores. Os ingleses arrasaram o castelo, mas dizia-se
que ainda podia ser reparado; os oper rios j  estavam l , tapando
brechas nas grandes muralhas de pedra.'
   O morgado de Angus era um menino de uns trs anos que
parecia ainda mais novo; tinha cabea de parvo e no sabia andar.


                          188
#  IXlaCLlC'I  nl0nlC'IltO,  StaVa  ('IltltltlllilllCO  a  f SITIO,  pC'I't0  (ja  Ca n1a
  da nlae. LIallCO O V1, aCllC1 LLlt' pl'OVaV('lnlC'lltl t1I111a  Vf rI7leS; L'Ill
  tOdO  CaSO,  SS  hC'rdf'lr0  CILl  AllLlS  COnSelII.rE1 I10  tCrCelrO  CaSL3-
  nlent0  ITl.Orr('rla  100;  talVf'Z  O  C0lldC  tlVeSSC  COIltralLO  a  dOeIla
  franCCSd dUralltf  SeUS  a1105 en1  L,0lldrS, OL1 talVCZ 110LlVeSSf' Llnla
  fra(L1('Za  d0  laClO  dOS  Nla XWf ll.  I'OSSC  COnlO  fOSS(',  C'Ll  E  a  mOa
  plida cuf 'stava dCltada 11a  Callla COIlVerSamOS, eSClLlCCndO Caer-
  laverock, se  que ela estava ciente de tLldo (lLle acolltecera l ; se
  eStaVa, 2nta0 f01 prUdC llte O l7aStaIltf  para  IlaO O CjC'n 10IlStrar.

      EU eSta Vd  anSlOSa pOr COIllea r a prOCUrar m('L1 ITlarld0,   naO
  reCe71  COm lhenIlUm  entUSla Sm0 O  COnVltf  dO COIld(' para  pCrnla-
  lhecer ali por algum tempo.
    - A senllora a nima minlla mulller com sLla com.panhia. Como
   Ilatural, ela est  melanclica . ELI providellci arei Llm cavalo e dois
  dC  nOSSOS SOldadOS, C a 5e11110ra t'nta O pOderl faZ('r a I7LlSCa, dlllda
  CUe talVeZ IlaO pOSSd lr para mUltO I0llT da (lLll. ,5t0L1 lIlfOrmadO
  d0 CUe aCOIltOC(' n0 palS, C' mandal'C'1 nOtlCla S, OL1 a S trarel eU meSmO,
  Se 50L117er dC batc lIlaS OU df  mOIltanllSC'S.
      Havia  um brilh0 em SeLIS 011105, t pC'llSf'1 COITllO meSma (Llf,
  11a UVelltUdf', O COndC: dE AllTLIS CjVla t2r SldO LIII1 110mf m 1 CILlOn1
  Serla  dlflCll  reSlStlr,  mLlltO  C'mUOra  S  pUdCSSf  C('5C0Tlfldr  de  CUC
  nUIlCa eIa SlnCerO t' de (ILlf  tal Vf Z fOSSe rUde COn 10 tOdOS OS DOUlaS;
  maS e1C CertdIIlCIlte era prf ff'rlV1 a0 IrnlO (' a0 SOlrl.llll0. '.Ll, S(m
  dUVlda, Sf rla Sf'IlSata S(' pE'I'nlltlSSC' CILlf' l.f' I11(  aLlda SSE' na  hLlSCa ,
  Cm  VeZ de tt'lltar filZf-11 SOZlnlla; t' AllUS fOT'a Sf'11t11 f'n1 OfC'rCCer
  Un1 Ca ValO.  RCSpOndl ClUe lrla  flCaI', C' pOr alLlIlS dlaS d2SfrLltel  a
  hOnra  df    ter  1  meS3  a  COmpa ll1111  d0  COndC'.  Sir  GeOrge  p3rtlra
  IlUma de SUdS mlStrlOSaS VlaellS; eStaVa SCnlprC  llld0 C VlIldO, f',
  C0n10 dE' hdl]lt0, lmaTlnc3Va-SE' Lln1 llOm('m dC  C IlOrmC llllpOrt IlClc`1;
  maS tOdO ITlUlldO CStaVd a par CjC  (lUf  SUa nla0 dlrelta  IlllnCa Sahla
  O ClU c3 eSCUerda dndlVa faZf'11d0. S dlilS tOralT1 pdSSandO, e pOr
  flnl a COndC'SSa df SCeLl trf nlUlam.Cllt(' aS CSCadElS.  C0llde 1105 COn-
  tOU  (IUe  1  ra11111a  VlVa  SCrCVra  a0  r(1  lellrl(Lle;  C'la  111  t2rla
  pedido ent o que deixasse a Esccia en1 paz e due enviasse en1-
  balXadOreS.  EU  Sahla  (Ue SLld  (',ra a  dlrla  SSaS  COISa ,S  COm  malS
  tat0; n0 Untant0, f01  a551111 CUC  AnLIS dCSCY('Vf'11, Sem rOdelOS, a
  SltLlaaO.  EIC' tamE`n1 mE' COntOU (ILIE' O TOVernildOr andlVa pdra


189
#l  e para c , formando um exrcito; Arran proclamou por toda
parte que ainda era o governador da Esccia, muito embora o
Conselho tivesse exigido sua renncia por Llnanimidade, e que
Maria de Guise, como ele a chamava, no tinha direito de convocar
falsos parlamentos. Ele fortificara Holyrood contra uma eventual
rea o de Sua Graa, e declarara sem valor moedas que ela cunhara;
essas moedas traziam a efgie da pequena rainha, sorridente, de
usando a coroa e gola plissada. Arran agora dizia que tais moedas
estavam fora da lei, e proibiu seu uso.

   A condessa foi lentamente se recuperando do parto. Enquanto
isso, permitiam que eu sasse em pequenas buscas; logo, porm,
me dei conta de que elas eram inteis. Estava sempre acompanhada
dos mesmos dois soldados, que, a no ser quando cochichavam
pelas minhas costas, cavalgavam fazendo um silncio carrancudo
(certamente, no Ihes convinha escoltar uma mulher). Percebi que
os Douglas, por motivos que s eles conheciam, haviam se tornado
meus carcereiros.
   Fomos a lugares como Auldhame, Scougha 11 e Whitekirk; uma
vez, estivemos em Kingston, e vi o Berwick Law projetar-se contra
o cu como uma aveludada teta de cabra. Aquilo no parece uma
montanha escocesa, e no fao idia de como foi parar ali. Nos
vilarejos, as ruas estavam estranhamente quietas, pois a maior parte
dos habitantes fugira para as cidades maiores. Entre os que ficaram,
a maioria eram velhos, talvez demasiado aferrados a seus h bitos,
e consertavam os telhados como se nunca mais fosse haver outra
invas o inglesa. Em parte alguma  encontrei informaes sobre
Alasdair ou sobre qualquer outro monta nhs; ...quela altura, eu
tinha certeza de que meu marido estava sozinho, apartado de seu
cl , mas as pessoas teriam se lembrado dele caso houvesse passado
por ali. Comecei a me perguntar se Alasdair estava mesmo no
leste e se, depois de tudo o que acontecera, ele simplesmente no
voltara para casa; afinal, as Lowlands no era m sua terra.
   Nesse meio tempo, os Douglas me alimentaram bem. Havia
leite, manteiga e carne de porco de Auldhame, onde de algum
modo uma mulher conservara duas vacas e uma ninhada de leites.
Logo descobri que galinhas haviam sido obtidas por outros meios,
muito provavelmente surrupiadas do outro lado da fronteira; ago-


                           190
#ra, elas ciscavam, coavam-se e ocasionalmente punham ovos no
que antes fora uma grande a dega, na parte de tr s de Ta ntallon.
Eu e a condessa, quando esta p"de novamente se aventurar ao ar
livre, todos os dia s fazamos tranqilas caminhadas at l , a fim
de recolher os ovos e traz-los numa cesta. Depois, para ajudar a
condessa a recuperar a sade, passe vamos em silncio ao redor
das grandes defesas de terra que Jaime V mandara preparar quando
ficou furioso com os Douglas; e tambm ao redor daquelas que
Jaime. IV erguera num perodo anterior, quando tambm se irara
com eles. Olhamos para o sal o onde o velho Angus Bell-the-Cat,
o av" do conde, pendurara sua enorme espada , que nenhum outro
homem conseguia manejar; em sua poca, Bell-the-Cat tambm
pendurou, s que pelo pescoo, um dos favoritos do rei. Apesar
do perigo representado pelas pedras soltas, uma vez subimos cui-
dadosamente at os c"modos superiores, de onde se tinha uma
vista vertiginosa do mar do Norte, e ficamos observando o cons-
tante vaivm das  guas bravia s.
   - Meu marido e a filha, Lady Margaret Douglas, escaparam
por aqui nos tempos ruins. Eles tomaram um ba rco - disse a
jovem condessa.
   Foi uma das poucas coisas interessantes que ela me contou.
Fiquei imaginando como a mimada rainha Marga rida Tudor, a
esposa anterior de Angus, se sara naquele lugar tempestuoso,
quando, depois daquele catastrfico matrim"nio, passara algum
tempo ali com o conde.

   Angus estava sempre viaja ndo, e certo dia recebemos a notcia
de que tivera uma grande vitria sobre os ingleses em Ancrum
Moor, no sul. Quando voltou para casa, estava triunfante, e de
imediato corri para ele, perguntando se os montanheses haviam
participado do combate.
   - N o, mulher - respondeu, e me olhou com bastante gen-
tileza.
   Eu estava angustiada; a t nrndarne conclura que qualquer a o
s poderia acontecer no leste, e por isso eu ficara ali; a gora, Alasdair
podia ter estado na luta, podia estar ferido ou morto, ao passo
que eu estava em outro lugar! Mas no havia o que fazer, e, na
realidade, ele no parecia ter participado da batalha. Ouvi os sol-


                             191
#dadOS COnllIlOrarem a VltOrlil COII1 UCIli1 filrra,  Cll0rel 5071I111a na
Ca ma; atraVeS da pared, pLldC' SCLltar AIlgLlS, qLlC Sf'fLlla tC ntando
gerar outro herdeiro.
   Durallte todo esse perodo, alldei preocLlpada por no ter con-
seguido enviar a carta de nudane para o rei Frilllcisco. N o me
esquC'cera  da  tarefa ,  IIlaS  IlaO  ha Vla  I1111gL1C'n1  C m  LUen1  pUdSSe
confiar, a despeito de todos os triullfos militares de AllgLls e Sir
George e do novo compromisso de fidelic-lade que os dois assu-
miram. Por fim, consegui material de escrever e embrLllhei a carta
numa das lue eu nlesma escrevi, remetelldo tudo para a duquesa
Antoillette em Joillville. Embora eLl ll o tivesse o h bito de escrever
.. m e de rrtndnlrle, nillgum por ali sabia disso; e uma carta minha
para ela poderia ser despachadl sem despertar suspeitls, e, por-
tanto, sem ser aberta. Ademais, a duqLzesa era Llma mulher lea 1 e
pr tica; ela faria com dLle a carta secreta chega sse ao rei da Frana.
Rezei para que isso acontecesse; e, no fillal, a correspolldncia deve
ter mesmo alcanado seu destillo. Mas oLltriis cartas, urgentemente
despachada s pela railllla viva paril a Frana, no chega ram l. O
navio do portador dessas carta s, Sieur de Bauldreul, foi abordado
ao largo de Scarborough por pescadores ingleses do condado de
Sussex. Bauldreul, estupida mente, ellroloLl ...s pressas as cartas
numa trouxa de roupa, ... qLlal ele acrescelltou carv o, para  dar
peso, e depois jogou tudo ao ma r; a trouxa foi de imediato avista da
e recuperada pelos pescadores. Eles logo enviara m o colltedo,
encharcado ma s aillda legvel, para o Conselho Ingls do Norte,
e, assim, os planos de ntndnnte chegara m ao collhecimento do illi-
migo antes que os franceses seqLler os vissem. Sendo estra ngeira
e mulher, ela teve de suportar muita s coisas.
   E eu suportei outras. Apesar do persistente fracasso em obter
informaes sobre meu nlarido (ele j  comeava a me parecer um
5011h0 nlLlltO, mLlltO alltlg0), deSCanSCl baStaIltF naCLlEla CaSa Cllela
de gOtelraS C IlgOrdel COm a bOa COmlda, qUC  COnSlStla em pelXf S
d0 mar d0 NOrte, OCa51011a1mC nte IlUma gallnha pOedlra Id lnCapaZ
e por isso abatida e no leite que chegava  com regularidade de
Auldhame. A condessa Margaret me deu  gua de rosa s. Quando
me vi em seu espelho (as mulheres, a despeito de quaisquer tri-
bulaes, nunca deixam de olhar o prprio reflexo duando tm
oportunidade de faz-lo), pude observar que j  voltava a me pa-


                        192
#recer com a jovem criatura que vivera com Madame Marie na corte
francesa; a semelhana, na verdade, talvez no fosse muito grande,
pois meu vestido era simples, como o de uma camponesa.
   Aps a batalha de Ancrum Moor, que se deu em fevereiro, a
condessa achou que estivesse novamente gr vida; isso era uma
boa notcia para ela, pois o pequeno morgado de Angus morreria
logo depois, acho que em fevereiro mesmo. Eu me ajoelhei en-
quanto rezavam missa por sua alma; o sacerdote era um Douglas,
tio do menino, mas no um bispo, ao contr rio do que seria de
se esperar nesses casos. Em seguida, assisti ao enterro e fui sozinha
recolher os ovos; a condessa Margaret estava de cama e por certo
ansiava para que, dessa vez, tivesse sucesso.
   O castelo estava estranhamente deserto, e eu podia ouvir o
assovio do vento. Para me aquecer, cobrira a cabea e os ombros
eom a mantilha, e, levando a cesta debaixo do brao, recolhi v rios
ovos; as galinhas j  me conheciam e continuaram a ciscar placi-
damente. Joguei um pouco de cereal para elas e fui embora. Mas,
na grande porta, estava uma figura que no fiquei feliz por en-
contrar: Sir George Douglas. J  fazia algum tempo que eu no o
via, e me perguntei se ele no me seguira at Tantallon; no havia
outra raz o para que estivesse ali, a no ser que procurasse isola-
mento para poder ler a Bfblia; como de h bito, ele a trazia junto
ao peito, e o volume formava uma pequena protuberncia sob as
vestes. Sir George sorriu, daquele seu modo insinuante.
   - Voc se sai bem com ovos - disse, grosseiro.
   Respondi com polidez e j  ia passar por ele quando me segurou
pelo brao.
   -  triste ver as galinhas ciscarem no mesmo lugar onde, em
nossos bons tempos, o vinho costumava ficar. Voc j  andou por
Tantallon? Ainda h  muita coisa para conhecer aqui.
   Foi tolice minha baixar a guarda; mas o que me intere,sou, e
j  no era a primeira vez, foi a curiosa voz de Sir George. Ele se
orgulhava de ter aprendido a falar como os ingleses, graas a sua
longa residncia na Inglaterra e ao que ele denominava sua amizade
com Henrique VIII (muito embora esse monarca, certamente, o
considerasse menos um amigo do que um dependente, a ser ma-
nipulado quando conviesse). Respondi distraidamente que, de fato,
ainda no vira todo o castelo, e no mesmo instante me arrependi;


                           193
#ele foi logo afirmando que me mostraria o lugar, e no tive como
recusar. Atravessamos sal o aps sal o, vimos as runas da gran-
deza dos Douglas, e por fim, num c"modo em que as pedras ver-
melho-rosadas da constru o j  haviam desabado, Sir George es-
tendeu a m o e apalpou desajeitadamente meu seio esquerdo. Este
estava mais cheio do que antes, graas a todo o leite com que me
alimentavam, e Sir George ficou obviamente satisfeito.
  Recuei, lembrando que entre meus seios, ali onde ficara tambm
a carta de madame, estava a faca negra de Alasdair, sua sgian dubh;
depois que, por alguma raz o, ele a deixara em nossa botharr, eu
sempre a levava comigo. Agora, o vigoroso Douglas estava abrindo
a braguilha para revelar seu portento, j  bem ereto.
   - Ora, vamos l . Meu irm o a tratou de forma muito hospi-
taleira - disse, quando viu a express o de meu rosto. - Talvez
voc nos deva alguma coisa.
   Deixara de falar ingls, voltando a se expressar em escocs,
mas o que ele dizia significava a mesma coisa em qualquer lngua.
Apertou meu pulso com o polegar e continuou a falar, afirmando
que, por causa da alimenta o certa, eu agora era uma mulher
bastante graciosa e que ele continuaria a tomar conta de mim, pois
eu Ihe agradava muitssimo. Precisei de bem pouco tempo para
perceber que haviam me engordado de propsito, para atender a
Sir George; era como se eu fosse um porco que precisasse ser cevado
para que produzisse toucinho. A condessa Margaret sabia de meu
passado, e, sem dvida, achara que eu me prestaria ...quilo. Sir
George se casara com uma morgada que lhe dera muitas terras e
o var o James Morton; eu no sabia se a mulher ainda era viva.
Todas essas coisas iam me passando friamente pela cabea en-
quanto primeiro lutava com ele e depois, quando Sir George con-
seguiu p"r a m o debaixo de minhas saias, eu o chutava com toda
a fora no lugar em que mais di. Ele 'recuou, cambaleando, e
soltou uma praga, dessa vez em escocs, indubitavelmente; com
uma das m os, atirei nele a cesta de ovos, e, com a outra, saquei
a sgian dubh. Em seguida, eu lhe disse:
   - Se o senhor e seu maldito cl , que no  nem ingls nem
escocs, acham que serei sua rameira s porque me deram de co-
mer, ent o  melhor que reflitam bem.
   Ele parou de xingar e ficou de queixo cado; seu rosto estava


                          194
#coberto de gema de ovo, cLle escorria da barba pa ra o gib o, um1
pC'a df  rOUpa CUC, SC'n1 dllVldtl, tra IlOVa.  TOYllf'I  a hLlta Y, IlbeY-
tf'1-me Om LIII1 rOdOplO dC' d 5a115 C' f Llgl. COm a ma11t1111a f 5V01-
aIldO, Sal de Tillltilll0n e dC Sl O 1011g0 l1m111h0 de aeSSO a0 CdS-
tel0. FU1 dlret0 ate aSa df  alLlgLICl, maS IlaO f'lltYf1. COYY1 paYa il
bala  hela  de  gOtelYdS  Onde  gLlardaVlm  O  aValO  CLI  LlSdVa  2m
mlIlhaS bUSaS;  OS  ValaYlOS  T110 eStlVam  111 - lleSSS 110ra,5, a
pYOVldIlla dlVIIla SeIIlpYe IlOS a lLlda. Selei rapidamnt(' o a nimll,
mOIlte1  O  Sal galOpalld0  0m0 SC  tOSSC'  O  df m()I110  par3  lOIlg  dC'
Ta ntallon e de todos os Douglas. Foi ellt o (lLle n1e veio ... nlemria
a imagem do pobre rei Jaime V, j  ellsalldecido, cava lgando a fur-
ta-passo por aquela mesma estrada e repetindo: "Qtle vergonha !
Oliver fugiu? Pegaram Oliver?" Isso acontecera depois da batalha
de Solway Moss, quando Sir George, Angus e sLla laia estiveram
do lado dos ingleses. N o recordei a maneira, bastante similar,
pela (lual eu escapara de Vouvray; mais tarde, porm, viria a conl-
parar as duas experincias. Uma diferena estava no fato de que,
dessa vez, precisei vender o cava lo para collsegLlir alimento e me
tornei prostituta.

   Em tempo de guerra,  difcil inlaginar algLlm lnodo pelo qLlal
Lzma mLllher sozinha, sem com.ida llem dillheiro, possa obter qual-
quer das duas coisas sem prostituir-se. Decerto se poder  perguntar
por qLle, (luasldo veio a fome, eLl no voltei para os DoLtglas, apa-
zigilOi 5ir GC'Orge e m tra nsformf'i m. 5L11 ama IltC, lf'VaIldO Llma
vida  de dcil submisso e me alimentando de leite e carlle de
porco, em vez de entYega r-me por soma s Inenores 1 qLlais(ILler
homens honestos que se dispusessem a paga r. A resposta est  jus-
tamente a: eram homens 11ollestos. Na maioria, soldados, em ILI-
gares como Haddington e Du.nbar; no me aproximei de Edim-
bLlrgo.
   Ma s voltemos a mi1111a fuga. O cavalo contillLlou a galoplr, e
eu no sabil para onde amos, pois j  est vamos alm dos limites
de minhas buscas anteriores. Dali 1 poLlco, vi Llln grande castelo
cillzellto; qLla lldo me aproximei e discerni o enlblenla  nLlm dos
estandartes que a li tremulavam, identifiquei lna is uma vez a sa-
lamandra verde que cuspia fogo. Em oLltras palavras, eLl correra
de um reduto dos Dougla s pa ra outro, e conclu cLle aquele per-


                            195
#tencia ao prprio Sir George e que era o castelo de Dalkeith; no
poderia ser nenhum outro lugar.
   Desmontei, pois o cavalo estava comeando a ficar cansado.
Eu j  no sabia o que fazer. Naquele momento, por alguma raz o,
a histria de uma mulher muito corajosa me veio ... mente, talvez
para me animar; puxando o cavalo pelo cabresto, percorri a p a
distncia at o castelo, sempre pensando nessa mulher. Isobell, a
esposa de Lord Borthwick, raramente ia ... corte, e eu nunca a co-
nheci; mas, no muito antes, a condessa de Angus, tendo efeme-
ramente despertado de seu torpor, contou-me o que ela fez. Numa
poca anterior, quando a rainha viva estava sendo cortejada sem
sucesso por Bothwell, o Belo Conde, e pelo tambm formoso Len-
nox, encorajando ambos e no sucumbindo a nenhum, o Belo Con-
de ficou talvez desanimado. Na esperana de easar com mndnrrie,
chegara ao ponto de divorciar-se da mulher, que era uma Sinclair
e a m e de seu herdeiro, e agora rnadarne no queria despos -lo.
Em seu desengano, o Belo Conde acabou ent o se apaixonando
por Isobell Borthwick; alm de ser um homem inconstante, era
filho da alcoviteira de Caerlaverock; com certeza, suas afeies mu-
davam conforme o vento. Infelizmente, Isobell amava bastante o
marido. Nessa altura dos acontecimentos, Sir George Douglas re-
solveu aprisionar Lord Borthwick em Dalkeith; pretendia assim
agradar ... ra inha viva, mas falhou (Borthwick fora aliado de Arran,
e Sir George estava para mudar de lado).
   Olhei para o estandarte mais prximo, que tremulava no alto
da torre de menagem. N o havia outro lugar aonde ir; e, pelo
menos, eu sabia que Sir George no estava l . Era improv vel que
estivesse em condies de montar, depois dos pontaps que lhe
dei; mas, com um Douglas, nunca se podia ter certeza. Voltei a
pensar em Isobell Borthwick. Ela concebeu um plano para libertar
o marido; por meio de uma carta amorosa, atraiu o Belo Conde
aos domnios de Borthwick; era uma longa distncia, mas por certo
ele se achava irresistvel; quando j  estava l , no prprio quarto
de Isobell, ela mandou que o prendessem. Em raz o disso, Lord
Borthwick acabou sendo devolvido ... esposa por Sir George, e essa
mesma mulher, no me perguntem como, transformou os dois ho-
mens em ardentes partid rios da rainha viva.
   Nada disso, porm, seria de ajuda para mim se eu encontrasse


                           196
#Sir George com a virilha machucada e gema de ovo na barba.
Entrementes, fiquei feliz em ver o est bulo, pois quase tive de
arrastar meu pobre cavalo na subida para o castelo. Eu mesma
no estava em condies de seguir caminho, e precisava bastante
de uma refeio. Seria engraa do se eu pudesse vender o cavalo
aos Douglas e depois continua r viagem a p; afinal, a montaria
pertencia a eles, e talvez o cavalario no percebesse que pagariam
duas vezes por ela. Decidi tenta r; por causa da guerra, estava difcil
conseguir cavalos.
  No est bulo, havia uma jumenta branca, e ela se lamuriou quan-
do cheguei mais perto. O barulho atraiu um cavalario, um homem
de meia-idade que usava trajes rudes, sem armadura. Provavel-
mente, era algum que fora dispensado do servio militar para
cumprir tarefas em casa, uma situa o que deixa os homens ou
presunosos ou desanimados. Ele se enquadrava nessa ltima de-
fini o, e ficou olhando furtivamente para mim enquanto alimen-
tava e tra tava o cavalo. Eu ainda no lhe dissera que estava sem
dinheiro, e, quando o fiz, ele se zangou, como j  era de esperar.
Reconheceu o cavalo dos Douglas e se reconheceu como membro
desse cl . Depois contou que a esposa j  morrera, que no havia
mulheres por ali e que muitas vezes tinha de tocar em si mesmo.
Eu ainda no conhecia o termo, mas entendi o que pretendia dizer.
   - O senhor est  numa situa o t o triste quanto a minha -
disse-lhe, esperando despertar sua piedade. - Perdi-me de meu
marido e o tenho procurado por toda parte.
   L grimas me vieram aos olhos. Esta va exausta e faminta, e j
comeava a ter certeza de que nunca acharia Alasdair Dorch, ou
ent o de que, se o encontrasse, ele ainda estaria furioso, com aquela
ira profunda e persistente dos montanheses, e se negaria a rece-
ber-me de volta. A raiva do cava lario fora diferente, menos pesada;
mas ele ainda era um homem e tinha necessidades de homem.
Concordei em deixar que me usasse, desde que pagasse por isso;
antes, porm, disse-lhe que no costumava fazer aquilo e perguntei
quanto cobravam as prostitutas.
   - J  dei de comer ao cavalo - resmungou -, e meu senhor
far  perguntas, j  que fica sempre de olho na aveia. Eu poderia
t-la agora mesmo, sem pagar nada, pois, apesar do que possam
dizer, sou bem forte. Mas sou um homem caridoso e...


                        197
#   - N o estamos falando de caridade - repliduei, com justia,
e tornei a discutir a quest o do dinheiro, recuando qua ndo o ca-
valario se achegou a mim.
   Ns, franceses, somos espertos nessas coisas, mesmo quando
se trata da primeira vez. O homem deu um preo, eu o dobrei, e
ele sorriu de repente, mostrando dentes amarelos e regulares.
  - Voc  uma mulher bonita . Se quiser ficar, eu posso lhe dar
uma cama quente.
   Respondi que acha va que ele podia mesmo, e de certa forma
a idia era bem-vinda, mas tive medo de que Sir George voltasse.
No final, o cavalario dividiu comigo uma jarra de cerveja, e nos
deitamos juntos. Lembro-me do gosto amargo da cerveja em minha
boca e do calor que ela deixou em meu est"mago vazio, um calor
que ajudou as coisas a seguirem seu curso. O homem me garantiu
que nunca pegara a doena francesa, e fiquei gra ta por ter chamado
minha aten o para isso. Depois, fez comigo o que outros homens
j  haviam feito, e no foi nem melhor nem pior, pois virei a cabea
para o outro lado e fechei os olhos. Quando terminou, ele me deu
a quantia que tnhamos acerta do; mas a cerveja me deixa ra um
pouco tonta, e no dia seguinte, depois de ter dormido ao relento,
debaixo de uma sebe, e me lavado num riacho, vi que ele levara
a melhor: pagara-me com aquelas moedas que rrTndame cunhara e
que Arran proibira; era dinheiro que no tinha mais valor. O ho-
mem, no entanto, tivera a gentileza de no depositar em mim o
smen dos Douglas.

   Pelo menos, eu a gora sabia o que fazer, e comecei a trabalhar.
Fui para a cama com homens de Haddington, Berwick-upon-
Tweed, Dunbar, Dirleton, Gullane, Aberlady e metade dos lugares
do litoral. Na maioria, eram soldados que seguiam este ou aquele
lder; entre seus chefes milita res, esta va o cardeal, que nunca mais
tornara a ver; os soldados falavam muito dele, dizendo que era
um comandante capaz e corajoso. Entre um e outro fregus, eu
tenta va reunir informaes, no mais sobre Alasdair (isso j  era pas-
sado), mas sobre o que estava acontecendo no pas. Os homens dei-
xavam escapar algumas coisa s, e havia outras mulheres na mesma
ocupa o; a bem dizer, ela s pululava m, em raz o da guerra, do
desabrigo, da fome, do frio, da viuvez. Seus atrativos, ou a ausncia


                            198
#destes, variava m, e existia muita rivalidade entre elas, assim como
alguma amizade. Eu era bastante procurada pelos homens, e por
isso muitas me detestavam; mas, em certos aspectos, sou grata a
uma dela s; j  era velha e se lembra va de quando, alIlda menina,
vira Jaime IV seguir para Flodden. Chamava-se Agnes Heron e
nascera na fronteira. Contou-me que, em sua regi o, as mulheres
carregavam as riquezas no corpo: colares, correntes, peitilhos, anis,
tudo de ouro. Faziam isso por quest o de segurana ; quaisquer
outros bens - utenslios, moblia, at mesmo construes fortifi-
cadas - seriam roubados ou queimados mais cedo ou mais tarde,
e depois outros saqueadores, montados em p"neis de pernas curtas,
iriam roubar dos ladres e trazer as coisas de volta. Fiquei triste
quando ela mencionou os saqueadores da fronteira, pois me lem-
brei que entre essa estranha gente (due diziam descender de uma
fa da e de um urso) meu Alasdair aprendeu a fazer dranirnoch.
   Agnes Heron me contou outra coisa, enduanto comamos o
desjejum na praia, em Dunbar. Era um momento em que, depois
de uma noite de traba lho, podamos fazer uma boa reEei o, e
est vamos fritando ovos com presunto; a j>anela estava numa fo-
gueira que fizra mos eom a madeira que vinha dar na praia, e as
chama s ficavam verdes por causa do sa I. (Agnes vinha de uma
tribo que, desde o combate de Flodden, ga nhara fama de n"made,
porque seu sobrenome, que um. dia fora nobre por l , e suas ca sas
havia m sido arruinados tantos pelos escoceses quanto pelos ingle-
ses. N o eram muito diferentes dos ciganos due, havia uma gera o,
chegaram ... Esccia no se saL>o de onde e foram L>em recebidos
por Jaime IV, que ouviu seus rabequistas merenos e escutou suas
histrias inesquecveis. Aqueles n"ma des da fronteira levavam a
mesma vida dura dos ciganos, e Agnes aca bou preEerindo ser pros-
tituta; tentou me convencer a estabelecer casa com ela em Edim-
burgo, mas eu no quis ficar assim t o perto de nrndorrc.) Ali, na
praia, Agnes me faloLl da vitria de Angus sobre os ingleses em
Ancrum Moor e mencionou que o governa dor Arran o beijara vinte
vezes por causa daduele triunfo.
   - Talvez seu ma rido tenha estado na luta - ela me disse,
mostrando num sorriso na boca meio desdentada . - Por que voc
no foi at l ?
   Pensei em como eu estava quando chega ram as notcias da


                            199
#batalha, e que, se necess rio, teria caminhado de Tantallon ...quele
desolado campo de guerra, mas ent o j  era tarde demais. Agnes
comeou a pentear o cabelo, que era grisalho e cheio de piolhos;
talvez mais tarde, no ver o, ela os lavasse.
   - , mas ele no estava l  . N o estava mesmo - afirmou.
   Fiquei imaginando por que ela comeou dizendo uma coisa e
terminou dizendo outra. Afastei-me; estava tremendo, no apenas
por causa do frio da manh , mas tambm porque tive certeza de
que aquela gente, em suas andanas, adquirira o dom da prescin-
cia. Quando um deles morre, os outros ficam logo sabendo, mesmo
se estiverem do outro lado das montanhas. Ser  que Agnes sabia
onde estava Alasdair? Se sabia, no quis me dizer. Olhou-me com
certa hostilidade dissimulada, que eu j  percebera em outras mu-
Iheres. Afinal, ramos concorrentes, e eu ganhava mais do que ela
ou qualquer das outras.
   - Voc vai v-lo de novo. Vai mesmo - ela disse. - Pode
ter certeza.
   Isso foi tudo, e ela no me contou nem quando nem onde
aquilo iria acontecer. Mas, depois desse episdio, passei a ter es-
perana de reencontrar Alasdair, apesar de tudo.

   Em Haddington, eu no passei muito bem. N o que estivesse
r vida; graas a Deus, nunca gerei um filho em todo esse perodo.
A noite, as prostitutas ficam ocupadas demais para tirar os em-
bries do sossego; do contr rio, apelam para ervas ou ganchos.
Uma vez, quando estive em dvida, experimentei as ervas, e elas
me deixaram nauseada, mas nunca precisei us -las de novo. N o,
no era gravidez; era uma febre, e eu sabia a causa. No final, aquilo
me invalidou para o trabalho. N o era a doena francesa (eu sempre
obrigava meus clientes a abrir a braguilha antes de comearmos
para que pudesse verificar o contedo; e, se houvesse leicenos,
mandava o fregus embora). At hoje acredito que a febre foi pro-
vocada por certo homem, que tinha um membro enorme e se ga-
bava de que me alargaria mais do que qualquer outro dos condados
de Fife e Lothian. Ele andava atr s de mim j  havia algum tempo,
e acabei deixando que tentasse, para que pelo menos me deixasse
em paz; mas realmente me alargou, tanto que sangrei. Depois do
ato, mal consegui ficar em p; durante dias, manquei, cambaleei


                            200
#e no pude trabalhar, e as outras mulheres riram de mim. Por
algum tempo, no fui mais a mesma. Antes, eu podia at escolher
um pouco meus clientes, pois, embora o pecado descarne algumas
mulheres, ele me deixara rolia, e os homens gostavam de pegar
em minhas carnes, brancas como nata. Uma das coisas que queriam
era demais para mim, e no acedi a um marinheiro que pediu
para faz-la, ainda que ele tenha se disposto a pagar em dobro;
h  limites para o que uma mulher pode suportar. Afora isso, era
uma quest o de abrir as pernas e s. s vezes, eu tinha condies
de pagar um quarto onde poderia dormir por todo o dia seguinte,
e isso numa poca em que havia poucas acomodaes disponveis
na Esccia. Mas, depois daquela vez em que estivera com o homem
de membro avantajado, nunca mais fui a mesma, como j  disse,
e minha freguesia diminuiu.

  Pode-se perguntar por que, nessa situao aflitiva, eu no voltei
para junto da rainha viva. Numa missa em Edimburgo oficiada
pelo prprio cardeal Beaton, ela foi vista ajoelhando-se ao lado do
governador Arran, o mesmo que, no muito antes, no Conselho,
tentara sacar a espada na presena de rrrrzdarrre e do cardeal e for-
tificara os basties de Sua Graa contra ela mesma. Bothwell, o
Belo Conde, tambm estava na missa, assim como Argyll, o chefe
do cl  Campbell, envergando seu tart  verde-escuro. Os Campbell
sempre sabem que lado apoiar, e  sempre o dos vencedores; por
isso, conclu que, para reconciliar aquelas faces todas, ntrrdarrte
fez muito mais do que apenas ficar esperando desamparadamente
em Stirling.
   Fiquei sabendo dessas coisas s por ouvir falar, j  que evitara
Edimburgo desde o incio, muito embora pudesse ter ganhado bas-
tante diriheiro l . O fato  que eu sabia que Sua Graa continuava
pura e que eu j  no era mais; Madame Marie sempre foi casta,
e eu no me atreveria a aparecer diante dela naquele estado. Ma-
darrre tinha melhores conselheiros do que eu, e Deus era o principal.
   O cardeal foi til, mas ningum podia confiar nele, e eu sabia
que rrradanre no o fazia. Ele cavalgou incansavelmente entre Stirling
e a capital para tentar servir de mediador; de modo geral, porm,
Beaton apoiaria o governador enquanto as coisas continuassem
incertas, como se esse apoio contribusse para deix -las menos in-


                            201
#certa s. Fiuei im.agillalldo duanto tenlpo ele aillda podia passa r
c.om Marion Ogilvy. Eu 11z1o n1e esuecera dela, e deveria tornar
a v-la.
    Antes diSSO, flqLlf l perfllnbUlfllld0 pOr laddlllgtOll. EStaVa fraa
e trelnia de febre; cheguei a pensar en1 ir at as freil'as de Saint
Mary, pa ra que elas 111e cLlrassem, nlas Ilao quis saber de suas
penitncias. Na chuva, olllei para as g rgulas e me lembrei da s de
Notre Dame; depois, recusei ,.i111 freglls que passou por ali. Eu
no esta va em Colldloes de a tellder a ele ou a quenl quer que
fosse, embora precisasse de colllida. Dizem que se deve matar a
febre de fome, e, se acredita rnlos nisso, talvez ent o eu estivesse
sendo minha prpria mdica . N o n1e lembro colno, mas, uma ou
duas horas depois, qualldo a ltlda estaVa escuro, fui parar na gra llde
abadia, due, alltes de ser destruda pelos reformadores, costumava
ser cllanlada de Luz de Lotlliall. Por ca usa de mel.l trabalho e das
crenas que me restavam, eu me privara de entrar ali. Mal olhei
para as maravilhas da aba dia: as doura duras, os sa ntos entalhados,
os ossos contidos nos relic rios, vestgios dos tempos em que os
reis eram ali coroados. A alvora da estava chegalldo, e os vitrais
j  projetavam suas cores no piso. Estirei-me de bruos no ch o,
tal qual costumam fazer os desesperalla dos; mell rosto tocava a
pedra fria, e me senti perto da morte. Minhas partes ntimas doam;
eu estava exausta e doente. Sen1 divida , as freiras teriam me levado
para a enferma ria, cuidando de mim por um dia ou dois e depois
me mandando ao padre, pa ra due ell confessasse meus pecados;
mas de que serviria isso se em seguida ett teria de voltar a prati-
c -los? Descobri que no mais collseguia rezar; no entanto, o so-
corro chegou. Quando finalmellte me levalltei, um grupo de moos
louros percorria hesitantemellte o lugar; decerto estavam se per-
guntando em que capela seria reza da  a missa; ainda era nluito
cedo, e ningum mais chegara. Meu cora o se encheu de alegria
qualldo os vi, pois usavanl o unifornle branco e dourado dos ar-
queiros escoceses do rei Francisco, e eu soube ellt o que rltadalrte
enfim conseguira ajuda fra llcesa , talvez gra as ... minha carta.
   Fui at um dos jovens oficiais e toquei seu ombro.
   - Mortsicur - disse-111e em frallcs, com voz baixa -, meu
nome  Claudine de Vouvray e sou uma compatriota. Estou muito
feli.z em saber que os senllores vieram. Se eu puder ajudar de algum


                            202
#modo que no este ao qual, como v, eu me sujeitei, diga-me, pois
conheo a rainha.
  Outro homem poderia ter-me enxotado com medo ou desprezo,
sobretudo naquele lugar, onde havia relquia s sagradas e, no ta-
bern culo, a hstia, que o oficial certamente esperava receber dali
a pouco. Mas ele se mostrou agradecido e disse seu nome (no
era nenhum que eu conhecesse, pois ele vinha de Touraine) e seu
posto, tenente. Reconheceu que tinham dificuldade para compreen-
der o idioma escocs e afirmou que precisavam de um intrprete.
Eu disse:
  - Estou disposta a viajar com os senhores para onde quer que
seja. Peo apenas que me paguem uma refei o. J  no como h
dois dias...
   Nisto, desmaiei no ch o, aos ps deles. Por algum tempo, no
me dei conta de quase mais nada; s lembro que ficaram a meu
lado e que, com muita cortesia, providenciaram o que eu pedi.
   N o costumo desmaiar. Nenhum Guise de verdade aprovaria
esse tipo de rea o. Pelo que sei, Madame Marie s desmaiou uma
nica vez na vida, quando algo bastante repulsivo aconteceu diante
de seus olhos. Isso viria a ocorrer mais tarde, e relatarei o fato
quando chegar a hora.




                          203
#Quinta parte




               George Wishart gritou, contorceu-se, enegreceu e finalmente
            queimou nas chamas, alimentadas pelo vento de maro. N o era
            um vento como o que retardara a queima de outro reforma dor,
            Patrick Hamilton, e transformara sua execu o numa agonia de-
            morada, ainda que suportada com bravura. Esse vento mais recente
            estimulava as chamas, tal como devia mesmo fazer, lanando-as
            contra o rosto de Wishart e logo reduzindo o condenado a uma
            figura carbonizada e retorcida que pendia imvel, acorrentada ...
            estaca. Havia uma multid o ao redor, e ela recuou ante o calor
            intenso; o ar ficou tremeluzente, por causa do fogo, e j  no era
            possvel enxergar alm da estaca. Mais tarde, John Knox diria que,
            de uma janela do castelo de Saint Andrews, o cardeal a ssistira a
            tudo, regozijando-se com aquela desgraa; ningum, entretanto,
            consguia enxergar o castelo. Na multid o, alguns, por h bito, re-
            zavam o tero; outros liam a Bblia, desafiando as autoridades a
            virem impedi-los. Por isso, e por pregar a heresia de Lutero em
            Dundee, em Montrose, em Kyle e no leste de Lothian, e talvez
            tambm por ter participado de um compl" de Henrique VIII, 
            que Wishart fora aprisionado pelo cardeal dois meses antes, duando
            meus franceses e eu j  est vamos voltando com mensagens da
            rainha viva para Beaton. Knox, na histria que escreveu, diz que
            nessa poca o cardeal era amante de rnadame, mas, como muitas
            outras coisas que ele conta, isso no  verdade.
              Assisti ... execu o de Wishart. J  voltara a usar roupa de mulher,
            e Marion Ogilvy se encontrava a meu lado, impassvel; com o
            rosto forte e empalidecido, ela estava como eu a vira pela primeira
            vez, no batizado do prncipe James, evento que, afinal, se dera
            no muitos anos antes. Naquela ocasi o, as tochas haviam quei-
            mado ... noite em Saint Andrews, como acontecia agora com o
            infeliz reformador.


                                   205
#   Depois de entregar a s mensagens a Beaton, eu e os franceses
viajamos para o norte; vesti-me como um rapaz, um jovem criado
que, certamente, era ba stante rolio; mas os casacos de homem
da quele tempo tinha m bastante enchimento, e, alm disso, eu cor-
tara os cabelos bem rentes e disfarara os seios envolvendo-os com
faixas. Tudo isso porque o comandante francs, Sieur de Lorges,
conde de Montgomery, decidira que no seria correto eu cavalgar
como uma vivandeira entre os orgulhosos e vener veis arqueiros
escoceses da Gua rda. N o obstante, estavam satisfeitos por eu lhes
servir de intrprete e por me mostrar bastante esperta quando se
tra tava de pechinchar com os feirantes das cidades pelas quais
pass vamos. N o exigiram de mim mais do que eu lhes oferecia.
Os franceses entendem tais situaes, e aqueles se mantiveram cor-
teses e distantes. Afora o casaco de couro com enchimentos, os
cales masculinos e a espada que eu carregava, deram-me dinheiro
para que pudesse comprar um vestido e uma touca de linho es-
cocesa, tudo novo. Fiquei feliz com essa touca, pois era f cil de
carregar na sela (ao contr rio de uma coifa) e ocultava meu cabelo
rente quando isso se fazia necess rio. Quando minhas madeixas
castanhas tornaram a ser corta das, eu me lembrei das claristas de
Pont-...-Mousson e daquela puni o anterior, mas naquela primeira
vez o cabelo havia voltado a crescer, e o mesmo aconteceria agora..
N o fiquei animada em ir t o para o norte, pois temia perder al-
guma informa o sobre Alasdair, agora que no me dedicava mais
..quele vergonhoso comrcio; acabei no recebendo notcia alguma,
mas Agnes Heron garantira que eu tornaria a v-lo. S me restava
viver um dia aps o outro. Era o que eu fazia, regateando acomo-
daes e comida para os soldados nas cidades e, ...s vezes, pergun-
tando o caminho, pois as estradas ficam pssimas no inverno e as
marcas de rodas podem confundir os cavaleiros em busca de uma
povoao. E, seguindo aqueles arqueiros trajados de branco e dou-
rado, eu pensei na Frana e, depois, imaginei-me a prpria Joana
d'Arc. Joana foi uma mulher corajosa, mas sua histria  confusa;
talvez haja alguma verdade no boato (que ainda hoje corre ... boca
pequena em meu pas) de que a Donzela no era nenhuma cam-
ponesa, e sim filha do prprio duque Louis de Orlans e de sua
cunhada, Isabel da Baviera, rainha da Frana. Dizem que ela foi
enterrada ao lado do marido,  Robert des Armoises, e que h  um


                          206
# retYatO SeU 11a tLlnlba; SeTUlldO eSSa  hlStOrlil, t'la CaSOL( COn1 lZOt.rt
 (' dpOlS  f01  malldilda  para  aS prOVlIlCIaS, pOIS  rC11L111Cla ra  a  SClIS
 lLlr mentOS.  En1  tOdO CaSO,  a  partf  flllal d0 plall0 pal'a  O CLlal  (`1L1
 tf Yla .SIdO preparada, O r('STat d0 pal na TOrrt de L,0lldreS, I1L(llCa
 5f  COnCrtlZOU, mLlltO (mbOra a D0llZela t1V(SS 1('Vantad0 O C(:I'C.O
 a  prpYla rl( aIlS, eXpLIISandO OS lnleSf S e COYOalldO Ca YlOS 11,
 O qLlal,  natUralnlf Iltf, f la 11  COIlhCla  df  VlSta,  pOlS  era  Sf'L1.  lllt.'10
 l.rma0. AILlma OLltra m11111er tf rl.a SIdO (Lllnlada f ln lZOLlf'11. Tal Vt`Z
 tLldO lSSO Sea  mf.SnlO  apnaS bOatO, maS   Lllna IllStOYla (ILl  pC`O
 n1f'1105 deSCarta aS talS V07('S mlStlCaS; SOU CCtlCa n0 ClLl( d1Z rf Sp(`It0
 a f SSaS COlSaS.
   NaqLlele momento, em Saint Andrews, eu olhava para a foueira
 de Wishart e para a coisa carbollizada que estava acorrentada ali;
 as chamas j  se apagavam, e pLlde ver do oLltro lado Llm lloln(m
 de preto, que segLlrava Ilas m os unla Bblia a berta e lia em voz
 alta e11(uanto as l grima s escorria m por sLlas faces. Havia nl Llitas
 OUtraS  pCSSOaS  faZf nd0  a  nl( Sma  COlSa ,  pOIS  WlSllaYt  fOra  mUltO
 CU('YldO, SpeClalmente em lylf', 011d(  flCara  alTLlm tCmpO;  alltS
 di.sso, trabllllara como mestre-escola em Molltrose. O rosto do llo-
 mem ChOrOSO n1 eril famlllar, nlaS 1110 11a0 llaVla llada dE IlOtilV1
 que me ljudasse a lembrar ollde o vira pel.a primeira vez. Filllei
 0111and0  pOr  alTLlnS  mOnlelltOS,  f  dpOlS  p( rCf bl  CLl  MaI'lOt1 5f'
 meXla, C0n10 Se C'StlVOSSf  prOnta  paril lr f mbOrd. EU eIlta O a 5(  Ul
 ('m  5llnClO,  pOlS,  C'IlqLlantO  mUS  fYallCt'5f S  flCarla m  1105pf CjlldOS
 1111ma taVerlla aClUfla nOlt(7, MarlOn ntlllnfnt(' n1f  aCOIllE'ra  C'n1
 SU  CaSa.  O  Cllma  i111  f ra  d  dlf'rla,  pOY  CElUSa  dOS  pYf 7aratlV05
 para o casamento da jovem Ma g com o morgado de Cra wford,
 un1 Ca mpbell; llavia mLlito cetiln para ser costurado, e, co111 a(luele
 afObamellt0 tOdO, O tOCldO eStaVa C'SparYamadO pf 10 Cha O. ELl aLld('1
 COm a COStUra, maS na0 dlSS COmO VOltilra a SalIlt AlldreWS; 111n-
 TUem pergUntOLl llada, ,  aflntll df  COIltaS, U eStaVa ba Stant(' C-
 centC cOm o  VeStldO 2 a  tOllCa.
    Dali a pouco, tal como a contece (lLlalldo para lnos de pellsar
 em alguma coisa, lembrei once vira o homem de preto. Era nin-
 gum menos do que o frade qLle acom.pa llhara o cardeal Beaton
 naquela malfadada busca pelo fa lecido rei, (ullldo este aillda va-
 gava perto de Talltallon, depois da derrota escocesa em Solway


207
#Moss. O frade se chamava James Melville. Obviamente, ele renun-
ciara aos trajes de monge e se tornara reformador.

   Fiquei na casa de Marion enquanto Monsieur de Lorges e o
resto galopava m para Stirling, onde estava mndnnte. Em vista das
m s notcias que chegavam do sul, eles no precisavam mais de
intrpretes. O conde de Hertford e seus soldados, como todo mun-
do j  previa, invadiam de novo a Esccia. Por isso, comeou (ou
melhor, continuou) a destrui o impiedosa que, no macabro humor
escocs,  conhecida como Rough Wooing, o Galanteio Brutal. Os
ingleses tinham ordem de incendiar as abadias. Queimaram a de
Melrose, e a cidade tambm. Queimaram Dryburgh e as inofensivas
moradias daquelas cercanias, onde as pessoas no faziam mais do
que cuidar das ovelhas e fiar a l . Queimaram Jedburgh. De todas
as abadias das frteis terras da  fronteira, maravilhas que reis e
santos, atravs dos sculos, haviam construdo com pedra, vidro
e ouro e dedicado a Deus, restaram apenas runas desoladas e
campos queimados antes da colheita. Mas mesmo os esqueletos
das arcadas das abadias s o belos; h o de perdurar, pois nada pior
pode Ihes acontecer. Hertford escreveu a seu rei (o velho que viria
finalmente a morrer em janeiro do ano seguinte, um ms bastante
gelado, para que as chamas do inferno pudessem aquec-lo) que
havia cem a nos a Esccia no assistia a tanta destrui o. J  eu
diria que fazia pelo menos mil anos.

   Bem pude imaginar a afli o de Madame Marie, mas no so-
licitei que me deixassem ir ter com ela. Nesse meio tempo, o cardeal
vira a filha casar em Edzell, numa cerim"nia de rgio esplendor.
Mag seria feliz no casa mento, vindo a ser m e de seis filhos, mas
acabou tendo por sogra uma Campbell bastante azeda, a condessa
Catherine. Isso, entretanto, no tem nada que ver com minha his-
tria; s direi que, quando Marion voltou para casa, estava triun-
fante, por causa daquele matrim"nio nobre e tambm porque se
divertira um pouco com as instrues da condessa sobre o emprego
lucrativo do dinheiro e das terras.
   Marion parecia satisfeita por ter-me em casa. De minha parte,
estava feliz em deixar o cabelo crescer novamente; e cresceu r pido.
A cidade voltou a se aca lmar depois da momentosa inquieta o


                          208
#provocada pela morte de George Wishart; eu n  o saberia, porm,
dizer o que esta va acontecendo mais para  o interior. O cardeal
Beaton voltou, e o vi cavalgar com muita pompa e orgulho. A
ltima noite de vida do cardeal, Marion a passou com ele no castelo.
Sei que ela ficou grata por isso, e essa gratid o perdurou por toda
a vida, que j   bem longa. De vez em quando, tenho notcias
suas.
  N o tinham ocorrido mais distrbios na cida de. Havia rumores
(sempre havia) de uma discuss o em Stirling, na presena da rainha
viva, entre o cardeal e Monsieur de Lorges; este era t o irritadio
quanto Beaton, e teria gritado que o cardeal usa ra de falsa s pro-
messas de casamento eom rradarne para atrair ... Esccia o conde
de Lennox, antes oficial dos arqueiros escoceses da Guarda. Bea ton
ergueu a m o para golpear o francs, que ent o sacou a espada.
Madame, daquela sua maneira tranqizila, exigiu que os dois homens
fossem apartados; depois, ordenou que o cardeal voltasse para Saint
Andrews e que Monsieur de Lorges fosse para no sei onde.
   Foi certamente o velho rei ingls quem, antes da prpria morte,
arranjou a do cardeal. J  fazia muito tempo, Beaton era um espinho
na carne ulcerada de Henrique VIII; o cardeal era  diplom tico,
sagaz, corajoso na condu o dos exrcitos e no aconselhamento
da rainha viva, t o isolada; e, como se no bastasse, continuava
a ser um homem da Igreja, apesar dos filhos bastardos. Mas, afinal
de contas, todos os papa s os tiveram, e por due no deveria ser
assim? Homens s o homens, como Marion me disse pouco mais
tarde; seu rosto ent o parecia de pedra, e seus olhos esta va m secos;
era uma mulher forte demais para chorar.
   Depois de ter passado a noite com Beaton, confortando-o, ela
deixou o castelo de manh  bem cedo, saindo de mansinho pelo
port o dos fundos. Os dois amantes estavam juntos havia vinte
anos, e o cardeal, apesar de to arrogante, ainda se sentia feliz em
t-la. Alegra-me que Marion tenha podido passa r a ltima noite
com Beaton e que no tenha presenciado o que aconteceu depois.
Alguns homens (cujos nomes seriam conhecidos mais tarde) inva-
diram o castelo, subjugando a guarni o porque ma das sentinelas
ainda no estava bem acordada; Bea ton, quando ouviu os invasores
chegarem, permaneceu no quarto, enquanto o criado pessoa 1 cui-
dava de bloquear a porta; mas puseram fogo nela, e a fumaa


                        209
#obrigou o cardeal a sair. Eles o apanharam e, sem lhe dar tempo
seqtler de dizer uma prece, apunhalara m-no repetidas vezes, muito
embora ele gritasse "Soll um sacerdote! Um sacerdote!" O zltimo
dos assa ssinos (lnais tarde, tive ocasi o de conhec-lo muito bem)
fez um discurso carola antes de dar o golpe de misericrdia; en-
terrou trs Vezes a espada no corpo do moribundo, at que o ch o
ficasse encharcado de sa ngue. Eu, assim como talvez muitas outras
pessoas, no gostava do cardeal; era uln homem orgulhoso, iras-
cvel e convencido, mas apoiara a rainha, pelo menos at bem
pouco antes do fim, e morreu coln coragem. Seu ltimo brado foi
llm grandioso "Qtle vergonha! Tudo perdido!", palavras que o dei-
xaraln de boca a berta, para que a alma pudesse sair.
  Com toda a frieza, a rrasta ram o corpo at a muralha do castelo;
l  fora j  se juntara uma multid o receosa; embora no amassem
o cardeal, sabiam que esta riam mais seguros com ele vivo; agora,
porm,  Beaton estava  indlibitavelmente morto. Os  assassinos
(como ent o vi com meus prc5prios olhos, pois sa ra correndo da
casa) ergLleram por uma perna e um brao o cad ver mancha do
de .SaIlgLl e O mOStrardm  1 mLlltlda0; m SgUldl, um dos mata-
dores llrinou na boca aberta do cardeal. Soube que, mais tarde,
salgaram o corpo, colocara m-no num caix o e o atiraram no poo
do castelo. A essa a ltura, eu j  volta ra correndo para junto de
Marion; no podia deixar que ela visse aquilo. Tudo se deu em
lnuito pouco tempo. Entrei, fiquei de costas pa ra a porta, impe-
dindo assim que Marion fosse ... rua, encarei-a e me dispus a contar
o que acontecera; mas no precisei faz-lo.
   - Davy morreu - ela disse.
   Sua voz estava estranhamente calma, mas, afinal, ela no assistiu
..dllele horror. Mais tarde, depois de me ter feito algumas perguntas
r pidas, voltou para a sala e se sentou, permanecendo a li sozinha.
Por fim, chamou:
   - Claudine, venha c .
   Como eu j  dissE:, Marion Ogilvy n  o derra mou nenhuma l -
grima. Em voz alta, ela falou:
  - Eu sempre soube que isso iria acontecer; que, um dia , iriam
mat -lo. Mas no a chei que seria assiln, de modo torpe, sem que
ele pudesse receber os ltimos sacramentos. Deviam ter-lhe dado
pelo lnenos isso e um enterro crist o.


                            210
#    - Talvz O ellterro Ihf  s.ja cOncf dido - t'U dlSS para ()I1501a-la.
    Na Esccia, muitos homells vinllam morrendo sem extrema-
 ull o e sem enterro; mas era estrallho ver que isso acontecia tam-
 bnl a Da vid Beaton, pois, nio importava o qLle dissessem, ele era
 cardeal, e selnpre cumprira sLlas obrigaes para com a Igreja. Tal-
 Vf' DLIS IeVa .SS  lSSO II1 Onta    tlVf SSE pldtldf  d(' SLla  alma.
   -Como j  lhe disse- continuou Marion, falando bem devagar
 -, ns dois nos conllecemos qLlando eu tinha ILlase trinta allos e
 passara da idade de casar, pois ningum me arranjara matrim"llio.
 Ele era s um pouco ma is velho. ELI sa bia que era solit rio, assim
 como eu mesma. Nunca cometemos a dultrio, que  tLldo o que
 Cristo probe. - LevantoLl a cabea e sorriu para mim, e eLl. a vi
 quase como devia ter sido qua ndo moa, a fillla znica do qLla rto
 casamento de Llm idoso lord escacs que logo morreria e a deixaria
 sozinha com a m e. - Todos os meus meios irmlos era m como
 tios, pois j  tinllam casado llaVla mLlito tempo e moravam lollge.
 Como voc sabe, minha m e Ilao tornoLl a casar; ela talvez j  tivesse
 tido o bastante. EllsinoLl-me a cuidar da casa e das con.tas. Ta mbm
 sei forjar a lE:tra de qualqLler pessoa, o que talvez pLldesse ter sido
 til a Davy, mas ele nunca me pediu que fizesse isso. S me pediu
 que o confortasse e Ihe desse filhos. Ele costumava ficar fora, na
 Frana e em outros lLlgares, tratando de assLmtos de Estado, mas
 me d.eixava avisada para. que pudssemos decidir qLlando eLl de-
 veria encontr -lo. O povo fala mLlito; nestes vinte anos, fiqLlei co-
 nhecida como a ra meira do cardea 1; apontavam-me na rLla , aqui
 e em Arbroath. Fico feliz por termos estado jLlntos 11o casamellto
 da pequena Mag, l  no norte.
    - O qLle voc pl'etende fazer agora? - perguntei.
    Ela se leva ntou e foi para a janela; l  fora, um. homem de l  bios
 1>em roxos e longas barL>as ralas j  estava arengando ... mLlltidlo
 2 SegUrandO Uma Blblla.  Era J011n IIlOX, qLI .Se ILmt0l1 aOS a SSaS-
 sinos depois da morte do cardal,  na0 alltS; pel0 meIlOS llaqUllO
 ele no esteve envolvido. Marion viroLl o rosto, due se iluminou
 com a luz que vinha da janela .
   - Irei para a ca sa que Davy me deLl em MelgLlnd - respondeu.
 -  um lugar bastante sossegado, e poderei passear com as crianas
 pelas matas e colinas. L , ningum ficar  nos incomodando. Voc
 seria bem-vinda, Claudine; eu no poderia dizer o mesmo de todo


211
#mundo. Vivi muito tempo sozinha, e posso voltar a faz-lo, at
morrer. Agora, rezemos pela alma de Davy.
   Oramos, e, embora a morte do ca rdeal tenha sido anunciada
por apenas um dobre de sinos, ns o ouvimos. Ele talvez estivesse
soando pelo futuro da verdadeira f na Esccia.

   Marion se mudou com os filhos menores, e fiquei para ajudar
a limpar a casa e enviar as coisas de que ela viesse a precisar em
Melgund. Eu estava esperando que Monsieur de Lorges mandasse
avisar se havia alguma notcia a respeito de meus proventos de
viva, os quais, por causa da guerra, no estavam mais sendo
enviados; sabendo disso, Marion me emprestou algum dinheiro.   i
Ela preferia t-lo dado a mim, mas insisti em que se tratava de
um emprstimo e que Ihe pagaria com juros. Marion ent o disse
que eu era como a sogra de Mag, e repliquei que eu certamente
no era uma Campbell; no entanto, logo tornaria a ouvir falar
desse cl .
   Quando est vamos limpando a casa, encontrei uma cart de
Sua Graa para o cardeal, carta que fora deixada ali por acao e
que, sem dvida, no era para meus olhos. Eu a li displicentemnte,
para ver se ainda tinha alguma importncia, mas no era esse o
caso; dizia respeito a um encontro entre os dois em Stirling. Notez
que rnadame alterara ligeiramente a caligrafia, talvez com medo de
que Marion, que se orgulhava de conseguir forjar qualquer escrita,
usasse a carta como modelo para falsificaes; pode ser que tenha
surgido algum desentendimento entre Sua Graa e o cardeal sobre
isso tambm.  possvel, ali s, que Marion estivesse um pouco
enciumada do amante. Afinal, Madame Marie era uma bela mulher;
e, mais tarde, o deplor vel Knox escreveria que ele, ou um outro
qualquer, vira os sapatos vermelhos do cardeal aparecerem por
tr s das cortinas de rnadnrrle e se escanda lizara com a rainha viva.
Se isso for mesmo verdade (e pode muito bem ser apenas mais
uma das muitas invenes de Knox), estou certa de que o cardeal
estava ali porque havia algum assunto de Estado do qual precisava
ficar a par, e no porque ele e iriadrzrrte tenham sido alguma vez
amantes. A rainha viva era muitssimo casta, e se dedicava in-
teiramente ... filha; conheceu o amor com o primeiro marido, o
duque Louis de Longueville, foi obrigada a deixar na Frana o


                          212
#filho desse casamento e agora dava toda a sua fora, todo o seu
amor, ... jovem rainha Maria e ... Esccia . Alguns a nos mais tarde,
Marion Ogilvy chegaria realmente a ser processada por imitar a
escrita de nTndanie; mas eu j  destrura havia muito tempo aquela
carta, que no poderia ter servido de modelo para a fa lsifica o.
   E, falando em ca rtas, finalmente chegou uma de Monsieur de
Lorges, que me escreveu de Stirling. Esse comandante dos arqueiros
sempre me tratou com cortesia e respeito, e agora eu tinha muito
mais motivos para Ihe ser grata. N o conseguira informaes a
respeito de meus proventos (ele no podia dispor de muito tempo),
mas gentilmente enviara uma nota de crdito, que, se necess rio,
eu poderia trocar por dinheiro. Ele tambm agradecia meus ser-
vios. Coloquei a nota no corpete, enrolada na sgian dubh de Alas-
dair, da qual eu nunca me separava.
   Por fim, monsieur dava notcia s que poderiam levar-me a Alas-
dair. "Haver  uma reuni o de tropas no leste, perto de Mussel-
burgh, e esperamos seguir para l  com o governador", ele rabiscara
..s pressas; acrescentava que Argyll viera do norte, trazendo os
guerreiros do cl , e perguntava se no era possvel que meu marido
estivesse entre eles. A resposta s poderia ser no, mas eu sabia
que, se os Campbell iam lutar, ent o os Grant e os MacGregor
fariam o mesmo. "Acredita-se que enfrentaremos o comandante
ingls l ; reze por ns, cara rnadarne. " Ele terminava a carta decla-
rando-se meu humilde servidor. Fiz a ora o, acabei de despachar :'
as coisas de Marion, pus minha mantilha e fui para o sul, num
cavalo que aluguei por muito dinheiro, pois as montarias erar
escassas; agora, porm, eu podia me permitir o gasto. N o levava
acompanhantes; o que pudesse vir a acontecer comigo no caminho
no tinha importncia, muito embora eu no estivesse nem um
pouco disposta a me prostituir de novo; j  me confessa ra e cumprira
penitncia, e, sobretudo, minhas partes ntimas haviam sarado, e
eu no pretendia sacrific -las.
   Fui ao Queen s Ferry e tomei a balsa. Meu cabelo esvoaava
- j  no era mais como o de um ra paz. Ansiava muitssimo por
encontrar Alasdair, e desejei que, se nos vssemos, ele no mais
estivesse furioso comigo. Fiquei at imaginando se ele no tentara
entrar em contato comigo e no conseguira, por desconhecer meu
paradeiro. Deixei de pensar nisso e, por alguns momentos, con-


                            213
#tenlplel a lnlaglll d(' 5lIlta MaYgaYlda, (lLIC  lOra ra11111a da ',SCC)Cla
e viajara por a duela ba Isl, villdo da  o nolne QLleen's Ferry. NLlllca
gostei Illuito da santa, pois ela me pa rece ter sido uma llipcrita
e unla carola; mas talvez a moral da histria seja essa meslna.
    IOgO (LI(' CllegU(1 d IIla Tgem SUI, depaYel COm  IIlLIltOS 110n1IlS
lla f'StYc3da. EYan1 OS SOIdadOS da Yalnha e OS d0 gOVYlla dOY ArraIl,
tant0 CaVal('lYOS (LlaIltO 1.llfatlteS. Na0 V1 OS arqLlClrOS eSCOCeS(S d'
MOnSleU.Y  d(:  LOYgES llEm  OS  gLlE'rYClYOS de AYgylI;  tamb'IT1 I1aO
OLIV1 O SOm daS galtaS d(  f01(. NO qUe dlZla rC'SpeltO aOS fYallCSeS,
AYYal1 OS deteStaVa pOYClUe haVla a SUSpClta, nlalS tilrd( COIlIlrm(lda,
de qLle a pE'qU('na  SObE'Yana lYla CaSaY 11a Frana,   el0 a qLlE'Yla, OLI
dlLl.a qU2reY, para O  f11110.  EntrCmentes,  alllda  SC' COm(IltaVa (lLlO,
por segLlrana, a me1lilla seria enviada para algum local secreto.
A despeito de tudo o que o governador declarava solenemente,
ele podia muito bem mat -la , pois era o primeiro 11a linlla de sLl-
cess o; tambm era quase certo (lue os ingleses a mataria m se easse
em suas m  os; e, em todo caso, a vida de uma criana c: selnpre
delicada. Pela primeira vez, pensei na pequena Mhairi e en1 colno
ela era morena e forte; prometi a mim mesma que, se Deus per-
mitisse, eu da ria mais filllos a Alasdair e no lhe colltaria 11a da
do que se passara comigo. Tal atitude podia parecer desollesta ,
mas nem sempre  aconsel.h vel dizer tudo; devemos pensar nos
sentimentos dos outros. Est  a uma das utilidades dos padres,
aos quais podemos nos collfessar.
  Arran fez seu testamento no (lue viria a ser o canlpo d.e batalha,
perto de Inveresk, num lugar chamado Pinkie Cleugh, ollde esta-
vanl acampados. Redigir um testamellto ali era Llma coisa estralllla,
e mais tarde eLl soube que ele deixara o filho e a esposa aos cuidados
do rei da Fralla. Este j  no era o velllo libertino Francisco, qLle,
tal como Henrique VIII, morrera 11a quele mesmo ano,1547; os dois
devem ter-se encolltra do no purgatrio, se  que foram adnlitidos
ali. O novo rei da Frana colltinuou a ajudar lllacfnllle; era o tmido
delfim Henri, agora Henrique II, qLle se devotava ... amante e ne-
gligenciava a mulller. Terei mais para dizer sobre Henrique II,
sobre sua esposa e sobYe outrls personagens.
  Vimos o exrcito ingls dispor-se nos limpos campos de oLltono,
ao sol de setembro, qLle brilhava nas lallas; Hertford, agora duque
de Sonlerset, continua va no comando. Eu me retirei com as oLltras


                         214
#mulheres que estavam l , mas pudemos ver o que acontecia. O
terreno era plano; por trs dias, houve apenas escaramuas, en-
quanto compartilh vamos a comida entre todas. Sempre ach va-
mos que est vamos vendo o ataque principal, mas nenhum dos
dois lados parecia saber o que fazer: enviavam-se pequenos grupos
de soldados, que vadeavam o Esk, combatiam e depois recuavam
para sua margem do rio, sem causar muitos danos nem derramar
muito sangue. Eu j  reconhecera os montanheses do conde de Ar-
gyll, uma massa de homens slida e verde-escura; no consegui,
porm, ver nenhum MacGregor. Era possvel que estivessem longe
dos Campbell de propsito, pois os cl s no lutam juntos. No total,
havia trs falanges, ou divises. Arran comandava uma delas. O
velho Angus estava ... testa da segunda; vi sua barba grisalha e o
rosto corado e refleti que, a despeito de todos os defeitos e da
antiga amizade com os ingleses, ele era um homem rijo, corajoso
e, agora, provavelmente leal (mesmo tendo sido t o perseguido
por Jaime V); trazia o elmo na nuca, de modo quase jovial; parecia
pronto para tudo. Huntly comandava a terceira divis o; graas ...
interven o de madame, ele substitura o cardeal Beaton no cargo
de chanceler da Esccia. Orei por cada homem do exrcito escocs,
e como disse preces naqueles trs dias! Tambm pude ver outras
coisas mais, que sobressaam ao sol como mensageiras da morte:
os canhes ingleses do duque de Somerset.

   Deveria ter sido uma vitria. A vergonha de Solway Moss no
precisava se repetir; agora, todos os comandantes eram nobres, e
por isso no havia dvida de que seriam obedecidos, ao contr rio
do infeliz favorito do rei, Oliver Sinclair, de cujo fim no me lembro.
J  no est vamos num charco ingls; aquilo era solo firme, na pr-
pria Esccia, perto do litoral. Os craveiros que davam nome ao
lugar ainda floresciam aqui e ali, no ar salgado de princpios do
outono, p lidos contra o verde da relva; depois de pisados por
tantos cavalos, exalavam um aroma pungente. O cheiro chegava
a nossas narinas enquanto esper vamos a batalha; todos os nossos
sentidos estavam aguados, de modo que ouvimos o governador
Arxan, aos gritos, ordenar ao conde de Angus que atravessasse o

  Em ingls, "craveiro"  "clove-pink", ou, num nntio dialeto, "pinkie cleugh". (N. do T.)


                        215
#
#rio Esk com sua divis o. O velho dem"nio se recusou a fazer isso,
certamente porque no aceitava ordens de ningum; Arran, no
entanto, com o rosto mais contorcido do que nunca, mandou um
mensageiro dizer ao conde que, se este n o avanasse, seria culpado
de traio. Angus, muito vermelho (sofria de erupes na pele,
que acabariam por mat -lo), ent o conduziu os homens at a outra
margem, espadanando bastante  gua quando atravessaram o rio.
Os cavaleiros ingleses se apressaram a montar e arremeteram contra
os Dougla s; mas estes se defenderam bem com as lanas, ainda
que n o fizessem muito mais do que isso. Depois, os canhes in-
gleses comearam a disparar; atiravam de uma colina, tal como
os nossos em Flodden, mas estavam mais bem situados; e os navios
ingleses, ali perto, tambm disparavam. O que deixou apavorados
os Campbell do conde de Argyll foi o barulho, um enorme estron-
do, como nunca se ouvira antes; os guerreiros do cl  largaram
espadas e escudos e fugiram em grande confus o, ainda vestidos
eom os tart s verde-escuros, pois nem sequer tiveram tempo de
se despir (os montanheses guerreiam absolutamente nus). Vi isso,
mas no muito mais; nuvens de poeira se erguiam dos campos
onde, agora, os soldados lutavam. Os Campbell tambm n o con-
seguiam enxergar nada, e pareciam ter enlouquecido de pavor;
foram ceifados em grande nmero, enquanto os canhes ingleses
continuavam a troar. Mas s depois vimos os corpos.
   Nesse meio tempo, a cavalaria inglesa tornou a investir contra
o velho Angus, que ent o se decidiu pela prudncia e recuou at
as posies de'Huntly, em busca de ajuda. Mas Huntly, j  quase
cego pela poeira, pensou que os homens de Angus fossem os in-
gleses e atacou os compatriotas; todos trocaram golpes, caindo meio
mortos na poeira e sendo pisoteados pelos ingleses, que vieram
logo em seguida e mataram quem ainda estivesse vivo no ch o
ou nas selas; os infelizes cavalos guinchavam. Ali, tal como em
Flodden, muito tempo antes, tombou a flor da nobreza escocesa:
o herdeiro de Lord Erskine, o amigo da rainha; Lord Livingstone;
Lorde Ogilvy; Lorde Methven; Lord Ruthven; e muitos mais. Hun-
tly, o prprio chanceler da Esccia, foi feito prisioneiro. Vi um
homem de rosto contorcido sair da confus o a todo galope e rumar
para noroeste, deixando atr s de si uma nuvem de poeira; era
Arran, que deveria ter morrido como um c o, junto de homens


                          216
#muito melhores do que ele. Eu sabia que o governador estava indo
ver nrrdnme; ela receberia a notcia de mais um revs escocs, a
terceira grande derrota neste sculo infeliz, e ainda teria de acolher
respeitosamente Arran, um tolo perigoso que tinha a aud cia de
achar-se superior a ela s porque se considerava homem. Pinkie
Cleugh, um nome que as crianas talvez dissessem de brincadeira,
um lugar em que flores desabrochavam, foi pior do que Flodden
e do que Solway Moss; a derrota nos deixou sem defesas, sem
armas e armaduras, sem reservas, sem nada exceto esperana e
coragem.
   N o percebi tudo isso na ocasi o; n o poderia faz-lo. Quando
os incursores ingleses se retiraram, j  estava ficando escuro, e eu
e as outras mulheres nos movemos furtivamente pelo campo, entre
os corpos brancos e saqueados. Embora fosse quase noite, os mi-
lhanos, essas aves de rapina, j  davam voltas no cu, esperando;
voltariam de manh  cedo. Os ingleses levaram dos mortos as ar-
maduras e as espadas, mas n  o os despojaram de tudo, ao contr rio
do que fazem os saqueadores da fronteira; e, gra as a Deus, vol-
taram para suas prprias posies, onde quer que estas ficassem.
Procurei at o escurecer e ent o me deitei entre os mortos; na manh
seguinte, bem cedo, antes que os milhanos viessem buscar sua
carne sangrenta, continuei minha busca, at que na linha de frente,
l  onde eu j  deveria saber que iria encontr -lo, achei o corpo de
Alasdair Dorch, meu marido.
   Eu o reconheci de imediato; era maior do que qua lquer outro,
e os milhanos ainda n o haviam comeado a bic -lo. Seu corpo
enorme, com aquele cabelo negro e emaranhado, encontrava-se
estatelado na dire o das linhas inglesas; <luando delica damente
o examinei, vi ferimentos no peito e na barriga; por isso, a frente
do corpo estava coberta de sangue, mas n o as costas. Em breve,
ele seria apenas ossos, totalmente descarnados; os milhanos, fu-
riosos, voavam em crculos acima de mim e me batiam com as
asas, como se quisessem que eu fosse logo embora, mas continuei
ali. Em outras partes daquele campo, certamente havia mulheres
que tambm procuravam seus mortos e que talvez nunca os en-
contrassem. Elas n o significavam nada para mim. Nada signifi-
cava mais nada; sobre o corpo de meu marido, lancei o coronrrclt,
o angustiado grito ancestral das montanhesas aflitas.


                           217
#   - Voc n o deveria estar aqui, mulher. No fim dos tempos,
o Senhor ir  ressuscit -lo. Mas fique comigo at l .
   Ouvi a mim mesma passar do lamento para o silncio. Ali, ...
luz da manh , estava uma figura lgubre, vestida de preto, que
segurava nas m os uma Bblia aberta. A aparncia grotesca dessa
criatura, ainda viva entre todos aqueles mortos, j  era em si uma
parte do horror e da desesperana, e suas palavras se mostravam
ridculas. Ficar com ele? Seria para segui-lo como os apstolos ha-
viam feito com Cristo? Ou seria para outro tipo de coisa? Eu estava
prestes a blasfemar. A alguma distncia de onde nos encontr va-
mos, os milhanos arrancavam a carne de outros homens, e, se n o
fosse por nossa presena, j  estariam bicando a de Alasdair. Como
poderia ele ser ressuscitado no fim dos tempos? No dia seguinte,
j  n o seria nada sen o ossos secos e gigantescos.
   Foi o que eu disse, erguendo-me com dificuldade e encarando
o homem. Ele ent o citou o Livro de Ezequiel: o Senhor revivera
os ossos num vale seco e os recobrira com carne. Olhei para o que
restava de Alasdair Dorch, tudo que eu teria para lembrar-me dele;
esqueci minhas saias salpicadas de seu sangue e senti que, onde
quer que sua alma se encontrasse agora, ele talvez tivesse me per-
doado e j  estivesse com Mhairi; talvez nos reencontr ssemos um
dia, mas, para mim, naquele momento, s existia um grande vazio.
J  n o me importava o que pudesse acontecer comigo. Eu era como
um trapo jogado ao vento, que rodopiaria para l  e para c , sem
vontade nem dire o, at ficar preso a um espinheiro e se trans-
formar em fiapos descorados e, por fim, em p.
   Foi por isso que segui o homem de preto. Era James Melville,
cujo rosto eu vira pela ltima vez na execu o de George Wishart;
antes disso, ele cavalgara ao lado do prprio cardeal Beaton, usando
o h bito negro que, depois, renegaria. Nessa poca, muitos reli-
giosos que sabiam para onde o vento soprava estavam fazendo a
mesma coisa - mas acho que aquele homem acreditava realmente
em sua convers o. Enquanto caminh vamos, contou-me, cheio de
orgulho, que j  sabiam dessa convers o em Roma e que o papa
dera ordens explcitas para que n o lhe permitissem voltar ... sua
ordem, a dos franciscanos.
   - Mas, seja como for, j  estou farto daqueles filhos de Belial
- afirmou, com altivez.


                          218
#   N o me voltei para olhar o corpo de Alasdair ou os milhanos
que pairavam no cu. N o havia mais nada que eu pudesse fazer
pelo morto, um homem que, em vida, me amara. Segui james Mel-
ville e, por puni o de meus pecados, acabei me tornando sua
esposa.
   Antes que eu me esquea, h  outra coisa que devo mencionar.
Na desordem que prevaleceria no pas, Sir George Douglas ofereceu
a Somerset (o novo "protetor" da Esccia, que antes, com o ttulo
de conde de Hertford, estivera no comando do Galanteio Brutal)
seus servios como lder de outra invas o inglesa. J  n o lembro
se a oferta foi aceita, mas, se eu tivesse me tornado amante de Sir
George, conservando-o em Tantallon, ele talvez houvesse ficado
em casa, sem causar mais danos. No entanto, posso muito bem
estar me superestimando.

   Mr. Melville, como ele agora se chamava, me cortejou respei-
tosamente. Conduziu a ns dois para fora daquele horrendo campo
de batalha, de onde samos tropeando nos cad veres de homens
e cavalos. Segurou-me pelo cotovelo, ajudando-me a manter o equi-
lbrio; e, quando j  est vamos a caminho de Musselburgh, conti-
nuou a me apoiar enquanto caminh vamos, citando em voz alta
passagens de sua Bblia. Tivemos de ir a p porque n o havia
montarias; todos os cavalos sobreviventes haviam sido tomados
por escoceses que fugiram quando ficou claro que a batalha j
estava perdida. Os cavalos mortos, com as entranhas ... mostra,
eram atacados menos pelos milhanos do que pelos corvos, que se
apinhavam como moscas negras sobre a barriga aberta dos animais,
arrancando-lhes o fgado. A carne dos cavalos  menos refinada
do que a dos homens, mas os corvos conhecem a fora dos milhanos
e n o os enfrentam. O cheiro de decomposi o veio com a luz do
dia, e eu fiquei feliz em me afastar dali.
   Acho que outros se juntaram a ns na estrada, pois me lembro
do som de ps que seguiam caminho com dificuldade. Meus sa-
patos estavam encharcados de orvalho e de sangue, que estava
secando e ficando marrom; o couro molhado dos calados tambm
secou e me deixou com uma bolha no ded o. Esse aborrecimento
me ocupou mais do que as coisas que Melville estava dizendo; s
lembro que, a certa altura, ele explicou ter ido ao campo de batalha


                            219
#porque poderia haver almas de homens, e talvez de mulheres, para
salvar. (Mais ta rde, ensinou-me que, segundo Ca lvino, algumas
almas j  est o salvas e outras, condenadas desde o incio; sendo
assim, n o sei por que se deu a o trabalho de aparecer em Pinkie
Cleugh.) Depois, olhou para mim e reconheceu que tinha pouco
conhecimento das mulheres; quando monge, viveu como virgem,
e, agora , gostaria de receber instru o nos usos do casamento. Os
ministros da nova religi o deviam casar, e a maioria fazia isso.
Conclu que eu deveria servir, tendo sido a primeira mulher de-
sacompanhada que ele notara entre as outras. N o falei de meu
passado; ali s, n o lhe disse nada. Logo descobri que n o se es-
perava que eu falasse; as esposas dos ministros conservavam a
boca fechada, pois tinham poucas oportunidades de interromper
o anncio da Boa Nova.
   Isso ficou evidente na casa a que Melville me eonduziu; eu
estava mancando, suja de poeira e sangue, fra ca, quase incapaz
de sentir qualquer coisa . Ainda estava enlutada, mas j  n o lem-
brava nada; o luto  como uma droga due fecha as portas aos
outros sentimentos. Na casa, havia uma mulher bastante gentil,
que me deu  gua, para que eu me lavasse, e gordura de ganso,
para que cuidasse de meus sapatos endurecidos. Depois, ns nos
sentamos todos a uma mesa perto do fogo, usando tigelas e colheres
de pau para tomar um mingau de aveia ralo, do qual gostei. O
nico homem adulto presente era Melville, que tratavam com muita
reverncia e chamavam de ministro. Outra mulher, uma velha,
estava sentada perto de ns, junto ao fogo; pusera de lado um
trabalho de costura para vir comer, mas agora j  havia voltado a
ele; se considerarmos sua idade, devia ter boa vis o. Ambas usavam
toucas de linho e vestidos simples e decorosos; eu, portanto, n o
estava em m  companhia. Antes de tomarmos o mingau, Melville
disse uma demorada a o de graas. Aps a refei o, fiquei sono-
lenta, e teria adorado me deitar numa cama, mas sozinha; no en-
tanto, a polidez me obrigava a permanecer a cordada at me mos-
trarem aonde ir. Melville fez mais uma longa ora o e depois leu
em voz alta algumas passagens de sua Bblia. Em seguida, os dois
meninos da casa (nunca descobri onde se encontrava o pai, mas
provavelmente estava morto ou alistado no exrcito escocs) trou-


                            220
#xera m seus livros para a mesa, que j  havia sido tirada, e come-
aram a estudar.
   - Mestre Knox n o fica r  satisfeito se vocs negligenciarem
os estudos - disse-Ihes a mulher jovem, que era m e dos garotos.
   O nome Knox ecoou em minha mente.
   -  pena que ele n o possa vir para nos ca sar - disse-me
Melville.
   Era a primeira vez que se dirigia a mim naquela casa; antes,
estivera demasiado ocupldo consigo mesmo e com as preces. John
Knox seria mencionado muitas vezes; consegui ent  o me lembrar
dele, aquele homem baixo, de l bios roxos, ombros largos e barba
e cabelo finos que eu vira em Saint Andrews depois do assassnio
de Beaton. Perguntei o que fora feito dele, e todos comearam a
falar ao mesmo tempo.
   - Ele se reuniu a ns no castelo depois que tudo acabou -
explicou Melville.
   N o lhe perguntei mais nada, embora por certo devesse t-lo
feito. A duas mulheres, a velha e a moa, canta ram loas a Knox,
que aparentemente se estabelecera como uma espcie de tutor em
Saint Andrews, aps a morte do cardeal, e tambm instrua os
jovens enquanto fazia viagens pelo pas. Os meninos ergueram a
cabea; tinham um pouco de medo no rosto.
   - Mestre Knox foi preso pelos franceses - contou-me um
deles -, e o mandaram para as gals.
  - Preocupe-se apenas com seus livros, George - falou a m e,
de modo brusco. - O Senhor cuidar  de libertar mestre Knox
quando for o momento.
   Lembrei-me de que os franceses haviam tomado o castelo de
Saint Andrews; era quase certo que tivessem retirado do poo o
corpo do cardeal, dando-lhe um enterro decente, mas preferi n o
o perguntar ...quela gente. A velha que estava junto ao fogo, que
conclu ser a sogra, comeou a falar com voz estridente:
   -  pena que mestre George Wishart n o possa casl-los, pois
ele conhece o estrangeiro. Essa dama  francesa.
   A nora ent o se virou para ela, agressivamente.
   - Mestre George Wishart foi queimado h  muito tempo pelos
papistas. A senhora n o se lembra disso? Eles tambm queimaram
o bom mestre Patrick Hamilton.


                           221
#            Cerrou firmemente os l bios, e Melville disse que chegara a
         hora em que os ministros de Deus podiam falar ...s claras, sem
         medo de fogueiras, de cardeais ou do papa. Parecia muito presun-
         oso, e n o achei que viesse a gostar dele, mas n o havia mais o
         que fazer. Por fim, mostraram-me minha cama e disseram que Mr.
r       Melville iria pregar no dia seguinte; est vamos no domingo, e o
         dia anterior,10 de setembro, a data da batalha de Pinkie Cleugh,
         ficaria para sempre conhecido na Esccia como o S bado Negro.
;   j    Foi o dia mais longo de minha vida.
            De manh , caminhamos todos para ouvir a prega o. Naquela
i        poca, ainda no existia igreja protestante na Esccia; os cultos
         aconteciam ao ar livre, numa campina ou numa rua, dependendo
         do lugar e do clima; ou, ent o, numa igreja destruda, que os pro-
d      testantes mesmo haviam derrubado, ou os ingleses incendiado.
         Wishart, Knox e o prprio Melville atraram muitos seguidores,
         pois o interesse pela f reformada estava crescendo graas ao in-
         fluxo constante de Bblias da Inglaterra, ao assassnio do eardeal
         e, antes disso, ... morte de Hamilton e Wishart na fogueira. E, em
         todo caso, essas pregaes pelo menos faziam o povo esquecer
         um pouco as perdas e as notcias da guerra. N o sei se aquela
         gente teve as virtudes fortalecidas pela arenga de Melville; ele foi
         o primeiro desses pregadores que ouvi, e parei de prestar aten o
         pouco depois.
'           Casamos t o logo encontramos um ministro da f reformada.
         Tais homens ficavam principalmente nas cidades; usavam longas
i        becas negras e gorros redondos e achatados, como os dos mestres-
         escolas. Ainda n o haviam determinado que tipo de cerim"nia de
"''    casamento iriam adotar; por isso, o nosso foi um compromisso
,i i'    simples, em que, de m os dadas, prometamos ser marido e mulher.
          Depois, o ministro pediu a aliana.
r .         - Ela j  est  usando uma - respondeu Melville, impaciente;
          tinha a voz aguda e meio lamurienta. - N o vejo necessidade de
    I,    comprar outra.
             - Pois ent o tire a aliana e vire-a do outro lado - disse o
          ministro, muito pr tico.
             Com repentina tristeza, tirei a aliana de ouro que Alasdair
          comprara para mim em Stirling e que eu usara fielmente desde
          ent o, imaginando que ela s sairia de meu dedo quando eu mor-


                                     222
#resse. Melville tornou a coloc -la; depois, recebemos os votos de
felicidade do ministro e das testemunha, e partimos para o oeste
(a julgar pela posi o do sol), sempre a p. Ao anoitecer, chegamos
a um lugar em que, por acaso, a estalagem ainda tinha teto. Ali,
depois de uma refei o bastante sofrvel, fui levada para a cama
por Mr. Melville, que antes fora monge e que, como vim a descobrir,
de certa forma continuava a s-lo. Isso n o facilitava a tarefa de
instru-lo. No comeo, mostrou-se desajeitado, como era de se es-
perar; e, depois, foi quase t o ineficaz quanto meu primeiro marido,
o conde (que, no entanto, era muito mais gentil). Grunhiu durante
todo o ato e, enfim, descobriu seu prprio xtase, enquanto eu
n o tive nenhum. Para mim, aquilo foi o fim; para ele, foi o comeo.
N o preciso dizer mais.

   Durante todo esse tempo, o pas esteve mergulhado na desor-
dem, e n o tive informaes de rrradame, nem de como ela recebera
a notcia da derrota, muito embora eu possa imaginar sua amargura
e zanga quando viu que Arran, ao contr rio de todos os bravos
lords que foram para a luta, continuava com vida e em liberdade,
t o intil como de h bito. Havia rumores de que a pequena so-
berana desaparecera e at morrera. N o aereditei nessas coisas,
pois achava mais prov vel que madame, uma mulher pr tica, hou-
vesse secretamente enviado a criana para algum lugar seguro.
Talvez Iain Ruadh tenha ido com a soberana, ou talvez tenham
permitido que ele ficasse para confortar a mulher que agora cha-
mavam de a velha rainha. Madame tinha trinta e trs anos. Os
ingleses haviam novamente desembarcado em Leith; quem me as-
segurou disso foi um homem que, junto com muitos outros, viera
do leste, fugindo das cidades incendiadas do litoral; deve ter tido
amigos que o acolheram, pois n o parecia aflito. Na maioria, os
que se reuniam para ouvir os sermes de meu marido davam a
impress o de n o serem afetados pelos acontecimentos e de acha-
rem que a Esccia, pela prpria natureza das coisas, logo seria
incorporada ... Inglaterra. Parecia n o haver sinal de mais ajuda
francesa, muito embora eu n o duvidasse de que madame conti-
nuava a solicit -la. Mais tarde, eu ficaria a par de outras coisas.
  Enquanto isso, eu andava descontente, ainda que tivesse comida
e abrigo. 1 discreta maneira reformada, meu marido e eu ramos


                            223
#bem recebidos aonde quer que f"ssemos; havia muita leitura da
Bblia, preces que Deus supostamente revelara aos prprios fiis,
exortaes e tambm longas aes de graas, compostas do que
viesse ... cabea de Melville enquanto a comida esfriava. N o pen-
sem que sou contra a Bblia ou seu estudo; ela  um registro da
vida de Nosso Senhor, dos profetas, da sabedoria; mas me parece
uma temeridade abri-la ao acaso e confiar em si mesmo n o apenas
para interpret -la, mas tambm para fazer isso em voz alta, diante
de multides de ouvintes ignorantes. No entanto, era a Boa Nova,
como diziam. Espalhara-se por toda a regi o de Kyle, onde Wishart
pregara antes de Melville. Ali, a memria do morto ainda era verde
como as colinas; ele deve ter sido um homem de esprito ra ro;
todos o que o ouviam o adoravam. Agora, o povo escutava com
louv vel pacincia as arengas de meu marido, coisa de que eu,
depois da primeira vez, j  n o era capaz. N o recordo um nico
pensamento coerente de Melville que n o tenha sido pregado por
padres catlicos muito antes dele; mas talvez eu n o seja uma das
almas que, segundo Calvino, est o predestinadas ... salva o. Minha
tarefa era circular discretamente com uma bolsa de couro durante
o serm o e coletar moedas para nosso sustento. Dessa forma, ga-
nh vamos dinheiro suficiente para ir vivendo, e, pelo menos para
mim, era um trabalho mais f cil do que ser prostituta. Melville, a
propsito, parecia receber a inspira o para seus sermes quando
copulava comigo, em especial na noite imediatamente anterior a
uma prega o; se ele articulava os sermes durante o ato, ou mesmo
se ele alguma vez os articulava realmente,  coisa que n o sei e
que nunca perguntei. Melville fizera a lgum progresso, e n o sei
por que nunca engravidei dele, mas agradeo a Deus por isso.
Fomos de Kyle para Galloway, onde as pessoas eram diferentes.
A regi o j  fora um feudo independente, separado do resto da
Esccia, e nunca se esqueceu disso. Um membro de seus cl s, que
se tornara um McCulloch pelo casamento, possua armada prpria;
certa vez, estuprou a morgada de um castelo no litoral. Assim,
involuntariamente, ele Ihe deu uma filha, e esta acabou se enamo-
rando de um jovem nobre em Orchardton, do outro lado da baa;
a famlia do rapaz n o queria v-lo casado com a filha de um
pirata, e por isso a moa, Eppie McCulloch, tomou emprestada a
armada do pai e tentou seqestrar o jovem, mas foi morta na ba-


                         224
#talha que se seguiu. O lugar estava repleto dessas histrias, e, se
houvesse ficado mais tempo por ali, eu certamente teria ouvido
outras.

  Mas n o fiquei. Uma noite, enquanto est vamos deitados numa
cama que nos cederam, Melville comeou a ba lbuciar, aps ter
saciado seus mpetos dentro de mim. N o sei, nem quero saber,
se estava consciente do que dizia ou se apenas se deixou levar
pelo contentamento com suas faanhas fsicas. Lembro-me, no en-
tanto, do que ele disse. Estivera com os outros no eastelo de Saint
Andrews; o cardeal j  havia sido atacado e estava ferido, e Melville
se considerava o escolhido para dar o golpe de misericrdia, en-
terrando a espada n o uma, mas trs vezes.
   - Era uma obra de Deus que tinha de ser feita com muita
circunspec o - comeou a dizer, untuosamente. O resto veio em
forma de murmrios, nos quais ele ia repetindo o que disse. -
Arrepende-te de tua vida de irriqidades, rrrrrs especinlmente de teres der-
rarnado o sartuc daquele not vel iristrurrrento de Deus, rnestre George
Wishart, que, ernbora consurrrido pelns charrins diniite dos hornens, aindn
clarnn por virrgartn acirnrr de ti... Dei n prirrreirn estocrrdn. Declnro que
nern a elevada condi o de tua pessoa, nerrr o arnor rr tuas riquezas, nerri
o temor de algo que pLdesses fazer coritrn rnirn rrie levn a golpenr-te...
Dei a segunda. S o fao porclue tu foste, e continuas a ser, urn iriimigo
obstinndo de Cristo Jesus e de Seu snrTto Ezangelho. E ento lhe dei a
ltima estocada.
  (Como j  contei, o infeliz moribundo gritou "Sou um sacerdote!"   ,
e depois, "Que vergonha! Tudo perdido!", morrendo com esse l-
timo brado. Quando seu corpo j  estava exposto ... multid o, um
dos assassinos urinou em sua boca aberta, coisa que tambm j
relatei.)
   Melville ent o me explicou que, algum tempo antes do assas-
snio, ele vira a luz do Evangelho e resolvera deixar de ser monge,
aquela prfida ocupa o, que, segundo ele, o levara a comportar-se
daquele modo - e, sem dvida, a agir do modo como estava se
comportando agora. Ele foi bem mais longe comigo do que antes;
sob as dobras franzidas e desconfort veis do camisol o que, du-
rante as demoradas oraes preliminares, Melville me obrigava a
vestir para cobrir a nudez (ele tambm usava um), minhas coxas


                           225
#estavam molha das com seu smen. L  fora, a noite era clara e
estrelada, e vi Melville bocejar; seu rosto era muito magro, e tinha
a barba por fazer; e alguns de seus dentes, podres, Ihe davam mau
h lito. Enqua nto ele murmurava, decidi abandon -lo. Pensei na
generosa Marion e em como ela se mostrara minha amiga; agora,
eu estava ali, deitada com o assassino de seu amante. Resolvi nunca
mais permitir que ele me possusse. N o sabia como conseguir
isso, pois Melville se acostumara a ter-me na cama; mas, graas ...
providncia divina, meu perodo se iniciou no dia seguinte; o Velho
Testamento diz que a mulher em tal estado  impura, e, por isso,
Melville me deixava em paz nessas fases. Pelas trs noites subse-
qentes, dormi a seu lado; no entanto, eu tinha entre as pernas
um pano de linho, e n o o membro de meu marido. Fiquei pen-
sando em alguma forma de escapar, mas n o parecia haver ne-
nhuma. No serm o seguinte, eu j  decidira esconder para mim
mesma uma parte da coleta; afinal, eu a merecia. N o planejei
mais nada; mas, enquanto estava deitada com aquele assassino,
rezei para Nossa Senhora; tive certeza de que Melville n o mais
representaria perigo para mim, pois a m e de Deus, que os refor-
madores sempre insultaram, nunca deixa de atender a uma prece.
Soube ent o que, de algum modo, logo estaria livre daquele ho-
mem, que derramara o sangue de um sacerdote, mas que n o plan-
tara um gr o de mostarda nem olhara os lrios do campo. Eu par-
tiria tal como chegara, s que, agora, estaria mais bem alimentada.

   Foi por tudo isso que n o fiquei em Galloway. Houve um culto
ao ar livre, ... beira de um bosque; fazia frio. Quando comeou o
inevit vel serm o, eu passei entre os fiis com minha bolsa de
coletas. N o arquitetara nenhum plano, e, se depois entrei no bos-
que, foi porque pretendia aliviar-me, ou pelo menos fingir que o
fazia, pois esses sermes parecem n o terminar nunca, e eu j  ou-
vira o bastante sobre o fogo do inferno e Deus revivendo os ossos
dos mortos, e os condenados, e os eleitos... Melville, obviamente,
deveria ser um desses ltimos, coisa em que, ...quela altura, ele j
acreditava. Olhei para seu rosto magro e fervoroso, que cuspia a
dana o e outras certezas, e de repente n o agentei mais. Resolvi
andar por aquele bosque desfolhado at que Melville terminasse
o serm o e eu pudesse ouvir a multid o se afastar. Urinei e defequei

                             226
#atr s de uma ameixeira-brava, que, como est vamos no fim de
ano, j  n o tinha flores nem aqueles frutos que a gente de Galloway
usa para fazer licor. Senti um cheiro bom, para variar; era de um
ensopado de coelho com ervas, e eu estava faminta. Ainda segurava
a bolsa de coletas, e n o hesitaria em usar o dinheiro para pagar
pela comida, caso a pessoa que havia feito o ensopado concordasse
em me dar um pouco. Tudo considerado, eu trabalhara para ga-
rantir meu sustento, e at mesmo um cavalo precisa de forragem.
   Fui em frente, e agora a voz de Melville era apenas uma len-
galenga distante, que logo morreu. Deparei com uma fogueira, um
caldeir o e algumas mulheres sentadas junto ao fogo; havia tam-
bm crianas, bastante morenas e magras, que brincavam sozinhas
ou simplesmente n o faziam nada, sem conversarem muito umas
com as outras. Um c o ossudo mostrou os dentes para mim, mas
n o tenho medo desses animais e estendi a m o; ele a cheirou e
ficou quieto. Uma das mulheres olhou para mim e disse algo numa
lngua que eu n o conhecia. Havia carroas ... distncia, com co-
berturas arredondadas e rodas pintadas. Aparentemente, aquela
gente vivia nelas.
   - Vocs me dariam um pouco do ensopado? - perguntei,
apontando para o caldeir o.
   Enfiei a m o na bolsa, mostrei uma moeda, e a mulher sorriu,
revelando os dentes, que eram poucos e amarelados; devia estar
com uns quarenta anos, mas era difcil ter certeza. Serviu-me uma
concha de ensopado e pegou a moeda; eu me sentei no ch o, ao
lado delas, e cruzei as pernas.
   - N o  permitido que nos sentemos assim - disse-me a
mulher, em escocs. - As mulheres de nossa tribo n o cruzam
as pernas, exceto na presena de um homem que n o conhecem;
nesse caso, elas as cruzam para mostrar que s o castas.
   Eu comia o ensopado com os dedos, e estava timo.
   - Vocs tm sorte de serem castas - falei, cheia de amargura.
-  coisa que n o tenho sido.
   Eu j  sentia que a mulher sabia tudo a meu respeito, e seus
olhos escuros me contemplavam de modo compreensivo e talvez
at enternecido.
   Enquanto eu comia, ela me contou uma histria extraordin ria.
O rei Jaime V, em suas andanas, acabou topando com esses ci-


                             227
#ganos, que seu pai um dia admitira na Esccia, mas due depois
foram expulsos. Ja ime V decerto pensou que era uma gente sem
princpios e que n o mereciam considera o; e tentou, daquela sua
maneira habihial, estuprar uma das mulheres da tribo. Os homens
ent o viera m e o apanha ram; amarraram um imenso feixe de lenha
a suas costas e o escorraa ra m para fora da floresta. O rei da Esccia
n o os incomodou mais, e n  o disse a ningum o que aconteceu;
n o h  dvida de que aquilo ficou entalado em sua garganta Tudor,
mas os ciganos j  haviam ido embora. Sabia m desaparecer sem
que ningum visse para onde iam, e a travessavam a fronteira ...
vontade, de um modo que s eles conheciam.
   Eu n o tinha nenhuma vontade de cruzar a fronteira, mas per-
guntei se estavam indo para o norte e se, nesse caso, permitiriam
que eu viajasse com eles, pelo que me dispunha a pagar (muito
embora ainda pretendesse guardar uma parte do dinheiro da co-
leta). Foram basta nte vagos no que se referia ao rumo que toma-
riam, mas conclu que n o iam para a Inglaterra; estavam para
acontecer um casa mento e um funeral ciganos, numa regi o que,
hoje, acredito ter sido Perthshire, que ficava alm de Stirling. Suas
noes de tempo e lugar eram bastante confusas, e contavam a
histria de Jaime V como se ela tivesse ocorrido no dia anterior.
Colocaram-me numa da s carroas, onde uma mulher velhssima
estava deitada sobre um pouco de palha, no escuro; talvez o funeral
a que iam fosse o seu, pois era evidente que estava morrendo;
mas tambm estava muito serena. Mais tarde, ouvi os homens
voltarem de sua s ocupaes, que provavelmente consistiam em
caar mais coelhos, consertar panelas e outras tarefas afins; na caa
ilcita, usavam c es mestios de collie e galgo, que se moviam fur-
tivamente junto com os donos e tambm sabiam desaparecer. Dor-
mi t o serenamente quanto a velha moribunda, mas n o larguei
a bolsa de couro. Se Melville viesse me procurar, n o Ihe diria m
que eu estava ali; e, antes do amanhecer, as carroas comearam
a partir ruidosamente, deixa ndo para tr s uma fogueira apagada
e nada mais. Tranqilizou-me ver numa das carroas uma imagem
da Virgem, acima da qual brilhava uma lmpada de leo. Os ci-
ganos devem ter trazido a imagem da ndia, do Egito ou de onde
quer que viessem; ningum nunca saber  de que pas eles se ori-
ginavam. Eu os deixei em Stirling e corri a encontrar madante.


                           228
#  N o tive nenhuma dificuldade para ser admitida ... sua presena.
Eu podia estar suja, como os ciganos foroslmente s o, e meu
cabelo estava desgrenhado (embora ainda conservasse o pente que
Ala sdair me dera). Nada disso tinha importncia. Madnrilc j  se
habituara a receber os mensageiros mais estranhos; por certo os
guardas do ca stelo acha ram que eu fosse mais um, e baixaram a
ponte levadia. Eram homens diferentes daqueles de que eu lem-
brava, e muitos usava m no uniforme o emblema dos Erskine, um
punho a segurar o alfanje. O prc5prio Lord Erskine estava com Sua
Graa; era um homem grave, j  de certa idade. Seu pai fora morto
em Flodden, e o filho e herdeiro em Pinkie Cleugh. Era guardi o
do castelo de Stirling e tambm de Edimburgo. Nele, Madame
Marie tinha um amigo de verda de. Ela havia engordado e parecia
mais velha. Apesar de todo o meu desalinho, rnrzdarne recebeu-me
de braos estendidos.
   - Claudine... Claudine...
   Fez um gesto para Lord Erskine, que se curvou numa reverncia
e foi embora. Ela ent o comeou a falar como se nunca tivssemos
nos separado; estava relaxada, quase despreocupada.
   - Lord Erskine  bom para mim e me orienta - ela disse,
em francs. - s vezes, ainda me sinto uma estrangeira aqui,
e  isso mesmo que me consideram, apesar de tudo o que acon-
teceu. A filha de Lord Erskine, depois de casada, foi amante do
rei e Ihe deu um filho, Lord James. N o sei se esse moo a inda
se denomina prior de Saint Andrews; mas n o importa, pois
tudo est  mudando. O que aconteceu com voc, Claudine? En-
controu seu marido? - Seus olhos me perscrutara m, e ela per-
cebeu que eu n o o achara, pelo menos n o vivo. - Tantos
morreram! Os ingleses est o em Leith e agora tambm no rio
Tay. Mandei a rainha para um lugar seguro.
   - Ouvimos dizer que ela estava morta, mas eu sabia que n o
era verdade.
   Mndnnre sorriu, e um pouco de malcia iluminou subitamente
seu rosto, tal como a contecia ...s vezes quando ramos crianas.
   - Claro que n o! Graas a Deus, ela est  em Inchmahome   ,
uma ilha no lago Menteith. O segundo filho de Lord Erskine ainda
 o prior comendat rio de Inchmahome, mas ter  de voltar ao
mundo, agora que  herdeiro do ttulo do pai. Iain Ruadh est  l


                           229
#com minha filha. Ambos cresceram e est o bem. s vezes, quando
posso, vou visit -los. Voc precisa ir l  comigo.
   Falava em voz baixa, de modo a ser ouvida apenas por mim;
mesmo ali, no castelo de Stirling, s uma poucas pessoas podiam
saber onde estava a soberana. Assenti e disse que iria.
   Pouco depois, sentei-me junto dela, pois madame sempre per-
mitira que eu fizesse isso quando est vamos sozinhas. Ela buscou
vinho e murmurou:
   - Graas a Deus, Monsieur d'Oysel manda trazer caixas de
vinho de Bordeaux. Mas  s o que recebemos da Frana.
   Eu ainda n o sabia quem era Monsieur d'Oysel, e madame n o
explicou. Ela franziu o exigente nariz.
   - Minha amiga, voc precisa de um banho. Providenciarei
para que tenha  gua quente. Mas estou falando s de mim; con-
te-me tudo o que aconteceu.
   Contei o que se passou, mas n o tudo; disse apenas que en-
contrara Alasdair j  morto, como tantos outros escoceses; e que
tornara a casar, n o gostara de meu segundo marido e o deixara.
Baixei a cabea; madame talvez n o tivesse tambm gostado mui-
to de Jaime V, mas tentara cumprir seu dever e amar o soberano;
as esposas n o devem abandonar os maridos, a quem fizeram
votos de fidelidade. No entanto, deixei claro que Melville era
um reformador, que eu s o desposara porque estava desespe-
rada e que logo me cansara dele e de suas crenas; tive o cuidado
de n o mencionar que se tratava de um frade renegado. Ela
talvez tenha adivinhado o resto, e seus olhos cinza-azulados me
encararam com firmeza.
   - Voc precisa ficar aqui, Claudine. Pela salva o de sua alma,
n o d mais ouvidos a essa gente. Cuido de que rezem missa aqui
todos os dias. Isso me d  foras, e dar  a voc tambm. N o torne
a partir. Agora, mandarei que lhe tragam  gua quente e comida.
   Levantou-se e chamou os criados. Reparei que o corpo alto de
madame se tornara tambm majestoso; tinha o porte de uma ver-
dadeira governante. Mas ainda n o permitiam que ela governasse.
Nos dias seguintes, vi o troador Arran e outros entrarem uma
ou duas vezes; e notei que a estrangeira a quem ainda chamavam
de Maria de Guise comeava a dirigi-los. Tive certeza de que, com
o tempo, ela governaria a eles e ... Esccia. Enquanto isso, a pequena


                            230
#rainha estava salva, eu tomei meu banho, e, tal como antes, rrtadnrrre
me arranjou roupa-branca, sapatos e um vestido. Penteei o cabelo
e me senti melhor, e certo dia partimos as duas a cavalo, acom-
panhadas de algumas poucas pessoas de confiana, para o priorado
de Inchmahome, onde visitaramos a rainha da Esccia.

  As pessoas dizem, com raz o, que o tempo que a pequena rainha
Maria passou naquela ilha foi um dos poucos perodos tranqizilos
e felizes de sua vida. No entanto, seria incorreto imaginar que
enquanto a soberana esteve l  o clima foi agrad vel, talvez at
primaveril, pois a verdade  bem outra. O vime n o florescia onde
ela brincava; o lago n o se mostrava azul e sereno, e n o havia
prmulas em suas margens nem galinholas em suas  guas; e as
montanhas circundantes n o eram acolhedoras nem calmas. Fomos
para l  num dia de inverno, e o vento noroeste nos soprava contra
o rosto. Cavalgamos junto ...s loucas sinuosidades que o rio Forth
tem naquela parte do pas, e por fim chegamos a Goodie Water,
a Boa Agua. Madame sorriu e disse:
   - Os escoceses arranjam nomes bem estranhos.
   Pensei em como surgem os nomes; os morangueiros, os frnisiers,
que rnadarne trouxera consigo da Frana, deram poucos morangos,
mas, afora isso, multiplicaram-se tremendamente e deram origem
ao sobrenome Fraser, muito embora haja quem erroneamente afir-
me o contr rio.
   O vento morreu quando contorn vamos uma colina. Madame
ent o se aproximou de minha montaria e me disse bem baixinho,
para que n o fosse ouvida pelos outros cavaleiros:
   - Vou lhe contar uma coisa secretssima, da qual ainda n o
me atrevo a falar nem mesmo no castelo ou no priorado. Foi su-
gerido, e por enquanto apenas sugerido, que a rainha seja enviada
.. Frana para l  casar com o jovem delfim Franois. O delfim 
um pouco mais novo do que minha filha, mas isso n o importa.
Como rainha da Frana, ela estaria segura, e ent o os dois pases
poderiam controlar as ambies dos ingleses, que parecem n o ter
fim. Talvez franceses e escoceses, juntos, possam at invadir a In-
glaterra; afinal, os ingleses vm fazendo o mesmo conosco desde
tempos imemoriais; eles parecem entender apenas a espada e a
chama, o sangue derramado e as colheitas queimadas.


                            231
#   Madame franziu os l bios com amargura. Achei que, pela pri-
meira vez na vida, ela estava errada. A batalha de Flodden fora
uma tentativa de beneficiar Frana e Esccia pela invas o da In-
glaterra; mas, naquela ocasi o, todos os timos canh"es de bronze
de Jaime IV a cabaram a tirando de muito alto na colina e fora m
depois capturados; inmeros nobres escoceses morreram, e o mais
destacado deles era o prprio rei, cujo herdeiro n o passava de
uma criana. No entanto, guardei esses pensamentos para mim, e
rnndnrrle continuou a falar, agora com um dio intenso. O conde
de Lennox, que em certa poca a cortejara untuosamente, estava
acompanhando uma fora inglesa que marchava para o norte; pre-
tendiam destruir o ma is que pudessem o exrcito de Arran; Lennox
deixara em Londres a mulher, Lady Margaret, novamente gr vida.
Havia trai o em toda parte, e sem dvida seria boa idia mandar
a pequena rainha para a Frana, se isso pudesse ser feito em se-
gurana; mas os escoceses, teimosos por natureza, n o aceitariam
tal pla no de imediato, apesar da antiga aliana entre os dois pases.
Foi o que eu disse a rtrrzdarrre, e ela franziu o rosto.
   - E o que mais podem fazer, alm de aceitarem o casamento
ingls? - perguntou. - Muitas das desgraas dos escoceses acon-
teceram por culpa deles mesmos, pois s o muitssimo inst veis.
S se mostram constantes em suas rixas. Fora dos cl s, n o tm
nenhuma lealdade, ou pelo menos n o me dedicam nenhuma.
   Murmurei que as coisa s levavam tempo para mudar, e que
agora se reconhecia que o governa dor Arran n o servia de nada;
e lembrei nossa recente viagem a Edimburgo, onde de novo eu
me colocara atr s de rnadrrrrie no Conselho, mas dessa vez sem
nenhuma criana nos braos. Mndarne fez um discurso magnfico
e reanimou os lords, a t onde isso era possvel. Em todo caso, n o
havia dvida de que alguns eram mesmo leais.
   - Este  o lugar - rriadnrne me dizia agora, e percebi que seu
rosto cansado se avivava com a vis o do lago de Menteith, cujas
 guas frias se agitavam em ondas cinzentas. Fomos levadas ... ilha
de bote, e depois caminha mos at as construes do priorado, mui-
to bem conservadas. Mas, antes disso, uma menininha correu de
l  em nossa dire o; estava sem casaco, e suas saias brilhantes
esvoaavam; acenou e nos jogou beijos, com o cabelo ruivo voando
ao vento. A seu lado estava um menino, tambm ruivo; eu j  es-


                           232
#quecera que se tratava de meLl filho, e, mais tarde, n o gostei de
seu rosto fechado, qLle lembrava o do pai. No entanto, era bastante
bonito; e, desde que o azar dos Stuart nio o atingisse, Iain Ruadh
poderia crescer e sair-se muito bem, talvez no exrcito francs. Vi
rltrrdarrte abraar a filha, ergLlelldo a pequena criatLlra; elas riram,
trocaram beijos e depois seguiram juntas pelo caminho, tal como
m e e filha; o prior j  as aguardava, junto ao arco de entrada. Ele
se parecia com Lord Erskine, o pai, e era muito srio. Possivelmente,
preferia mesmo a vida eclesi stica, e agora se via obrigado a dei-
x -la e gerar herdeiros. Na realidade, j  possLla alguns: tinha um
filho e uma filha naturais. O irm o do prior, morto em batalha,
deixara tambm um bastardo, David, um menino que, no devido
tempo, sucederia o tio como prior comendat rio e que, agora, es-
perava atr s dele para fazer a reverncia ... rainha.
   Entramos e encontramos uma lareira acesa, vinho e comida;
naquele mesmo dia, tinham apanhado peixes no lagn e agora os
assavam para ns. Rimos, comemos e conversamos; tentei me di-
rigir a Iain Ruadh em galico, mas ele j  esqLlecera essa lngua e
me respondeu, de modo bastante polido, em francs. A visita n o
foi longa; passamos a noite no priorado, mas, ao amanhecer, pre-
cisamos voltar para os cavalos. Mndarrle n o podia despender mais
tempo com a fillla, pois tinha de estar disponvel caso chegassem
notcias do leste ou do oeste, dos portos de Broughty ou de Leith,
da Frana oLl de Arran. Havia l grimas em seus olhos, que n o
haviam sido provocadas pelo vento. Pensei em como lhe fora ne-
gada a alegria de ficar com os filhos. Eu, no entanto, tive menos
amor pelos meus do que por mim mesma. J  rlladarlle, muitos anos
antes, podia ter ficado na companhia do filhinho, na Frana; e,
depois, podia ter deixado para o diabo, ou para a Inglaterra, as
selvagens terras escocesas e seus lords indignos de confiana; mas
n o fez nada disso, e n o iria abandonar a filha. Ademais, era ela
prpria uma rainha; jurara reinar, e, no final, foi exatamente isso
o que fez, muito embora nunca lhe fosse permitido empregar todos
os seus dons. Jamais lhe foi possvel governar a Esccia em paz;
S OIlheU a gLlerra, e  aSSlm  a hlStOrla  a lLllgOLl.
    NeSSe ITlelO ttIIlpO, df SObrlL1-Se ClLlf' O gC)VC'rnadOr ArI' 111 C'5til Va
110Va mnt  Stabelend0 OIltat05 Om  a Illgla trra,  015 a  alUda


                           233
#francesa demorava a chegar. Madarne ent o escreveu ao prprio
Henrique II (respondendo a uma carta em que ele fazia inmeras
promessas) para convenc-lo a adular Arran e dessa forma, se pos-
svel, mant-lo do nosso la do; ela sugeria que, alm de concedermos
o ducado de Chtelherault ao governador, deveramos oferecer
uma morgada francesa ao filho dele. Para sermos justos com rna-
darne, ainda n o se sabia que esse belo menino se tornaria um
idiota; de fato, durante alguns anos ele at deu mostras de que
teria uma carreira promissora nos arqueiros da Guarda, aquele
nicho da nobreza escocesa na Frana. No entanto, Arran j  eon-
cordara em mandar o menino para l  como refm, e essa situa o
o incomodava. A bem dizer, era impossvel ter certeza das intenes
do governador em qualquer poca, e Sua Graa, com a determi-
na o habitual, resolveu dar seguimento ...s coisas sem o concurso
de Arran. (Em todo caso, ele acabaria aceitando o ducado.)
  Os ingleses queimaram Musselburgh e capturaram Dalkeith; Ar-
ran reagiu sitiando Haddington (que o inimigo tomara e usava
como base), mas fracassou em libertar 1 cidade. Enquanto isso,
esper vamos na capital, e madame pereorria o gabinete de um lado
para outro, impaciente com a demora dos franceses; se pelo menos
eles viessem!
  - Tenho rezado bastante - ela disse, batendo a s m os. - N o
 possvel que Deus tenha nos abandonado!
  Eu a consolei, mas minhas preces tambm n o pareciam ajud -la.
  Nesse momento, ouvi passos r pidos. Os informantes de rnadame
entraram correndo; tinham a alegria estampada no rosto e esque-
ceram de fazer a reverncia. Sua Graa se levantou, e eles de ime-
diato se arrependeram e se curvaram.
  - Madarrre, perdoe nossa afoba o, mas trata-se da armada fran-
cesa! Ela foi avistada ao largo de Dunbar; dizem que s o dezesseis
galeras, um bergantim, trs grandes naus e cento e vinte veleiros
menores.  nossa salva o! Tnhamos certeza de que a senhora
ficaria contente.
  Dito isso, puseram-se de joelhos e beijaram-lhe as m os; eram
todos, sem exce o, muito devotados a ela.
  Madame agradeceu a Deus, e, em 17 de junho, o comandante
francs, Sieur d'Ess, veio solicitar audincia; anunciou que trazia
cinco mil soldados regulares, alm de mercen rios da Alemanha,


                           234
#da Sua e da prpria Frana. Haviam desembarcado em Leith;
eles salvaram a situa o. L  estavam o famoso guerreiro italiano
Piero Strozzi, que lutara nas guerras continentais; seu irm o Leone,
o conde de Rhinegrave; e tambm o meticuloso Jean de Beaug,
que registrou, tal qual um escriba, tudo o que acontecia e tudo o
que madarne dizia.
  Mais tarde, pude conversar com De Beaug; era um alvio voltar
a ouvir a lngua francesa. Ele estava preocupado com o destino
dos escoceses, um povo que, embora t o aguerrido, parecia estar
sempre sendo derrotado.
  - N o porque sejam menos belicosos do que os ingleses - ele
disse, cautelosamente; seu rosto comprido dava a impress o de
que ele pesava bem as palavras. - Antes,  porque lutam entre
si, irm o contra irm o, cl contra cl . Por isso, Deus est  irado, e,
antes de ajud -los, quer mostrar-lhes quanto se engana m. Talvez,
agora que chegaram os franceses, Sua ira se abrande e Ele permita
que venamos o inimigo.
  Madame convocou o Conselho. Como de h bito, eu me coloquei
atr s daquela figura alta, vestida de preto, que emanava dignidade
e fora.
  -N o posso, milords, cavalgar ... testa dos exrcitos-disse-lhes.
- Mas quando os senhores finalmente retomarem Haddington e
garantirem que a cidade n o ser  mais uma base para os ataques
dos ingleses, eu me retirarei de Stirling, pois n o terei mais de
preocupar-me com a segurana de minha filha. Ficarei aqui em
Edimburgo para o caso de os senhores necessitarem de mim a
qualquer hora do dia ou da noite.  possvel que alguns n o lutem
contra os ingleses, mas eu com certeza o farei.
  Sem mencionar nenhum nome, deu um pequeno sorriso que
estampava a determina o de retribuir na mesma moeda os in-
cndios, as colheitas arruinadas, a fome e o desabrigo do povo, o
constante perigo que corria a pequena rainha. Lembrei-me de que,
em certa poca, o velho rei da Inglaterra estivera louco para casar
com Madame Marie, e fiquei imaginando como aquela carne rude
teria reagido ao encontrar debaixo do exterior delicado de rnadame
um ao t o forte. Mas o casamento n o acontecera, e, agora, era
totalmente impossvel. Embora fosse crist , mpdarne odiava a In-
glaterra e os ingleses pelo que haviam feito, e iria vingar-se. Foi


                         235
#aos acampamentos de nossa s tropa s para encora jar os soldados;
mas, antes, o Siezzr d'Ess p"de relatar lue a mera aproxima o
de seu exrcito fizera os ingleses fzzgirem para Haddington como
ratos.
  - Eles teznem os franceses antes mesmo de v-los - vanglo-
riava-se.
  Muitos franceses, porm, continzzaram em Edimburgo, freqen-
tando as tavernas e decerto taznbm os bordis. Infelizmente, al-
guns escoceses tambm deixaram o exrcito, desencorajados pela
falta de a o. Mczclaiie se decidiu.
  - Voc vem comigo - disse-me, e me instruiu a dizer o mesmo
..s damas de compa nhia e 1 criadagem. - Iremos ... cidade, para-
remos em todas as portas onde possazn estar esses soldados, e eu
mesma falarei com eles.
  Sua  Graa n o tinha meco de Ilada, mas refleti que, mesmo
..quela altura, seu escocs ainda era claudicante. No entanto, assim
como o Esprito Sa nto descera sobre Apstolos com o dom das
lnguas, Ele certa mente faria o mesmo por riTadairte, pois a causa
que ela defendia era a da verdade.
  Foi o que aconteceLz. Caminhamos at Canongate e Cowgate,
High Street e Grassmarket, parando em ca da porta e em cada venda
onde os renegados pzzdessem estar escondidos a beber sua cerveja .
Ela Ihes dizia:
  - Concla mo todos os homens que possam carregar armas.
  E eles olhava zn espantados para aquela dama alta e majestosa ,
em trajes de ver o, que viera para faz-los tomar vergonha e lutar.
  - V o, ezz Ihes peo, para o acampamento escocs nos arredores
de Haddington, pois precisamos capturar a cidade. Todo homem
pode ajudar. Levem consigo uma prenda para os que j  est o lu-
tando; se n o puderem comprar nenhuma, eu os ajudarei, mas
vocs pa recem ter dinheiro bastante para a cerveja.
  Eles se levantavam e juravam que iriam; n o vi nenhum se re-
cusar a faz-lo. Madanie ent o mandou cue sua criadagem distri-
busse a os soldados p o, vinho, carne e cerveja; eles levariam essas
coisas para os homens lue estavam em Haddington. Em dado
momento, ela anunciou:
  - Isso ainda n o  a paga do que, espero, vocs venham a
fazer. Quando chegar a hora, cada um ser  recompensado conforme


                           236
#seus mritos. N o  errado animar homens de coragem com pro-
messas de recompensa. Um prncipe - ela descrevia a si mesma
como um homem, e sua filha como um menino -  mais amado
por seus soldados qua ndo demonstra cfue aprecia seus esforos.
  Tornamos a montar. Com muita calma, percorremos High Street
de novo. Mais uma vez lembrei como, muito tempo antes, durante
o primeiro casamento, irrrrdarrte saa do castelo em Chteaudun para
ajudar os pobres, visitando-os de casa em casa; agora, fazia a mesma
coisa em Edimburgo, mas por motivos diferentes. Parou em cada
porta para perguntar de soldados que poderia m estar se escon-
dendo. Fa lou com todos os homens que encontrou; mais tarde, De
Beaug registrou as palavras de madame, depois de t-las ouvido
de mim.
  -  assim, meus amigos, que vocs d o apoio a os soldad os
franceses?  assim que d o o exemplo? Afirmo diante de Deus
que, se n o os tivesse visto com meus prc5prios olhos e se me
dissessem que vocs esqueceria m a honra dessa maneira, eu n o
teria acreditado. Diria que tal coisa  impossvel, pois toda a minha
vida eu os louvei pelo que acreditava, e ainda acredito, ser verdade:
que nenhum povo do mundo se iguala aos escoceses em coragem.
S posso pensar que vocs vieram a esta cidade para se equipar
com armas e cavalos, e no para fugir ao combate com nossos
inimigos. - Seus olhos lmpidos contemplavam a todos. - E como
acredito que n o desejam cometer uma falta imperdo vel, eu os
alerto pa ra o fato de que, em dois dias, teremos uma batalha em
Haddington. - Os homens se agitavam. - Vocs por certo n o
v o querer se arrepender por n o terem esta do l , no lugar certo,
para se vingar daqueles que os feriram de tantas maneiras, para
retaliar a morte dos parentes e amigos e pa ra ver compensados
os danos causados a seus bens e propriedades.
  Mais uma vez, n o me recordo de nenhum escocs que, depois
disso, n o tenha partido para Haddington. No ntanto, ainda havia
os refrat rios franceses. Com estes, madanic estava em casa. Ela
Ihes disse:
  - Os ingleses est o vindo com quatro ou cinco mil cavaleiros,
na esperana de levantar o cerco a Haddington. Mas, com a graa
de Deus, haveremos de frustrl-los, n o importa o que eles faam.
- Em sua voz, percebia-se o desprezo pelos que tinham desertado


                       237
#sem desfechar um golpe secluer; esses homens eram, na maioria,
mereen rios. - Mesmo cue vocs n o cumpram seu dever, nossas
fileira s ainda tm homens cora josos em nmero suficiente para
vencer o inim.igo. A bravura dos soldados que j  est o l  ficar
evidente para todos, ao passo que a infmia dos desertores ser
alardeada em todas a s terra s estrangeiras. Mas n o prestem aten o
ao que digo; fa am o que a charem melhor.
  De novo, rilndarrre conseguiu que os homens se envergonhassem,
e eles voltaram a Haddington, lutaram e repeliram a cavalaria in-
glesa. Est vamos no gabinete de riindn>ne cluando chegou a notcia.
Houvera combates renhidos como resultado dos ataques franceses;
muitos ingleses foram aprisionados, e centenas de seus compatrio-
tas ficaram mortos no campo de batalha. Madame Marie se voltou
para mim com um brilho no olhar.
  - Vamos at l  - disse-me. - Nossos homens se bateram com
bravura, e precisamos v-los.
  Partimos antes do amanhecer, mas logo veio a luz do ver o.
Madarne se dirigiu a cada um dos soldados e apertou a m o de
muitos deles.
  - Este reino conta unicamente com vocs. Nada mais justo,
portanto, que seja eu mesma a louv -los pelo que fizeram. - Tor-
nou a oferecer-Ihes recompensas. - Quanto maiores os perigos e
azares da guerra, maiores os frutos da vitria.
  De volta a Edimburgo, podamos ouvir o som dos canhes fran-
ceses; era como o rudo de troves distantes que nunca ficavam
mais prximos. Os mortos comeavam a ser trazidos, em carroas,
para o sepultamento. Um deles (um jovem anjo louro, que se pa-
recia eom aquele que me socorrera na abadia de Haddington) es-
tava vestido com todos os atavios; tinha cales ricamente bordados
e grandes correntes de ouro no pescoo e nos braos. Uma missa
solene foi rezada por sua alma, e vi rnadarne chorar; talvez ele a
fizesse lembrar-se dos irm os.
  Tudo ia muito bem, mas de repente a luta arrefeceu. Os franceses
s o astutos; estavam oferecendo sua fora e seus jovens, e, no en-
tanto, ainda n o assin ramos o tratado que garantia que Frana e
Esccia voltariam a ser os aliados de outrora e que a jovem rainha
casaria com o delfim. Esse tratado acabou sendo assinado num
convento, uma edifica o de pedras perto de Haddington, e asse-


                             238
#gurava que Maria, a soberana da Esccia, seria rainha da Frana,
e n o da Inglaterra. Madarne o assinou com um rasgo de pena.
Antes de sair, comemos, pois fora decidido que os acampamentos
seriam visitados outra vez. Grande nmero de lAdies e lords estava
l  conosco, e a posi o de Sua Graa precisava ficar bem clara.
Ela, e n o Arran, governaria a Esccia dali por diante; quanto antes
isso fosse entendido por todos os homens, quer escoceses, quer
franceses, melhor.
  Arran n o mostrou a cara enquanto nos prepar vamos para
subir ... torre da igreja. Madnrne expressara o desejo de contemplar
todo o campo de batalha, de modo que ela, a filha de um soldado,
pudesse avaliar a campanha. Todos ns a acompanhamos. Os ca-
nhes ainda disparavam. Ela cavalgou at a parte de tr s da igreja
e j  ia desmontar.
  Nisto, ocorreu uma explos o tremenda: os ingle,ses, tendo nos
avistado, haviam disparado um canh o de dentro da cidade. Fiquei
sufocada com a fumaa e n o conseguia enxergar nada; senti um
golpe violento no est"mago e ca. Quando me levantei, vi em meio
.. fumaa um espet culo horrendo. Muitos estavam mortos; havia
pedaos de corpos espalhados aqui e ali, e nem todos pertencam a
homens; mais tarde, descobrimos que dezesseis membros da corte
de madame tinham morrido, e entre eles se contavam algumas mu-
Iheres. Outras pessoas estavam feridas, ou haviam perdido um brao,
uma perna, um olho, ou ambos; o sangue escorria-lhes pelo rosto.

  Foi uma carnificina fria e deliberada. Sem dvida, os ingleses
esperavam matar madarne. Ela desmaiara, coisa que nunca vi acon-
tecer antes. Eu a segurei nos braos, e pouco depois lhe trouxeram
 gua; a essa altura, ela j  se levantara. Pude ver a express o de
seus olhos, que estavam cheios de horror. Mas neles havia tambm
muita determina o.
  - Est o mortos, e rezaremos missa por eles - disse-me. -
Minha filha, graas a Deus, ainda vive. Mas n o pode ficar exposta
a este mal; ela precisa sair do pas e ir para a Frana. N o quero
perd-la, mas ela tem de ir, talvez at mesmo com os navios fran-
ceses, quando eles voltarem a seus portos.
  Madame tomara essa decis o em meio aos cad veres dos amigos.
Alguns j  estavam sendo removidos; dezesseis n o  um nmero


                        239
#t o grande, se comparado aos mortos no campo de bata Iha. Os
feridos foram tratados, consolados, levados para lugar seguro; ma is
tarde, rnadarne foi visit -los. Em seguida, deixou ao comandante
francs a conclus o do cerco a Haddington, e cavalgamos eu e ela
para Dumbarton, a oeste, junto com o intil Arran e a comitiva.
Iamos preparar a partida da sobera na, que deveria deixar o reino
t o logo fosse possvel. A Esccia j1 n o era mais lugar seguro
para a criana.

  Naquela poca, eu ainda n o conhecia Monsieur d'Oysel, pois
ele partira para a Frana levando instrues. Pensei que deveria
ser como outros embaixadores - um homem cativante, urbano,
esperto, que n o deixava escapar nada sen o algumas caixas de
vinho Bordeaux. Mas ele preocupa ra os ingleses, que o descreveram
como um francs de muita l bia, qLze conseguira fazer Sua Graa
e o governador mudarem de idia. Isso,  claro, dizia respeito ao
casamento ingls, que, ali s, nunca estivera nos planos de ntrrdrrrtte,
nem antes nem depois. Quanto a Arran, sua mente se dispersava
em tantas direes que mais parecia um catavento. Como j  contei,
ele recebera o ducado de Chtelherault, na Frana, coisa que ajudou
a mant-lo quieto. Sem dvida , tra tava-se de um prmio menos
prestigioso do que o trono da Esccia ; mas, como ao fim e ao cabo
o herdeiro de Arran provozz mesmo ser dbil mental, o ducado
acabou sendo a melhor op o para todos os envolvidos.
  Nesse meio tempo, no maior segredo, a pequena rainha foi le-
vada para o castelo de DLzmbarton, a fim de embarcar mais facil-
mente rumo ... Frana. Essa medida se mostrou ba stante necess ria
depois da nomea o de outro comandante ingls, Lord Grey de
Wilton, que chegou com tropas para invadir o leste.  possvel
que pretendesse cercar >>iadrriire em Stirling e tambm capturar a
rainha. Tudo isso  apena s supnsi o, mas, afinal de contas, meu
pai era soldado, e eu sei ler mapas.
  Madarne me mostrou uma carta da duquesa Antoinette; esta con-
fiava em que a atitude que a filha estava tomando iria frustrar os   i
propsitos do inimigo. E, de fato, parecia que assim seria, muito
embora Henrique II ainda se mostrasse cauteloso, e n o enviasse
nenhuma ajuda de verdade.
  Iain Ruadh fora levado com a rainha para o castelo de Dum-         ;


                         240
#barton, no alto de um gigantescc rochedo lue se assemelha a um
par de n degas. Eu objetei com Mldanle Marle: llao seria melhor
se ela conservasse o mellino jullto de si para confortl-la? Afinal,
eu o oferecera com essa inten o. Mndnrrre me olhou bem llos olhos
e respondeu:
  - Em certa poca, ele me deixava feliz, pois me fazia lembrar
o filho LLle perdi. Agora, n o preciso de ta I collsolo. Minha filha
est  indo embora, e devo pernlitir que meLls outros filhos tambm
S  VaO.
   ELr sabia qu Madame Marie f Sta Va pellSalldO I10 pLUf IlO dUClLle
Franois, que ela deixara 11a Frana e n o via j h  treze allos. O
1llenino, aillda que ll o tivesse mais conlo se lembra r de nrndnrrre,
escrevera um pouco antes dizellc-lo que queria ter idade suficiente
para vir lutar por ela. Sem dvida, a duquesa Antoinette Ihe falava
da m e; no incio, ela at mandara retratos do jovem dudue, assim
como aferies de sLla altLlra, ... medida em que crescia. Agora,
porm, essas coisas era m menos importalltes.
  Mndnrrte e eu havamos collclLldo due, dualldo a ra inlla crescesse
um pouco, n  o seria apropriado que colltillLlasse a ter LIn1 menillo
por compallheiro de brincadeiras. DecidiLl-se (oLl Inelhor, ntndnrrre
decidiu) cue v rias menillas, toda s chanladas Mary, fariam com-
panhia ... rainha. Mndnrrte as selecionou com muito cuida do. Seria m
qua tro, e entre elas estava Mary Flemillg, cLrjo pai tombara em
Pinkie Cleugh. Infelizmellte, a m e era aLluela Ja net, filha natural
de Jaime IV, que gostava de ser cllama da de Joln e due eu conhecera
em Caerlaverock. E logo ela seria a goverlla llta da jovem rainha!
Madnrrre decerto a consideravl Izma figLlra maternal. Janet tinlla
outros sete filhos, que permaneceriam na Esccia; a ma ioria j  tinha
idade suficiente para dispensar a aten o d1 rn e; talvez a av
olha sse por eles, coisa que ll o lhes faria llenhum beln. Mais tarde,
llos registros franceses, Lady Fleming seria descrita como uma jo-
vem clonzela. A histria est  repleta de erros assim.
  A segunda Mary era a filha de Lord Seton. Este tambm era
leal, talvez at mais do que qualqtler outro; como j  contei, ele
participou do golpe cue possibilitou ao cardeal Beaton escapar da
pris o para Saint Andrews. Lord Seton tinha se casado pela se-
gunda vez, com Marie Pierres, da qua 1 eu tambm jamais gostei
muito; ela iria acompanhar a enteada at a Frana. Seton era


                          241
#                                               I
excelente falcoeiro, e por vezes eu o vira cavalgar perto de Falkland,
levando no brao uma dessas aves. Anteriormente, apoiara o ca-   I
samento ingls, julgando-o melhor para o pas; mas, como muitos
outros, enojara-se com as mortes e os incndios causados pelo ini-
migo, em especial depois que os saqueadores queimaram sua gran-
de propriedade, e, sobretudo, a igreja colegiada que a m e, Lady
Johanna, fundara em homenagem a Santa Catarina. Por isso, ele    i
se tornara firme amigo e partid rio de rrindame. Marion Seton, filha   I
                                                                       I
de seu primeiro casamento, era uma das mais jovens damas de            I
companhia de Sua Graa; tive ocasi o de conhec-la bastante bem,       j
desde aquela vez em que a moa tentara me impedir de chegar ...          '
presena de rrtadame, pouco antes do nascimento da rainha.
  A terceira Mary era uma Beaton, alguma parenta do cardeal. A
quarta era Mary Livingstone, cujo pai, juntamente com Lord Ers-
kine, fora guardi o da jovem rainha; ele tambm iria para a Frana.
As quatro meninas tinham boa aparncia e tambm boa voz, pois
a soberana adorava cantar. Aprenderiam a acompanh -la em ma-
drigais franceses, e, talvez, a tocar alade. Madame escolheu bem,
pois todas permaneceriam leais durante os muitos anos negros,
at mesmo Mary Fleming, que acabaria casando com o traioeiro
secret rio Lethington.
  Quanto a Iain Ruadh, decidiu-se que a prpria Madame Marie
o recomendaria ao rei da Frana, num gesto que se coaduna com
a bondade por ela dispensada aos outros bastardos de Jaime V.
Henrique II gostara muito do rei Jaime, e faria todo o possvel por    I
seu filho. N o direi mais nada, exceto que meu menino se tornou        '
                                                                       i
um honrado oficial dos arqueiros escoceses da Guarda. Deixei para
outros a tarefa de cri -lo. N o tenho natureza maternal. Se tivesse,
Mhairi n o teria morrido.

  Eu n o esperava voltar a viver na Frana. Ali s, n o sei se es-
perava sequer tornar a ver esse pas. Para mim, ele se transformara
num lugar de onde chegavam regularmente meus proventos, pagos
por Andelot, o intendente de Vouvray, que tambm cuidava do
novo conde, primo de meu primeiro marido e, aparentemente, um
dbil mental. Afora os pedidos de recibo, s uma vez o intendente
me mandara notcias: sua m e, Madame Sanserrato, morrera de
uma pedra nos rins. Eu enviara minhas condolncias, mas n o


                            242
#conseguira dizer muito, pois n o gostava da nlulller, e tanto eu
qLlaIltO Andelot sabamos nluito benl o dlIe ela tenta ra fazer Iualldo
metl primeiro ma rido, o collde Jea n, morreu; mas isso, Ilatural-
mnte, IlaO Cra la malS mIlClOnadO m IlOSSa COrYeSpOlldIlCla.

  Alguzls dias antes da partida da ra inha, rrrrrctcrrrre malldara n1e
Chamar a DLlnlbaYtOIl. QUdIldO CllgUE'1, f?la E'StaVa SOZIIlha, Olha IldO
pa ra Um SCYellO nlar de Vf ra0, OIldf', bf n1 abalXO dO CaStlO, O SO1
faZla  aS OIldaS danarem m pOqUeIllIlOS 7011t05 ClIltllantES.
   - COIlflO em qUe dS  gUaS COntlllU2m tranlUllaS dUYante a Vld-
gem - disse-me.
  Em sua calma, parecia um rochedo; ma s eu sabia qlle, depois
de tudo termilla do, qualldo aquela amada criana j  tivesse ido
embora, rrrrrdrrrne iria atormentar-se e chorar a scs, sem que Ilingum
a visse lhem escutasse. Sua Graa, porm, n o me chamara para
falar disso.
  - Claudine, quero que voc v  conl a railllla para a Fra lla.
  Fiquei desconsolada. Abandonar Mad ame Marie mais uma vez,
conl tudo o que, ent o, poderia dar errac-lo?! Deixar que enfrelltasse
sozillha inimigos incalls veis, sem ter por perto lhellhum parente
para apoi -la? Madarrtc me illformou que, alm de Ian Ruadll, que
fora como um filho para ela, partiriam para a Frana mais dois
dos llove bastardos de Jaime V, um louro e llm moreno: o prior
de Coldingllam e o de Saint AndYews, pzlra os dlzais rrladarrre se
mostrara a bondade persollificada. Eu n o gostlva do mais velho,
Lord James, prior de Saint Andrews, due se aproveitara de sua
situa o desde o illcio e acabaria por trair rrradnrrre. Isso, elltretallto,
n o era o que me preocupava.
  Ellquanto rrradnrrre contirluava a falar, a primeira coisa que me
veio ... mente foram (qlle Deus me perdoe!) millhas roupa s; outras
pessoas estavanl mais bem preparadas para se apreselltar ... altura
da moda na corte francesa. Madarrre sorriu, colllo se tivesse lido
meus pensamentos; em tais assuntos, ali s, isso acontece facilmente
entre as mulheres.
  - Mandei que preparassem uma arca para voc - explicou.
- Ela contm tudo o que precisar : vestidos, roupa-branca, golas
plissadas, mangas, cales, sapatos, lenos, chapus. Alm disso,
eu Ihe darei dinheiro at que possa voltar a receber os proventos


                            243
	#de vouvray. Portanto, no lhe faltar nada, mas voc ser Madame
Melville, uma viva que ficar prxima da rainha, talvez to pr-
xima quanto Lady Fleming.
  Baixei os olhos; rrrndarrrc, to arguta, j estaria alimentando sus-
peitas? se era esse o caso, a prpria duquesa Antoinette estaria de
olho no crculo de acompanhantes da jovem ra inha, quando che-
gassem  Frana; e, por mais que me detestasse, a duduesa faria
o que rnadarrre pedisse.
  -Minha filha andar por terrenos perigosos a vida toda, mesmo
quando for rainha da Frana - afirmou rrrndnrrre. - Ela tem ini-
migos aqui e na Inglaterra; queira Deus que fique protegida em
nossa terra, mas, mesmo assim, ainda  uma menina de seis anos,
talvez assustada, com saudade de casa . E, ainda por cima, esta r
longe de mim. Tento ser boa m e; ela me ama, mas quanto durar
o afeto quando estivermos separadas?
  - A senhora ainda tem o a mor de seu filho, o duque Franoi.s
- eu disse, para anim-la , e ela sorriu um pouco.
  -  verdade, muito embora eu o conhea s por cartas. Ele
estar esperando, eom minha me, para receber a rainha. ser um
novo irmo para ela, tal como o seu Iain. - Madarrrc estendeu a
mo. - sei que posso ter tota I confiana em voc.
  Pus-me de joelhos e encostei a face em seus longos e brancos
dedos.
  - No a desa pontarei, rrradarrre - garanti.
  E, em tudo o que aconteceu depois, no acho que eu tenha
quebrado essa promessa.

  Embarcamos a 29 de julho de 1548. Madarne j se despedira da
filha. os remadores da s grandes galeras estavam a postos, mas   i
tivemos de ficar ancorados uma semana, enquanto esperva mos
um vento favorvel. Nesse meio tempo, eu e os outros bancvamos
os ces de guarda, deixando os pequenos correrem pelos conveses
e impedindo que a rainha se esfalfasse e ficasse demasia do excitada,   I
algo comum s crianas nervosas. Depois, eu deixava os outros a
cargo de suas mes ou madrastas e das outras damas. A tripulao
nos entretinha e muitas vezes nos prestava assistncia imediata
quando as galeras ancoradas davam alguma guinada brusca. o
tempo no mar  sempre ruim para a realeza; antes, as guas estavam


                            244
#calmas e o sol brilhava, mas bastou embarcarmos para que come-
assem as tempestades; elas continuaram at que, finalmente, um
vento bom nos levou rumo   Frana . Olhei para o sombrio castelo
de Dumbarton, mas sabia que madame j partira fazia bastante tem-
po, voltando para o leste; ela no teria suportado ver aqueles navios
imveis e saber que  a  f1111i1  ostava  a  bordo,  m.as  fora  d  alcance.
Ademals, havla o constante r15co do captura pelos lIlgless. A pe-
quc na ramha, ntretmto,  permaIlecla  d  p I1o co11v25, bm  aga-
sallada,  c,  2m  sua  ca lma,  dava  a  lmpressa o  de  ser  multo  mals
velha; parecla   entendr cue df la  5f rliml eXlgldils grandt's colsas.
  A viagem foi terrvel, tanto (lue Lady Fleming pediu para de-
sembarcar mais cedo, na costa da Bretanha ; o capit o, porm, n o
o permitiu. Depois de uma uillzena bastante tempestuosa , a por-
tamos em Roscoff, Finistre, sem termos sido avistados pelos in-
glss.  Houve  uma  grandc  rocp  o  para  a  Y lIlha  da  Esccla;  a
pequena nobreza da regi  o viera toda ver a criana, ue era trans-
portava numa liteira. No Te Delllll de a o de graas pela chegada
da rainha em segurana, a igreja ficou lotada, e depois ocorreu
um c-lesastre, quando uma ponte desa bou sob o peso de cava los e
cavaleiros. Pode ter sido um mau augrio, mas ningum se ma-
chucou. Partimos, e logo a rainha foi entregue aos bra os da av,
a duquesa Antoinette. Essa dama quase nao dava mostras de ter
envelhecido. Quando seus olhos encontra ram os meus, percebi que
estava perfeitamente informada de minha posi o (extra-oficial,
ali s), e que, apesar dos pesares, iria respeitar-me; ademais, a du-
quesa provavelmente estava gra ta pela carta que, havia muito tem-
po, eu conseguira enviar para a Frana, solicitando a ajuda do rei
Francisco.

  Finalmente, chegamos a saint-Germa in-en-Laye; est vamos no
fim do ver o, e a lembrana mais cla ra que tenho do ajunta mento
no jardim do velho pal cio  que l  se viam principalmente cria nas.
o rei e a rainha da Frana tinham viajado para a Borgonha; ta mbm
havia poucos membros da corte; e nossas cinco menina s, lideradas
pela alta Reinette (a Pequena Rainha, como j  a chamavam desde
a Bretanha, antes mesmo que tivssemos posto os olhos no garoto
com quem ela deveria casar), atravessaram o gramado sob os olha-
res atentos da duquesa Antoinette, de Lady Fleming e dos restantes.


                       245
#Houve muitas reverncias, ainda que algumas daquelas pequenas
criaturas mal tivessem aprendido a andar. Entre elas, estava uma
menininha morena, muito graciosa, que sorriu para nossa Reinette
e logo ficou 1 vontade com ela; era a filha do rei, Madame Elisabeth,
que tinha uns trs anos. o delfim, Franois, um ano mais velho
que a irm , era p lido e moroso; tinha pernas fracas e n o era
muito alto para a idade; fez uma reverncia de modo bastante
acanhado, e disseram-lhe que deveria beijar sua futura esposa, coisa
que, aparentemente, ele gostou de fazer; depois, seus olhos a se-
guiram ansiosamente, como se ela j  fosse uma estrela demasiado
luminosa para seu sol t o apagado.  f cil olhar para tr s e lembrar;
quanto se poderia prever naquela poca  algo de que n o me
recordo, mas eu j  pensava que o delfim n o era nem t o forte
nem t o belo quanto o meio irm o de nossa rainha, aquele outro
Franois, o duque de Longueville; este era um bonito rapaz de
quase catorze primaveras, que j  fora apresentado a ela e que,
apesar da diferena de idades, seria seu amigo fiel - muito embora
tivesse sido impedido de conviver com a m e por causa do nas-
cimento dessa irm .

  Meu pai, o duque claud, e sua mulher tiveram muitos e espln-
didos vares. o segundo deles, nove anos mais novo que rnndn>rie,
era charles de Guise, posteriormente conhecido como o cardeal de
Lorena. Na poca que descrevo, ele ainda era arcebispo - alto, ereto,
esbelto e mesmo assim forte como o ao, tinha o cabelo louro e os
traos orgulhosos dos Guise. Lembro-me muito bem de quando,
alguns anos aps nossa chegada, ele levou La Reinette em sua sela
at a grande entrada da cidade de Blois; ali existe uma est tua de
Lus XII montado sobre um cavalo empinado, e seus arneses azuis,
com as flores-de-lis douradas, chegam ondulantes ao solo. o car-
deal, depois de desmontar, conduziu La Reinette pela m o at o
rei. No caminho, ela erguia o olhar para o tio e lhe falava afetuo-
samente; os dois sempre foram muito chegados, e o cardeal se
comportava com La Reinette tal como faria Jaime v, o pai que ela
n o conhecera. Quanto ao rei Henrique, ele a adorava, assim como
todos na corte, acho eu, com exce o de catarina de Mdicis, rainha
da Frana e sobrinha do papa.
  A histria dessa mulher  bastante conhecida, mas vou repeti-la


                           246
#em parte, rapidamente. Na poca, eu j  sentia pena da rainha ca-
ta rina; era um sentimento que muito poucas pessoas ousavam ex-
pressar, ainda mais porque a etiqueta da corte era muito severa e
n o se podiam demonstrar as emoes. Essa atitude se devia em
larga medida a Madame Diane, ducuesa de valentinois, a amante
do rei; as coisas n o costumavam ser a ssim nos tempos de Francisco
I. Madame Diane nascera Diane de Poitiers, e ainda assinava com
esse nome, muito embora tivesse na juventude desposado um velho
que pertencia ... pequena nobreza provincial; era uns vinte anos
mais velha que o rei Henrique, e o enfeitiara quando ele ainda
era moo e solteiro, um rapazinho acanhado que voltara da Espa-
nha com a certeza (que talvez ainda conservasse) de ser inferior
ao irm o, o brilhante delfim Franois, que viria a morrer sem ter
chegado ao trono. Pode ser que Henrique tenha procurado conforto
em Madame Diane. Ela Ihe dava confiana, tal como Agns sorel
fizera por carlos vII. Madame Diane certamente n o demonstrava
nenhuma paix o; era uma mulher inescrut vel, lindssima, de uma
beleza que n o consigo descrever e que n o dependia da idade,
como a de uma est tua; tinha uma pele sem jaas, e dizia-se que
nunca usava cosmticos. Ningum nunca soube seu segredo, nem
mesmo a rainha catarina, que tentou descobri-lo; aps a noite de
npcias da ra inha, o marido passou a ignor -la, e durante muitos
anos se presumiu que ela fosse estril. Por fim, Madame Diane e
os conselheiros do rei sugeriram que ele, ocasionalmente, coabitasse
com a esposa, para, se possvel, produzirem um herdeiro; Henrique
II fez isso, mas muito a contra gosto. o delfim, que deveria desposar
nossa Reinette, era o resultado de ta 1 sacrifcio; mais tarde, ele se
tornaria Francisco II. Era, como j  contei, um menino p lido e doen-
tio, com propens o a ter furnculos, mas a pequena rainha se mos-
trou gentil com ele, e o delfim passou a idolatr -la, como todos
os demais. lquela altura, j  havia outros filhos de Henrique II e
catarina de Mdicis; a intervalos convenientes, Ma dame Diane e
os conselheiros exortavam o rei a procriar. Nenhuma dessas crian-
as tinha boa sade, mas, depois de certo tempo, nasceu uma me-
nina, Marguerite, que era n o apenas forte, mas tambm perigo-
samente bonita. Nas pausas entre esses nascimentos, Henrique
II voltava aliviado para Madame Diane; dizia-se que a rainha
abrira um buraco no forro do quarto dos a mantes poder es-


                             247
#tlrar-se  I1l) c11ao   tlcar olllando; 1luIlca a  v1  ta 7r lsso, ma5 ri1  o
cluf  sf  contilva  lla  cort.  En1  todo  caso,  i7  Ta11111a  nunca  soubf  o
sgrd o d Mddamf  DlaIle, pols 111Ilgum o descobrlu, llf m mf 5111o
as f1111a5 df 5sa 51111ora . 1o mals, o rel era ateIlcloso com a mulhr,
e decerto flci7ri1 grato pelos llerdeiros. De vez em ual7do, os dois
esposos cantavam 11111o5 hugueIlotcs, eIlclli7nto la tallgla com al-
guma hi1bllldad o vlrglIlal.
   catarllla df' Mdlcls Ilunca  sllportou La  Rcmtt. com certeza,
invejava-111e o eIlcaIlto, a beleza, o filto de qLze Lzm dia ela tam-
bmseria ra imla da Fralla e o 177odo como todos, inclLzindo o rei
HellricLze e todos os seus fill7os, a a doravam. A bem dizer,11a via
outra distinta personagem due n o gostava dela: Amle de MoIlt-
morel7cy, o col7dest vel da Frana. Ele a chava que o ca samento
da Fra na com a Esccia seria um erro dispelldioso, e n o se can-
sava de repetir isso. J  n o se lembrava de ter-me trazido da floresta
de Fontainebleau, muitos a nos antes, para due eu atendesse aos
prazeres de Frallcisco I; e, de millha parte, n o fLzi recordar-117e
esse episdio.
   Mils  voItf mos 1 ralIlha catarma. Aps t1 morte do r(1, f'la chf-
garla  do poder  sf  tornarla  111lmlga  da  Rmett, no 1n1c1o .s2cre-
tamente, e depols ds claras, tanto quanto essa eXprssao podla apll-
ca r-sf  m seu  caso.  A  ra IIllla  Ilao  cra  feia ,  mLzito  embora  t1 vess
ficado gorda dopois dos parto5 frcLcntes. sus olhos cram lIlsoI1-
d veis; o I1a riz, comprido; e a fisionomia, basta nte fecl7ada, tal como
a de Mi3dame Diane. Toda essa situa o seria considerada inve-
rossmil se llouvesse sido descrita num romance. Devo tambm
mencionar  dLz  Diall  d  Poiticrs,  muito  antcs  de  tr-se  torIlado
duquesa de valentinois ou conquistado a s graas de Henricue II,
dormira com o velho Francisco I, e, como muita s outras, contrara
dele a doena francesa. Depois, por intermdio de Henrique, ela
a transmitiria aos va res desse monarca, que, sem exce o, eram
magricelas e irresolLztos, e qLze, em sua maioria, se mostrariam es-
treis. o pequeno delfim, coitado, com sua palidez e seus furn-
culos, provavelmente seria incapaz de consLzmar o ca sa mento com
La Reinette quando tivessem idade suficiente para isso, mas ll o
se pode ter certeza . Entrementes, continu vamos vivendo.

  Embora tivesse sempre em mente a promessa que fizera a Ma-
dame Marie e n o va cilasse em meu dever de guardar a peqLzena


                         248
#rainha, eu podia ter algum descanso dua ndo a menina ia visitar
a av. A duduesa Antoinette,  cla ro, n o gostava de ver-me em
Joinville; nessas ocasi"es, portanto, eu ficava livre para fazer o que
quisesse. certa vez, isso aconteceu enduanto a corte estava em
Amboise, e aproveitei para cavalgar da li a chinon. Esse castelo,
que costumava ser a residncia Eortificada dos reis da Frana nos
tempos em que os ingleses ocupavam nosso pas, estava agora
aba ndonado; no entanto, eu ansiava por ver com meus prprios
olhos o lugar onde a Donzela de orlans se encontrara com o
delfim.
  o castelo se encontrava em muito mau estado, e, sob os buracos
do teto, a grama nascia entre as pedras do piso. o que me interessou
n o foi a lembrana de uma mocinha que, com roupas de rapaz
e cabelo bem curto, abrira caminho entre os jocosos cortes os at
o futuro carlos vII, mas sim um retrato que vi ali e que, de certa
forma, parecia-se comigo. o leitor talvez se recorde de que certas
circunstncias, tanto antes como ent o, foraram-me a agir como
freira. o prprio rei da Esccia me chamava a ssim, mesmo quando
comeou a me estuprar. A mulher do retrato poderia ta mbm ter
sido uma religiosa, n o fosse algo que se mostrava de maneira
cruel e evidente. Ela usava, ... moda de sua poca, um toucado alto
e um grande vu, que quase escondia o ca belo castanho-cla ro. os
olhos estavam baixados, de modo que se viam apenas os clios. o
vestido era preto, e, em parte, estava bem fechado; mas, no peito,
ele fora desemaado de propsito, para deixar ... mostra um seio
perfeito e nu. N o tenho como descrever a tenta  o que aquela
pintura representava. A aparncia da mulher deixava claro que
ela estava disponvel, n o para qualquer homem,  verdade, mas
apenas para o rei. Era Agns sorel, a a ma nte que deu quatro filhas
a carlos vII. sua beleza ainda  lembrada. Morreu envenenada,
mas, antes disso, transformou carlos, um rapaz feio, indeciso, ir-
resoluto, desprezado e incontinente (dizem que, aos vinte anos,
ainda molhava os cales), um filho que a prc5pria m e declarara
publicamente ser ilegtimo, no estadista e governante que se tornou
depois da paz. N o h  dvida de que a Donzela salvou a Frana;
no entanto, Agns sorel salvou o rei da Frana, e foram a poltica
de carlos vII que permitiu a seu filho, Lus IX, ser o ltimo grande
monarca da casa de valois.


                           249
#  NLmcd  f'sdueci  o  retrlto  de  AgIls  sorel;  11I1d1  o  tf'tllll)  17n1
vivo na memcria. Fez valer a pena a ida at chinon, um luglr
que, de resto, era bastante desapontador. Retornei a minhas obri-
g es quando a pequena rainha voltou da residncia da av; n o
contei a ningum que fizerl aquela viagem.




                     25o
#sexta Parte




                  "Blois, 3 de maro de 1549

                Aos cuidados de sua Graa, a Rainha viva, em Holyrood

                Escrevo-Ihe, madarne, de nossas novas acomodaes, para as
              quais nos muda mos com a corte, vindas de saint-Germain-en-Laye.
              Nossa soberana est  bem e  amada por todos, mas especialmente
              pelo pequeno noivo, o delfim. certo Paul de Rge, que foi contra-
              tado pelo rei, est  ensinando as duas crianas a danarem juntas.
              H  pouco tempo, elas danaram para o rei e a rainha, e estes gos-
              taram muitssimo do que viram.
                creio que logo a senhora receber  ca rta de Janet sinclair, a ama-
              seca. Ela n o est  satisfeita com Blois e j  se queixou a mim, ...
              governanta, a Lady Fleming, e, por fim, ... duquesa Antoinette,
              dizendo que n o lhe d o vinho, lenha e velas suficientes e que a
              fazem comer com as francesas. sendo escocesa, est  ameaando
              escrever diretamente ... senhora se suas exigncias n o forem aten-
              didas; por isso, eu j  a deixo de sobreaviso.
                De resto, fiquei felicssima ao saber dos progressos na Esccia,
              tanto por sua carta quanto pelo que se diz na corte, onde se fala
              bastante da senhora, e com muita admira o. Depois das dificul-
              dades com os franceses em Edimburgo, que terminaram com o
              enforcamento de um pobre homem,  timo que o conde de Huntly
              tenha mostrado tanta astcia ao escapar da Inglaterra e estivesse
              com a senhora no Natal passado.
                Quanto ...s fanfarronadas do duque de somerset, ningum as
              leva a srio. os ingleses sempre reivindicaram a Esccia para si,
              quando, na verdade, o condado de Northumberland pertenceu pri-
              meiro aos escoceses. o embaixador me contou tudo isso quando
              voltou; parecia muito preocupado, mas eu ri dele.


                                       251
#  Arran, due ultimamente se tornou nosso amigo, esteve aIui para
receber do rei o ducado de chtelherault; como de h bito, seu
rosto se contorcia o tempo todo. Espero que, com esse ducado, ele
crie menos problema s para a senhora. Foi excelente saber que sua
Graa recapturou a ilha de Inchkeith; n  o h  duvida de que os
ingleses a teriam usado como base para a tacar Leith; ...s vezes, as
mulheres vem mais clara mente do due os comanda ntes. soube
que a senhora falou ...s tropas no corpus christi, e que esse discurso
as animou bastante. como a ilha foi recapturada naquele mesmo
dia, nada mais justo do que a terem rebatizado Ile-Dieu.
  "Tambm recebi a notcia de que os ingleses encurralados em
Broughty est o reclamando dos ventos frios e da comida salgada;
se eles voltassem para casa, poderiam ter comida mais fresca . s o
igualmente boas as novas de que finalmente foram expulsos de
Haddington. Lembro t o bem quanto a senhora o que aconteceu
l ;  coisa que n o esqueceremos t o cedo.
  Aqui, a guami o inglesa de Boulogne estc3 sendo atacada pelos
franceses. Isso por certo h  de aliviar a situa o no norte, pois nem
mesmo os ingleses podem estar em todos os lugares ao mesmo tempo.
J  se fala num tratado de paz, e ele incluiria sua Graa. A senhora j
suportou por muito tempo as guerras e as extravagncias de Arran -
perd o, de chtelherault. Infelizmente, o rei da Frana disse a esse
novo duque que ele poderia gastar o que quisEsse antes de renunciar
ao cargo de governador, e, como de costume, ele gastou bast<3nte, mas
n o renunciou. se a senhora estivesse aqui, poderia convencer o rei de
que a senhora, e nio chtelherault ou qualquer outro,  a mais qua-
lificada para govemar a Esccia, agora que h  esperana de paz.
  Estou bem, e continuo a desincumbir-me de minha s obriga es,
tal como a senhora ordenou. Isso ser  sempre um prazer para sua
fiel e dedicada meia irm,
                                         claudine Melville."

  Recostei-me na cadeira. Em considera   o a niadnme, n o men-
cionei na carta uma outra coisa que estava em meus pensamentos.
A rainha da Frana tinha muita f em astrlogos e adivinhos, e
consultara um homem chamado Michel de Notredame, que gostava
de denominar-se Nostradamus; ela queria saber qual o futuro da
Reinette como esposa de seu filho. o homem nascera judeu e era


                           252
#um  mtdlco  brllhdnte,  tndo  rc'cf bldo  111L11I1c 1'()5  I()u voI'f s  depols
de seus c:sforos para  trata r  os clu  sofrla IIl  co111 il  f sfc  m  Alx.
111oL1,  multo  sc:rlo,  de  catarma  d  Medlcls  pill'a  1  m11111a,  cLI(`
brincava ali perto com as fmllgas  o futuro Itlarldo. Fstt', 5c11do
fragll, p lldo 2 m 1s I1ovo do clu  ela,  tc'ndla il  flcar sf'1llprc' pilril
tr s nas brincadeiras. J  sua  Gri3i1 espantara tocjc) muIlcjo ao i7ds-
trar sozmha um falcao, sem IlcIllluma  auda; aen1 dlss(), daIlavi1
muitssimo bem.
   - o cue o senhor prcvf  para o futuro da ia1llllil MaYla? o cue
v em torno da cabea da mellilla? - pergLmtou catilrilli7 de M-
dicis
  os olhos da rainha, muito misteriosos, estavam fixos 11o clliio;
percebia-se que n o gostaria de ouvir llada de bom sobre o futuro
da nora. Nostradamus olhou para a menilla de cabelos lustrosos
e depois para a raimla catarilla . Em seguida, disse apellas duas
palavras:
  - vejo sangue.
  Foi isso que resolvi no menciollar a mczdmrle em millha ca rta.
Talvez ele estivesse errado, pois ils profecias nem sempl'e so cor-
retas. Mas desta eu me lembrarei.

  No devido tempo, IIIncmllle me escreveu; era  uma ca rta breve,
pois ...quela altura j  esperava torllar a n1e ver. Dizia que seu irmo
claud, enviado como refm ... Illglaterra na poca do tratado de
paz (enfim assinado), recebera perm.iss o pa ra visit -la em Edim-
burgo; imaginei a alegria de rlmcn>11e com tal reuni o e desejei estar
presente. Na Fra na, porm, havia m s l7.otcias de nosso pai, que
adoecera. Rezei para que Madilme Marie pudesse chega r i1 tempo
de ellcontr -lo a inda vivo. como freqentemente acontece, minhas
preces foram em v o. Meu pai, o duque cla ud de Guise, morreu
pouco antes da visita de nmdczllle e nunca voltou il v-la, ou a mim.
A duquesa Antoinette, que devotadamente lhe servira de enfer-
meira, estava junto ao leito de morte, assim como o filho mais
velho e o mais llovo, meus meios irm os Franois e Ren. o cardeal
de Lorena n o se encontrava l , nem o segundo cardeal de nossa
famlia, Jean de Guise, (lue falecera no caminho; dizem que foi
envenenamento, mas sempre afirmam isso quando se trata de mor-
te sbita. Madame Louise j  morrera; Madame Rene e Madame


253
#Antoinette estavam em seus respectivos conventos; Madame Marie
estava na Esccia, com o jovem claud; e eu, em Blois (pois,  claro,
n o seria bem-vinda em Joinville). olhei para o teto do pal cio de
Blois, com o F e o c entrelaados, as iniciais de Francisco I e da
esposa, cl udia, a pobre rainha cl udia, que Ihe dera filhos e que
fora t o negligenciada por ele; pensei na natureza transitria de
todas as coisas, do amor e da esperana; e aguardei a notcia da
morte de meu pai. Mais tarde, fiquei sabendo que, sobre as grandes
cicatrizes brancas dos ferimentos que o duque recebera em Ma-
rignano, encontraram o bracelete de ferro espigado que usava para
penitenciar-se de seus pecados. Eu, por certo, era um desses. Depois
que ele tiver passado pelo purgatrio, talvez permitam que meu
magnfico pai, essa figura que mal conheci, possa reencontrar mi-
nha m e, naquele lugar onde n o existe mais pecado.

  N o costumo falar muito do rei Henrique II, nem da breve opor-
tunidade que tive de transformar-me em sua Agns sorel. Eu me
lembrava dele como o acanhado delfim que vivia eclipsado pela
memria do irm o, aquele que deveria reinar. Mas, sem dvida
por causa dos bons servios da amante, Henrique ganhara con-
fiana e se tornara maduro e urbano, bastante conhecedor da vida
mundana e do que ela poderia oferecer a um homem de sua po-
si o. Madame Marie (corria o boato de que, na juventude, Henrique
se apaixonara por ela) se mantinha bem informada a respeito do rei
francs; sabia que n o poderia confiar de todo em Henrique II, e
adotou o costume de corresponder-se com ele freqentemente; nes-
sas cartas privadas, discutiam poltica, e madame procurava con-
servar-se como aliada do rei, algum que governaria a Esccia
melhor do que chtelherault. Eu deixava tudo isso a seu encargo,
pois ela sabia o que estava fazendo; mas o rei se dirigira a mim
em certas ocasies, e eu sabia que me achava atraente; na corte,
muitos homens tambm tinham essa opini o, a despeito de meu
comportamento sempre recatado.
  J  esqueci por que me convidaram a chenonceaux. A maioria
das pessoas se engana quando diz que Henrique II construiu esse
belssimo castelo para Madame Diane, pois, na realidade, chenon-
ceaux foi erguido pelo velho rei Francisco, no local prov vel de
um castelo mais antigo; ali, o rio cher se alarga, e os arcos da


                            254
#    ponte se refletem graciosamc'nte I1a  gua, o11df' I1o outo11o as toIIlas
    castallhas flutuam mf ldIlcllcas. MadilTllf  DIaIlf  dera certas sLIf;c'5-
    toes  2  supervlslonava  todas  as  IIlodlflcaocs  cluc  HIlrlcluc'  fazla
    para ela; o emblema dessa senhora, um crscf'2lte como o da  deusa
    DlaIla, comeou  a ser  vlsto f m  toda  parte,  mas sobrctudo 11o c'5-
    tLIcue, e a prprla Madame Diane estava sf'ITlpre l  cuando o rt 1
    vlsltava o ca5to1o. Fo1 cla cluem m convldou,  cLI cra dcma5lado
    5cllsata  para  rocusar;  a  amantf  de  Hllricuf'  lI  tinha  gra ncI  111-
    fluncia, e eu sabia que aquilo poderia ajudar Madame Marie. Pcr-
    ta nto, segui para chenollceaLzx e admirei os llovos allexos, o fol'ro
    e a escadaria, at due, um dia, o Rei cristianssimol m.e pegou
    pelo brao e me mostrou de certa janela, bem no alto do castelo,
    uma vista particular do rio. Mas ele tambm apalpou meu brao,
    e llaquele c"modo havia, illevitavelmente, u.ma cama. Eu sabia due,
    embora n o tivesse como rivalizar com Madame Diane, poderia
    pelo menos juntar-me ao soberano em certo exerccio mtuo, se
    assim desejasse; mas eu ll o quis. o rei Hellrique era bem-apes-
    soado, e j  fazia muito tempo due eu n o me deitava com u.m
    homem assim. Por outro lado, ll o estava nem um pouco disposta
    a contrair a doena francesa, e, como j  conhecera os filhos vares
    do rei, tinha certeza de que ele sofria desse ma 1. (J  contei que
    Henrique o contrara de Mada me Dialle, que antes dormia com
    Francisco I; todo mundo sabia que o antigo rei estava tomado pela
    doena, um legado da ducuesa de Etampes.) Em vista disso, recuei
    decorosamente.
      Henrique II n1o era como o pa i, que decerto teria corrido a tr s
    de mim a me possuir nu111 lugar exata mente como acuele, tal lua I
    fizera o rei Jaime v, muito tempo antes. No fundo, porm, o rei
    da Frana ainda era um homem inseguro; vi a hesita o en1 seus
    olhos, tomei coragem e falei:
      - sua Majestade no deveria fora r uma mulher relutante.
      Ele ergueu as sobrancelhas; os reis est o acostumados ... lisonja,
    e precisei pensar en1 alguma coisa r pido.
      - se meu coraio j  n o tivesse dono - disse-Ihe -, seria
    para mim um prazer atender a o semlor, mas no momento estou
    esperando - baixei os olllos e cvrei, o qlle ll o foi difcil, pois

    1   Titulo trndiciorrmmente corrferido nos nrorrnrcns frnricescs. (N. dn T.)


255
#estava conta ndo uma mentira deslavada - que Monsieur Pduillon
venha pedir minha m o.
  Pquillon era o senescal, um vivo idoso e rabugento que mal
olha ra para mim, quer em chenonceaux, quer na corte; no entanto,
devemos usar o que nos vem ... cabea, e n o consegui pensar em
mais ningum que estivesse disponvel o bastante para que a his-
tria fosse convincente.
  - Pquillon?! - o rei ficou espantado e at chocado. - Ma s
ele  um servial! Posso a rranjar melhor casa mento para a senhora,
talvez depois que...
  Teimei, asseverando minha crescente a fei o por Pquillon e
explicando que, por causa de seu posto modesto, ele tivera  de
manter nossa liga  o em segredo.
  - Ele n o quer nenhuma promo o - afirmei -, pois est
feliz a servio de sua Majestade.
  N o acrescentei que j  era casada, se assim se podia dizer, com
Melville, e que este ainda vivia (a maioria das pessoas me tomava
por viva); isso s teria complicado as coisas. sorri, fiz uma reve-
rncia e deixei lue o rei Henrique, j  sezn nenhum embarao, me
escoltasse para fora; depois, permiti que me tra ta sse de forma cor-
ts, mas cuidei de que nunca fic ssemos outra vez a ss, e parti
de chenonceaux logo que pude. Em vista do que aconteceria mais
tarde com Lady Fleming, esse episdio s veio mostrar que o rei,
a o contr rio do que se dizia, n o estava assim t o encantado com
Madame Diane que dispensasse todas as outras mulheres. Era um
homem como os outros. E, de qua Iduer modo, eu n  o tinha nenhum
desejo de suscita r a inimiza de da rainha catarina, que n o estava
em chenonceaux na quela ocasi o. Quanto a Pquillon, ele feliz-
mente foi esquecido, pois havia assuntos muito mais prementes.

  Tanto quanto era possvel saber, j  era certo que a prpria Ma-
dame Marie viria ... Frana; o jovem claud de Guise retornara e
trouxera cartas afetuosas de madame, tanto para mim quanto para
sua filha. (No entanto, Madame Parois, a nova governanta, quase
n o permitia que a menina recebesse a correspondncia.) Henrique
II tambm estava ansioso pela chegada de mrrdnr2ie, e n o apenas
para que discutissem a ssuntos de Estado: catarina de Mdicis dera
.. luz ma is um prncipe, e o Rei cristianssimo queria que a rainha


                          256
# vluva da Esccla foss a madrlllha. No ntaTlto, 1loLIvt' prl)blt'mas
 que d r2tlveram na Esccla .  colldf  jt'  HuIltly, Luf' E'sca pa ril da
 Inglat2rra com multa  ha blllda d t' cu1 pl'5ella, 11o comf o, a 111-
 mara bastante llindnrlic, era t o irascvel luanto todos os membros
 de sua famlia, os Gordons; e, tendo sidcl recompellsado com terras
 e um condado em Moray, tornara-se o superior Eeudal do cl  dos
 chattans. Isso  quase impossvel de explicar;  como st algueIl1
 se tornasse o supf'rior de uma parte di5tinta  c tl)di1 a raa IlLmlalla,
 diferente  de  qualcur  oLztra  lla  terra  c  ( uasf  5mp1'f  tIl1  glII'1'd
 contra os cl s advers  rios desde os tempos dc) rei Roberto III; era
 preciso tato pard control  -Ios, coisa que HuIltIy I11o possula. con1o
 resultado, ele entrou em conflito com o clleft dos MacIntosh, o
 principal grupo do cl  dos chattans. De algulll 1llodo, o igualmente
 irascvel conde de cassilis, um Kennedy de Gallowa y, a cabou sell-
 do envolvido; n o sei bem como as coisas aconteceram, mas tudo
 terminou com a execu o do infeliz Ma cIntosll 11o ms anterior ...
 partida de rnndnme para a Frana. Nesse meio tempo, como o llovo
 prncipe francs fosse t o fr gil quanto os a nteriores, o rei Hellrique
 arranjou outra madrinha, e o batizado se deu sem Ilmdmle.
   Mais acima, mellcionei a governanta Pa rois. Ela, llatura lmente, ti-
 nha moral muito severa, pois, depois da escapa da de L,'ldy Fleming,
 que relatarei no devido tempo, foi llecess rio fazer uma escollla mais
 cuidadosa. Madame Plrois, entretanto, era antip tica e mesquimla,
 e, pior, fazia La Reinette dar a impress o de tambm ser assim - e
 olhem que aquela menina era a criatura mais generosa do n1ulldo,
 capaz, se preciso fosse, de doa r a ltima moeda e a ltima jia. Ma-
 dame Parois n o a deixava desfazer-se de um alfinete sequer. E hlvia
 outro problema: eu n o me dava bem com essa sellrlora, e, aos poucos,
 decidi pedir a Ma dame Marie, quando ela viesse, que me deixasse
 voltar com ela para a Esccia. N o havia necessidade de que duas
 pessoas exercessem para a mesma fun  o na corte, e Mada me Parois
 j  cuidava de desballcar-me sempre que possvel. Evitei o confronto,
 em considera o a La Reillette, e esperei.
   creio ter sido dessa governa nta a estpida idil de lue La Rei-
 nette fizesse um discurso formal de boas-villdas para Madame Ma-
 rie, como se m e e filha llo estivessem morrendo de vontade de
 correr para os braos uma da outra. Mndnme viria do porto de
 Havre com uma grande comitiva, que illclua seus irm os e os


257
#condes de Huntly e de cassilis, os quais ela de algum modo con-
seguira reconciliar. Em seguida, chegaria o conde-marechal (o chefe
do protocolo), sob o peso de sua grande corrente; ele decerto con-
seguira esquecer temporariamente a mulher, que ficara na Esecia
e era mais uma louca da tribo Morton. Home, Maxwell e o novo
Lord Fleming, todos meus conhecidos, tambm esta riam l , assim
como sir George Douglas, a quele de meus tempos em Tantallon;
seria menos bem-vindo do que os outros, mas com certeza rnadame
queria ficar de olho nele. (Quando sir George chegou, ele ou n o
se lembrou de mim ou fingiu que n o se lembrava, e ambas as
situaes me convinham bastante. como sempre, eu parecia uma
freira, e mantinha os olhos baixos.)

  Mas, antes de vir para Rouen, rnadarrre foi passar alguns dias
com o filho, o jovem duque Franois de Longueville. os dois ti-
veram esse curto intervalo para se conhecerem melhor, depois dos
anos em que s puderam se comunicar por carta. como eu n o
estava presente, n o sei como passaram o tempo. o duque Franois
ainda era muito moo, e fora criado pela v com bastante cuidado.
Mais tarde, eu freqentemente o vi em companhia da rainha; era
um rapazinho muito educado, e se parecia com o pai, o falecido
duque Louis. Fiquei feliz por n iadarrre ter tido assim a oportunidade
de recordar os tempos de amor e felicidade com o primeiro marido.
seis dias depois, quando a comitiva entrou em Rouen, rrradarrre
estava descansada e bem-disposta. A filha j  a esperava; a postura
da menina era calma, como seria de se esperar aps dois anos na
corte francesa, mas seus olhos n o paravam quietos. Ela tivera de
decorar o discurso, que era longo, e estava se contendo. Eu, por
outro lado, mal consegui refrear minha agita o; afinal, j  fazia
dois anos que vira ntrrdarrre pela ltima vez. Qua ndo a comitiva se
aproximou a cavalo, eu s tinha olhos para seu rosto, que n o
mudara (os olhos, porm, pareciam um pouco melanclicos); es-
queci a grande abadia que assomava a nossas costas, a corte ao
redor, os arcos triunfais, os elefantes e os falsos unicrnios e ninfas
do desfile de boa s-vindas. Madarrre ganhara um pouco de peso;
era uma mulher alta e majestosa, e vestia luto pelo pai. Merecia
todas as homenagens lue Ihe prestavam agora, pois seus feitos na
Esccia era m conhecidos e admirados at pelas multides embas-


                          258
#bacadas da rua; mesmo se n o fosse a filha do duque claud de
Guise, recm-falecido, o povo a aclamaria por seus prprios m-
ritos.
  Fez-se repentino silncio quando a rainha da Esccia, de oito
anos de idade, comeou a pronunciar o discurso, com voz clara,
baixa e musical; mas ent o Madame esqueceu toda a etiqueta, correu
para a frente, tomou a filha nos braos e a cobriu de beijos. Algumas
pessoas ficaram escandalizadas; outras sorriram e compreenderam.
A menina riu, abraou a m e e depois continuou seu edificante
discurso at termin -lo. o jovem Franois de Longueville, com as
faces coradas de orgulho, permaneceu de p ao lado da m e e da
irm , que estava crescendo cada vez mais; n o foi esquecido, pois
rnadarne lhe sorriu com olhos muitssimo carinhosos. Ele usava a
indument ria cerimonial de gr o-camareiro heredit rio da Frana
e senescal da Normandia, mas ainda no era mais do due um
menino satisfeitssimo com a m e. Quando tudo terminou, ntndame
trouxe ambos os filhos para junto de si, e os trs conversaram
alegremente, como se nunca tivessem ficado distantes uns dos ou-
tros. Essas foram as boas-vindas, uma das ocasies felizes depois
daqueles anos em que m e e filhos tinham estado separados por
mares tempestuosos.

  Madame Marie ficou um ano inteiro na Frana, em companhia
da filha. Mas o que irei relatar aconteceu antes de sua chegada.
Quando La Reinette e catarina de Mdicis viajavam juntas para
Paris, Blois ou Fontainebleau, havia certo acmulo de damas de
companhia. Por isso, foi decidido que, aos pares, dividi.ramos o
mesmo leito e a mesma bagagem, pa ra evitar confus o e desper-
dcio de espao. Minha parceira seria Lady Janet Fleming, o que
n o me agradou nem um pouco; no entanto, acabei tendo mais
oportunidade de estudar e,ssa senhora do que me fora possvel
fazer em caerlaverock, um lugar que nunca mencion vamos. Lady
Fleming preferia ser chamada de Joan, em vez de Ja net, porque,
estou convencida, ela se achava a imagem de sua ancestral, Joana
Beaufort, mulher de Jaime I. Essa infeliz rainha tinha longas tranas
louras, como se podia ver na efgie de seu timulo, no convento
dos cartuxos de Perth, antes que fosse destrudo pelos reformado-
res. Joan Fleming ainda era uma bela mulher, apesar da idade e


                            259
#das muitas vezes que ficara gr  vida do falecic-lo Lord Fleming. seu
cabelo tambm era doura do, sc5 lue, durante o dia , ela precisava
escond-lo sob uma coifa, como toda s. Mas, quando est vamos
sozinhas no quarto, n o se cansava  de pente -lo, como se esse
exerccio Ihe desse alguma satisfa  o interior. Ele ent o formava
um vu longo e lustroso. certa vez, ela me sorriu por tr s desse
vu e lembrou que seu meio irm o, Bothwell, o Belo conde, tinha
cabelo da mesma cor.
  - Ns o herdamos de nossa m e, que foi o amor de um rei.
  Preferi n o comentar que j  ouvira aquela mesma m e alardear
seus encantos em caerlaverock, nem que j  escutara o bastante
sobre o Belo conde na corte escocesa, onde ele se colocara no
caminho do conde de Lennox, o outro pretendente louro ... m o
de Madame Marie. (Ali s, j  n o tnhamos notcias de Lennox, que
havia muito tempo lanara sua sorte contra a da Frana; aparen-
temente, continuava na Inglaterra com a mulher, Lady Margaret,
aquela filha de Angus e de Margarida Tudor, e, de tempos em
tempos, participava de incurses contra a Esccscia. Mas, daqui a
pouco, terei algo a relatar sobre ele.)
  chegou o ver o. o quarto que Joan e eu viemos a compartilhar
em Fontainebleau dava para um jardim e um p  tio, que estavam
em obras e que receberia m o nome de Madame Diane. Essa distinta
persona gem atravessava os corredores com sua graa habitual e
n o parecia perturbar-se jama is; eterna mente serena, belssima e
imut vel, nunca dirigia muitas pa lavras a ningum, nem mesmo
ao rei. Mas, afinal, as palavras nem sempre tm relevncia nesses
casos.
  Em certa ocasio, depois de ter sado pa ra cuidar de alguma
coisa, voltei a o quarto, onde pretendia escrever uma carta. Ainda
era dia claro, e n o esperava encontrar Joan ali. Fui at a caixinha
onde guard vamos papel, pena, tinta e areia e, de passagem, vi
que as cortinas da cama estavam fechadas. No ver o, elas costu-
mavam ficar abertas dia e noite, por causa do calor. o perfume
de alfazema me dizia que Joan estava l ; de incio, pensei que ela
talvez estivesse com dor de cabea e quisesse ficar na penumbra.
Aproximei-me em silncio e afastei as cortinas s um pouquinho,
para ver se poderia ser de alguma ajuda, mas logo as soltei. Joan
Fleming se encontrava de fato na cama, e com ela estava o rei da


                           26o
#Frana. Lembrei ent o que, j  havia algum tempo, Joan o impor-
tunava a respeito do filho, aprisionado na Inglaterra ; seus pedidos
devem ter dado naduilo.

  Dizem,  claro, que a prpria rainha catarina arranjara tudo
isso, pa ra afastar o marido de sua intermin vel liga o com Ma-
dame Diane. Mas eu duvido, mesmo conhecendo a predile o do
rei por senhoras mais velhas. sem dvida, a favorita deve ter tido
conhecimento da liga o; e, com a prudncia lue a cara cterizava,
decidira que o melhor seria n1o usar rdea curta. Nunca disse
uma pala vra sequer a esse respeito, e sua fisionomia continuou
tranqila. A rainha,  verdade, tambm n o era nenhuma tola.
Talvez tivesse esperana de que, apesa r dos pesares, aquilo durasse;
mas, bem no fundo, devia saber que n o seria assim. Em todo
caso, n o precisou a brir um buraco no forro de nosso quarto.
  N o sei quanto tempo durou o caso. Parece-me ter sido sempre
na quele vero, enquanto a corte viaja va como de costume. Fosse
como fosse, era embaraoso que a governanta da rainha da Esecia
estivesse incha ndo de forma ba stante comprometedora, mesmo
quando usava aqueles folgados sobretudos zue, tempora riamente,
andaram na moda. Deve ter sido ent o que o rei acabou de saciar
seus desejos, pois num dia Joan Fleming estava l  e no seguint
j  se fora, junto com todas as suas coisas. Eu soube que a levaram
discretamente para um convento, onde deu ... luz um filho que
ficaria conhecido como Harry de va lois, o Bastardo de Angoulme.
No devido tempo, ele recebeu uma posi o na corte ( instrutivo
ver quanto sangue de reis escoceses pode ser encontra do ali; Joan,
 bom lembrar, era filha natural de Jaime Iv com a quela inquietante
senhora que conheci em caerlaverock.)
   claro que o escndalo provocou a Iguns risos abafados, prin-
cipalmente entre os inimigos de Madame Dia ne; mas foi por pouco
tempo. A duquesa de valentinois recuperou a antiga proeminncia ,
e Joan Fleming, sem o Bastardo, voltou tra nqilamente para a Es-
ccia e para o seio de uma famlia j  numerosa.
  Naturalmente, teria sido imprprio se ela continuasse como go-
vernanta da pequena rainha, e por isso escolheram a lament vel
Madame Parois.  verdade que essa personagem rgida e firme-
mente catlica nunca iria para a cama com um rei - ou com quem


                           261
#     cuer fosse. Mas, mesmo assim, causaria muita infelicidade ... pe-
     quena sobera na.
                                                                     I
       Tratarei agora de uma das piores coisas que aconteceram du-
     rante Ilossa estada 11a Fra Ila. La Reinette possua um macaquinho
     cinzento, chamado Gris-Gris, que ela adorava. Gris-Gris ficava pre-
     so a uma longa corrente de ouro; La Reinette o alimenta va com
     nozes, e ele tambm era louco por marzip. Tratava-se de uma    '
     criatura brinca lhona, que sabia se divertir; costumava pular no
     ombros das pessoas, enrolando a longa cauda em seu pescoo, e
     tagarelava de um modo cativante, enquanto os olhos contempla-
     vam o mundo com melancolia. La Reinette gostava de animais;
     ali s, tinha verdadeira paix o por eles; adorava coelhos, pombos,
     at c es de caa, mas especialmente o macaquinho. (Anos mais
     tarde, quando j  estava numa pris o inglesa, mandou um desses
     macacos para o filho; entretanto, n o permitiram que o menino
     recebesse o presente.)
       La Reinette vivia ganhando pequenos mimos das muita s pessoas
     que a idolatravam; e, certa vez, recebu uma caixa de marzip .
     Antes de comer, deu um pouco para Gris-Gris. Nisto, felizmente,
     precisou afastar-se; talvez a m e a estivesse chamando para que
     passassem uma hora juntas. Quando voltou, Gris-Gris era apenas
     uma massa informe e retorcida, tendo morrido em a gonia. La Rei-
     nette caiu em l grimas, horrorizada, e continuou a chorar durante
     dias; todos ns ficamos chocados e tambm precavidos. sem d-
     vida, a inteno fora envenenar a criana , e o infeliz macaco aca bara
r,   sendo vitimado. Tratava-se de um compl" bem armado, mas quem
      podera estar por tr s daquilo?
        Havia duas possibilida des. A primeira era Arran, agora
i     chtelherault; ele ainda queria o trono da Esccia, a despeito
      do ducado que rrtadartte convencera Henrique II a lhe dar e
      da proposta de casar seu filho idiota com uma morgada fran-
      cesa (uni o que, a bem dizer, acabaria n o ocorrendo). A se-
      gunda possibilidade era Lennox, que tinha tanto direito ao trono quan-
      to chtelherault; os dois descendiam de princesas stuart, e, por isso,
      eram ambos suspeitos. Havia alguns anos, Lady Margaret, depois da
      morte do primeiro filho, dera ... luz outro menino, como j  relatei em
      outra parte. Dizia-se que esse menino, Lord Darmey, era um prodgio;


                                 262
#bonito e bem-educado, tinha o latim de um verdadeiro erudito
(aos nove anos, cativaria a rainha da Inglaterra, Maria I, escreven-
do-lhe um panegrico nessa lngua). os Lennox estavam na po-
breza, e, com certeza, viam o filho como a grande esperana; talvez
at ambicionassem para ele o ttulo de rei da Esccia, caso o pai
n o conseguisse obt-lo para si mesmo.  possvel que fossem ino-
centes do compl", mas h  outra coisa. o homem que envenenara
o marzip  era certo Robert stewart, que pertencia aos arqueiros
escoceses da Guarda; ele escapou para a Inglaterra, onde foi cap-
turado, interrogado em Greenwich e ent o devolvido ... Frana; em
novo interrogatrio, antes de ser executado, confessou que admi-
rava o conde de Lennox (que tambm fora dos arqueiros).
  Tudo o que La Reinette eomia e bebia passou a ser provado
antes. Depois desse episdio, Madame Marie envelheceu visivel-
mente, e, por algum tempo, chegou a ficar doente de preocupa o.
Afinal, parecia que nem mesmo na Frana sua filha estava segura.

  No quis acompanhar sua Graa a Joinville. Acho que ficou
magoada quando pedi para no ir, ainda mais porque nosso pai
falecera t o recentemente. A duquesa Antoinette continuava num
luto severssimo, e, desde a morte do marido, mantinha o prprio
caix o do lado de fora da capela, como um lembrete de sua mor-
talidade. Eu j  tivera lembretes demais; e Joinville, aquele castelo
de conto de fadas, com suas rom zeiras e limoeiros, suas torres e
escadarias, era, tudo considerado, o lugar onde eu fora chicoteada
como um c o. Recordava-me do motivo, e ficava me perguntando
se j  fora expulso o pecado que Madame Philippa e a duquesa
Antoinette juraram estar alojado em mim; talvez alguns aconteci-
mentos ent o recentes o tivessem acirrado mais uma vez. Eu, no
entanto, passara longos e dedicados anos com Madame Marie, na
qual n o havia um nico indcio de falta de castidade. Por fim,
mencionei a madame que, se outras pessoas tinham obtido licena
para retornar ... Esccia, eu talvez pudesse fazer uma curta viagem
a vouvray, para verificar por mim mesma como andavam as coisas
por l . Quando falei isso, ela me olhou, muito sria, e disse:
  - Lembre-se do que aconteceu da ltima vez, claudine. o in-
tendente ainda  o mesmo.
  Espantou-me que, em meio a tantos assuntos de Estado, ela


                            263
#ainda se lembra sse de Andelot e do fato de que este continuava
sendo meu empregado.
  - Isso s o  guas passadas, e ele tem enviado meus proventos   '
com regularidade - respondi, como se isso atenuasse as coisas.
  Madarrre acabou concordando com minha ida, mas insistiu em    i
que eu fosse com uma escolta o mais forte possvel e uma acom-
panhante. Fiquei um tanto aborrecida cuando ela se deu ao trabalho
de arranjar tudo com Lady seton, que nascera Marie Pierres, e,
como j  mencionei, nunca chegara a ser minha a miga. Lady seton
ainda me olhava torto; mas, como tinha parentes perto de Troyes
e pretendia visit -los, n o p"de deixar de levar-me. vigiou-me du-
rante toda a viagem, como se eu fosse uma criana retarda da, e,
no final, quis at que eu ficasse com sua famlia e s visitasse
vouvray durante o dia, e mesmo assim rapidamente. Nessa ocasi o,
porm, eu me impus, como ...s vezes sou capaz de fazer.
  - Pretendo visitar meu castelo pelo tempo que julgar conve-
niente para mim e para sua Gra a - disse-Ihe -, e informa rei ...
senhora quando estiver pronta a voltar.
  Lady seton n o teve como discordar,.c talvez tenha at ficado
aliviada; um fidalgo chamado seigneur de Bryante, que viria a
despos -la depois da morte de Lord seton, j  lhe fazia a corte, e
ela era dessas mulheres que n o podem passar sem homem, cual-
quer homem. Ali s, o prprio seigrreur se ofereceu galantemente
para escoltar-me at vouvray, que n o ficava longe dali, e isso
deixou sua bem-amada quase louca - mas  claro que, por natu-
reza, Lady seton era esperta demais para deixar que ele percebesse.
Ela deve ter reafirmado seus direitos, pois o fidalgo me levou s
at a bifurca o do rio, cue, mesmo assim, fica perto o suficiente
do castelo para cue se possa ver o telhado a Icantila do. N o poderia
acontecer-me muita coisa na pequena distncia que me faltava per-
correr at l , e o seigneur de Bryante voltou obedientemente pa ra
Lady seton.
  continuei a cavalgar, saboreando os prazeres de um dia de ve-
r o. sentia uma languidez no corpo, uma expectativa preguiosa...
Durante toda a visita de nradarrte ... Frana, eu cumprira minhas
obrigaes e me comportara como devia; ali s, essa j  era minha
atitude antes mesmo de sua chegada. Mas, embora na juventude
as circunstncias me tivessem levado a ser hesitante, agora estava


                           264
#             pronta pa ra aventuras. N o direi ue haja conscientemente plane-
             jado isso, mas por certo no fiz nada para impedir quando acon-
             teceu.
               Finalmente, cheguei ao p tio, entreguei minha montaria a um
             ca valario e passei pelo pombal e pelo est bulo (onde se via uma
             liteira negra) at alcanar o castelo. Tinham sido a visados de minha
             vinda; eu deixara cla ro que n  o esperava nenhuma recep o formal,
             em vista do estado mental do conde, mas que contava encontrar
             tudo em ordem para uma curta estada . Decerto foi o que fizeram;
             exceto pelo distante grasna do dos patos, o lugar estava em total
             silneio. Atravessei o sal o, fui a t um c"modo adjacente, onde
             havia uma cama de dossel, e deparei com um homem. Era Andelot.

               Ele n o mudara muito. A ltima vez que o vira com clareza
             havia sido, talvez, no dia anterior a meu estupro em vouvray. o
             a to se dera no escuro, e eu tambm ficara com a vista obstruda
             pelos lenis. Agora, podia observar Andelot com alguma impar-
        ,    cialidade, pois o tempo e a experincia me deixara m mais tolerante.
"            Era alto e espadado; tambm conservara a cintura, ao contr rio
             de muitos homens que gostam de beber. Tive certeza de que An-
             delot apreciava a bebida, e tambm a comida e as mulheres. Quanto
             a mim, fora forada a viver como freira dura nte allos e anos. senti
             as pernas tremerem, a boca secar, as mlos fica rem midas e os
             mamilos comearem a formigar. Eu estava ciente de todas essas
             coisas enquanto olhava para ele, e tambm ciente de que Andelot
             sabia o que se passava comigo. vi a cama com o canto do olho,
             e Andelot se moveu como um gato em minha direo. N o me
             lembro de termos troca do uma palavra sequer, nem mesmo uma
             sauda o formal ... propriet ria da casa - coisa que, afinal de con-
             tas, eu ainda era, a n o ser pelo imbecil que se encontrava no
             andar de cima. Em geral, Andelot vinha se mostrando escrupuloso
             em tais assuntos, mesmo porque, do contr rio, perderia seu ga-
             nha-p o. Acho que ainda me recordei, mais uma vez, de que ele
             era um servial; tambm era o filho bastardo de meu primeiro
             marido e se parecia com os De vouvray. Mas depois s percebi
             que minhas roupas iam sendo tiradas, n o sei se por ele, por mim
             ou por ns dois. camos nus na cama, onde no mesmo instante
             comeamos a fazer amor. Digo amor por falta de pa lavra melhor;


                                        265
#foi uma cpula feroz, e continuamos nauilo por uma sema na.
creio que mandaram cvmida e que devo ter-me alimentado e be-
bido vinho quando nossos corpos estava m sepa rados, o clue n o
aconteceu amide. Lembro-me de cambalear at a cadeira-retrete,
e acho que meus dejetos eram retirados por algum e que Andelot
arranjava algum tempo para cuidar de suas tarefas. Mas, em minha
memria, a cpula continuou por muito tempo; ainda posso senti-lo
apalpando todas as partes de meu corpo, e, finalmente, penetran-
do-me. Ainda ouo nossa respira o arfante, as bocas unidas, as
lnguas se tocando, a grande cama sacudindo-se na cadncia dos
gemidos; ali s, gemi mais do ele, pois, nessas coisas, o homem, se
de fato  homem,  o senhor. Diariamente, e talvez at com mais
freqncia, ele me proporcionava aquela rea o completa que 
prpria das mulheres, mas que nem sempre  alcanada. A bem
dizer, eu nunca antes experimentara nada assim, pois muitas vezes
a ocupa o a que me dedicara por algum tempo n o nos propor-
ciona nem ccegas;  um trabalho e nada mais. J  esta outra rea o
 algo que s posso descrever como um gozo absoluto. De algum
modo, somos levadas ao cu, mas ainda' continuamos no corpo e
sabemos exatamente em que parte se produz essa sensa o: o pr-
prio tero se entesa com as estocadas do homem, formando uma
grande tenda, uma pirmide de desejos saciados, que fluem com
a consuma o de uma maneira que eu n o saberia expressar; de-
pois, voltamos ... terra, exaustas e completas. Meus gritos de prazer
devem ter sido ouvidos em todo o castelo, mas n o me preocupava
com isso. Entreguei-me a essa incompar vel delcia pelo tempo
que durou, e acho que s parei quando, um dia, percebi que An-
delot estava se dirigindo a mim pelo primeiro nome, o que, num
servial, significa excessiva familiaridade.
  - claudine... - falava-me. - claudine... - Ele deve ter dito
isso mais de uma vez. - voc agora  uma pombinha bem rolia;
antes, era magra demais.
  Aquilo, ou coisa parecida, j  me fora dito por sir George Dou-
glas. vieram-me memrias desagrad veis, e, talvez por isso, meu
poo de desejos secou, at porque, ...quela altura, eles j  estavam
mais do que satisfeitos. Fechei os olhos e informei a Andelot que,
no futuro, n o estaria disposta a receb-lo e manteria trancada a
porta de meu quarto. Ele se mostrou incrdulo, coisa que prova-


                            266
#velmente n o  de admirar; por insistncia sua , tornamos a tentar,
mas para mim o encanto se quebrara. Dispensei Andelot peremp-
tria e friamente, e lembro seu furioso rosnado cluando, j  com a
m o na tranca, virou-se e olhou para mim. Mas era um empregado,
e por isso n o podia clizer nada.
  No dia seguinte, como minhas pernas a inda estavam um pouco
fra ca s demais para que eu cavalgasse, ma ndei que as criada s ar-
rumassem a bagagem e me trouxessem  gua quente, lavei-me, fiz
que penteassem meu cabelo emaranhado, tomei emprestada a li-
teira negra do conde imbecil e voltei nela para junto de >udarie.

  Por essa poca, pintaram pa ra o rei ingls um retrato de Madame
Marie. Ali s, j  n o recordo bem se eram v rios retratos, mas com
certeza a base foi o desenho executado por clouet, que mostrava
mndnme ainda esperanosa, com olhos inocentes e quase suplican-
tes, l bios macios e ansiosos, uma pequena capa colocada muito
formalmente sobre os ombros. J  o outro retrato sc5 pode ter sido
feito depois que rrtndnre se despediu da filha , pois nele se via o
papagaio; e antes da visita ao jovem rei da Inglaterra, pois ntndnrrie
vestia luto pelo filho, o duque Franois de Longueville. o retrato
mostra uma mulher de olhar precavido, com uma coifa alvssima
e um vestido majestoso, digno de uma rainha; o corpete era es-
carlate como os trajes de um clrigo, e essa cor magnfica contras-
tava com o verde da ave; a capa era, como sempre, negra. Poste-
riormente, num quadro mais conhecido, executado por corneille
de Lyon quando rrtada>rte j  estava na casa dos quarenta anos, o
rosto se endurecera e comeara a murchar; no entanto, era jocoso
e sagaz, a fisionomia de uma verdadeira francesa, mesmo depois
de tudo o que j  acontecera. Mas, no tempo do quadro do papagaio,
diante do horror da tentativa de envenenamento da filha, sua Gra-
a, mesmo numa pintura, n o poderia deixar de pa recer descon-
fiada.
  Madame Marie e La Reinette tiveram forosamente de separar-
se, embora n o seja verdade, como dizem alguns, que rnndnrne abu-
sou da recep o que lhe ofereceram na Frana e ficou tempo de-
mais. o rei Henrique continuava a consult -la e a apreciar sua
companhia; ela n o estava sempre com a filha, nem com o filho.
como j  relatei, o duque Franois se tornara um belo rapazinho,


                            267
#um verdadeiro Guise na coragem e nos dotes, e muitas vezes o
vamos na corte em sua condi o de gr  o-ca ma reiro heredit rio;
ele e a meia irml se adora vam, pois  cIdro qu  a dlIqusa AIlto1-
nette, tendo criado o menino, esta va atenta para que os netos n o
fossem estranhos um pa ra o outro, mesmo antes da chegada de
rrrndntrte. Fosse como fosse, rirndniie prometera ao duque Franois
que, antes de partir, iria muito especialmente visitl-lo no castelo
de Longueville. As despedida s da pequena rainha foram, natural-
mente, formais e pblica s, tal como, pela prpria necessidade, fora
antes o reencontro de m e e filha. Mas a despedida privada n o
foi assim; La Reinette trouxe o papagaio, que ganhara como uma
espcie de compensa o pela perda de Gris-Gris, mas a o qual ela
ainda n o conseguira ensinar a falar.
  - Mndnrrre rnn rnre!
  Eu estava l , mas recuei para as sombras; vi aquela fada de
nove anos, trazendo empoleirada no brao a ave verde, caminhar
para sua Graa, que estendeu carinhosamente a mo e disse:
  - Marie! Marie!
  Este, afina 1 de contas, era o nom da menina , o nome da me
de Deus. Quando ha via outras pessoas presentes, as duas rainhas
precisavam tratar-se por rrindnnie e fa zer a reverncia correta; mas
n o naquele momento.
  - A senhora me contou que, quando meu pai era menino, ele
tinha um pa pagaio que fazia todo tipo de rudo e sa bia  imitar
outras aves - disse La Reinette. - Pode ser que este aqui tambm
acabe conseguindo, mesmo que eu n o tenha sido capaz de Ihe
ensinar nem uma nota sequer. Talvez ele seja estpido...
  Mndarne acariciou aquele ca belo brilhante, que, ao menos dessa
vez, n o estava coberto por uma touca de renda e se anela va li-
vremente em torno do belo rosto oval. o papagaio estava irrequieto.
  - Quero que a senhora fique com ele pa ra se lembrar de mim
- explicou a pecluena rainha da Esccia. seus olhos, j  t o inson-
d veis quanto os do pai, miraram a pequenina cabea verde, e
seus dedos a afagaram uma ltima vez. -  meu presente. claro,
escreverei para a senhora, e um dia a senhora talvez volte ... Frana,
ou eu v  ... Esccia.
  com delicadeza, pegou a ave pelos ps e a colocou na manga
do vestido de mndnrne. o papagaio vira va a cabea para um lado


                            268
#e para outro com olhinhos brilhantes e despreocupados. La Reinette
continuou:
  - Eu teria lhe dado Gris-Gris, mas...
  surgiram l grimas em seus olhos, e ntndniilc correu a passar o
papagaio para  mim   a  abra ar  a f1111a.
  - Gris-Gris talvez v  estar esperando por nc5s no lugar em cue
todos nos reencontraremos um dia, seu pai, o duque claud, o rei
e todo mundo que j  a mamos.
  Notei que >ilrzdartte n o mencionara Louis de Longueville, o pri-
meiro marido, a quem amara tanto. Ele n o era pa rte da vida da
filha do rei Jaime. La Reinette crescera ouvindo histcrias sobre o
pai. Pensei em Jaime v menino, antes que os Douglas o houvessem
corrompido, e o imaginei em stirling com o papagaio, ensinando-o
a falar e assobiar; ele fez isso to bem que sir David Lindsay of
the Mount, o tutor, comp"s um poema a esse respeito para consolar
o pequeno rei depois que a ave escapou, e, ma is tarde, foi encon-
trada aos pedaos em Abbey craig, morta pelos p ssaros selvagens.
  Pois bem, rltndnrne acabou sendo retra tada com o pa pagaio. Era
como se ostentasse um pend o de fidelidade e ta Ivez Ilm pouco
de amor pelo homem que Ihe deixara a Esccia, esse legado t o
amargo, e tambm uma filha. o papaga io viria a morrer do frio
setentrional; illrrdrrme, porm, conseguiria aceitar mais essa perda.

  Quando voltei de vouvray, fui admitida ... sua presena; como
s2mprc, era colsa fdcll para  mlm. Nlpdl7lll f'stava sIltada a msa,
escrevendo. segurava uma pna Ilos df cos aIvos  longos; ao Iado,
ardia a pequena chama cue usa va para aqllecer a cera verde de
seu timbre; tambm se via o livro de cc5digos. sir George Douglas
a alertara para o perigo representa do por selos imperfeitos - coisa
que eu, por experincia prc5pria, ta mbm poderia ter-Ihe dito. Em
todo caso, eu j  sabia qual o motivo daquela correspondncia: o
empenho de Anne de Montmorency, o condest vel, em impedir
o casamento do delfim e da  Reinette p ara dlle esta desposasse
algum outro nobre francs. o condest vel argumentava que a Es-
ccia era um pas pobre, remoto e selva gem, e due defend-lo iria
custar muito mais sa nglle francs do qlle valia a pena. Ele talvez
tivesse raz o, mas, em relao a >rladtrrc, eu n o poderia concordar
com aquilo.


                           269
#  Nada falei sobre o assunto, o qual, ali s, n o era de minha alada.
Apenas perguntei a sua Graa se poderia acompanh -la no retorno
.. Esccia, uma vez que eu e Madame Parois, a governanta, n o
nos d vamos bem. Teria explicado melhor a situa o, mas n o
precisei. Madarne colocou a pena no suporte, bateu palmas uma
vez e veio at mim. As negras saias farfalhavam enquanto cami-
nhava.
  - Ficarei feliz com sua companhia, claudine - disse, e segurou
minha mo. - Quanto a Madame Parois, sei que  severa e bem
pouco alegre. No entanto,  digna de confiana, e desde aquela
histria do macaco... - virou o rosto por um instante. - Mesmo
aqui, h  poucos em quem posso confiar. Por isso, deixarei minha
filha aos cuidados dessa governanta.  uma catlica convicta, e
hoje em dia, e nos tempos que vir o, a verdadeira f pode ser
atacada de Genebra e de outros lugares assim. John Knox, que
voc j  conhece, foi libertado das gals a no passado, a pedido do
jovem rei da Inglaterra, que desde ent o o promoveu a uma posi o
de importncia junto ao chanceler Thomas cranmer, e talvez at
lhe oferea um bispado.
  - Knox n o aceitaria tal coisa - arrisquei-me a dizer, recor-
dando aqueles l bios roxos, as barba grisalha e o modo pelo qual
os reformadores se dizem independentes de toda e qualquer litur-
gia.
  Madnnie sorriu e disse:
  - Talvez n o. Mas, em todo caso, providenciou-se um salvo-
conduto para que visitemos a Inglaterra e o rei. Dizem que ele 
um prodgio, mas falam isso de todos os monarcas. Antes, eu e
meu filho iremos sozinhos ... residncia dele. Em seguida, voc
poder  juntar-se a ns, e seguiremos todos para Londres, exceto
por meu pobre Franois. sir George e outros me falaram muito
da capital inglesa, e j   hora de visit -la. o salvo-conduto  para
que evitemos aquela demorada viagem por mar. Brrrr! Quando
est vamos na vegando para a Frana, vestiram de damasco-claro
os pobres-diabos das gals para que eu n o me ofendesse com a
vis o de suas costas cheias de eicatrizes ou com o rudo das chi-
batadas. s que eu j  vira e ouvira tudo isso antes.
  Escutei tudo o que madrzrne tinha para dizer. Depois, fui cuidar
de que preparassem minha bagagem. No que se referia a Madame


                            2ro
#Parois, muitos se perguntam por que rrradarrre desconsiderou os
insistentes pedidos da filha, que durante anos solicitara que a go-
vernanta fosse substituda, pois costumava deix -la muitssimo in-
feliz com sua mesquinhez, avareza e insolncia. Entretanto, rrradarrre
podia confiar na Parois; e nunca mais houve um caso de comida
envenenada, nem indcios de nenhuma tenta tiva dos Lennox ou
de outros de p"r fim ... vida da criana.
  No comeo de outubro, Madame Marie partiu para Amiens com
o filho. J  fazia muito tempo que ele n o desfrutava a companhia
exclusiva da m e. Ficaram juntos algum tempo, e ent o, na pre-
sena de rrradarrle, o jovem duque contraiu uma febre; poucos dias
depois, morreu em seus braos. A respeito de tudo isso, s me
resta dizer que a sorte nunca visitou Madame Marie. Ela vestia
luto quando tornou a juntar-se a ns; j  est vamos instrudas a
usar capuz e uma grande capa negra para a visita a Eduardo vI.
Madame trajara luto para a visita oficial ... Frana, mas fizera-o in-
formalmente; seguindo o conselho de ningum menos que Madame
Diane, ela n o reconhecera abertamente a morte de nosso pai. A
amante de Henrique II, quando consulta da, disse que as rainhas
usam luto apenas pelo marido - pois, do contr rio, estariam se
rebaixando.



  Deixei Iain Ruadh aos cuidados dos tutores do delfim, satisfeita
com as garantias de rrradarrte, que convencera o rei Henrique a ar-
ranjar para meu filho, quando ele crescesse, um posto nos arqueiros
escoceses da Guarda. os dois outros bastardos de Jaime v que
haviam nos acompanhado receberam aba dia s francesas, mas eu
n  o queria isso para Iain. os tempos estavam mudando, e eu ainda
tinha na lembrana o que acontecera com o cardeal Beaton; existiam
outras carreiras fora da Igreja, na qual se podia subir muito, mas
tambm descer bastante, indo talvez at parar no fundo de um
poo. como j  disse, eu n o confiava no mais velho dos bastardos,
que agora gostava de ser chamado de Lord James; alm do priorado
de saint Andrews, ele adquirira na Frana o de Mcon e recebera
a promessa de trs outros benefcios por ordem papal. Ainda me
recordo de seus olhos cinzentos e frios, mirando-nos quando es-


                             271
#t vamos  df  partlda;  11ao  vlrla  oI1o5o,  mas  eu  nao  slbla  se  el
delXarla de retorIlaI' ... Esccla . Madame Marie se despediu afetuo-
samente de Lord James, pois lhe era grata; ele j  repelira uma
fora inglesa que tentara illvadir Fifeshire, e, ademais, tinha sempre
o cuidado c-le ll o ofendel' >lidnrrie. Eu, porm, n o conseguia deixar
<1e ver llele os traos da m e, clue llascera Margaret Erskine. Esta
j  era mi1111a co1lllecida. casara de m  vontade com Douglas de
Loch Leven, due viria a tombal' na batalha de Pinkie cleugh. Qual1-
do a v1, alllda eril uma morella bonita, muito embora j  houvesse
dado seis filhos ao marido. como j  relatei, Jaime v a tomara do
marido e a conservara collsigo at ela gerar Lord James. Dizem
que o rei gostaria de despos -la, mas tal casamento n o era possvel.
Ela acabou crialldo os filhos de Dougla s no castelo de Loch Leven,
enquanto nadante se encarregava de educa r Lord James, tendo sido
sempre bonclosa para ele.
  Na via gem para a Inglaterra, tivemos uma escolta de dez navios.
A travessia ll o foi t o dura cluando a que enfrent ramos vindo
para a Frana com a pequella soberalla, mas mesmo assim sofri
bastante e fiquei aliviada duando avistamos Portsmozzth; devera-
mos ter desembarca do em Rye, ma s perdemos esse porto por causa
das tempestades. Madanie ma ndou informar de nossa chegada o
jovem rei, e, t o logo a notcia se espalhou, muitos lords e outros
nobres correram a nos receber e a oferecer hospitalidade. De todos
eles, lembro-n1e melllor do collde de Arundel, um homem grande
e cordial com cuelll n1e seIltl ... vontade. Mndalrre deu ... belssima
filha do conde um bordado, feito por La Reinette, que representava
a crucifica o. Era outubl'o, e contilluamos a viagem. Havia cas-
telos e mallses campestres recm-construdas, pois a Inglaterra
era agora um lugar ollde se vivia com elegncia, sem medo de
incurses; o conforto era como o da Frana, e, em algtzns luga res,
talvez at ma ior. seguimos caminho para Guildford, onde ramos
esperadas por ningum menos que Lord William Howa rd, e foi
com certo pesar que nos despedimos da escolta de nobres. Antes
do fim do dia, pude ver as grandiosas chamins de Hampton court
se elevarem acima das  guas cinzentas do Tmisa; e, em meio ...
multid o de marqueses, condes, fidalgos pension rios, soldados
de cavalaria e batedores que nos cercava, aproximamo-nos do pa-
l cio que, uma gera o antes, fora surrupiado ao cardeal Wolsey


                      272
#               por Henrique vIII. os prncipes da Igreja nem sempre termina m
               prsperos.
                 os marqueses fizera m reverncia e nos deixa ra m aos cuidados
               das mulheres, que nos esperavam. A noite ca ra. J  havamos co-
               nhecido Lady Northa mpton e o marido em Boulogne. Nossos apo-
               sentos foram adornados com belas tapea rias, e houve um baile.
               Mais ta rde, os nobres voltaram, como se aquela fosse a prpria
               corte de Madame Marie. No dia seguinte, foram ... caa de gamos,
               e ficamos observando; ent o vimos, na  gua , uma grande quanti-
               dade de ba rcaas, todas douradas e almofadadas, e uma delas fora
               preparada para >rradarne. Descemos o rio acompanha das pelas ou-
               tras barcaas, que pareciam grandes peixes, com os remos mergu-
               lhados uniformemente nas  guas calma s do outono. chegamos ao
               pal cio do bispo de Londres e nos hospedamos l . como cortesia,
               o prefeito j  nos enviara provises: p es; garrafas de vinho e cerveja;
               carne de vaca, carneiro, vitela, leit o e gamo; codornas ainda por
               depenar; esturjes, que fediam um pouco; salmes frescos; lenha
               e earv o. As carnes, cruas, ja ziam nas grandes mesas das cozinhas
`              do bispo; a carne de porco brilha va , e ainda esta va m pa ra ser
               abertos os pacotes de especiarias. Aquela vis o me deixou enjoada,
               e tornei a subir para o anda r de cima.

                 Em carrua gens, viajamos da ca tedral de s o I'a ulo para Wes-
               tminster, a fim de vermos o rei. Eu estava interessada em observar
               as acompanhantes de incrdrrte; minha carruagem seguia logo atr s.
               L  estava Lady Margaret, a filha de Angus, que ca sara com Lennox
               e que, dizia-se, era uma esposa bastante devotada ao ma rido; ta m-
               bm era muito amiga da princesa Mary Tudor e catlica fervorosa.
               Trajava-se com simplicidade, usando coifa e, no corpete, trs bro-
               ches, dos quais pendiam correntes estreita s, ... moda inglesa. Era
               loura e bonita, e dava a impresso de ser basta nte serena; pensei
               que ela n o parecia capaz de ter apoiado o odioso plano para
               envenenar La Reinette, mas a s aparncias podem ser enganosas.
               Lennox estava em outro lugar. Na carruagem de rnadrrme, iam tam-
               bm a duquesa Frances de suffolk, sobrinha de Henrique vIII,
               uma mulher corpulenta e autorit ria, e sua filha, Lady Jane Grey,
               uma criaturinha reprimida que, dizia-se, tinha inteligncia prodi-
               giosa e apanhava bastante. N o sei o que conversaram durante a


                                          273
#viagem; rrindnirte n o me contou nada mais tarde. como sempre,
havia multides para nos ver passar; era um belo dia, sem aquele
nevoeiro pesado que  t o comum em Londres, sobretudo naduela
poca do ano.
  Dois homens nos receberam e nos levaram at o rei. um deles,
o ma rido da duquesa Frances e pai de Lady Ja ne, era um homen-
zinho insignificante, de barba fina e olhar mesquinho. o outro n o
tinha aspecto menos vil: John Dudley, ent o recentemente elevado
a duque de Northumberland, que fizera o falecido somerset, nosso
perseguidor, ser executado na Torre de Londres. Eu j  vira o vulto
branco dessa constru o assomar da s  guas calmas do rio, junto
.. imponente e antiqussima ponte, e pensara em todas as pessoas
que foram aprisionadas ali, como duas das esposas de Henrique
vIII e, depois, possivelmente, a princesa Elizabeth, embora eu n o
ache que ...quela altura ela j  tivesse sido encarcerada. Nunca a
vimos, nem sua meia irm , a princesa Mary. uma taga rela que
estava em minha carruagem contou que Mary adorava roupas lu-
xuosas, mas que Elizabeth preferia trajes simples, usava o cabelo
liso e repartido no meio, como uma freira, e mantinha o olhar
sempre baixo (hoje, Elizabeth Tudor certamente j  a prendeu a ca-
chear os cabelos, engalanar-se e erguer a cabea). Havia um rumor
de que ambas as filhas de Henrique vIII seriam mais uma vez
declaradas bastardas (coisa que j  fora feita e desfeita em v rias
ocasies, tendo como resultando o fato de que as duas eram cha-
madas ou de Indy ou de princesa, conforme soprassem os ventos),
e que nossa Reinette seria a legtima herdeira da Inglaterra, por
ser neta da velha ralIllla Margarida Tudor, falecida muito antes.
  o jovem soberano estava ... nossa espera; tratava-se do filho que
Henrique vIII almejara por tanto tempo e que, enfim, conseguira
com a terceira esposa. o rei Eduardo vI era um rapazinho magro
e p lido, de olhar insond vel; embora ainda n o estivesse a doen-
tado, eu por alguma raz o percebi que ele n  o viveria muito. Ma-
dame Marie, em suas roupas negras de luto, fez uma reverncia
magnfica; o menino (um ano mais novo que o falecido duque
Franois de Longueville) retribuiu o gesto, e, tomando a m o de
mndnme, conduziu-a em meio a uma longa fileira dupla de guardas
at os aposentos reservados a sua Graa. No jantar, tornaram a se
ver. Ns, as damas de companhia, fomos colocadas em trs mesas


                            274
#... parte, e n o pude escutar nada do ue os vutros sussurravam;
mas madrrrne e o rei, sentados diante das ta as de ouro e prata
macios, estavam bastante entretidos em sua conversa. Depois do
jantar, consegui ouvir uma coisa que foi dita quando passaram
por mim e foram apreciar um pouco de misica. os dois j  es-
tavam se dando bem, e o rei Edulrdo perguntou cortesmente a
madnme o que ela achara da Inglaterra; os l bios severos de
Eduardo, que lembravam os do pai, abriram-se num sorriso,
coisa a que n o estava acostumado. N o conhecera muito riso,
aquele rapaz. com menos preceptores pomposos e menos ser-
mes de John Knox, poderia ter sido um jovem alegre, tal como
Henrique vIII fora quando moo.
  No entanto, ouvi mais tarde uma histria que mostra que Eduar-
do vI era mesmo um Tudor, e que, se houvesse vivido mais, teria
sido cruel. Ele evidentemente ficara furioso com o tratamento que
lords e tutores gananciosos Ihe davam, e, um dia, convocou-os to-
dos. Estava com seu falc o, que depenou por completo; depois,
espalhou as penas pelo ch o e disse:
  - Foi assim que os senhores me usaram, e  assim que eu
usarei os senhores.
  N o viveu para fazer isso, mas pude imaginar o fa Ic o, aquela
pobre criatura fiel e bem adestrada, tremendo e sangrando sem
retaliar. coisas assim me dizem muito; talvez n o tenham impor-
tncia, mas n o as esqueo.
  como eu ia relatando, o rei perguntou a rnadmne o que ela achara
da Inglaterra. Madarne respondeu com a cortesia habitual, afirman-
do que gostara bastante do pas e que o que mais Ihe agradava
ali era o rei.
  - A senhora, porm, n o quis ter-me por filho - disse Eduardo
vI, em tom de censura.
  Pensei em todas as guerras que haviam ocorrido por causa dessa
recusa. N o teria sido melhor permitir o divino casamento, como
o chamavam alguns de nossos lords, e assim poupar muito sangue,
muitas colheitas, muitas belas abadias? s Deus sabe, mas, em
todo caso, as coisas aconteceram de modo diferente.
  Mais tarde, rrladame me contou que o rei ingls tentara conven-
c-la a desistir do casamento da Reinette com o delfim.
  - Ele falou como um desses severos pregadores de Genebra,


                            275
#e disse a mim, uma mulher com idade para ser sua m e, cue seria
muitssimo convelliente a Lmi o dos reinos da Escecia e da Ingla-
terra. Afirmou cue isso poria fim ao derramamento de sangue e
traria para sempre a paz. Eu repliquei ue os illgleses deviam ter
pensado na paz antes.
  - E o que ele disse? - pergLmtei, tenta ndo controlar o mal-estar,
que senti durante toda a visita a Londres; pensei que os enj"os se
devessem ao nevoeiro e due eu melhoraria quando cheg ssemos
d  Esccla, mas nao stava  a1151o5a p2la  vlagem.
   Da aIlll, 111l7d1IlllL' oIhava para  a Ilolte outoIlal que caa e para
o Tlmlsa, com suils barcaa s e botes.
   - o rE:l E'ntao dlssE':  "Posso gara ntlr i sE'nhora quE' quem quf r
que despose a rainha da Esccia n o poder  conta r com nenhuma
bondade de minha pa rte e me ter  por eterno inimigo". - Ela se
virou, torcendo as pesadas saias. - ser  que minha filha s co-
nhecer  a  hostilida de? Expliquei a ele que, se a m o de minha
filha tivesse sido pedida de forma humana e gentil, se eu houvesse
sido collsultadl, o casamento ingls poderia ter dado em alguma
coisa. Mas o rei n o ficou satisfeito. Prcisei prometer que men-
cionaria o assunto ao rei da Frana qtlando volt ssemos para a
Esccia.
  - o casamento j  est  a certado,1lmdmlle. A senhora n o pode
mudar as coisas simplesmente mencionando o a ssunto. E, alm
disso, h  o lloivado do prprio Eduardo com Madame Elisabeth,
a filha do rei da Frana .
  Tratava-se daquela filha da raillha catarina, a bonita menina
morena que j  era bastante amiga da Reillette. Mais tarde, seria a
terceira esposa do rei Filipe II da Espanha. Muita coisa depende
da sobrevivncia da s crianas.
  Por mais que Eduardo vI se ressentisse da falta da ex-noiva
escocesa, ele enviou de presente a rnadarlte dois cavalos, um dos
quais montei, e um anel de diamante, que sua Graa colocou no
dedo. Nunca mais tornamos a ver o rei da Inglaterra. Morreu menos
de dois anos depois, dizem que envenenado, mas pode ter sido
um.a febre ou um fraqueza herdada; seu pai n o nascera saud vel.
o cad ver ficou dias num quarto, sozinho, e o mau cheiro cllegou
a tanto que ningum se atrevia a aproximar-se, at que acabaram
por enterr -lo de a lgum modo. Houve ent o mais crise na Ingla-


                            276
#terra, e o duue de Northumberland, o mais alto daqueles dois
homens vis, insta lou no trono La dy Ja ne Grey, a filha do mais
baixo. Ela reinou apenas nove dias e foi depois executada por Mary
Tudor, agora rainha Maria I da Inglaterra.
  I'a rtra mos muito antes disso, escol.tada s pelos nobres cle Mid-
dlesex e depois pelos nobres de todos os outros conda dos ingleses
cue atravess vamos. Em Hertfordshire, encontra mos sir Ra lph sa -
dler, velho conhecido de nrndn>ne; e, depois, a famosa duquesa viva
de suffolk, cuja m e fora ntima de catarina de Arag  o, a primeira
mulher de Henrique vIII. Fomos para o norte por etapas, at che-
garmos a Berwick-upon-Tweed, onde nos esperava ningum me-
nos do lue o Belo conde de Bothwell, ansioso para p"r fim ao
exlio em que se encontrava. Ele n o parecia bem. Madrzrrre viu sua
aparncia desprezvel e n o fez nenhum coment rio, a ssim como
eu, que ...quela altura j1 descobrira a causa de meu mal-estar. N o
era nem o nevoeiro de Londres, nem a travessia do canal da Man-
cha , nem algo que n o pudesse ter sido previsto - a n o ser, 
claro, pelo fato de que eu n o o previra, ou, pelo menos, n o a
tempo. Durante a viagem, tentei conseguir alguma s ervas, mas
isso n o foi possvel, pois eu precisava estar sempre perto de rrtn-
dnnte, que estava feliz por ter algum em quem confiar; ademais,
eu tentava controla r o cavalo arisco que o rei Edua rdo nos dera,
e esperava, desesperada, que o esforo desalojasse certa coisa de
dentro de mim. N o foi o que aconteceu; na da adiantou, e, quando
alca namos stirling, encarei a verda de. Estava gr vida, finalmente
carregando um filho de Andelot, e n o tinha como me livrar da
criana.

  como dizer a irtndrzrrte, pela segunda vez, que eu me encontrava
naquele estado? Era verdade que, agora, n  o esta va gr vida de
seu marido; no enta nto, engra vidara de um servia 1, o que era
pior, e isso indicava uma frouxid o de car ter que Madame Marie
seria a primeira a abominar, em especial depois do comportamento
de que Lady Fleming dera mostras na Frana. Achei que rrirrdame,
a despeito de todos os nossos laos de infncia, teria raz o em
dispensar-me tal como fizera com Lady Fleming; e para onde eu
iria depois? N o poderia voltar humilhada para vouvray e ali dar
.. luz um filho do intendente. I'or motivos semelhantes, tambm


                           277
#n o poderia retornar ... corte de Henrique II. Mais uma vez, estaria
perdida no mundo, e por minha prpria culpa. Deitada na cama,
pesei a situa o noite aps noite; mas a culpa no me deixava
insone, ao contr rio do que seria de se esperar; em vez disso, estava
sempre sonolenta, como se a criana me sugasse a vida. Depois
que os enj"os se foram, passei a comer como um cavalo. Dali a
pouco, embora no de imediato, as mudanas em meu corpo co-
meariam a dar na vista; meus seios, ali s, j  estavam maiores.
Lembrei-me do suplcio que passara quando La Reinette era beb
e eu precisara carregar seu pequeno corpo para disfarar minha
barriga, na liteira que nos levava de Limithgow para stirling. Ago-
ra, est vamos mais uma vez em stirling, e eu j  tivera tempo de
refletir sobre minhas faltas; decidi confessar-me com um padre, e,
talvez, pedir-lhe conselho. Disse a rnadarne que iria a um confes-
sion rio; ela era a primeira a entender essa necessidade, pois con-
fessava-se regularmente, muito embora lhe faltassem pecados, se
comparada a mim. coloquei a capa (j  era inverno), atravessei a
p a ponte do castelo e percorri a rua, que estava silenciosa, at
a igreja dos dominicanos de stirling, onde, muito tempo antes, eu
casara com Alasdair Dorch MacGregor.

  N o sabia o que fazer. N o vi nenhum padre na igreja e fui
ajoelhar-me na capela de Nossa senhora da Piedade, onde costu-
mava ir ... vezes; tornei a rogar que ela me ajudasse. Lembro-me
de ter olhado fixamente a efgie do homem louro que, contaram-me
havia muito tempo, poderia ser de um rei da Inglaterra. Aquela
estranha histria me fascinava, mas n o era mais estranha do que
a minha. Tal como antes, n o consegui rezar. Dizem que  nesses
momentos que chega o socorro, e ele veio de forma t o extraor-
din ria que parecer  incrvel. J  se aproximava a hora das vsperas,
e, apesar de todos os esforos dos reformadores, muitas pessoas
ainda gostavam de vir ... igreja. Recordo-me de que, naquele final
de tarde, havia ali algumas; a maioria eram mulheres, mas vi tam-
bm um soldado com o brao enfaixado numa bandagem bastante
suja. Esperamos, e dali a pouco se ouviu um canto; o abade, com
a grande cruz de ouro ... frente, entrou em prociss o, seguido pelos
monges, todos vestidos de preto. o ltimo, nos trajes de um irm o
leigo, era ningum menos que James Melville. Parecia p lido e


                             278
#frlco, como ali s podia muito bem estar, e rezavl o tero. Era o
Illals mslgIntlimte daclllcls monges. I,f'ITlbr1-lllc' cIltao d  como
dlssf ra,  todo  orgulhoso,  cluc  o  plpa  cIf ra  ordlll5  para  quc  n1o
torlllssn1 a alti1-1o na ordf'111 dos fraIllsa11o5; I1o enta nto, dc'vem
ter permitido ue recomea sse de baixo, dessa vez entre os domi-
n1a11o5. Lf vaIltel-mc  e ful a t o11dc' f'lf  estava . MclviIlc' c'rgueu os
olhos e ent  o virou o rosto, llorrorizado.
  - Tenha piedade de mim, mulher, e v  embora - sussurrou.
- EL1 me collfessei e recebi a absolvi o. N  o me tente mais. Eu
abjuro de llosso casamento. Ele n o se realizou pelos ofcios da
santfl IgTf 1, da  qual mals ullla  vez soLI f1111o obdlntc.
  Fez o sinal-da -cruz e, antes que eLI pudesse esbofete -lo, conti-
nLIoLI a alldar.
  - Tambm abjuro - disse-lhe. - Eu poderia muito bem ca-
minhar a seu lado at o altar e dizer a todos eles qua is eram as
suas prega"es e o que fez ao cardeal. Mas se jurar pela hc5stia
consa grada que estamos divorcia dos e que ll o torllar  a me in-
comodar, eLI irei embora.
  os outros mollges j  estavam se voltando, por causa do barulho,
mas n o me importei. vi Melville a ssentir e prometer.
  ca millhei a passos firmes para a rua, sem saber o cue eu pre-
tendera com acluilo ou que atitude tomaria ent o. Mas j  havia
uma coisa que poderia fazer. Tirei do dedo a alia Ila de ouro que
Alasdair Dorch me dera e que eu usara naquele falso casamento,
quando Melville fora demasiado avarento para comprar-me outra;
recoloquei-a no dedo. Depois, subi para o ca stelo. N o gosto de
mentir, mas podia em verdade dizer a Madame Ma rie due eLz reen-
contrara meu marido e que ele illsistira em seus direitos. N o pre-
cisava dizer que direitos, e a duilo a judaril a mim e ... crialla que
estava por na scer e torllaria mellos desa grad vel a lembrana de
Melville, um assa ssino e duas vezes renegado que voltara a en-
vergar o h bito de mollge em meio a llomens decentes.
  Falei com Ilrrzdanic: e a deixei pensar o clue quisesse. Quando,
um  pouco  mais  tarde,  ficou  evldcIlte  cuf'  cLI  stava  gravldl,  el
me olhou com aqueles olhos cillza-azulados, cheios de d, e, muito
delicadamente, p"s a m o I1a manga de meu vestido.
  - Minha pobre claudine... - foi tudo que ela disse. - Minha
pobre claudine...


                             279
#  o parto acabaria acontecendo no castelo de stirling, nos prprios
aposentos de rindnrrie. Imaginou-se que fosse prematurv, por causa
dos choques que eu sofrera . Dura nte a gravidez, difundiu-se dis-
creta mente entre os outros membros da corte a idia de que, em
certa ocasi o, eu revira meu marido. Achavam que se tratasse de
um indesej vel, pois eu nunca o visitava da maneira habitual. To-
dos se mantinham circunspectos em minha presena, e n o me
importava o que dissessem quando eu n o estava por perto, j
que me encontrava sempre em companhia de rnndnryie. Ela n o
permitiu que eu voltasse a sair sozinha; durante todos aqueles
meses, providenciou para que me servissem todos os pratos que
eu quisesse, ainda que a comida fosse escassa e a situa o ficasse
cada vez pior; e, embora rrindnnie precisasse percorrer o pas em
tribunais volantes com o tolo chtelherault a fim de tentar con-
quist -lo para nosso la do, ela arranjou tempo para ficar comigo,
em especial no fim da gravidez. A essa altura, eu era um espet  culo
lament vel, inchada como um sapo, t o gorda que j  n o conseguia
ver meus prc5prios ps; sempre a rfante, andava tal qual uma pata
choca, sem mais dar la os no vestido e com os seios cados como
beres de va ca; sentia due uma manada de cavalos esta va dentro
de mim. A bolsa estourou quando est vamos na missa, e rrindnrne
me tirou dali e me fez deitar em sua cama. comecei a gemer de
dor; nada, porm, saiu de meu ventre. Grunhi e forcejei durante
muitas hora s; Madame Ma rie n o podia estar comigo o tempo
todo, mas vinha sem.pre que possvel, e, no final, segurou minhas
m os; ela ainda usava luvas de montaria, pois a cabara de chegar.
Em minha agonia, apertei bastante o couro das luvas, o que deve
ter machucado seus dedos esguios, mas ela n o se afastou.
  - Aaah! Aaah! Mndarne, no me deixe! Aaah, n o me deixe!
Aaah! Aaah!
  As l grimas escorriam por meu rosto, e eu urrava como um
anima 1. Nunca senti uma dor como aquela . o tem.po ia passando,
e rrmdnme murmura va suavemente:
  - Logo tudo estar  acabado, claudine, minha pobre claudine...
Logo tudo estar  acabado...
  Mas n o acabava, e eu fazia tanta fora quanto uma porca na
paridela. Jurava que nunca mais me deitaria com um homem e
que todas as desgraas do mundo eram culpa do sexo masculino


                           28o
#(outros acreditam que s o culpa das mulheres, como mestre John
IIloX 11  devla  estc3r  pensmdo  cIltao.  No  flIlal,  qu.ando 11  f'stava
qua se pdrtlda ao melo, Ilascf ram gf mf os, o qu c'xplicava por qll
eu engordara tanto. vieram um logo depois do outro, e o cord o
umbilical do segLmdo se enrola ra no pescoo d.o primeiro - por
isso o parto demorara tanto. Graa s a a lgLml milagre, n o morreram
nem me mataram; ambos eram mellinos, let rgicos mas ainda vi-
vos, e ambos eram a imagem de Andelot. Mais tarde, mandei-os
para uma ama-de-leite que vivia no sop de Abbey craig. PoLIco
me importa va se tornaria a v-los ou n  o.

   Madarlie continuou passando muito tempo com clltelherault
nos tribunais volantes. Esses tribunais percorriam tanto o norte
quanto o sul, nas Highlands, nos condados de Aberdeen, Elgin,
Inverness e Banff e, mais tarde, na fronteira; eram longa s caval-
gada s e trabalho bastante duro pa ra tlma mulher. De modo geral,
Mada me Marie e chtelherault se suporta vam; enduanto rliadonte
esta va presente, seu encanto o conquistava. No lue dizia respeito
a  ustIa,  acabou-se  conclulndo  Lut'  a  vluva  cjc  Jalm  v  ra  tdo
capaz cluanto  ele, ou quanto  chdtlllf rault.  Ela  dccrto  dem.ons-
trava mals mlserlcrdla, e 11ilo houve nenhLmla ocasl o n1 cue
tenha agido como o falecido rei fizera com Jolmnie Armstrollg, o
salteador da fronteira: enforcou-o t o logo o ca pturoL1 com Ealsas
promessas de anistia.
  com o nascimento dos gmeos, eLI por certo deveria ter ora do
bastante e voltado a me comportar como uma freira, mas n o foi
o que fiz. se meu pai, o duque claud, usara u.m bracelete de ferro
espigado para penitencia r-se pelos pecados da carne, n o havia
dvida de que eu deveria ter passado a usar um cinto de castidade
espigado. Depois daquela memor vel semana com Andelot, resolvi
que seria prudente no futuro, para meu prprin bem e para o de
ItrrcInme, mas isso nem sempre era f cil; no entanto, consegui ar-
refecer o clamor de meu corpo, ma is em considera o a ela do
que a mim.

  Passei os anos seguintes exercendo, a contragosto, o papel de
m e, ainda que n o o de esposa. T o logo meus filhos foram des-
mamados, Madame Marie insistiu em que fossem trazidos de Abbey


                           281
#craig e criados no castelv, sob sua superviso e sob a minha , pelo
que quer que valesse essa ltima. Madnrne ainda estava ocupada
com o fraco chtelherault, e sei que ela pretendia tomar-lhe a go-
vernana - mas, mesmo sendo LIm intil, chtelherault no pre-
tendia desfazer-se da posio, a despeito de todas as lisonjas e
exemplos de rriadnrne.
  Lembro-me bem de uma das vezes em que ela voltara caval-
gando para stirling. Meus filhos tinham ento trs anos. o jovem
Eduardo vI j  morrera , e sua irm, a rainha Maria, embora catlica
como ns, ainda permitia incurses em nossa fronteira, ...s qua is,
como era natural, respondamos na mesma moeda. Mndrzrne fizera
o possvel para lidar com esses ataques, e, agora, sentava-se numa
banqueta com os ps levantados, p lida e exausta.
  - Minha perna esquerda est  me incomodando - disse-me.
- Ficou inchada com todas essas clvalgadas. cuide dela, claudine.
  Ergui suas an guas e massageei-lhe a perna , que estava mesmo
um pouco inchada. Isso deixou rrrndrrnie aliviada, e de repente ela
olhou para mim e disse:
  - claudine, estou a cua da por todos os lados. Esto me pres-
sionando para que eu apresse o casamento francs e assim os deixe
em posio segura. Mas como poderei importunar outra vez o rei
Henrique? Alm disso, minha filha ainda  nova demais - con-
tinuou, e ent o sorriu subitamente e pediu que eu mandasse buscar
os gmeos. - Fico tanto tempo fora que ainda no sei o nome
deles.
  Fiquei muito envergonha da, pois a verdade era que eu havia
deixado os meninos a cargo da ama e ainda nem os batizara, muito
embora os visitasse todos os dias no quarto, e, quando fazia bom
tempo, os levasse para passear nas muralhas ou, ento, no parque
11 embaixo. Eles vieram, cambaleantes, e dispensei a ama. Mur-
murei que ainda no haviam sido batizados, pois eram sadios e
no corriam risco de vida, e que eu esperara a volta de sua Graa
para pensarmos juntas num nome. Mndnme n o se deixou enganar
e me lanou um olhar de censura. seus traos estavam um pouco
mais marcados, e ela parecia mais velha do que era, coisa que no
chega a espantar. Eu lhe disse que volta e meia pensava em nomes
de santos, e perguntei o que achava de cosme e Damio. Eu no


                             282
#               conhecia nada a respeito deles, e, pelo que sabia, aquele nem era
               o dia desses santos; os dois, porm, s o sempre mencionadosjcrntos.
                 - Eu nunca soube de ningum cue se chamasse c"me - disse
               rrradrznre; fal vamos em francs -, mas Damien  bonito. Que tal
               dar esse nome a um deles e talvez dar a o outro o nome de s o
               Gilles?  um santo de que gosto muito, o padroeiro dos indigentes,
               dos aleijados, e, n o sei por qu, dos ferreiros. soL>reviveu com o
               leite de uma cora, e depois a sa lvou das flechas dos caadores;
               ela ent o se juntou ao santo em sua caverna. urn osso de seu brao
               est  em Edimburgo. voc acha que seria uma boa escolha?
                 Ansiosa por me sair bem, insinuei cue a vers o escocesa  do
               nome, com um I a menos, seria melhor, de modo due um gmeo
               seria francs e o outro, escocs. Assim, aca baram sendo Giles e
               Damien, e, durante a estada de rnadnrrre, foram batiza dos na mesma
               capela m que minha bolsa arrebentou e onde La Reinette tinha
               sido coroada. Depois do batizado, comecei a lev -los com znais
               freqncia ao parque. Jaime v certa vez cara do cavalo ali, e,
               dizia-se, nunea mais recupera ra a sace. As  rvores eram bonitas
'              no ver o. Mndarne tornara a via jar.

                 Deixei os gmeos em stirling. Enquanto isso, sua Graa acabou triun-
               fando, temporariamente, sobre os advers rios. venceu-os com lisonjas,
               ardis, subornos, cartas enviadas ... Frana e ... Inglaterra e cavalgadas
               de uma ponta ... outra do pas, cuidando de que a justia fosse feita.
               Tambm p"de dizer, com muita verdade, que chtel.herault acabara
               com o dinheiro do reino, gasta ndo-o t o liberalmente consigo que
               restara um dbito de trinta mil libras, o dual ela n o teria jamais
               como pagar. Infelizmente, Henrique II da Frana prometera a
               chtelherault a transferncia dos dbitos para rrrrrdarrre caso ele
               renunciasse ao posto de governador; ela mesma lhe garantiu o
               dinheiro de todos os impostos arrecadados desde a  morte de
               Jaime v. chtelherault assinou o acordo, pois, no final das contas,
               este ainda lhe garantia o dinheiro e o dispensava de toda e qualquer
               atividade; alm disso, at mesmo ele deve ter percebido a mudana
               de opini o entre os lords e os populares, que n o mais o acla-
               mavam quando saa a cavalo pelas ruas. Agora, davam vivas a
               nradame, que, a essa altura, era a personagem mais amada do
               pas. Tais aclamaes finalmente se fizeram ouvir do lado de fora


                                           283
#do pal cio de Holyrood, quando um grande soa r de trombetas
anunciou que a regente da Esccia estava entzando no conselho;
na ocasi o, ela usava coroa, cetro e trajes cerimoniais. Mais tarde,
naquele mesmo dia de abril, cavalgamos para o mercado de Edim-
burgo, em meio a multides a gitadas e ao rudo das salvas de
canh o. chltelherault ficou com ca ra de bobo, e tinha por que
estar assim, uma vez que, apesar dos benefcios recebidos, assinara
de m  vontade a renncia formal. Quase n o suportou a idia de
que, enfim, abriria m o do poder; e, a bem dizer, ainda n o nos
livr ramos dele.

  Agora que est vamos vivendo em Edimburgo, pude fazer uma
boa a o da qual j  pretendia me desincumbir havia muito tempo.
Fui ao mercado e comprei um pequeno broche de prata, que des-
pachei para christiania Grant em Freuchie. o broche tinha formato
de cora o, e mais tarde descobri que, muitas vezes, esse tipo de
adereo era trocado pelos casa is como presente de noivado. s me
restou ent o esperar, lembrando o que cllristiania sentia por Alas-
dair Dorch, que o broche n o a tenha ma goado. Eu nunca soube
se ela recebeu o presente, mas essa falta de notcias talvez se devesse
.. poca .

  A despeito da constante necessidade de aplacar Henrique II, eu
n o achava, e ainda n o acho, que Madame Marie devesse ter
dado a franceses cargos em lugares remotos. As orcades s pas-
saram a pertencer ... Esccia nos tempos da av do falecido rei,
Margarida da Dinamarca, Noruega e sucia, quando Jaime III as
recebeu como compensa o por uma parte do dote que nunca foi
paga. os trs reinos nrdicos j  n o estavam mais unidos, e o
povo das rcades ainda nem sabia a que pas pertencia. Falava
um idioma diferente do escocs e do galico, e, sendo assim, como
ele e Monsieur Bonet poderiam entender-se? Foi um desastre.
  Ademais, Monsieur de Rubay recebeu a vice-chancelaria; Mon-
sieur villemort (que eu conhecia bem, pois ele j  estava a servio
de riradrrrne) se tornou tesoureiro e fez o melhor que p"de com os
impostos que iam sendo arrecadados; e Monsieur Roytell foi no-
meado mestre-construtor, uma indica o que despertou ressenti-

                            284
#mento entre os escoceses. Mencionei isso a rrrrdnrrre., lue naluela
poca n o se deixou perturbar pelv a ssunto.
  - N o posso confiar num escocs - disse-me.
  Era verdade. Exce o feita ... gente das Highla nds, os escoceses
tm um estranho senso de honra - ou melhor, n c tm nenhum.
sempre ficam do la do que estiver vencendo, como ficou inmeras
vezes demonstrado no caso da cueles que, conforme suas conve-
nincias financeiras, oscilavam entre Esccia e Ingla terra e entre
catlicos e reformadores. "coisa de escocs!", bra da ra muito tempo
antes o velho Henrique vIII, ao ser informado de que o conde de
Angus desertara para a Inglaterra com a mulher, Margarida Tudor,
e a filha (mais tarde, porm, o rei ficaria t o afeioado a Angus
quanto a Margarida, que, vale lembrar, era sua irm ). Em todas
as faces, havia mudanas e reviravoltas similares.
  Depois que chtelherault saiu da ca pita I, rrrndarrre se transferiu
para l . o castelo de stirling continuava em sua s m  os, mas a ele
se acrescenta ram os de Edimburgo e Dumbarton e os pal cios de
Falkland, Limithgow e Holyrood. Deslocando-se do castelo de
Edimburgo, ou mesmo de Holyrood, rrrodnrrre comparecia ...s reu-
nies do conselho; eu com freqncia a acompanhava, e, dessa
forma, fiquei a par de muita coisa. ouvi, por exemplo, rrradanre
ordenar ao conde de Argyll, o chefe dos campbells, que fosse
pa cificar as Hbridas, mais uma vez rebelada s (na poca, n o ex-
pressei nenhuma opir o sobre a sensatez de enviar os campbells
para l ). J  o conde de Huntly, lder dos Gordons e chanceler da
Esccia, foi subjugar o norte; mas n o conseguiu cumprir essa mis-
s o, e, para justificar-se, alegou que nas Lowla nds n o arranjara
soldados em nmero suficiente porque n o havia montaria s, e <lue
na s Highlands fora prejudicado pelo levante de certo John de Moi-
dart, cuja esposa estava de algum modo relaciona da a o cl  dos
chattans. Nem rnadarrre nem eu sabamos cluem eram exatamente
essas pessoas. Madarvre gostava de Huntly, e ficou feliz quando ele
escapou dos ingleses e passou o Natal com ela; n o obstante, teve
de prend-lo no castelo de Edimburgo. Depois, em vez de ba nir
Huntly, decidiu mult -lo; ele tinha recursos mais do que suficientes
para arcar com isso, pois era conhecido como o Dono do Norte.
E, quando esse Gordon voltou a cair nas gra as de rrrrrdnrrre, ela
at falou em lhe dar um ducado (no entanto, o velho Angus foi


                        285
#contl'a, dizendo lue I'ecorreria ...s armas se Huntly recebesse tal
11o11rarla ; poI' coIlsf gumte, Ilao se tocou mals 11o  assunto).
   s  rcprcsntantes  dos  Trs  Estados  se  reumram  m lumlo  df
1555. Durante adueles dias quentes de ver o, llmdcrllie compareceu
a tod.as a s sesses, e de illcio as coisas transcorreram bem. Ela
declarou ent o que as liberda des da santa  Igreja tinham de ser
preservada s, intactas - cardea is n o deveriam mais ser assassi-
nados. Foram leva ntadas questes mellores, como a forma de levar
malfeitores a julgamento, o modo de trallsferir propriedades (gra-
as a 111l1dlIlIlc, alllda hoe fazem lsso con1 mals llabllld de I1a Escocla
do qlIe na Illglaterra) e a necessidade de guiar a m o de um homem
caso ele n o saiba escrever, e, mesmo assim, precise assinar. Ma-
dame Marie tambm deixou claro que os arrendat rios, antes de
serem forados a deixar a s terras onde estivessem, timlam direito
a um sobreaviso determinado por lei. outras medidas foram to-
mada s. Estabeleceram-se mtodos para lidar com homicidas e fu-
gitivos. Nellhum homem sem qualificaes poderia ser not rio. E
qualluer homem que cometesse perjrio deveria ter a lngua per-
furada e os bens confiscados; entret nto, pensei no nmero de
mentiras que se contavam por toda pa rte e conclu que n o con-
seguiriam furar toda s as lnguas.
  orgallizou-se uma comiss o para uniformizar pesos e medidas,
como j  acontecera na Inglaterra. Proibiu-se a exporta o de l  e
couro para aquele pas; Hellrique vIII zombara do sobrinho, Jaime
v, dizelldo due ele criava ovelha s dema is, mas esses allimais j
n o existiam em Ilmero slIficiente Ila Esccia, por causa das guer-
ras. Pelo mesmo motivo, Ilenhuma carne poderia deixar o pas,
exceto no caso de longas viagens martima s, quando ent o deveria
ser salgada; e, para que os cordeiros pudessem se reproduzir, seu
abate ficava proibido por trs anos. os caadores furtivos e os
ladres de mel e frutas sofreriam penalidades. As  rvores jovens
de Falkland foram protegidas, pois quase toda a madeira do pas
acabara sendo cortada para que se fizessem mastros de navio e
cabos de lalla. os ourives receberam pela primeira vez o reco-
nhecimento real, Ila forma de um sinete qlie marcasse seus traba-
lhos. Ademais, Madame Marie concedeu privilgios aos burgos e
..s pessoas que a apoiavam - pois sempre encorajava a lealdade.
  Na poca, Inndcllle estava feliz, embora ficasse longe da filha e


                            286
#              n o se sentisse muito bem. certa vez, eu Ihe perguntei por que
              retornara da Frana; sugeri que ela poderia ter permanecido l ,
              em chteaudun ou Amiens, contando de vez em quando com a
              presena da filha, e deixando ent o que um governador francs
              administrasse a Esccia. Mas rrtrrdarrte balanara a bela cabea, sor-
              rindo.
                - Quando me tornei rainha desta terra, fiz um juramento -
              lembrou-me. - Agora, n o renunciarei nem a esse juramento, nem
              a qualquer promessa que tenha feito. Alm disso, eu gosto de go-
              vernar.  bom pensar em permitir que o pas, daqui a alguns anos,
              volte a ser como era no tempo dos antigos reis, antes que Eduardo
              I da Inglaterra ocupasse Berwick-upon-Tweed, massacrasse a po-
              pula o e desse incio ...s longas guerras. Berwick era t o bela e
              t o rica quanto qualquer outra cidade portu ria. Temos riquezas
              aqui: a l , o chumbo, o ferro, o carv o, o ouro de crawford Moor,
              assim que eu puder explor -lo outra vez. outras naes negociar o
              conosco quando acharem que atenderemos prontamente a suas
              encomendas. Espero deixar uma Esccia prspera para minha filha,
`             mesmo que ela nunca mais visite o pas...
                seu olhar se perdeu, e percebi que rnndarrie pensava na criana
              que ficara na Frana e que estava prometida ...quela outra criana,
              ainda mais nova, o delfim. Mas depois continuou a falar, dizendo
              em voz alta:
                - Em breve, os vnculos de vassalagem, esses acordos para que
              os homens se protejam uns aos outros e a seus bens, n o ser o
              mais necess rios aqui. sei que, por causa dos franceses, podem
              comear a resmungar contra mim; mas antes resmungavam muito
              mais contra os ingleses. Logo seremos capazes de nos manter so-
              zinhos, sem ajuda de ningum.
                N o obstante, ela acabou dependendo bastante dos franceses.
              voltou a cavalgar para o norte, numa longa sucess o de tribunais
              volantes (no ano anterior, julgara salteadores na fronteira); nas
              Highlands, disse aos chefes dos cl s que apoiaria suas pr ticas
              feudais, pelas quais o chefe  como o pai do cl  e este o segue a
              servio do soberano; eles ficaram satisfeitos e se dispuseram a obe-
              decer-Ihe. Foi nessa poca que tornei a ouvir o nome de Am Gran-
              tach: James das Pilhagens morrera um ano antes, e seu filho, John,
              o Bondoso, era agora o chefe do cl . N o consigo imaginar que


                                           287
#tenha sido John a fazer o due vou relatar agora; devem ter sido
William ou Duncan, os filhos mais novos do primeiro casamento
de Am Granta ch, ou mesmo o jovem Archibald, j  crescido. Tive-
ram de caar dois criminosos, e, n o tendo conseguido apanh -los
vivos, acabaram por mat -los; em seguida, enviaram a sua Graa
a cabea dos bandidos. Ela ficou horrorizada; j  suportara demais
esse tipo de coisa, lembrando-se da bala de canh o em Haddington,
dos braos e prnas atlrados ... dlstiIlla, do sangu.   espantoso,
ali s, que tenha conseguido permanecer feminina, gentil e humana;
n o mudara, e sempre due possvel dava mostras de misericrdia.
certo homem foi decapitado em lugar de sofrer o estrangulamento
e a queima na fogueira , penalidades previstas na lei; outro foi ba-
nido em vez de ser executado; e um terceiro, que era muito jovem,
mas que profanara uma igreja e rotlbara seus c lices, pediu que
Ihe permitissem morrer por afoga mento, um destino geralm.ente
reservado a mulheres, e foi atendido. E11 nunca soube que ntrrdante
tivesse mandado torturar algum, ao contr rio do que acontecia
na Inglaterra.
  Madarne andara ocupada em regular os preos nos condados de
Elgin e Forres e em multar contraventores em Aberdeen, Dundee
e Perth. Quando voltou para Edimburgo, as m s notcias a espe-
ravam. Eu, desolada, aguardara a nsiosamente seu regresso, pois
j  sabia o teor das notcias: a jovem rainha da Esccia adoecera
na Frana, e, ...quela a ltura , poderia muito bem estar morta.
  sua Graa ficou lvida luando lhe contei.
  - se ao menos eu pudesse ir at l ! - exclamou.
  Percebi ent o que ela nem tivera tempo de se sentar ou alimen-
tar-se depois da longa jornada. I'erguntou qual a natureza da mo-
lstia, e respondi que, pelo tanto que sabamos, era uma febre; a
notcia chegara por carta , escrita na corte francesa algumas semanas
antes. o Natal se aproximava , e o a mbiente ficou sombrio; a preo-
cupa o estava em todos os rostos, pois os escoceses se pergun-
tavam o que aconteceria ca so sua monarca falecesse no exterior e
eles ficassem sob domnio estra ngeiro. "o rei da Frana reivindicar
nosso pas para o filho", queixavam-se, e talvez tivessem raz o.
  No Natal, j  haviam chega do mais notcias. Maria stuart me-
lhorara, mas seu noivo, o delfim, que sempre estava perto da rainha,


                          288
#contrara a Eebre. o que aconteceria se ele morresse? A rainha vol-
taria para casa? os fra nceses retornaria m a seu pas?
  Nessa poca, algumas tropas francesas se retiraram da Esccia,
por ordem de seu rei. Mas os escoceses, em vez de se alegrarem,
Eicaram furiosos; a bem dizer, n o havia  como content -los. Na
fronteira, as pilhagens voltaram a se repetir, e rrrndarrtc juntou as
m os em sina 1 de raiva e desnimo.
  - Precisamos arrecadar ma is dinheiro - a.firmou. - ser  pre-
ciso  criar  Ilovos  lmpostos.  s  slocsf s  Ilao  osta rao  dlsso,  mas
tambm n1o gostam de nada. A cada dia eu os acho mais ra nco-
rosos e desconfiados. Quando se tra ta de administrar a justia ou
dar punies, sc5 fazem por se queixar, smpre achando que que-
remos impor novas leis e mud.ar as deles. E estas, na verdade,
est o muito necessitadas de aprimoramento.
  Escreveu a nosso irm o, o ca rdea 1 de Lorena, pa ra tratar desse
assunto; eu mesm.a lacrei a carta. Ela tambm estava uIn tanto
preocupada com a ausncia de fortiEicacies contra os ingleses. N o
havia dinheiro pa ra constru-las nem tropas fl-ancesas pa ra guar-
nec-las; quanto aos escoceses, nada sabiam sobre essa forma de
defesa.
  - os lords concordam, mas n o a gente comum, que j  suspeita
de um im.po.sto perma nente - disse rtrrrdnrne.
  Tornou a juntar as m os, daquela sua manei.ra caracterstica. J
n o a ndava para l  e para c , cmo antes costumava fazer, pois
aPora s aIlsava com fallldad.
   - com.o fiquei fraca! E como estou longe do cora  o dos es-
coceses! - desabafou. - Tudo dem.ora demais, j  que n o sabem
cuem ser  seu senhor. se ao menos confiassem em mim!... Ma s
n o confiam!
  El.a me explicou que as coisa.s estavam piores do clue quando
chega ra 1 Esccia .
  - Ants, ell os conduzia como bem entendesse. Mas agora,
luando mostro um pouco de severidade para que possamos manter
a lei e a ordem, eles se rebelam e dizem que as minhas leis ,s  o
as dos franceses, e que as deles prprios s o boas, coisa que por
certo n o  verdade. Est  a a ca usa de toda a discrdia.
  Deixou os braos carem, e, alo desanimada, disse:
  - Posso afirmar com certeza que, nas ltimas duas dca das,


                           289
#n o houve um ano sequer em que eu pudesse repousar. o desas-
sossego  a maior de minhas provaes.
  Mencionei que, t o logo a rainha e o delfim estivessem ca sados,
a situa o ficaria mais f cil.
  - ser  mesmo? - ela perguntou, incrdula.
  seus l bios j  haviam adquirido a quele aspecto retorcido.
  - Torna rei a falar com eles - prometeu. - Discursarei quando
o Parlamento se reunir.

  Durante todo esse tempo, n  o houvera nenhum rumor de que
algum homem compartilhasse o leito da regente; ela continuava
casta e pura como a neve. E, desde o tempo em que Lennox e
Bothwell Ihe fizeram inutilmente a corte, tambm n o se falava
em Madame Marie voltar a casar. Na realidade, rrradarne conhecera
o amor havia muito tempo, despedira-se dele e agora estava preo-
cupada com o poder; como j  disse, ela n o era nenhuma Margarida
Tudor. (Quanto a mim, continuava aplacando o clamor oca sional
do corpo, em parte para servir melhor a ntadarrte, em parte porque
a prudncia recomertdava que eu n o me arriscasse a mais aven-
turas como a de vouvray.) os lords escoceses, entretanto, n o mais
respeitavam a regente, por mais sensata e corajosa que ela fosse;
acabaram por insult -la no Parlamento, fazendo muito rudo e exi-
gindo que viajasse de imediato para a Frana a fim de casar a filha
de uma vez por todas. Madnrne ficou ultrajada. Falara-lhes com
ponderaio, mas nem lhe deram ouvidos.
  - A rainha da Inglaterra est  casada com o rei da Espanha! -
gritavam. - Precisamos de um senhor!
  o que se poderia responder a isso?
  - o futuro da Esccia n o est  em risco - ela lhes garantiu.
- Minha filha desposar  o delfim no momento certo. Quanto ao
rei da Frana, ele nunca deixar  de auxiliar os escoceses, como se
eles fossem seu prprio povo.
  Essa fala foi recebida com silncio, e um silncio carrancudo.
os argumentos de uma mulher nunca os convenceriam.

  - o que posso fazer com essa gente? o que lhes direi?
  Madame se retirara furiosa para seus aposentos; a despeito do
mal-estar, voltou a caminhar de um lado para outro.


                            29o
#   - se eu mesTlla Il o consigo s(lvernar a Esccia, como poderia
um memIlo, um frlgll f 5t1'aIlgtlr(), rc'ma T aclul, alllda qLIc  5c  tornt'
marldo de m1T111a f1111a? Els nao .sabm o (lu c5tao dlzcndo. Igora,
clurcm clue  Illallde llTn c'Ilvlado  i1  Fra lla,  I1o a5o de eu prrla
nao lr. Flara o off ndldos on1 cIuf r cIuc' sf  dspahf  para  ld; s eu
nao onscgulr onvcllf r o r( 1 HeIlrlcluc', TllIlgun1 o1l5gulrl, m115
11ao po55o delXar o pals de modo a lgum. ( asaITlento, no cntanto,
prellsa aoIltr cLIanto antf 5... M11111a p()br fllha Quem eu po-
derla mandar?
   - Eu  lrel,  T1locIIllIe - dlsse-lhe,  multo  trall(lulla . - lXImgum
sLIspeltarl dt' mlm, E' c'u taIveL conslga pE'rsua dlr o rE'I.
  Lembrei-me de como Hellrique II me aborda ra em chenonceaux;
eu ainda era atra ente, e o rei apreciava mulheres maduras. Talvez
fosse mesmo necess rio pega r a doena fra ncesa .
  Madmrte estaca ra e agora me olha va espantada.
  - voc, cIaudine?! - perguntou, coTllo se me percebesse pela
primeira vez. Mas seu semblante foi ficaTldo pellsativo. - , a gora
que estou refletindo no assunto, voc bem pnderia encontrlr-se
com nosso irmio, o cardeal de Lorella; ele a  ajudar  com o rei
Henrique. H  coisas (zue no podemos fazer por ca rta. Pois que
assim seja. v  com Deus, claudine. I'arta qu.ando puder. Eu cui-
darei de tudo.

  Deixei a Esccia T1o final do ver o de 1557, levalldo para o rei
da Fralla  uma polidssima carta de Mada me Marie. Durante a
viagem, cruzamos com um Ilavio due trazia uma carta de HeTlri(lue
II informalldo (ue a Frana esta va em. guerra com a Espamla e
lue a regente da Esccia precisava desfechar um atadue contra a
Inglaterra, aliada dos espanhis desde (Iu a pobre Maria I casa ra
com Filipe II. Eu, porm, sabia que rriadrzllle n o desejaria a guerra
e cue os escoceses se ressentiriam ca so tivessem de marchar para
o sul por ordem do rei francs. Ali s, eu adivillhei exatameTlte o
que estava para acontecer, muito embora ntndame deva ter acllado
tudo isso inacredit vel. Ela partiu para o sul, ... testa do exrcito
que, de algum modo, conseguirl orgalliza r com. a a juda de Mon-
sieur d'oysel, seu conselheiro habitual nesses assLmtos; ma s, na
fronteira, os escoceses se recusaram a obedecer ...s ordens, voltaram
para casa e fizera m a regente parecer uma tola; Monsieur d'oysel


                             291
#precisara ent o retirar-se co111 as tropas para Eyemoutll. Nc) enta nto,
ao flm c' 1o cabo,  11ao  se dcspI'cla ra  nf'Ilhum  sangue.  Eu sablil
clue 1lllll7llll' df vla star Eurlosa, IIlas tamb2m ta lvcz allvlada, pols
nao houvf ra gL(f'I'ra, c' Icllr1(Iue II vorla cLIc' cla pelo mIlos flzra
o possIvcl. cIaro, f ra uma slfua clo lameIltavel, c de fato sc rla me-
lhor que f'LI Ine f'I1contrasse com 11o55o irmlo charles, cardeal d
Lorena, antes cle ir ao rei da Fralla.

  At agora, tive pouca ocasi o de mellcionar o cardeal, pois ele
amda nao passa va de Lml rapazlIlllo (lualldo partlmos pela prlmelra
vez pa ra  a  Esccla.  Nove  aIlos  mals  novo qu  111l7L(llle,  era  o  sE-
gundo dos varof 5 GLIIse.  lzla-se que IlLmca esquecla um fato oLI
um rosto. J  gazlhara rellome llo conclio de Trento, o qual fora
convocado pelo papa para dar fim aos abusos disseminados por
Lutero, calvillo e Knox, e tlmbm pelos IlugLzenotes; alm disso,
a prpria Igreja precisava de 111lntas reformas. Fui encontrar o car-
deal em Meudoll, ollde sua m e, a duquesa Antoinette, costumava
passar temporadas com a jovem rainha da Esccia; pa ra meu de-
sapontamento, a rainha n o estava l . o cardea I, no entanto, re-
cebeu-me sem demora, coisa cue, a li s, era bem de seu feitio; ele
se mostrava pontual em tudo. Trajava vestes leigas, e de incio
ficava difcil imagillar (lue aquele jovem louro, esbelto e elegante
tivesse tanto poder; (lue em breve ele estaria controlando a admi-
nistra o e as fillallas da Frana; (lue, ao visitar o papa, este llle
dera aposentos ao la do dos seus e Ille proporciona ra uma gua rda
de oitenta fidalgos; e (lue,11o comeo do conclio de Trento (con-
vocado, como j  disse, contra a crescente ameaa do luteranismo
e do culto de GeIleL>ra), esse moo Ilouvesse tido voz t o influente.
seus olhos eram frios e perscz'utadores; senti que ele sabia tudo a
meu respeito, j  me avaliara e agora iria usar-me como pudesse.
Afinal, fora pa ra isso mesmo (lue eu viera.
        mE' Indlcara  uma  clclc'Ira.  Est  vamos  sozmhos  E'm  su gi1-
bmc'te. Atras do cardal, vla-se uma 2statua dc Nossa s2nhora com
o  MeIlmo  JesLIs,  c'  tlela  usavam  coroa.  o  cardeal  trazla  sobre  a
tumca LIn1 crucIflXo dc' ouro; seLIs longos dedos brincavam com
uma pena.
  - Em que posso ajud -la, Madame Melville?
  N o me clla mou de irm , embora por certo se lembrasse de


                          292
#
 IIllIlla  prtseIli1 c'm Jomvlllc'. Todavla, os pf cadllhos dc  nosso pal
 Ilao ram os seLIs. sc m Ihe falaY Ilada, IltYue1 a caYta de Mad mc'
 Marie, que ele leu cuidadosamente.
    - M1I111a  lrml cst  111  randf  dlflculdadf  - lf  dlssf  pouco
 dcpols -,  2 Ilmum  f 5ta  mals  clc:nt  dlsso  do  quf'  u.  Flcarel
 feliz se puder ajud-la.
   Adueles olhos frios me fixaram. Relatei ento due os escoceses
 estava m atormentando Illcdorllc para apressar o casa mento com o
 dc'Iflm,  mas  quc  E'Ia  11a o  ousa va  prE'551o11a Y  amda  ma 1s  o  rE'1  da
 Fralla.
   - collheo algtms mtodos - disse-Ille -, mas no gosta ria
 muito de empreg-los. N o pretelldo ellganar o senhor: se neces-
 srio, posso seduzir o rei.
   seus lbios se contorceram.
   - A senhora talvez esteja se superestimando - murmurou. -
 outras j esto l.
    Madamc'  Diane,  duquesa  de  valntIIlols,  alllda  tillha  podf r,  c:
 esse poder s chegaria a o fim com a morte de Henriclue II.
   - Ento o que sugere? - pergLmtei a meu meio irmo, sem
 ficar ofendida com seu tom; ramos ambos diplomatas. - o senhor
 poderia convenc-lo? ser que Mada me de va lentillois se disporia
 a fazer isso? Temos pouco dillheiro pa ra suborllos, e, de qualquer
 forma, ele vem da Frana.
   Eu o encarei; quando viu due Ilo collseguiria me intimidar,
 seus modos se suavizaram. sorriu, lembralldo-me um. pouco Irlrr-
 colll  quando Iovcm.  como  c'la  Ya  flll  c'tltao  Aor ,  as  colsa s
 havlam mudado.
    - sulYo que a snhora cIc'1Xc' sta caYta com1o; c u far21 o qu2
 puder - disse o cardea I. - o casalllento de m.i1111a sobrinha tem
 um poderoso partidrio: o prc5prio delfim Franois. Ele est muito
 apaixollado. Quanto mais depressa ocorrer o matrimnio, mais sa-
 tisfeito ficar o delfim.
   Baixou os olhos e continuou:
   - No due se refere  reentE: da Esccscia, acho que meu irm o
 claud, o duque de Aumale, deve logo ser enviado para ajud-la
 e encora j-la, talvez j depois do casa mento...
   Isso queria dizer que pelo menos o cardea I contava com a ce-
 rimnia.


293
#    ... Mas, enquanto isso, minha irm corre algum perigo.
  Abriu uma peuena gaveta da mesa e tirou dali um nbjeto que
no consegui ver, pois ele o segurava entre as mos.
  Fiquei alarmada.
  - Perigo?! o senhor se refere aos lords? Podem ser implacveis   ,
 verdade, mas rrtndnnie tem amigos entre eles. Estou convencida
de que no a a tacariam fisica mente.
  Pensei em Huntly, que, a pesar do encarceramento e das multls,
defenderia mndnrre at a morte; em Erskine de Dun, leal desde o
incio; e em outros mais.
  - No fa lo dos lords escoceses - replicou secamente o jovem
ca rdeal. - Refiro-me, isto sim, ao crescente perigo representa do
pelos chama dos reformadores, que no momento so liderados por
certo John Knox. Depois de ter passado cinco anos na Inglaterra,
est agora fa zendo uma rpida visita  Esccia, creio eu; tal como
o antecessor Wishart, ele faz pregao no oeste.
  - Knox no se arriscar a mais uma temporada nas gals -
falei, com desdm.
  - Quando esteve preso, conseguiu joga r uma imagem de Nossa
senhora no rio Loire. Trata-se de um homem que atrai seguidores,
convertidos ou o que seja. Pode leva r multides  loucura. vi eom
meus prprios olhos o mal que os huguenotes causaram aqui, e
pode ter certeza  de que ca usa ro mais danos a nossas igrejas e
catedra is, nossas relcuias e ima gens. Tudo isso pode muito bem
acontecer na Esccia. Minha irm, embora seja devota e corajosa,
no tem fora para impedir tal coisa. Ademais, ouvi dizer que sua
sade j no  o que costumava ser. No estou tentando alarmar
a senhora, mas, se ela morrer,  possvel que no lhe permitam
os ltimos ritos da santa Igreja . Por isso, sua santidade, a meu
pedi.do, providenciou uma hstia consa grada, que a regente dever
receber na hora de sua morte. Eu a tenho a qui comigo, e conto
com a senhora para guard-la, de preferncia junto a seu prprio
corpo, at due ela se faa necessria. caso a senhora se veja em
perigo de morte antes de minha irm, entregue a hstia para al-
gum em que confie. sc5 lamento que, dada as presses desta poca
e minhas obrigaes para com sua santidade e com o rei, eu no
possa visita r a regente na Esccia. Rogo que a senhora lhe leve
minha bn o e Ihe expresse meus melhores sentimentos.


                           294
#                   Levantou-se, e fiz o mesmo. o cardea 1 ento colocou em meu
                 pescoo o pequeno medalho, negro e acha tado, due contillha o
                 corpo de cristo; eu o ocultei debaixo da gola do vestido. senti e11)
                 mim  mcsma  uma  frrf a  cctf rmllla ao;  a  dspf'lto  de  qualsclllcY
                 outras vontades de meu cnrpo illdigno, ele agora guardava a mais
                 sagrada de toda s as ddiva s, adtzela zltze os cruis inimigos de
                 rrracmnze cua se certlmente Ihe Ilega riam duando chegasse a hora.
                 Ma s, graas a DeLIs, esse momento ainda no chegara .
                   Deixei o cardeal de Lorella e cavalgLzei de volta a I'a ris.

                   Ele deve ter agido  sua n1)neira sutil. E, em janeiro de 1558,
                 nosso irmo, o duque Fra nois de Guise, retomou dos ingleses o
                 porto de calais, que eles dominavam desde 1347, no tempo de
                 Eduardo III, e lue era sua ltima base na Frana. Dizem que a
                 recaptura de calais partitl o corao da rainha da Inglaterra; tam-
                 bm fez aumentar o prestgio dos Guise, e no ma is havia dvidas
                 sobre o casamento. Em abril, na quinta torre do Palcio do Louvre,
                 La Reillette e o delfim fica.ram oficialmezlte Imivos. Pude escrever
'                a Madame Marie dando-Ihe esta feliz notcia, n1a s ainda n1o tor-
                 naria a v-la; rrladante ordenara que eu, em carter pYivado, ficasse
                 na Frana at o casamento, ao qual, naturalmente, ela n1o poderia
                 comparecer.

                   As razes para que etI permanecesse em Pa ris sem posio oficial
                 eram duas. Em primeiro lugar, empregar-n1e junto de La Rei.nette
                 teria custa do mais dinheiro a niadazne, ltle sempre tivera de sus-
                 tentar com fundos prprios a permanncia da filha na corte - e,
                 infelizmente, esses fundos estavam muito desfalca dos. Em segundo
                 lugar, os Gui.se estavam cada vez mais inEluentes; a dudtlesa An-
                 toinette j fre<lenta va basta nte a corte e iria presi.dir ao casamento
                 em luga.r de mada>rie; por isso, minha presena, um lembrete dos
                 aIltlgos  pecados  do  duque  laud,  Ilao  serla  bem  vlsta.  Isso  nao
                 m2  pYeoclIpava:  meus  pYoveIltos  cll2gavam  com  Ycgula rldade,  2
                 encontrei acomodaes confortveis I1a Place dtI Pav, em cima
                 da loja de um confeiteiro. A comida era boa, e a filha do confeiteiro
                 (uma moa chamada JLIstine, due estava juntando dimleiro para
                 casar) me serviu de criada, vestindo-me pelas mallhs e lavando
                 minha roupa -branca. Pude passelr pela cidade como uma simples


                                            295
#r


        citadilla e observar com muita folga os preparativos par1 o c)sl-
        IIlcIlto.  rcl ItIlrlclLI dc'cItllrl cue todil 1 cerllllllld sf  clcsc'Ilrc)-
        11r11  os olhos do povo comum, e lsso delXoL1 os plrlslllses co11-
        tcntssllIlos,  pols  3dorlvlm  L1  Rf mctte.  Ndo  cllf gtlel  11on1  pcI'to
        de voLIvrly.
           A  clted.rEl1  dc  Notr-D3mf            sf   frmsformou,  tdnto  por  df'ntro
        ( uinto por forl. No 1n1c1o, c'.u c(7stLmlil vl c'ntrdr d ITlmsmho llLml
        d1s clpf?1ds ntordls; Ililo escuecr1 clu estlvd cdrrcgmdo pdrl tllli-
        dallle o corpo de cristo, e rezava por ell, pelo casamento e por
        mim mesma. Depois, os operrios vieram e erigirlm diante do
        altar tIm baldaquim, tIm cicl-rom onde mais tarde seriam colocados
        almofadas e LIm tpete dourado. Do lado de fora, uma passarela
        eom doze ps de alttlra j estava sendo erguida desde a casa do
        arcebispo de Paris at a Notre-Dame; ela serviria ao cortejo nupcial,
        de modo qtle o povo pudesse ver os noivos camimlalldo acima.
        de sua cabea. Acho dtle isso foi idia de meu meio irmo Franois,
        dLIqtIe de GLIise, o flmoso soldldo conhecido como Le Balafrl;
        os comandantes militares esto habituados a ficar nos pontos mais
        ntos do terreno. Ele mesmo seria o mestre-de-cerimllias, maglli-
        ficamente vestido com trajes dourados; mas estou me antecipando.
        como de costume, j recebramos ms notcils sobre os lords es-
        coceses due vinham para a F1'alla. Dois navios se perderam nas
        borrascas de fevereiro. o primeiro trazia todo o aparato que os
        lords deveriam tlsar no casamento; qtlando chegaram, eles preci-
        slrdm  gdstlr  bl5tdIltc'  clmllf'lro  E'll1  Pirls  plrd  E'stdr    dlturl  d1
        c2rlmmd.  sgLIndo Il vlo tc v o plor d25t1I1o; 1o 11rgo df  8o11-
        loglle, todos a bordo pereceram, exceo feita ao conde de Rothes
        e ao bispo das orcades, que foram resgatados por pescadores. IIl-
        felizmente, Lord James tambm foi salvo de um naufrgio; mais
        tarde, eLI o vi cavalgr em companhia do arcebispo de Glasgow e
        do bispo de Ross, ento secretlrio de Estado. conversavam inti-
        mamente; as montarias agitavam a cabea pela rtla, j apinhada
        de gente que se jLmtara para embasbaclr-se com a viso dos dig-
        nitrios; os mais velhos entre os populares se lembravam de qlla ndo
        Jaime v vierl  Frana para desposar Madame Madeleine, e aillda

        1   Pnmz,rn qlre, elrr jrnrrc,s, irrdirn qrrenr tenr o rosto cobertn pnr ricntrizcs de crrtimdns.
            (N. do T.)


                                 296
#                                            falavam afetuosamente do lelLr YoI lEcossL. Atras vlllham o tesou-
                                            reiro; Fleming, o camareiro; Lorde Rothes, aquele que fora resga-
                                            tado; Lord seton, o falcoeiro, pa i da jovem Mary seton; e, eomo
                                            fiquei feliz em ver, Erskine de Dun, o a migo de niadnrne. Atraves-
                                            saram Paris e seguiram para Fontainebleau. Eu soube depois que
                                            ele fizeram o melhor possvel para que La Reinette, no que se
                                            referia a o dinheiro, recebesse de Henriclue II um tratamento justo;
                                            mas, secretamente, ela foi obrigada a a ssinar um instrumento pelo
                                            qual, ca so morresse sem deixar herdeiros, concedia a o rei da Frana
                                            e a seus sucessores o trono da  Esccia e tambm o direito ue,
                                            graas  av, tinha ao trono da Inglaterra. Adema is, Henricue exi-
                                            gia um milho de coroas de ouro como compensao pelas supostas
                                            despesas que La Reinette tivera na Frana - despesas que, como
                                            j mencionei, foram na verdade custeada s por nradnrrie dura nte to-
                                            dos aqueles anos. Mais tarde, ele alegou que tal soma correspondia
                                            aos gastos oriundos da guerra que, em benefcio dos escoceses,
                                            movera contra a Inglaterra. Tudo isso me seria relatado por madarne,
                                            j que, na poca, eu n1o tinha como saber.
`                                             Todos os dias, eu percorria as feiras e os mercados, ouvindo o
                                            burburinho dos preparativos e o pechincha r dos compradores de
                                            sedas, fazendas finas de a Igodlo e linho e fios de ouro. os cha-
                                            peleiros apresentavam criaes bastante altas e rendadas; as bor-
                                            dadeiras elaboravam padres com flores e animais nos suntuosos
                                            tecidos due seriam usados na corte; os ourives forjavam medalhes
                                            e anis em que os joalheiros engastariam prata e ma is ouro. os
                                            lords gastaram o dinheiro due trazia m, tal como fizera antes o rei
                                            Jaime v, percorrendo a cidade de cima a baixo; tornei a ouvir o
                                            rude escocs, mas n1o me revelei a eles. Tudo isso acontecia en-
                                            quanto os ventos de maro davam lugar  primavera. Quando
                                            chegou o dia do casa mento, a pa ssarela j fora coberta com ramos
                                            verdes, alguns na turais, outros no. ocorrera um grande baile de-
                                            pois do noivado, e diziam que Henrique II abrira a festa danando
                                            com La Reinette; mas no vra mos na da disso. o povo que esperava
                                            pa ra assistir ao casamento j estava l de manh bem cedo, tendo
                                            alguns passado a noite na rua , enrolados em ma ntos. Quanto 1
                                            noiva, ela e a famlia real dormiram na ca sa do arcebispo. com a
                                            alvorada, soaram trombetas e ta mbores; a multido comeou a
                                            murmurar, alvoroada; peixeiros, aougueiros, alfa iates, donas de


                                          297
#casa, illdigentes e frades melldicantes, es(luecidos das tigtlas dt:
esmolar, esperavam para ver La Reinette. Ela, e llo catarina de
Mdicis, reillava em seu cnra lo; Maria stuart jz era raillha  da
FrfIna multo aIltf s do asa mf Ilto.
   crclo cLIE' as poIltE`s E'stl vessc'm ap1Illladils d' cavi3los, La valE'lro5
c' pedf stres, ma s Ilao v1 Illda  dlsso. A multldao era ttlo densa clu(
o movlmeIlto se  to1'llava 1lllposslvl.  Podia-se contmplar o pavl-
Iho aberto ue fora erguido cliante dos portes da Notre-Dallle,
com todas as grgulas da catedral fazendo careta l em cima.
  - Dizem (ue o pavill3o foi desemlado pelo prprio mestre-
construtor - sLtssurrotl uma mulher perto de mim, como se co-
Ilhesse todo mLmdo por all, oIsa prprla dessas essoa s.
   sorrl para c ld e EIltao toT'nl a me voltdr pc3ra as folha s f  tleIlas
de parreira entalhadas (que parecia II1 um claustro), para a seda
azul de chipre com as flores-de-lis e para o valoroso braso real
da Esccia.
  Por volta das dez lloras, os convida dos se reulliram, e vrios
pescoos se esticaram para v-los chegar, ma s eles seriam menos
lembrados do que o cortejo I3upcial. os guardas suos marcharam
 frente do ducue de Guise, e ocorreu-me cue eu m.al conhecera
esse meio irmo, pois desde muito cedo ele estivera ausente de
Joinville, empemlz3do no servio militar. Eu tambm no vira nada
de seu casamento com Alme d'Este, cue diziam ser a mais graciosa
danarina da Europa (exceto lla galharda , um passo em que La
Reinette llo timla riva 1). o arcebispo de Paris e o cardeal de Bour-
bon, que deveria oficia.r o casamento, j estavam esperando. De
repente, o dulue de Guise mostrou cue era humaz3o e leva va em
considerao a gente comum: os lords escoceses, com suas gola s
plissadas e capas, bloqueavam Ilossa viso, mas Le Bala fr fez um
gesto para que se afastassem, e, desse modo, pudemos ellxergar
de novo todo o pavilhlo.
  os msicos da jovem ra illlla da Esc(5cia, dos quais ela gostava
muito, chegaram em seguida, con3 ulliformes vermelhos e amare-
los, tocalldo e cantando. Depois, vieram cem dos fidalgos do rei
da Frana, e, na seqizncia, apa receram as prillcesas de sangue,
todas ricamente trajadas (coisa que, a bem dizer, nada tinha de
novidade). segLIiram-se dezoito bispos e aba des, todos de mitra.
Enquanto isso, o ca rdeal de Lorena acompanhava o nllcio; esta -


                             298
#vam entretidos em sua conversa, e perguntei-me se os dois, j
habituados a eventos grandiosos, no estariam a proveitando a
oportunidade para discutir o recomeo do conclio de Trento, ento
encerrado mais uma vez. Mas nunca descobri o que diziam; eu
usava um capuz muito simples, e esse outro meio irmo no me
viu em meio  plebe. Tateei o medalho que ele me dera; eu fre-
qentemente me a ssegurava de que continuava em meu pescoo,
e nunca o esqueci, nem a razo pela qual o usava. se ao menos
rrirrdarrie pudesse ter estado l naquele dia!...
  o noivo chegou em companhia dos dois irmos menores. Ne-
nhum dos trs tinha nada de notvel, ainda que os trajes do delfim
fossem,  claro, bastante suntuosos. Dizem que depois do casa-
mento Franois cresceu bastante depressa, mas ele ainda no che-
gava  estatura de La Reinette. Embora o povo tenha dado vivas
quando viu o rosto plido do delfim (um rosto no qual j havia
rugas que iam do nariz  boca, algo imprprio para sua idade),
estavam todos aguardando a noiva . A Frana inteira a esperava;
desde os portos da Mancha at as montanha s do sul, todos pen-
savam nela.
  o cardeal de Lorena se voltara para que, junto com o rei, pudesse
acompanh-la. Ela usava vestido branco, capa cinza-azulada eom
prolas incrustadas e uma coroa to cheia de pedras preciosas que
no poderia ter vindo da Esccia (de onde, alis, recusaram-se a
enviar esse tipo de paramento). As aclamaes se multiplicaram
at ficarmos ensurdecidos; j no era possvel ouvir as trombetas
e os pfaros. La Reinette ficou muito comovida; vi tremer em seu
busto o Great Harry, a jca que pertencera a Marga rida Tudor, e
a noiva sorriu. As cluatro Marys seguravam a cauda do vestido,
que era enorme. La Reinette se curvou para ns e seguiu adiante.
Nunca me foi dado contempla r uma jovem mais bonita.
  A rainha catarina no causou nenhum alvoroo; foi conduzida
pelo prncipe de cond. Depois veio a rainha de Navarra, em cujas
vestimentas parecia expressar um pouco de desaprovao por todo
aquele fausto; afinal, essa senhora era huguenote.
  Madame Marguerite (a irm do rei, e no a filha), a duquesa
Antoinette e os restantes foram recebidos pelo arcebispo. De dentro
da catedral, chegava-nos o brilho das velas presas nos candelabros
de prata. A cerimnia comeou de imediato. No pavilho, o rei


                           299
#tirou u.ma aliana do dedo e a entregvu ao cardeal de BourboTl,
que el7to casou os dois adolescentes. os lords escoceses se apro-
ximaram para saudar seu l7ovo rei. Enquanto faziam isso, moedas
de ouro e prata foram atiradas  multid o, que correu a peg-las
em tal desordem due muita gente se feriu, perdendo a capa e o
chapu; por isso, gritaran7 para qlle se pusesse fim a tal larguezl.
As trombetas dos arautos continuavam a soar.
  quela altura, a comitiva j el7trara na ca tedra 1 para a missa, e
no vi.mos mais n.ada at que sassem. Ento, mais uma vez, Hen-
rique II fez os noivos peYcorrerem a pa ssarela, para que todos ptl-
dessem col7templ-los, pois algumas pessoas ainda no haviam
conseguido v-los. Em seguida, foram para o banquete, e tambm
no vi n1a is nada. Depois, no entanto, rela tei a madarne tudo a que
eu assistira.
  No voltIria m viv( Ear l Esccscia  o conde de Rotlles e c)
bispo das orcades, os dois lords escoceses que tinha m sico res-
gatados por pescadores em sua chegada  Frana . TestE:mullhi
o talecimento deles, pois, um pouco a ntes de fazer meus prpa-
Yativos para o retorno, ellcontrei. Lord setoTl e sua filha nu.171 d()s
mrcados dc' la Yls,  LoI'cI ston lIlslstlYa f n1 qLIc eu vlalassc' coITl
c'If, paltmdo do porto  dt'  D1c'ppc'.  Mal'y 5eto11, 2 cIaro,  nao lrll
com o pa 1; dc'vt'Yli1 pcrlllilIlccc1' como cL1T1121 cIc coIllpa nhla (j. Li7
Rf'1llttf .  lIilYy  se  forlla I'a  LIula  I11oc1T111i1  pacata ,  bomta  e  belll-
cdLIcada;  todo  IllLillco  sc'gula  f1  111odi1  dc  La  Rf'Inc'ttf',  c',  assIIn,
IaYv  usavil  Lm1  dos  Ilovos  chapeuGlIlIlos  Yedondos,  de  vc'Iudo
coY  de  rubl.,  c'llc rapltfldo  Ilos  cublos  c'scuYos,  c  uma  gol  de
Yufos llta  (  f stYclta. Icrguntf'1-lllc' con lo  lan l  os I'ecf m-ca sados;
ela me garantiu due estavam muito felizes. Acredito due estives-
scn1 1715mo, mas, cm tocjo ca so, Ilao sf  poderla  dlzf Y outYl colsa
de u111 casal na mesma sltuaao. J cIllc c) delfim era mllito novo
e frilgil, 1lLmc1 se soubf  ao cr(o sf' o casaTll'nto foI. coTlsuI7lado.
Qu.mto a Yecomlec-lo omo Yei da Esccia, comentei com Lord
5eto11  cuc  todos os  ois  pYcst.Iltes  ao  casaml'Ilto  Ille  pYesta ralTl
Yvf'I'cncla e111 publlco,  )1o  pa vllllao  cYgulco  c'In frIlte  a  IIotYc-
Dame. luIas lYIloI'l cXpYc ssfl va dvlda t7l. sua fIs1ollomla hoIlcIosa.
   - Isso ter de ser discuti.do no conselho - falou, ca utelo-
saznente.
   Antevi mais pYoblemas para rrTzdrrt(: e fiquei aTlsiosa por estar


                           3oo
#a seu la(lo. Mel7ci.ollei esse meu desejn, ( I.,or(1 set()11 Ine oferec(Lt
sua protelo no caminho para Dieplle f L1171 luar llo Ilavio. Lor(1
Jamf 5 f  l)s oLItros vlalal'lam coIlosco.  Iao 1'1(Iu.1 Incnto tlIllma(ja
com a persp2ctIva d(  Esta1' etn coITlpflllntl (jo I)astal'do mills vcIIlo
d  Jaime v, mils aqull.o  c'Yf1 IncIlloI' (1o (u(`  vla ltlY 5o7mlla,
    Iauf I p( las  acomodaf s cluE ocLII)aYa  I1a  llacf  dll  la vf  e
n1e df spf'dl  d  Ju5t111(`, qlle cE1111  no cI7oro,  I)o1s Ilos  toYlllramos
ate aIlllas. lara aluda-Ia  a complf'taY s.u dote, df'1-Illf' duas c.o-
roas df  ()uro, o que  a dc'1XoL1 contontlsslIna, f' IIle dlssc:  ae.f'us.
    l  vlaom para Dlfpp  1'allscoY1'cLI 5.171 lllcldf'ntf'5. IXlao I11e
recordo de Lord James 1-la ver dito uml palavra (lLIE: fosse, a mim
ou a (lualquer outra pessoa. cavalava Ilu.m siltlcio sombrio. )
o conde de Rothes, qLte se recLIpeYara do lllufrio havia muito,
la collvcrsando comlgo ctlqullllfo sf'LIIal7los pfla f5trada  c 2n-
ir(nttva mos os vcntos da Io1'lllfllldla. L'Ie f'T'a Lml velho salafrc.rlo
cuf' casara qua tro vf'7es e apYeclava mullleYf'5 boIntas; allils, coI1-
fldf nclou-mf  que, quand o  YetoYtlasse fl  Esccla, pYc t( ndla  cas r
de Ilovo, a ora com Lady, Balcaskie, ul7la vtva ba stante jovill.
Tllfelizmente, ela n1o tornaria a v-lo.
    vc Ilto ploYard (1lando cIl.eilmos ao IItoral. ',mbal'camos dE
mlf'd lato, mas o navlo eIlfYeIltou luas bYavIas. F1(Iuf'1 I1o convs,
com  o  vcnto  Ilos cabclos e fl  capa  b( In  ff'cllHda, f' tl vf' dvldas
sobre sf  coIlsf'lllrlamo5 pYoss(:u.11' vlast'm. louco df'pols, o na-
v1o 111\'frtf'u o Yumo, e, em mf1o a  mult2ls praa.s t  YecIamaf'5,
vmta Inos para Dieppe.
  Ellclla rcados e famintos, fomos para uma estala gem; Lord cls-
silis, o (jLtal queria que tudo, illclusive o tel7lpo, se curvasse 
sLIa vo2ltado, rcsmllTlava audlvoImf Iltf . 5c llfamo-Ilos paYa a cla,
' Ilos sf:rvlram  um  prato d(  mf'XlIIlot's.  Tf IlIlo  [t'llcjIlcla  a  flcar
c()tn  o  Itltf.'5t111o  solto  dc'pols  (1c'  comcY  (:ssEls  colsas,  (:  por  lsso
pf (jl  (1L1(  mc:  trouXs,sm  alfctm  oui'r()  )rato.  I"1(ILIc'1  teI1z cIf' tf'r
al.do  asslm,  poIs,  no  dla  sf'rt11nte,  vcl1'Ios  ol'G(s,  tIlcL(llldo Lor(1
Jam(:s, f stavam. (joentes. os ventns am(j1 eral77 contrri.os, e noss()
Ilavin precisou espf:rar; ali.s, os doentes no poderiam mesmo
em.ba.rcar. o doso bispo da s Ycldes, (zue na noite anterior co-
m(ra os mexilhes com tanto osto, ficou to mal que acabei
illdo at: ele, coita do, para t(rltar collfort-lo; esLava deitado sobre
a al'ca quf' contlllha suas v(stlmentas f' 5c'us rf'clplf'ntos saYados,


                          3o1
#para evitar lue fossem rouba dos. Mais ta rde, John Knux escz'e-
veria due o bispo era to avarento clue no se separou de seu
ouro. Na verdade, o velho fora znuitssimo generoso para com
os pobres e fizera grandes melhoramentos na catedral de Kirk-
wall. Morreu em grande agonia. o mesmo aconteceu ao pobre
Lord Rothes e, muito depois, a Lord Fleming e Iord ca ssilis
(este, a prupsito, sc5 com muita relutncia se afastara da com-
panhia de znestre George Bucha nan, o jovem professor de latim
de La Reinette, em Paris). Lorde James, infelizmente, nc morreu,
ainda que ficasse para sempre com uzna incmoda acidz esto-
macal. Talvez sua conduta posterior se devesse a issc, mas ele
se mostra ra interesseiro desde o incio. Embora fosse uzn clrigo,
pedira a La Reinette permisso para desposar a morgada de Bu-
chan, mas ela recusara . Em conseqncia, Lord Ja mes se ressentira
com a rainha e com rnadnrric.
  A intoxicao foi demorada . Dois dos lords sobreviverazn se-
manas, e um no morreu at o Natal. os escoceses culparam os
franceses, alegando que estes agiram por causa da deinora em
reconhecer-se o jovem delfim como rei da Esc(:la ; Illas, como
nenhum francs poderia ter previsto que voltar.anus pa ra comer
na estalagem, eu atribuo tudo ao acaso.

  No final, o I'arlamento concordou em conceder ao delfim o
ttulo de governante da Esccia ; entretanto, Lord JamE:s, due foi
escolhido para levar essa notcia  Frana, no viajou para l.
Para dizer a verdade, mal notei o clue ele fazia, to preocupada
fiquei  com  a  mudana  na  aparncia  de  Nlldll71le.  Ela  11ao 2stava
em perfeita sa de cuando eu partira, e agora se encontrava em
situao muito pior; os percalos de sua regncia, a cnnsta nte
incerteza com relao  Frana e  Inglaterra, a insolncia dos
lords e a prpria doena a fizeram envellecer znuitc. 5uas pernas
estavam to inchadas que znal conseguia montar; alils, seu corpo
todo inchara, como se estivesse grvida, e ao toIue sua carne
parecia mole ccmo manteiga. As vestes ainda escondiam essa
deformao, mas ntrdatile sabia muito bem que estava com hi-
dropisia e no havia o que fazer, muito embora ela brincasse a
respeito disso e escrevesse  duquesa Antoinette afirmando que
agora era sua prpria mdica e cirurgi. Fiz tudo o que pude, mas-


                           302
# 5lc'tlntjl7  tl  c'le  1I1cllllfl  c'  c()11vellcc'11cjo  IIIll((IIIIe  11  cjf'5c115tl1-
 (l.tc tll.(7  7o551vel,  11115 11i1(7  llvlll  co171o  evltl'  1s coIlstllfe5 eX1-
 leTlclls e 7Yc:ssoe.s flue Ilc: erllll eltls. Nc) entilnto, er L1111 ll\'1(1
 (.ue l7 c15c1171eL1to tlve55f' se Yell%cjo; IIIololl!e c111v(1 clue il ll.llcl
 est1\'ll 5f ur(1 coIIlo I'1l1.11lf1 cjc  'YIl(1 e (lue fl IllIfltc:I'rll se 11,5tc'I't.tl
 cjc 11115111vd57e5 loI'1 cut'  'rclll(1, cu.el'c'llcj() oLt I1 o, (.)veYntl\'(l
 tl  sccll.  E551  io1'il  1  lrltelltlo'c'e  lll(1l(1111e  cescje  o  coIIlf (7,  f.'
 cluelll o(jel'11 cLII>(1-cl, cje7()1.5 ce LI(o o (lue eld e ()utro5 lc vltllTl
 5117oYt(1[j(7 T1I sltullll), 7oI'c:171, I1(1o lfll(j.l7\'d fl()s escocc'ses; slc
 llle5lllo l11I1 ov(7 clflcl ce illI'cl1'. L1211lc() ill'eceu cllle i)5 I'tltl-
 c5e5  5e111111  5eL15 5f'I1loYes,  eles  voltl'lllll  c  cueYe.1'  c)5 111It'5e5,
 1111cjH clue Y1L111c1 YecoIllecessell1 lssc), e flceltilrtllll cj111llelYo 1115.
    u velho con(e (e filllls, cuos FllElos tlloYYet' 1T1 toco,s 111 111-
 c 11c11,  i1cll7ilY  (e  sucL1111171Y  1  ull1 lilcIuf' cje  erlsl7e11  elll  ri111-
 tlIloll. Nilo t1111l11TT1()5 t71t115 11(7tcld.s cle 5u1 flllil, L,1(y Mill'clYet;
 depois da morte de Mari.a I Tudor, ell vivera em Yorkshil-e c()m
 o IllllYlco, L.eIllloX. L1(1nto   s1Y c'ore oLIIfls, ele fell.zITle11'c:
  171oYYertl ildvll 111LIltc) telll7(), (1co17l7Illllcj() llIT1 cjo5 tl'l7utl(115
 v()1111fe5 cf  clltclllel'flult,  cL1Elllcj()  e5te  (1111cjf1  el'c  o  l7ve1'Illcj()1'
 frYlll. o 7ocer cjos roLIIfls 7(1I'ecl  fc:rIIllIllcjo, lTlils seu IleI'cjtl.l'o
 e1'(1 o ()veITl Elrllly, cue  lll e7ocd illIlcil cf \'11 e5tcl1' II7lc't'so c'111
 seus eXc'rclclos cje lflfllll, ITlulto elIluord  \,lesse cec)15 il  \'151(ll' il
 Fralll.

        cso  (o  c11  cje  silo  Glles  ()coI'Yf I'i1  e11(ltltlt()  eu  e5tlv  11o
 t5tYlllelYo, e, d551111, 5 7o55(l 1'c'tlt1-1o 7oY ouvlY cl7er; 111fl l'le
 cjelXoL1 I11(7clI1l1e  5tElntc  1L71cil.  lIlco  lIlo5 lTltf'5,  cLItlllcl()  cj
 l5ce1151o L'e MlYld  ILI(joY c o tYollo lIlIs, 11oL1veY1 lllll.c  uLtl cl
 IllIfltf'I'Yil  pc Yil  Gelle7rl  cjc  111LIltos  Yeforl7l1(j()re5,  eT71  e5l'clll
 Jo111 K11oX, ftle  lIltes cjes(I'ntc Yi1 15 Ytl5 (jo  fc Iecl(o cju(ll'c1(7
     c  tf'  j)LI(jel'ci  1'ecuslr  ntll  715p(jo.  ecf'nteITlc:Tltc,  c()11l(7  Ille
 illformilri3  o  cilrcel  cj  Lorelll,  K11oX  ElzerE1  umil  (.LIYtl  vlsltcl  il
 F;scocltl.  lzelll  cue,  cju.Yflntf'  e551  v151.t(1,  ele  e5c111oL1  ()  f1't(lLrs
 5eilt , lITliTlIlou-5f' () )I'l)7Y1o cYlsto teIltilco 7elo c'llu() e re7lc.ou
      1
 131to e oII1 ,sotT1 (L1111cjo IFle oferecerllll t()cj()s ()s Ye111o5 cj(7 1llLItlcj():

 1   IrrrncolirrnrleEdirnt7rrr',tu,rmlrrm,c',trrrrrlorrlc'rrrm,arc'iArttrrlc'rinul,sc'rc'nrfrrarl'rrntrr
     (lu; I,ietus Iror'sc'rr e.t-c'rritu. Iv.rlu 7'.)


303
dlsso, m1s 111o 11o5 dcll vlmos Dus 111 moIltlIlIlEl,  1o coIltrilrlo
d3(lule IloI7lc m - (lu, c n1 suil condutd posterlol', mostI'oLI (luf
5e conslderilvl como  t11.  Em  todo clso, tle  ltloL1  um  fofo (ue
)c1 c7rdl1 bstlIltf' 111 blrrlT1 protEstlIlte, multo omboTi I(noX pro-
clmlsse sc'r em  IIIlTc(i111L  (jllc  1rd11  um  foTo Inslclvcl. 517lpY
u od1ou, dl7cndo e scrcvendo colsls sobre el (llle Ilnhum 11o-
171em, n2m multo mIlos  um1  mulhEr,  ldmltlrll  ouvlr dc' outro
1  soL1 rf?spc'lto.
      fest1 dc  5c1o Gllc:s f' o111 1 de setembro, e  todc)  I1o, Ilesst
d11, cIue fTe(lLI.IltIlleIltc e vlrrldo pelo5 veIlto,s llmpIdos do oLI-
tono, umd pl'oclssdo ltYcvf sslv1 o clIlonlte clrrt'mdo 1 ,rTc3n-
                                                                                             i7
de imaem do santo e o relicrio cue contilllla um osso de s( 11
brao. so Giles era Ilo apellas llm favorito de ITudaTTTc (como
j contei, ela deu a llm de meus filllos o llome desse santo), mas
tambm o padroeiro de EdmbuYgo; o interioY da catedral estava
sempre cheio de velas acesas para ele e pzra Nossa sellhora, e
e  trlste  pen.silY cluc'  f'ss(1s  luzs Ez  113o esto  n1115 l  f' (luc' tudo
flcou  s  c'scLIrs.  f  proclsslo  sTull,  com  os  slct'TdotFs,  mcI1-
sYlos, m.ones, frolllbf td5 e tll7lborcs co711p111lc ndo c  illlilm
do  51nto,  clrY3d1  bEm  nto I1o ombro  dos  11o1n.f ns,  IlclulIlto
o povo todo oIhlv1  c'IltocIv c1nt1co5 pcl(1 cldtldf' l7tt' lolrI'ood.
Isso 1contecll 1no clps 1I1o,  o costul7l c'r3 Inulio prE/gco p(lr
ns. E errcldo dlGc r,  t31 coIIlo flzf'm os rf formdeIorcs, (lu  veIle-
Ycmos lmlTIls;  e  DELIs  o  (u  vIlf'rlmos,  e  s  1mlTlls  s Ilos
filzcm rf'coYd(lY scLIs 5lIltos L' i1s  vlrtudf5  pc'1zs cudls 1'tlII1 co-
Illlecldos em. vldl, dc' modo 1111o serem es(lLIcldiis. lultcls vezes,
cls preccs  df  sdo GlIes  flzc'I'tlrI1  c7  pste d.escpdYcc'r;  dlzem  cILIc'
cle ouvlYc1 clrIos Mdtlo 111 c:ollflssllo; coIno eI'nntcl, Ievdr umB
Xl.stf'Ilcld  de  5i7Il.tlcjcjc',  junto  cjc1  coI's  pell  (utl  rf'cebf l'  um
teYlIIleIlto  d  f1c'cIl;  c',  cTtml.nte,  lluIlc1  fl%c'I'1  Ilenhulll  Iml.
Nesse dia de 155, os I'ef()I'1711cjo1'c:s c7t111'1I71 uI7l  turbil clue fltil-
cou a rallde imael7l, levaral7l-11.1 para o Nor' Loch, cfue se es-
telld2 dbllXo do cil5telo, c' i7 ltlI'lYlm 11, frltllldo lIlsultos. 17c'po15,
tlrclrllll-11c  d1 3gu,  cct'rcslrillll-111  coIll  Inls  1115Lnto5  dte  11mc1
fouf:lYd     clLIelmtlrllIl.  z'ul vlG  sel1  verdcldc  (luf'  3s clldm s sc
InostrlYdIl1  tco  relut8nts (lulnto o  foYilm  Ilil  foulrd  do I'efor-


                    3o
#r


           I11(1cj()Y  I7rYlcc  Wl5li7Yt,  l7lult()  if'tll() lntf'5;  11(lul'Ic1  c121  ct. 5c1()
           G115,  11v111 Illlnto  vt'nto,  f  l llllflelll f 5tc v1 IIloIli1(.
              QL1111co i1 11ot1c 11 llf'5()LI  1  Mlcjllllf  MlYlE', f lil  oI'cj E:l1(:7u  cltlf'
           ullll lTlllf'lll t7lf'11oY, cIuf' f 5tlvc  Il1 1L1'(c (j(35 fYillle15(.c111()s, f()55c'
           t()171c7cc1  cjf  c`Ill1'f 5tlIllo e Lc)I()(.dccl  Ilo Iuc Y cjc1  Illcll()Y, )lI'c  luf'
           fo55e clY1'c IluI71 stlc1'flYlo.  o15, 7 YoI'ltl I1!(I(llllle Illjt`Y()u
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           cIL111o e Itt(IlflIIlle 5f' 5f'nt155f' lc 1l5flcjl, f'I1  sL1(15 (117115 cjf' L.(11I17(I-
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           tlcldo,  t(3YI1oL1 1  l(lvt'Y >I'oulf'I71(1s;  1tllYillll c  11711t'lll  lllf Ilot'  (fll
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           fY Ilt's, c)s ov1'11lIltes  I'il1l5f 5 cj1  ',51cl.  TLI(()  155o  5f' Y.l1-
           L1oI11vi1 1 11lcIIlo(1 Tuf YI'1 fllI'f' (1 F'I'lIli7 f' l "sc)Tlltl, d o51(s'ilo
           c1 I1lIltE'I'Yc7,  1  fintc  [j  f?57I'1111  cf  clLt'  MilYld  TL1(oY  tlvE'ssc'
           E111o5  e,  llvz,  i1  f'I't1  dl'I'o111  cf  cuf'  o5  oElclls  I'ilIlsf'5
           clvdl71 YTlostY1 E'lll 11o55u5 c(7I117o5.  "Ic'5  I11o f'Yc I71 71o1'E's cj() cut
           ()5 111If5s, IIlls toco IIlllIlco 5c scuc'eY1 cj1 111vi151o llllf'51 f:
           co G11lIltelo YutlI 1 IIoss1 7cuf llil. 5of'Y111d, cluiltlc() (lcj21(f's,
           lvil(lds    oIIleltls  IllvlLlI1  s1(o  cIuf'l17l1(jils.    tllTlL7l3l  llo  sf
           51b11 cuf' o clIlllc'lI'o lIllf'5 ll' c1  tuYul, 7f)Y lntfYl73fcj1() (jos
           oY(s  (sLocE'5f5.  .171,  o1  E'ssf'  ()  f117l  c15  cucls  llllilf'11s  cf'  s1()
           (llfs; cIll2ltlto 11 I'o1551(), T11o Ilc)uvf' Ilttllul7lil  I1(7 (7c) sf'L.Iltltf',
           c,  11o oL(tYf),  I11(IclItllc   stv1 IIloYtl.




                                                           305
#                 uM LuGAR cHAMADo LIBERDADE                 323

   Alguns dos pees tinham ido para a floresta, a fim de cortar
madeira destinada  confeco de barris. outros plantavam trigo de
inverno na Quadra do Rio. Lizzie localizou Mack a, trabalhando ao
lado de uma jovem negra. cruzaram o campo arado em linha,
espalhando as sementes que retiravam de pesadas cestas. Lennox
seguia-os, apressando os trabalhadores mais lentos com um chute ou
o toque do chicote. Era um chicote curto de cabo duro e um ltego com
qualquer coisa entre sessenta e noventa centmetros, feito de alguma
madeira flexvel. Depois de ver que Lizzie o observava, comeou a
usar mais o chicote, como que desafiando-a a tentar det-lo.
    Lizzie virou-se e comeou a refazer o caminho para a casa.
Mas antes que estivesse muito longe, ouviu um grito e voltou-se.
    A mulher que trabalhava ao lado de Mack cara. Era Bess,
uma adolescente de cerca de quinze anos de idade, alta e magra: a
me de Lizzie a definiria dizendo que tinha crescido alm do que
suas foras permitiam.
    Lizzie apressou-se na direo do vulto cado, mas Mack
estava mais perto. Ele descansou sua cesta e ajoelhou-se ao lado de
Bess. Tocou na testa dela e em suas mos.
    - Acho que s desmaiou - disse.
    Lsnnox aproximou-se e chutou a garota nas costelas com o p
calado com uma bota pesada.
    o corpo sacudiu com o impacto mas os olhos no abriram.
Lizzie gritou:
    - Pare com isso, no a chute!
    - cadela negra preguiosa, vou ensinar-lhe uma lio -
disse Lennox, levantando a mo que empunhava o chicote.
    - No se atreva! - disse Lizzie, furiosa.
    Ele baixou o chicote nas costas da garota inconsciente.
    Mack ps-se de p num pulo.
    - Pare! - gritou Lizzie.
    Lennox levantou o chicote de novo.
    Mack colocou-se entre Lennox e Bess.
    - sua dona mandou que parasse - disse Mack.
    Lennox mudou a empunhadura e golpeou Mack no rosto.
    Mack tropeou de lado e levou a mo rapidamente ao rosto.
um vergo roxo apareceu imediatamente e um fio de sangue
escorreu por entre seus lbios.

#stima Parte




             A rainha Maria I Tudor morreu naquele mesmo novembro de
           1558, abandonada pelo marido espanhol, ridicularizada por causa
           de suas falsas alegaes de gravidez, desolada depois da recap-
           tura de calais por nosso irmo; estava sozinha, tendo se afastado
           de seus sditos, que de incio, aps todas as provaes pelas
           quais haviam passado, a chamavam de Maria, a Misericordiosa.
           Agora, com John Knox, John Foxe e outros da mesma laia to
           ativos com a voz e a pena, ela se transforma ra em Maria, a san-
           guinria, e assim seria lembrada, muito embora as fogueiras da
           falecida rainha em smithfield fossem talvez menos cruis do que
           as torturas secretas que ocorreriam no reinado de sua meia-irm,
           Elizabeth - como o ecleo, a suspenso pelos polegares, o es-
           magamento dos testculos, as celas minlsculas onde um homem
           no tinha nem como sentar nem como ficar de p e outros m-
           todos empregados pelo ministro Robert cecil e seu torturador-
           mor, Richard Topcliffe.
             Na ocasio em que visitlramos Londres, no ficamos conhe-
           cendo Lady Elizabeth; ela se mostrara cautelosa demais, e a eau-
           tela tem sido seu lema h bastante tempo - alis, o lema de
           toda a sua vida at agora.  uma Tudor, e, porta.nto, a crueldade
           no a deixa consternada; certa vez, disseram-me que, depois de
           haver encurralado um gamo especia lmente corajoso, durante a
           grande festa que o conde de Leicester Ihe ofereceu em Kenilworth,
           ela fez que cortassem as orelhas do animal e depois o pusessem
           em liberdade. Para a maioria das pessoas, isso talvez seja menos
           importante do que o que Elizabeth fez aos homens e mulheres
           que se opunham a ela; antes mesmo que a meia-irm fosse en-
           terrada, mandou prender um idoso bispo due se atrevera a dizer
           um sermo no qual louvava a s virtudes da fa lecida rainha. o
           caixo de Maria Tudor ficou neglicenciadc sob o entulho na aba-


                                     307
#dia de Westminster, e, at onde sei, ningum inda Ihe deu se-
pultamento adecuado. os cate5licos vm sofrendo mais e mais
na Ingla terra; a rainha no se a rrisca a ser tolerante com eles,
pois consideram lue sua me, Ana Bolena, era  a concubina e
no a esposa de Henrique vIII, e cue, portanto, Elizabeth  uma
bastarda; para eles, nossa Reinette, graas a sua av Tudor,  a
legtima soberana da Inglaterra. Tudo isso j era grave o bastante
antes que, alguns anos atrs, o papa excom.ungasse Elizabeth Tu-
dor; mas, quando isso aconteceu, nrndnme j estava n,orta havia
muito tempo. Henrique vIII fizera guerra  Esccia com fogo e
espada; sua filha o fez com dinheiro.
  Na poca, notamos que os protestantes estavam cada vez mais
confiantes. Homens com Knox, que recusara um bispado em Lon-
dres nos tempos do rei Eduardo e at ajudara a compilar o Book
of commort prnyerl (em detrimento dessa obra), reapareciam na
Esccia recheados de dinheiro Tudor. Depois de haverem pro-
fanado o convento dos cartuxos em Perth, os reformadores pa s-
saram a desigmr-se senhores da congrega o. sempre havia di-
nheiro para pag-los, numa poca em que ntndnnie se via forad.a
a vender suas baixelas. Quando chegara ao pas como noiva de
Jaime v, ela admirara os belos mveis e tapearias dos pa lcios
escoceses e at planejara jardins; mas agora j no havia tempo
para essas coisas, nem para ouvir msica ou patrocinar artistas
como o que pintara seu retra to trs anos antes. o estado de rrtn-
dante tambm no melhorara; sua s pernas ainda esta va m inchl-
das, e sua viso comeava a emba a r-se; eu a encontrava com o
rosto quase cola do nos inimeros documentos que precisa va a s-
sinar: cartas ao rei da Frana, a seu irm o, o cardeal, a Argyll,
a Huntly, novamente a chtelherault. Tudo a cabara dando nisto:
mais uma vez em situao desesperadora, mndnmc precisava fingir
que confiava naquele tolo e indeciso ex-governador, o cual podia
comandar os escoceses porque era um deles e porque, suposta-
mente, era homem. No importava quantas vezes tenham mu-
dado de lado ele ou seu filho, ue herdara o ttulo de conde
de Arra n. Esse moo, como muitos antes e depois, deixara-se

1   o livrn nfirim de orne dn Itrejn Anlicnrrn, editndo pela Irrirrreir'n ze enr 1549.
    (N.T.)


                          308
#r



       lisonjear pela perspectiva de desposar Elizabeth Tucor; por isso,
       demitira-se de seu comando nos arqueiros escoceses da GLiarda
       e correra para a Rainha virgem em Greenwich, onde os dois se
       encontraram numa cabana de vero. Embora ele houvesse abju-
       rado Roma, fugindo para Genebra sob a alegao de due os fran-
       ceses Ihe ameaavam a vida, e tivesse outros atributos (ainda era
       um belo jovem, a despeito de sua conduta j mostra r sinais de
       idiotia), aquela cautelosa senhora o rejeitara , mas no 1s claras,
       pois isso no seria de seu feitio; Arran ento voltara  Esccia,
       cheio de entusiasmo pela causa protestante, e mais tarde, apesar
       de toda a determinao e todo o encanto de Madame Marie, ele
       persuadira o pa i a retomar a a ntiga aliana com os ingleses e aban-
       donar sua Graa. chtelherault,  claro, no estava sozinho nisso.
         No primei.ro dia de janeiro de 1559, os protestantes afixlram
       uma convoca o aos portes de todos os mosteiros escoceses.
       Ela ordenava que os frades entregassem toda s as suas posses aos
       pobres e doentes e deixassem os mosteiros at o Pentecostes.
       Qua ndo rttrzdrrrrte soube da notcia, tudo que o disse foi:
         - Isso no  antes do fim de maio. Temos algum tempo. 
       preciso levar em conta o que est acontecendo na Frana.
          Naturalmente, ela estava mais informa da do que eu; poucas
       semanas depois, assinou-se a paz entre a Frana e a Espanha, e
       a jovem Madame Elisabeth, a morena filha do rei Henricue II e
       amiga de La Reinette na infncia, foi enviada  Espanha para se
       torna r a terceira esposa do rei Filipe. Isso aliviou a presso sobre
       ritrrdar>ie, pois, uma vez que ha via paz, Henridue no mais lhe
       pediria que ataca sse a Inglaterra ; alis, caluniam rrtadarne aqueles
       que a descrevem como uma amante da guerra. Durante algum
       tempo, pudemos nos entreter com jogos de cartas e at um pouco
       de mlsica. Enquanto isso, meus gmeos aprendiam a montar
       seus pneis no parque de stirling. De vez em dua ndo, eu recebia
       notcias deles; e, embora por fora dos acontecim.entos nossa re-
       sidncia principal fosse Edimburgo, itrdante tornou a cavalgar
       para sti.rling no comeo do verlo, em parte por minha causa,
       em parte por causa dela mesma, e eu a a companhei.

         - "Ele tomou do plo, e o repartiu, e o abenoou. E acredito
       no que sua palavra faz ao po." Mas isso no a compromete


                     309
#com nada! claro, serviu-lhe durante todu o reilla do protestante
de Edua rdo vI e todo o reinado ca tc5li.co de sua irm Maria. Agora,
ela recozlhece oficia lmente o Book of corrtrriort praer, em que Knox
interferiu a respeito da doutrizla da euca ristia, e se declara a lder
da Igreja Anglicana, tal como o pai fez a ntes. E j  amada por
seu povo, de um modo que nunca serei aqui na Esccia.
  Madame Marie rasgou o pedao de papel em se liam as pa-
lavras com a s quals Ellzabf th Tucor, df  IIlaIlelra dubla, toIIlava
posio quanto  eucaristil. vi l grimas zlos olhos de rrrndrrrrte e,
como de hbito, tentei collsol-la.
  - No importa o que Knox diga - fa lei. - Deus pode trans-
formar terra em trigo; por que no poderia trazlsformar po em
carne? Pode transformar o solo em vinhas; por que n o o vinho
em sangue? Nosso senhor disse cLze, se no comssemos de sua
carne nem bebssemos de seu sangtle, no ganharamos o Reino
dos cus; e, mesmo assim., essa gente teima em llegar a eucaristia,
tal como os seguidores que o abandonaram.
  - claudine, voc  uma alegria para mim. Talvez a educao
que as claristas e zninha me llos deram llo tenha sido despr-
diada. Lembra-se de qua ndo voc disse dLze 5anta clara llo
deveria ter cortado os cabelos, e sim casado cozn so Frallcisco?
  Apesar de todas as atribulaes, aquele rosto ca nsado riu. Lem-
brei-me da atitude que Madame Philippa tivera para comigo 11a-
quell oca sio, e, prudentemente, permaneci em silncio. sua Gra-
a continuou:
  - Ah, esses escoceses! Ainda me consideram uma estr ange.ira.
H muito tempo, clualldo vim para este pas a fim de casar com
seu rei, fizeram um caldo de carne que batizaram de sopa Lorena,
mas nunca o experimezltei.  como se eu nunca houvesse tocado
o corao deles, muito embora Deus saiba que tentei bastante,
durante todos estes anos. Espero que minha filha se saia melhor,
se algum dia vier para c; mas talvez isso no acontea quando
ela for rainha da Frana.
  Madame Marie se virou e foi embora. Fiquei ezlto refletindo
nas notcias daquele dia; elas diziam que John Knox estava no-
vamente 11a Esccia, dessa vez pelo tempo que desejasse, e lue
rzladnrrze convocara a ele e aos pregadores rebeldes para que a
encontrassem ali em stirling e se submetessem a julgamento. Mas


                            310
#no achei que eles viriam. Eu sabia que as coisa s j no eram
como nos tempos do cardeal Beaton, quando a Igreja podia dar
ordens sem nada temer e o povo obedecia. A prpria rradarrrc
no estava segura, tal como predissera nosso irmo, o cardeal
d.a Lorena; mesmo enquanto eu estivera na Frana, um grupo
de lords se rebelara em presena de sua Graa e colocara seus
elmos em sinal de desafio. Madarrre os apaziguara com palavras
amveis, como era de seu feitio - afinal, o que mais poderia ter
feito? No tinha a seu dispor nenhum poder exceto o da Frana;
e, na Esccia, a Frana era, cada vez rnais, o inimigo.
  os pregadores rebeldes no obedeceram  ordem, e a convo-
cao dos protestantes eontinuou afixada aos portes dos mos-
teiros, embora o vento e a chuva j tivessem apagado a tinta
havia muito tempo. Antes do Pentecostes, rnadarne enviou Erskine
de Dun para que anunciasse aos pregadores que eles haviam
sido colocados fora da lei, depois de julgados  revelia. Isso teria
tido efeito no tempo de Jaime v, seu marido. Mas nesse momento
no teve efeito nenhum, sa lvo o de acirrar o esprito de rebelio
que se escondia sob o manto da f. Madarrre sabia muito bem
que a raiz daquilo tudo era a contestao de seu poder; no fosse
isso, ela provavelmente teria deixado os protestantes protestarem
quanto quisessem. Afinal, dissera vrias vezes que os homens
podiam venerar Deus como preferissem. Mas no seria assim
para ns - nem para rnadarrre, nem para mim.

  Eu vira John Knox pregar em Perth, antes da destruio que
os reformadores provocaram ali. Isso no aconteceu por acaso;
madame me mandara para l, e viajei com dois criados, como
uma dama sem vnculos com o governo; era uma ttica menos
bvia do que enviar franceses ou representantes oficiais para ou-
virem os sermes. Tendo me esgueirado entre a congregao,
pude formar um juzo do pregador e de seus poderes. Eu no
punha os olhos em Knox desde aduela vez em saint Andrews,
logo depois que o cardeal Beaton fora assassinado e antes que
prendessem o reformador e o mandassem para as gals francesas.
Aps essa experincia, ele estava bastante mudado e envelhecido,
como j seria de esperar. Era baixo e tinha ombros largos, talvez
mais largos depois de ter remado tanto. seus cabelos e suas barbas


                           311
#haviam sido negros, embora muito finos; agora, as barbas esta va m
bem longas, cheias e grisalhas, e ele usava um gorro redondo e
um manto comprido. os olhos cinza-a zulados eram penetrantes,
e a boca ainda parecia uma ameixa. Antes mesmo que comeasse
a falar, pude entender o poder que exercia sobre os homens e,
tambm, sobre as mulheres; havia na congregao uma senhora
abobada, de meia-idade, que entendi ser sua sogra, uma m.ulher
de Newcastle que, aparentemente, o seguia aonde quer que fosse,
daquele seu jeito tonto. Knox acabara por ser casar com sua filha,
que lhe deu dois vares; um se chama va Nathaniel, e o outro,
Eleazar. Naquele dia, no vi a esposa. Knox comeou a pregar,
e o sermo foi longo, durando talvez duas horas completas. Du-
rante todo esse tempo, ele esmurrou tanto o plpito que achei
que o faria em pedaos; as questes que martelava diziam respeito
 mensagem de cristo, tal como Knox a compreendia; falou muito
pouco sobre a graa concedida a cristo. sa junto com a congre-
gao (esta bastante subjugada pelas palavras de Knox); sentia -me
gelada, embora fosse vero, e cavalguei para a casa, levando mi-
nhas opinies a r,zdame. Ela se divertiu ao ouvi-las, mas, antes
mesmo que eu tivesse ido a Perth, j estvamos cientes do perigo
que esse homem representava; algumas sema.nas mais tarde, de-
pois de um daqueles sermes, um menino atirou uma pedra numa
esttua da saint Johrt s church, em Perth, e nisto a assemblia
inteira se levantou e comeou a arrebentar tudo: janelas, imagens,
vasos, toalhas de altar, tumbas; o estra go foi pior do cue teria
sido no caso de uma invaso inglesa. Depois, correram em n-
mero cada vez maior pelas ruas da cidade, sa queando e levando
destruio a todos os lugares por onde passavam; por fim, o
prprio convento dos cartuxos foi reduzido a cacos, e no esca -
param nem os monumentos ao fundador, o rei Jaime I, a sua
esposa, Joana Bea ufort, e  velha Margarida Tudor. Alm de poei-
ra, vidro quebra do e osso, s resaram as estruturas da construo.
Madame Maric fi.cou dc solada qua ndo soub do fato, quase tanto
quanto ficara na poca em que os ingleses dc struram a capela
de Holyrood, onde ja ziam seu marido e seu.s dois filhos. Eram
sinais dos tem.pos; logo, a msma coisa aconteceria por toda a Esccia.
Antes que eu conclua, permitam-me acrescentar mais Luna coisa acerca
de John Knox. Anos depois, quando ele j estava na casa  dos


                           312
#cinqenta e sua mulher j morrera , Knox desposou uma mocinha
de dezesseis anos, pertencente  pequena nobreza. A sogra abo-
bada ainda vivia com eles. Pode-se talvez imaginar a situao.
Em todo caso, quela altura eu j estava em outro lugar.

  - Espanta-me, riiilord, cue o senhor, sendo a segunda pessoa
mais importante da Esccia e tendo entre si mesmo e a autoridade
apenas a pessoa de minha filha, a qual ainda no tem sucessor,
e a minha prpria, que sou apenas uma mulher e no conheo
nem a natureza nem a falsidade dos fidalgos escoceses, sendo,
alis, levada a crer que estes no me tm nenhum medo, pois,
repito, sou apenas uma mulher... Mas, como dizia, espanta-me
que o senhor no consiga furtar-se a ter com os homens que
tanto agridem o bem comum e o governo do pas, arrasando
abadias e locais sagrados e destruindo a liberdade da santa Igreja.
  chtelherault, o qual todos diziam que no viria, arrastou os
ps. Madame Marie tivera certeza de que ela obedeceria  con-
vocao, e eu tambm. Qualquer mostra de resoluo convencia
aquele homem vacilante, mas s por algum tempo, at que al-
gum mais o dominasse. Por isso, madarne o subjugou com pa-
lavras, tal como estava acostumada a fazer, to logo ele ficou em
sua presena. Lisonjeou o duque ao mximo; insinuou que no
poderia fazer nada sem ajuda dele, coisa que, naquele momento,
era bem verdade; e, por fim, disse que pretendia ir em pessoa
combater os rebeldes e que no teria como faz-lo sem o apoio
e a presena de chtelherault. com modos ca pciosos e palavras
astutas (conforme a descrio que dariam depois), persuadiu o
ex-governador, pelo menos temporariamente.
  Alguns dias mais tarde, os dois partiram de stirling; cavalga-
vam lado a lado,  frente dos soldados que puderam ento ser
reunidos. No era de modo algum um exrcito, nem se tratava
de uma fora que fosse preo para nossos inimigos. No estado
de sade em que madarrre se encontrava, ningum seno ela teria
ido para a luta. Eu a acompanhei, deixando meus filhos aos cui-
dados do tutor, pois ela precisava de uma mulher que Ihe mi-
nistrasse cuidados; alis, tambm deveria ter um mdico. vi seu
perfil cansado, mas orgulhoso, de encontro ao cu, e, bem perto,
o rosto retorcido de chtelherault, enquanto os dois conversavam


                           313
#sobre alguma coisa. Rumamos para noroeste, na direo das inon-
tanhas, e j se ouviam alterca es entre os soldados, alguns deles
franceses, outros escoceses.
  No Perthshire, h um vilarejo chamado Auchterarder, que,
como outros vilarejos, tem no s porcos, monturos e palha pelas
ruas, mas tambm gente assustada que corre para suas bothnns
to logo estranhos se aproximam. Metade da Esccia nem sabia
o porqu da guerra; a mensagem dos reformadores ainda no
alcanara as partes mais remotas do pas, e nunca chegaria a
alguns lugares.
  - Precisamos esperar pelos canhes - disse riiadnme.
  Ela se deitou na cama de uma das casas do vilarejo, e massageei
suas pernas. Do lado de fora, chegavam-nos o som de grunhidos
e arquejos,  medida que os bois eram atrelados e levados para
puxar os canhes. Infelizmente, esse trabalho tomava muito tem-
po, e, enquanto isso, os protestantes se reagruparam. correu o
rumor de que o conde de Glencairn, um adversrio resoluto de
Madame Marie, vinha do oeste com reforos para os rebeldes.
  Glencairn e seu pai haviam sempre se mostrado favorveis ao
casamento ingls. Alm disso, Glencairn criara uma inimizade
com chtelherault quando se divorciara da primeira mulher, a
irm do ex-governador. Tambm acolhera John Knox em sua
casa em Fimayston, onde o conde e outros receberam a comunho
dos reformadores, com po comum. No bastasse tudo isso, Glen-
cairn tinha um passa do de lealdade a Lennox. Embora estivesse
conosco na visita  Frana, durante a infncia da rainha, nunca
lidei com Glencairn, nem o apreciei muito. Era uma personagem
de aparncia mesquinha, mas pelo menos sabia de que lado es-
tava. Por isso, quando nossos canhes nos alcanaram, marcha-
mos para Perth com poucas iluses - e foi melhor assim. quela
altura, Glencairn j recrutara alguns milhares de soldados. Nossa
pequena fora no teria nenhuma chance, e ntadnme estava ciente
disso.
  Ela mandou chamar Lord James, que veio sem nenhum entu-
siasmo. Era difcil lembrarmos (e aparentemente milord no lem-
brava mesmo) que madnme o criara como seu prprio filho e sem-
pre fora generosa para com ele. Houve muita conversa e diseus-
so; enquanto isso, ao norte de Perth, trs mil soldados protes-


                            314
#r


       tantes aguardavam na verde relva do vero, e a moscas zuniam
       sobre os excrementos das tropas e dos cavalos. No houve ba-
       talha. Madame Marie estava preocupada com o que aconteceria
       aos habitantes da cidade. Por fim, assegurou-se que nenhum deles
       seria punido pelo apoio dado a qualquer dos lados ou pelos danos
       causados nos ltimos distrbios. De outra parte, os lords exigiram
       que nenhum dos franceses entra sse em Perth; esses soldados no
       deveriam ficar a menos de trs milhas da cidade, e sua Graa
       no deixaria ali uma guarnio francesa quando partisse. cum-
       pridas tais condies, ela poderia, graas  gentileza dos Iords,
       cavalgar para a cidade.
         os senhores da congregao, com suas fisionomias soturnas,
       foram-se embora, e a regente entrou em Perth, j preparada para
       suportar o que veria. Mas era muito pior do que ela imaginara;
       tudo que pudesse ser chamado de igreja estava em runas. Havia
       um silncio sepulcral, e no se ouviram aclamaes para sua
       Graa. vi as manchinha s vermelhas e brilhantes surgirem em
       suas faces quando mandou chamar o prefeito; ela j suportara
       coisas demais - e era uma Guise.
         - vou destituir esse homem - jurou.
         E, quando o prefeito se apresentou, madarrie deixou bem cla ra
       essa sua deciso (teria sido menos fcil demitir o ocupante an-
       terior do cargo, Lord Ruthven, que fora alto funciomrio e tambm
       marido de uma rica morgada; mas ele j morrera). Madame no-
       meou um sucessor de sua confiana, Edmund Hay, que, mais
       tarde, seria reitor da nova faculdade escocesa em Pont--Mous-
       son, onde vivramos com as claristas; ela tambm cuidou que a
       ordem fosse restabelecida tanto quanto possvel e ento partiu,
       deixando em Perth uma gua rnio de escoceses a soldo da Frana;
       posteriormente, alegou-se due, dessa forma, ela rompera o acordo.
       Isso fez que perdesse o apoio de Lord James, se  que valia a
       pena conserv-lo; o bastardo ma is velho do falecido rei mudou
       de lado e foi includo entre os senhores da congregao, cujo
       aspecto convinha mais a sua apa rncia azeda.

         Mais ou menos nessa poca, um cometa brilhante foi visto no
       cu noturno, ardendo com uma cauda alaranjada que, dizia-se,
       prenunciava desastres para a Esccia. Arran, o homem de juzo


                           315
#                                                                            i

de menino, bandeava-se de um lord insurgente para outro, de-
clarando-se o futuro rei e prometendo que faria seu vacilante pai
desertar de novo a causa da rainha-regente. Tambm havia no-
tcias da Frana. o rei Henrique participara de uma justa com
Monsieur de Lorges, nosso velho conhecido, e fora atingido acima
do olho por um fragmento de lana. Tal como os lords intoxicados
em Dieppe, ele demorou a morrer; alis, por algum tempo at
se acreditou que o ferimento fosse leve. De nossa parte, nada ia
muito bem; os reformadores j haviam devastado saint Andrews
e crail, e, enquanto rnadnrne descansava em Falkland, moveram-se
para mais perto dela, em cupar. Temi que pretendessem cerc-la
e captur-la no palcio, mas ela no ligou.
  - No final, acabaro seguindo para stirling; significa mais
para eles, e eu mesma irei quando puder. voc precisa ir para
l, claudine, e ficar com seus filhos; eles no podem continuar
sozinhos. Minha pessoa no  de valor para ningum. No fique
comigo, eu lhe imploro.
  Fui de m vontade, pois Madame Marie j no estava em con-
dies de montar, e eu tinha esperana de que, por enquanto,
ela no tentasse faz-lo. Acho que mndame sabia quanto lhe fal-
tavam as foras, j que dessa vez mandou que o volvel duque
seguisse sozinho, com nosso fiel D'oysel para mant-lo resoluto
e comandar o exrcito. Ao fim e ao cabo, foi D'oysel quem
subiu o monte Tarvit e contemplou o mar de foras protes-
tantes que cobriam a charneca l embaixo. A resistncia se
mostrava to intil ali quanto o fora ao norte de Perth. Mais
tarde, eu soube que haviam chegado a um novo acordo per-
mitindo que sua Graa atravessasse o condado do Fife, mas
sem trazer consigo tropas francesas nem quaisquer escoceses
que estivessem a soldo da Frana. como poderia escapar
com vida? No entanto, madame conseguiu faz-lo; depois de
haver tentado sem xito chegar a stirling, voltou para Edim-
burgo e soube que os senhores da congregao se encon-
travam em Perth, para destiturem Edmund Hay, o prefeito
que ela escolhera. Em seguida, marcharam para scone; ali,
saquearam e queimaram o palcio e tambm a abadia, onde
os reis da Esccia eram coroados desde tempos muito re-
motos. Depois disso, s poderiam ir para oeste.


                            316
#  Em stirling, ambos os meninos pegaram sarampo. Cumpri mi-
nha obrigao e permaneci ao lado deles, envolvendo suas mos
em sacos de linho para evitar que se coassem. Faziam companhia
um ao outro, e o mais das vezes ficavam em silncio; nunca
foram de falar muito, ou talvez eu  due no falasse com eles o
bastante. certo dia, fui comprar ungento para os olhos infla-
mados de Damien; as ruas estava m ento bem quietas. o boticrio
me azucrinou com o ungento e o preo, e, quando consegui
sair de sua loja, ouvi a meia distncia um murmurar sbito e
montono, como o de um enxame que se aproximasse. Pouco
depois, vi a poeira se levantar e homens chegarem a p e a cavalo.
Eram uma turba, mas obedecia m a uma direo; num piscar de
olhos, bloquearam o caminho para o castelo, de modo que no
pude voltar. Percebi de imediato quem estava no comando; eram
dois homens, ambos com boas montarias: Lord James e Argyll,
seu parente e ntimo.
  Agiram de forma rpida e implacvel. Eu deveria ter sabido,
e talvez at soubesse, que o alvo seria a igreja dos dominicanos;
afinal, j vira o que acontecera em outras cidades. observei-os
avanar para a igreja; carregavam marretas e outros instrumentos,
e, quando l chegaram, comearam a us-los contra as paredes,
destruindo os baixos-relevos. Logo surgiu uma confuso junto
s portas, com alguns querendo entrar e outros apenas olhar.
Querendo ou no, acabei me vendo entre esses ltimos, pois que-
la altura a rua estava apinhada; e, por fim, encontrei-me l dentro,
onde j no havia a paz de que me lembrava. Enquanto eu olhava,
a esttua de Nossa senhora da Piedade foi derrubada, e a suposta
tumba de Ricardo II, reduzida  a fragmentos. Fechei os olhos e
me recostei num pilar, ouvindo a destruio e a gritaria sem
sentido; quando tornei a abri-los, uma multido de monges e
freiras estava sendo expulsa para as rua s; muitos sangravam,
depois de terem recebido socos e marretadas; estavam a terrori-
zados, sem dispor de nenhuma proteo. A poeira ainda subia,
deixando o ar to irrespirvel quanto o fora em Pinkie cleugh.
Percebi uma figura magra, de monge, due corria em direo ao
tabernculo. Pensei no que havia ali, e por certo os destruidores
fizeram o mesmo; precipitamo-nos para l , mas cheguei primeiro
e fui ao encontro do hom cue corria. Era Melville, que, com


                               il,
#o rosto contorcido de medo, a ga rrava alguma coisa contra as
vestes. Ele me viu, lanou-se para a frente e me passou o pequeno
vaso que continha a hstia; ofegante, disse-me:
  - Leve-a embora, e, se puder, coloque-a em segurana.
  Nisto, j estavam sobre ele, sem se darem ao trabalho de ver
quem era nem, muito menos, o que segurava. Eu j escondera
o vaso sob a capa; depois o enfiei no corpete, onde ficou junto
da hstia que sempre guarda va para niadnriie. Quem era eu para   '
ter, j por duas vezes, guardado junto ao corao o corpo de
cristo?
  Em seguida, depois que aquela fria se abateu e a turba foi
embora, voltei para junto de Melville, ou do que restara dele.
Estava morto, esmagado. seu nariz se quebrara, pressionado com
fora contra a pedra; as mos e o corpo ficaram cobertos de poeira
e sangue. Melville talvez tenha sa bido que ele, de todos os ho-
mens, ele, o renegado, salvara a hstia, e que eu, sem nunca ter
sido em verdade sua esposa, a escondera, s Deus sabe como;
pode ser que no tenham suspeitado de mim, uma mulher. Em
todo caso, no havia nada que eu pudesse fazer por Melville;
achei que Deus receberia sua alma, por aquele ato, e esqueceria
o que ele fizera antes.
  Mais tarde, quando tudo ficou calmo, voltei mancando para
o castelo, pois eles no o haviam tomado, ocupados demais em
devastar os jardins de vero e derrubar as macieiras, cujos frutos
j pendiam dos galhos. Agora, os protestantes se embebedavam
pelas ruas, e muitas mulheres, inclusive freiras, se transformaram
em fugitiva s; eu estava entre elas; os guardas do castelo me co-
nheciam e nos deixaram entrar. Levei o vaso sagrado diretamente
ao capelo de madame, que o recebeu bastante agradecido.
  - ser usado na missa - disse-me, com calma. - A senhora
estar presente?
  - sim, estarei, para rezar pela alma de meu marido - res-
pondi.
  Afinal, Melville fora , de certo modo, meu ma rido. Descobri
que, naquela agitaeo toda, eu perdera o ungizento para os olhos
de Damien, mas ele melhorou sem o remdio. os dois meninos
aca baram sarando. Mais tarde, ftti informada de que madame dei-
xara Edimburgo, onde no havia ma.is segurana, e fugira para


                            37.8
#r


        Dunbar com alguns poucos seguidores. Eu no sabia se rrindnrne
        resolvera esperar ali que um navio fra ncs a resgatasse, mas,
        fosse como fosse, resolvi juntar-me a ela.

          - Henrique II morreu. Minha filha j  rainha da Frana.
          Antes de ter chegado a Dunbar, eu cavalgara pelas runa s
        de Edimburgo, de onde riirrdanie, mais uma vez, tivera de sair;
        a chuva constante e deprimente caa sobre a fumaa das runas
        e encharcara a mim e a meus criados, tal como naquela ines-
        quecvel ocasio em Fontaineblea u. Agora, no entanto, itindanie
        estava diante de mim no como uma fugitiva, mas rgia como
        sempre, alta, sorridente, segura de que sua poltica de unio
        com a Fra na dera frutos. Apoiava-se num bculo dourado,
        coberto com flores-de-lis pintadas em azul, e viu que eu olhava
        para ele.
          - claudine, tire a capa. Isto me foi enviado pelo mesmo navio
        que trouxe m.estre John Knox  Esccia. Engraado, no? Mas
        foi triste o que aconteceu ao rei Henrique. Ele era meu amigo,
        e, por isso, no posso deixar de pensar que os lords ficaro con-
        tentssimos com sua morte.  bem verdade que, agora, enquanto
        Francisco II ainda  jovem, meus irmos estaro no poder na
        Frana... Mas como voc est molhada! Encontrou algo para co-
        mer no caminho? seus criados j se a limentaram? Est ficando
        difcil, sem nenhuma colheita e com a apreenso de navios que
        nos traziam suprimentos; mas tenho certeza de que daremos um
        jeito. Fico feliz em v-la, minha cara. como vo os meninos?
        voc escreveu que eles andaram doentes; , recebi a carta. Ah,
        voc os deixou em stirling? Foi melhor assim.
          Tornou a sorrir e me abraou. Dei-Ihe as notcia s e disse que
        os meninos estavam bem; tirei a capa, tal como pedira, e soltei
        os cabelos molhados, para que secassem. Eu viera com dois cria -
        dos e garanti a r>ladrznie que ambos j estava m sendo atendidos.
        Quanto a mim, no tinha fome. Pouco depois, convenci nirrdante
        a sentar-se, ouvindo o mar do Norte ru.gir l embaixo, em meio
         chuva interminvel que fustigava as muralhas. se em algum
        momento me passara pela cabea que rrradrrrne pretendia escapar
        para a Frana, mudei de idia ao rev-la; embora doente, com o
        corpo inchado e a vista embaada, ela estava confiante. Eu, no;


                          319
#observara no bculo, presente da filha e do genro, uma coisa que
por si s j causaria problemas: ao lado do braso rgio da Esccia,
estavam as armas no apenas da Frana, mas tambm da Ingla-
terra e da Irlanda. se o cardeal da Lorena aconselhara Maria
stuart a apresenta r dessa forma suas pretenses ao trono ingls,
ele a aconselhara mal. Ha veria confuso tanto com os lords quanto
com o reino ao sul. Eu sabia disso e antevi a situao, ainda que
rnadnnte no parecesse pensar assim; pela segunda vez na vida,
fui mais sensata do que ela.

  Madame j fizera sua proclamao a Edimburgo, a capital em
runas, com suas igrejas saqueadas e mutiladas, seus missais quei-
mados, seus tabernculos roubados.
  - No esto interessados em Deus - disse-me -, e sim em
subverter minha autoridade e usurpar a coroa. saidam o filho
de chtelherault como se fosse o Filho de Deus, mas meus in-
formantes contam que, embora o jovem Arran parea bonito e
saudvel,  louco.
  Ela ordenara que os senhores da congrega o sassem da ca-
pital em seis horas, levando consigo todos os forasteiros; mas, 
claro, fizeram ouvidos moucos. Na verdade, o modo de lidar
com essa gente era esperar a t que fossem para casa, coisa que
sempre faziam depois de passada a agita  o. Enquanto isso, l
por fins de junho, os rebeldes se apoderaram no s de instru-
mentos de cunhagem que estavam numa casa da moeda em Ho-
lyrood, mas tambm de uma carga de metal precioso.
  Madame Marie ficou furiosa. Recuperou as energias, de uma
forma que havia meses no se verificava. convocou chtelherault
e Huntly - ambos vacilantes, ambos fracos - a uma reunio e
encarou os dois.
  - Marcharemos para Edimburgo - falou-Ihes.
  os dois lords recuaram e usaram de evasivas, e, diante de sua
incerteza, madame acrescentou:
  - Precisamos expulsar essas pessoas de nossa capital. Lord
Erskine ainda  fiel e mantm o castelo em nome de minha filha
Maria, rainha da Esccia e da Frana.
  Replicaram que suas foras eram pequenas demais e que o
plano jamais daria certo; mas a determinao de madcrrie acabou
se impondo.


                         320
#  - No posso cavalgar com os senhores - ela disse, indicando
o corpo inchado.
  Tal como antes, fez que chtelherault se fizesse acompanhar
de D'oysel, em quem ela, com toda a razo, depositava confiana.
Fomos v-los partir.
  os protestantes voltavam para casa, como se previra, mas sou-
beram a tempo da chegada de nossas foras e estabeleceram de-
fesas nas cercanias de Edimburgo. Por isso, os franceses (eu, como
todo mundo, j no contava o ex-governador) preferiram marchar
para a vizinha Leith e ocupar a cidade. Ela fora bastante favo-
recida por sua Graa, que j havia muito tempo lhe concedera
privilgios especiais e comeara a erguer ali uma residncia, com-
pletada no ano em que morreu. A casa trazia seu nome, cam-
painhas-azuis, cardos e o braso rgio entalhados na pedra acima
da porta. Mais tarde, ficaramos gratos por contar com esse re-
fgio.
  os dois lados entraram em negociaes em Leith. os senhores
da congrega o prometeram sair de Edimburgo no dia seguinte,
devolver os instrumentos de cunhagem. e quaisquer moeda s que
houvessem produzido e reparar Holyrood de algum modo, para
que rnrrdnnze pudesse se instalar ali. Tambm garantiram que obe-
deceriam a Maria, rainha da Esccia e da Frana, e a seu marido.
comprometeram-se a no molestar nem igrejas nem clrigos; a
bem dizer, restavam poucos. Em troca, os representantes de rna-
dame garantiram que os habitantes de Edimburgo teriam liber-
dade para escolher o culto que desejassem. um nmero surpreen-
dente ainda preferiu a missa.
  chtelherault e Huntly foram os primeiros a voltar para Edim-
burgo, e, de imediato, receberam os instrumentos de cunhagem.
Em seguida, rnadarne e eu samos de Dunbar, sem levarmos co-
mitiva, deixando para trs o murmrio constante do mar do Norte
e retornando  capital devastada. com a fisionomia inexpressiva,
contemplamos a destruio que se provocara ali; quela altura,
j nos endurecramos bastante. No havia nenhum protestante
 vista, e uns poucos vadios at gritaram vivas. Madame con-
tinuou cavalgando, ocultando o corpo inchado sob o manto
de vero. Eu sabia que ela sentia dores excruciantes e que, to


                           321
#logo chegssemos a Holyrood, ficaria aliviada se pudesse sentar
em qualquer cadeira que restasse por ali.
  - Precisamos esperar reforos - sussurrou-me no caminho.
- Precisamos esperar a todo custo.

  Antes de deixarmos Dunbar, rrradorrre mandara me chamar. Ela
estava sentada  mesa onde, quase diariamente, escrevia cartas
para a Frana. selou uma com o sinete verde dos Guise e passou-a
para mim.
  - voc deve conserv-la na eventualidade de minha morte
- disse-me. - No se a la rme, cl.audine; todos morremos, e j
faz algum tempo que espero isso pa ra breve. No v se lamenta r
por mim.
  - Madarne...
  No consegui conter as lgrimas. Gaguejando, falei-lhe do me-
dalho que o cardeal da Lorena me confiara e perguntei se deveria
entreg-lo a ela.
  - No - respondeu. - Ele ficar mais seguro com voc do
que comigo. Quando eu estiver morrendo, traga-o para mim.
Estou certa de que voc estar l.
  Para meu espanto, notei um brilho naqueles olhos baos e
inchados, e ela continuou:
  - Quanto aos gmeos, acho cue n o so de Melville. so
filhos do intendente de vouvray, no? voc no me enganou;
pouca gente consegue fa z-lo. Minha inteligncia  muito bem
provida, assim como era a de Henrique II, que Deus o tenha.
  Baixei a cabea.
  - No se atormente com isso - falou. - Tenho suportaco
a perfdia dos filhos bastardos de meu falecido marido; voc pelo
menos me  fiel. A carta que lhe dei  pa ra minha irm Antoinette,
a abadessa de Farmoutiers, a fim de que ela a admita no convento.
Quando eu j estiver morta, voc talvez prefira n o voltar para
vouvray. use-a se quiser.
  contei-Ihe o que acontecera a Melville, e ela fez o sina 1-da-cruz.
Tal como eu, mrzdarne tinha certeza de que Deus o perdoara.
  - No sei o que aconteceu - disse-lhe. - Quando o deixei,
ele era um reforma dor, e, quando tornamos a nos encontrar, j
estava numa procisso de monges e no quis nem me ver.


                           322
#  - o que aconteceu no final mostra due ele voltara para Deus
- afirmou madarrre. - No se preocupe mais com isso, claudine,
mas reze por ele. Eu tambm rezo pelo rei meu marido. caso
voc se decida a ir para Farmoutiers, creio que achar o convento
menos severo do que o de Rheims, a abadia de minha irm Rene,
onde escolhi ser enterrada. Receio que os protestantes no me
eoncedam um repouso tranqilo na Esccia.
  Guardei entre meus pertences a carta de selo verde, disposta
a mant-la sempre perto de mim. Depois, como j disse, partimos
para Holyrood.

  Lord James e eu nos encaramos por sobre a mesa. Ao fundo,
estava o conde de Argyll, cuja presena eu esperara evitar; esse
campbell fora o primeiro membro da alta nobreza a desertar a
antiga religio, e se mostrava assustadoramente fantico em seu
apoio  nova. Qualquer coisa que sua Graa tivesse me instrudo
a dizer seria depois desprezada pelo conde e ardilosamente de-
sacreditada; s me restava fazer o melhor possvel. Aquela mulher
enferma, que j no podia cavalgar, mas que de modo algum
estava derrotada , enviara a mim, sua irm e aliada, para conseguir
o que pudesse com esse homem, o filho bastardo de seu marido,
que ela criara desde a infncia. Ao contemplar os olhos gelados
de James stuart, esqueci minha temporada na limpa e agradvel
cidade de Glasgow, cuja catedral, a saint Mungo, ainda se erguia
intacta numa elevao e cujas casas de pedra cinzenta se agru-
pavam ao seu redor. uma delas pertencia ao arcebispo, e ali eu
e meus criados comemos e bebemos. De modo geral, esse clrigo
apoiava madame.
  - o que posso fazer pela senhora? - inquirira Lord James,
com cortesia.
  Ele ento me indicara uma cadeira. Era um homem alto, mas
o fato de estar sentado tirava o impacto de sua estatura, a qual,
em todo caso, no teria me impressionado. usava roupas sun-
tuosas, de cor escura, e uma estreita gola de rufos, que realava
sua barba negra e baixa. Eu sabia que, a despeito de ser ilegtimo
(tal como eu, alis), ele ainda tinha esperanas de ser considerado
candidato ao trono da Esccia, e, dessa forma, um rival do jovem
Arran, em quem a maioria dos lords depositara expectativas e


                       323
#que agora estava com o pai. Por essa razo, rrndnrrre achara que
talvez pudssemos reconquistar Lord James para nosso lado. Eu
j sabia que no seria esse o caso; no entanto, fiz o que me fora
pedido.
  - Milord e outros assinaram um acordo segundo o qual ne-
nhum dos senhores se encontraria ou falaria com a rainha-regente
sem a autorizao dos restantes. Qualquer mensagem particular
que ela enviasse teria de tornar-se pblica. Isso no  um reco-
nhecimento de due o encanto de sua Graa pode transformar
inimigos em amigos? E n1o seria melhor se isso de fato aconte-
cesse a todos ns? Mndnrrre no tem inteno de influenciar as
crenas dos senhores; nunca fez nem tentou algo assim.
  Deus, pensei comigo mesma, bem sabia quanto a amizade de-
les, se conquistada, seria volvel; e os dois homens ali presentes
eram nossos inimigos resolutos. Eu estava sabendo da ausncia
de Knox, que recentemente fora a Lindisfarne, na Inglaterra, para
tratar com os ingleses. sendo relativamente modesto, contou a
todos de sua viagem, o que enfureceu os lords tanto ao norte
quanto ao sul da fronteira, e, por certo, a prpria Elizabeth.
  Lord James falou:
  - Maria de Guise  uma inimiga do Evangelho de cristo. Ter
enviado uma mulher para tentar me iludir  mais uma prova de
sua astcia.
  sua boca severa ca beria melhor num homem muito mais velho.
Nas sombras, Argyll assentiu. Fiquei furiosa, eoisa que nunca 
diplomtica.
  - No estou empregando nenhum ardil feminino contra rni-
lord. o senhor  um clrigo, ou pelo menos era, at pouco tempo
atrs.
  No lhe fiz lembrar que ele, enquanto prior de saint Andrews
(cujas rendas recebera por muito tempo), tentara obter licena
para desposar a morgada de Buchan, ento uma menina de colo   ,
e que La Reinette no autorizara o casamento; apesar disso, Lord
James conservara os proventos da menina, e mais tarde a casou
com seu irmo.
  - Madarrte no  inimiga de ningum - continuei. - Tudo
o que ela pede  que os senhores, quando de suas pregaes, no
aticem os fiis contra o governo e os soberanos legtimos. Podem


                          324
#culp-la por exigir isso? os senhores j a obrigaram a suportar
mais do que suportariam quase todas as outras mortais; os se-
nhores e seus homens j causaram danos imensos por toda a
Esccia e, a gora, se aliam tambm a nosso inimigo do sul. Ah,
est surpreso de j estarmos informados? Bem, sabemos de al-
gumas coisas, nrilord. Estamos cientes, por exemplo, de que a
rainha Elizabeth, no mesmo dia em que enviou o jovem Arran
cheio de esperanas para o norte, tambm mostrou a Monsieur
de Noialles um retrato de rncrdnrrte, na galeria de Hampton court,
e discursou sobre a bondade e a virtude da regente. Elizabeth
diz que o sinete de rrradarrie  muito conhecido e conceituado, ao
passo que os senhores no tm nada para mostrar. A rainha in-
glesa  cautelosa. ser uma amiga ou uma inimiga? Talvez nin-
gum tenha como saber; mas, pelo menos, os senhores podem
ser leais a seu pas e a sua governante. Afinal, rnrrdarne mostrou-se
muito generosa para com o senhor, rrrilord.
  - J afirmamos nossa lealdade  rainha Maria e a seu esposo
- replicou, friamente.
  Argyll se moveu um pouco, mas no falou; teve o cuidado
de no dizer nada durante todo o encontro.
  - Ento por lue promovem a sedio e o tumulto? - per-
guntei, irada. - Isso no  lealdade. Por quem lutam, seno por
si mesmos e por seus prprios interesses?
  - Buscamos a ajuda inglesa para maior glria de Deus -
disse Lord James, com falso fervor. - Maria de Guise restabeleceu
em Holyrood a abominao da missa, e, se deixassem, teria feito
a mesma coisa na catedral de Edimburgo.
  - simultaneamente aos prprios servios religiosos dos se-
nhores, de modo a contentar ambas as fs. Foi essa a sugesto
de mada>ne. Parece injusto? Temos usa do de coero?
  o silncio foi sua resposta. senti total impotncia e lhe disse:
  - Ento no far nada para clue a autoridade civil se veja
respeitada, a paz seja mantida e niadarne venha a ser tratada com
honra, em sua condio de rainha-regente?
  - Ela ser destituda da regncia pelo som de trombetas e
por uma proclamao em Edimburgo.
  Levantei-me; j no conseguia conter a raiva.
  - Pois eu Ihe asseguro que ela ignorar essa impertinncia.


                           325
#sua Graa tinha esperanas de que, se eu viesse fala r com v se-
nhor, poderia talvez provocar alguma mudana em seu corao,
no por minha lbia, mas pelo bom senso e nobreza de rrtndnirie;
no entanto, homens de sua espcie no tm corao. Queixa-.se
da presena fra ncesa na Esccia, mas o que a trouxe para c,
seno a desobedincia de gente como o serihor? Eu mesma o
amaldio;  um hipcrita , tal como os que cristo abominava.
No importa o que acontea, o senhor no prosperar, e, quando
tiver de encarar Deus, finalmente aprender a diferena entre o
certo e o errado.
  voltei-me e, em minha pressa de sair, virei a cadeira; milord
no me acompanhou, e me juntei a meus criados e a nossa pe-
quena escolta a cavalo; quando parti, ainda estava furiosa. Posso
mencionar que Lord James, mais tarde conde de Moray, mudou
de lado muitas vezes, e, quando j era regente, acabou sendo
assassinado no meio da rua; o matador era um jovem cuja mulher
fora estuprada at a morte pela soldadesca de Lord James. Este
foi louvado pelos protestantes como o Bom Regente e, aps um
sermo de John Knox, sepultado na catedral de Edimburgo, a
saint Giles; a essa altura, eu, felizmente, j estava na Frana,
tendo assistido  distncia aos sofrimentos da pobre Maria stuart.
  Mas retomemos minha histria. voltei para junto de Madame
Marie e confessei meu fracasso, o qual, talvez, j esperssemos.
Madante, porm, era to destemida que tentaria qualquer coisa
pela causa da paz, uma paz que, agora, se mostrava impossvel.

  Lord James, sempre na companhia de Argyll, visitou o jovem
Arran e eavalgou com este at stirling, para que pudesse apre-
sent-lo aos lords. Quaisquer ambies de realeza que o bastardo
mais velho de Jaime v tivesse para si foram, momentaneamente,
deixadas  parte. E, mais uma vez, chtelherault acabou persua-
dido a mudar suas lealdades, o due j era mesmo de esperar.
Madame encontrou um remdio para os perigos dessa situao,
e, por causa desse remdio, ainda a chamam de inescrupulosa.
  - Precisamos fortificar Leith. Quando fizermos isso, diro que
rompi o acordo. Mas, se no agirmos assim, como poderemos
criar um refgio para nossos pobres soldados franceses antes


                         326
#   T



           qu.t c lords, tendo 1 frente aquele homem e seu filho, tornem a
           marchar para Edimburgo?
             Ela estava dem.a.sia do irac-Ia para cue conseguisse pronunciar
           o nome de ch telherault; Inais tarde, escreveu a o rei da Frana
           solicitanc-lo-Ihe cue, como penhor de bom comportamento, a s ren-
           das do ducado de chtelherault fosselzi seqestradas e que Da vid
           Ha milton, o filho bastardo do ducue, e James Hamilton, seu ser-
           vial, fossem mantidos sob ctlstdia.
             Leith foi fortificada, e os habita ntes daquela cidade ue apoia-
           vam nudnic tiveram a pacincia testada pela az fama com que
           se ergLzeram as edificaes para acomodar os soldados. Tambm
           houve mal-estar quando mil soldados franceses desembarcaram.
           ali; como alguns houvessem trazido as esposas, correu o boato
           de que a regente pretendia fundar uma colnia francesa na cidade.
           Madnrrie estava cnscia de tudo isso e tambm sabia que sua po-
           pularidade j no era a mesma; mas contentou-se em aprovisionar
           Leith, embora dispusesse de pouco dinheiro; e, por fim, teve o
           prazer de instalar uma bela porta de madeira entalhada na casa
           que construra para si, em Water Lane, onde moraria por en-
           quanto. A porta mostrava no centro a efgie de madame, ladeada
           por nosso pa i e pelo rei Jaime; nos cantos superiores, havia duas
           ninfas, e >Itndnie dizia que a da direita era eu. Abaixo, viam-se
           flores e as efgies de Francisco II e Maria stuart. Na pedra acima
           da porta, apareciam entalhados, como j disse, o nome de Iriadnnre,
           Maria da Lorena, e o ano,156o.
             Enduanto isso, Elizabeth enviara pa ra o norte um ardiloso es-
           tadista, Thomas Randolph, em companhia do jovem conde de
           Arran. Randolph teria dito lue sabia quo enferma estava a re-
           gente, Inas que, afirmavam algLms, nem mesmo o demnio con-
           seguiria ma t-la. Ela estava mesmo doente, mas, to claramente
           qua ntn farla s 5tlv2sse b2m, ordcnou lllc Ilossas colsIs fos.sem
           trazidas de Holyrood; e, em resposta a outra insolncia dos lords,
           envioLz o a rauto-mor com uma resposta adeduada. Nela, criticava
           severa e explicitamente a falsidade de chtelherault e depois as-
           severava ter tanto direito a fortificar Leith em nome da soberana
           quanto o duque a fazer mesmo em seu palcio de Hamilton.
             - Precisei esperar pelo pior e me fortalecer a todo custo -
           justificou-se chtelherault, desanimadamente.


327
#  o arauto continuou a recitar a mensagem de inndnrne:
  - Pela causa da tranqilidade pblica, farei tudo o que no
for contrrio a minhas obrigaes para com Deus e a rainha.
Quanto a destruir a lei e a liberdade, isso nunca me passou pela
cabea. Para quem conquistaria eu este reino, se minha filha j
 a legtima herdeira da Esccia?
  Tratava-se de um lembrete, bastante oportuno, a Arran e Lord
James - se  que os dois prestariam ateno nele.
  Knox e um pregador chamado Willock estavam em Edimbur-
go, e isso por certo reforou a posio dos lords; ouvimos as
trombetas que Lord James prometera, embora no a voz que
proclamaria o fim da regncia de rnadame. Em seguida, os lords
enviaram uma mensagem pelo arauto-mor, exigindo que rnadarne
se retirasse de Leith em vinte e quatro horas, levando consigo
os soldados franceses. como desdenhssemos essa ordem, o de-
safio j estava lanado, e fizeram-se preparativos para um assalto
a nossa fortaleza.

  o reboco da nova casa de Leith ainda estava mido, fazen-
do-me recordar o cheiro de Freuchie. Mas, de resto, havia muito
pouca semelhana com aquele pacfico castelo das Highlands. A
comida escasseou, apesar do cuidadoso aprovisionamento levado
a efeito por rriadarne; os franceses, que gostam de comer bem,
comearam a resmungar, e alguns tentaram fugir. Madame Marie
enforcou cinco deles. Fora da cidade, para alm das muralhas,
houve uma escaramua na qual um homem chamado Kirkcaldy
de Grange matou um francs, e logo em seu primeiro combate,
coisa que  considerada bom augrio para o vencedor.
  Mas tambm tivemos alguma sorte; as escadas de assalto que
os protestantes fabricaram (na nave da catedral de Edimburgo!)
eram curtas demais para as muralhas de Leith; so Giles talvez
tenha nos favorecido. ouvimos os combates, e fiquei junto de
madarne, que no estava em condies de sair; no Ihe contei que,
de modo geral, acreditavam que ela iria refugiar-se na ilha de
Inchkeith, a qual, como j contei, os franceses haviam retomado
aos ingleses, muito tempo antes, e rebatizado le-Dieu. Madame
no se retiraria para lugar nenhum; embora no fosse vista, li-


                          328
#derou a cidade sitiada e comandou as defesas tal como noss
pai o fa ria .
  Recebemos ajuda. Ela chegou de modo inesperado, na form
de urn bravo rapaz, rijo como ao, que era filho do Belo cond
de Bothwell, aquele desprezvel pretendente  mo de rrradnrn
falecido havia quatro anos. Ja mes Hepburn, conde de Bothwe
e almirante-mor da Esccia, no se parecia em nada com o pa
no tinha nem sua beleza nem sua falsidade; era franco, honestc
valente, um homem de verdade, que eu teril cobiado se ele n
fosse jovem demais pa ra mim. Dizia-se, a propsito, que estav
comprometido com a viva Buccleuch, mas no ouvimos fal
mais disso. Bothwell capturou quatro mil libras em dinheiro iz
gls, enviadas aos rebeldes por Elizabeth, e as trouxe para su
Graa. Lembro-me de como os olhos baos de rnadnme se ilum
naram e de como ela riu; foi quase a ltima alegria que tev
James Hepburn se ajoelhou, tomou as mos da regente e juro
ser seu pa ladino; cumpriu essa promessa, mantendo-se fiel a1
a morte de rrTndarrre; e, em seguida, serviu bem Maria stuart,
despeito de tudo que digam contra ele. Fiquei feliz com sua prc
sena e, tambm, com a ausncia do insinuante secretrio de it
dnr2ze, Maitland de Lethington; descobriu-se depois que, ante
ele vinha transmitindo aos ingleses os segredos de sua Gra
mesmo os que estavam em cdigo. Maitland acabara de desert
para os senhores da congregao, e ningum sentia sua falta.
  Enquanto isso, certo Haliburton, um protestante convicto qr.
era prefeito de Dirleton, instalara uma bateria no Hawk Hill,
monte que domina Leith. Dispunha de canhes suficientes par
ter acabado conosco s com o rudo dos disparos; eram todas 
peas de artilharia dos lords e todas as que antes estavam r
cidade de Edimburgo (exceto as do castelo, das quais Lord Erskir
no permitiu que levassem nenhuma ). Espervamos o bomba.
deio, m1s ento irindnrrie me chamou, um pouco agitada.
  - Em Edimburgo h um homem chamado clerk que  favc
rlvel a nc5s - disse, em voz baixa. - Ele diz que todos, lords
plebeus, foram para uma de suas longas pregaes hoje de manh
e que ficaro nisso muitas horas ainda. convoque minha guard
pessoal; no precisamos de muitos soldados; bastam aqueles eI
que podemos confiar.


                           329
#  com esforo, ela se levantou de sua cadeira, erguendo pela
primeira vez em dias a quele sezz corpo inchado; era como se,
junto eom a esperana, sua sazde tivesse se restabelecido de re-
pente.
  A guarda se reuniu e lanou uma incurs o silenciosa contra
o Hawk Hill, subindo o monte, tomando os canhes e ma tando
Haliburton e todos os homens que estava m ali. No satisfeita,
nossa pequena fora invadizz Edimburgo e chegoLz a t o canon-
gate; foi eliminando todos os inimigos cIue encontrava pelo ca-
minho e voltou carregada com toda a comida lue conseguiu apa-
nhar. Mais tarde, Knox escreveria clue a regente se sentou numa
muralha e trocou gracejos com os soldados quando eles retorna-
ram. Madarrre estava muito longe de poder sentar-se em mura lhas,
mas, de fato, a volta de nossos homens 1 animou; no tivramos
nenhuma baixa. ouvimos uma rpida salva de canhes do cas-
telo, pois Lord Erskine era neutro e queria deixar isso bem claro.
Lembrei-me de que ele prometera a rrradarne que, caso esta corresse
perigo de vida ou estivesse perto de fim, encontraria refgio no
castelo, desde que acompanhada apenas de suas criada s e damas
de companhia. Era um alvio poder contar com isso.
  Pa recia que nossa sorte mudara. Em 31 de outubro, dia das
Bruxas, Lord James e Arran foram postos para correr de Restalrig,
como dois demnios, e vinte e cinco de seus homens acabaram
sendo mortos, o qzze deixou os lorcls mais agitados do que seria
o caso se as baixas fossem vrias centenas. os nobres ficaram
consternados; o senhor dos Exrcitos os abandonara;  meia-noite
de 5 de novembro, fugiram da capital, levando consigo as esposas
e os filhos; e, afora terem alivia do as necessidades em Limithgow,
no pararam at chegarem a stirling. quela altura, eu j mandara
Giles e Damien pa ra a casa de sua antiga ama-de-leite, em Abbey
craig, e era de esperar que os dois meninos ficassem seguros
entre as rvores e rochas, longe das runas da cidade.
  No dia 6, Mada me Ma rie entrou triunfalmente em Ediznburgo.
Tal como antes, escondeu cozn o manto o inchao do corpo. No
fomos para Holyrood, e sim para uma pequena casa que rnndnrrre
possua perto do castelo, em Blythe's close; ali, ficaria ma is perto
da proteo de Lord Erskine, se esta se fizesse necessria, do que
no palcio de Holyrood, tantas vezes invadido que se encontrava


                         33o
#       T


                   st'm mvt'1s E' ccIasE' sE'm tf'to. sobrE' a  porta dc  1lo55i1 cilsa, lll-se
                   a dIvlsa I.ntls f IoiloY Dco - glorla e llotlra  a D(115.  Pal'el,la ulll
                   bom augrio.

                      Maria,  nossa  jovem  rainha  da  Esccia,  Ilossa  Re111ettc',  t1I111a
                   sabedoria; dizem que, mesmo qualldo me1lilla 11a corte fl'alleesa,
                   falava como Lzm adulto de cinq(nta a11o5. No entanto, coIl.flava
                   demais, e isso acabaria por compromet-la, pois h forosalllezlte
                   possoas  que  nao  sao  nem  boas  Ilom  scIlsflta s.  QLIalld o  pllsou.
                   om onviar nosso irmlo mais novo, Izellc do GLzise, para govo1'Ilal'
                   a Esccia e, assim, permitir (lu.e a me descansasse, (:la por certo
                   aglu com  a melhor das mtIles; mas  al.nda nao (.oIlhf'cla  se11s
                   prprios compatriotas. os escoceses teriam se ressentido enol'-
                   memente da presena de Lzm governador francs, que, ainda por
                   ciml, era um Guise; nmdnirtc:, a pesar de frallcesa, pelo Inellos ca-
                   sara com o rei da Esccia e lhe dera filhos. os escoceses so LIma
                   fauna teimosa e orgulhosa. Embora j estivessem em alialla com
                   Elizabeth (como logo ficaria comprovado), duvido qLze isso hoLz-
                   vesse acontecido sem as ddivas de di1llleiro ingls. os lor'ds es-
                   coceses sabiam muito bem (lue no eram ingleses. Estes so alli-
                   mais bastante diferentes.
                     Nesse meio tempo, rrrndnrite voltoLz a segLzrar as rdeas do goverllo,
                   agora de nossa casa em Blytll s close. ordenoLz (lLze se reparassem
                   as construes mais atingidas da capital e providenciou para que
                   a catedral de saint Giles fosse recollsagrada. Estra nhamente, Lzm de
                   seus partidrios era o irmo de chtelherault, o arcebispo de saint
                   Andrews, que vinha se grudalldo em rrtndarrle. claro, no era pessoa
                   de confiana, mas estava presente  cerimllia na catedra 1; tambm.
                   compareceu o bom Lord seton, cLzja esposa permanecera 11a Frana.
                   Alm de mim, havia poucos em quem sua Graa pudesse collfiar.
                   Quanto a chltelheraul.t, j fazia algum tempo que rrrndnrrte pensava
                   em algum modo de lidar com ele; era provvel qLze o dLzqLze e os
                   outros lords tentassem retomar EdimbLzrgo, e, antes (lLze isso acoll-
                   tecesse, ela queria desacredit-1o a todo cLzsto. Por volta do Natal,
                   revelou-me essa inteno e perguntoLz se poderamos malldar clla-
                   mar Marion ogilvy.
                     Fiquei embasbacada. Aqueles que collheceram a regente sem-
                   pre afirmaram que ela no esquecia llada; mas ter lembrado, em


331
#meio a todas aquelas lutas, que a antiga amante do cardeal Beaton
possua talento para falsificaes era coisa que denotava, no m-
nimo, uma memria gigantesca. Escrevi para Melgund, onde Ma-
rion estava morando, e de imediato ela veio a Edimburgo. Mudara
pouco com os anos; seus cabelos negros haviam embranquecido
nas tmporas, mas isso dava ainda mais fora a seu rosto, num
efeito que, de algum modo, era realado pelo fato de haver per-
dido os dentes. Empregara boa pa rte de seu tempo em litgios
por causa de terras e dvidas e se torna ra bastante conhecida nos
tribunais, conduzindo seus prprios casos com a desenvoltura
de um advogado. Nada a amedrontava.
  Tnhamos uma cpia do sinete de chtelherault. Agora, era
apenas uma questo de forjar uma carta a Francisco II, uma men-
sagem servil em que o ex-governador lamentasse toda a infide-
lidade passada e pedisse proteo ao rei da Frana. A idia era
fazer supor que tal mudana de posio - que no seria nem
a primeira, nem a segunda, nem a terceira - fora causada pelo
seqizestro das rendas do ducado de chtelherault, uma provi-
dncia tomada a pedido de rnndarne.
  - sempre abrem minhas cartas na Inglaterra - afirmou a
regente -, e com certeza abriro esta tambm.
  Depois, pediu a Marion que desse o melhor de si. Minha amiga,
concentrada, passando a lngua pelos lbios, falsificou a mensa-
gem e reproduziu cuidadosamente a assinatura de chtelherault,
da qual tnhamos muitos exemplares. uma carta branca foi tam-
bm includa, de modo que o rei da Frana pudesse fazer constar
ali quaisquer termos e imposies que desejasse. Quando tudo
aquilo viesse a pblico, iria no mnimo causar confuso entre os
lords; a inteno era justamente essa. Depois de tudo terminado,
sentamo-nos a s trs e tomamos vinho juntas, certas de termos
realizado bem a ta refa. Estvamos usando perfdia contra perf-
dia; era a primeira vez que rnadarne tentava isso. Notei que o
vinho devolvia um pouco de cor a suas faces lvidas; fiquei feliz
com isso.

  Ren de Guise, marqus de Elboeulf, foi o ltimo varo
a nascer da duquesa Antoinette e chegar  idade adulta (os
dois meninos que vieram depois dele morreram jovens); era


                          332
#vinte e um ano mais novo do ue Mada me Marie. Partiu para
a Esccia com uma frota que, repetidas vezes, foi dispersada por
vendavais e impelida de volta  costa normanda. Numa nica
noite, dezoito dvs navios se perderam. No final, apenas mil in-
fantes desembarcaram em Leith, sem que o prprio marqus es-
tivesse com eles. quela altura, rrradrrriie estava muito doente e
j desenganada. Era dificlimo arranjarmos dinheiro. Mndnme pe-
nhorara todas as suas jias, exceo feita a uma pequena coroa
de ouro; mas acabou tambm desfazendo-se dela, que Lord Home
de Blackadder comprou por mil moedas de ouro (quando voltou
para a Esccia, La Reinette recuperou essa coroa). Foi s depois
disso tudo que rriadame reduziu a quantidade de metal precioso
na cunhagem de moedas. Tratava-se de uma medida desesperada,
a nica que lhe restou. Isso no lhe granjeou popularidade, e
todos os preos subiram.
  Nessa poca, uma poderosa frota foi avistada ao entrar no
esturio do Forth; assediados como estvamos, achamos que o
marqus Ren houvesse chegado; mas, na realidade, ele ainda
se encontrava em alto-mar, atacado de enjo. Nossos canhes
dispararam uma salva de boas-vindas, e a resposta foi um bom-
bardeio feroz, que matou muitos. A frota no era francesa, mas
inglesa; fora despachada por Elizabeth Tudor, que, poucos dias
antes, enviara mensagens extremamente corteses  rainha-regente
e assegurara a Monsieur de la Marque (o qua I lhe solicitava um
salvo-conduto para a Esccia) que rimdarne gozava de muito boa
sade. Talvez isso explique o envio da frota, ma atitude insen-
svel e vergonhosa da rainha inglesa.
  At ento, rnadarne vinha se reanimando, pois havia boas no-
tcias; sobretudo, mais uma vitria dos franceses sobre Lord James
e chtelherault, na vspera do Natal. E, alm de nossa carta in-
trometida ao rei da Frana, manipulamos uma antiga ambio:
Lennox, que ainda esperava na Inglaterra pelo reconhecimento
de suas pretenses ao trono, fora pelo menos encorajado a acre-
ditar que no ficara esquecido (ele e sua Lady Margaret, embora
devotados um ao outro, no tiveram sorte; a maioria de seus filhos
morrera, dos quais os nicos sobreviventes eram Lord Damley e
um menino bem mais novo; como sempre, viviam em. grande

                       333
#pobreza, em Yorksllire, e Lemlox devia sentir muita saudae ce
5c:115 teITlpos Ilos lrcluclros c'scoccses da Guarda.
   Mas a  frota  mglsa em Forth, con1 sua carga  d aYmds, muIllao
   mantlmento.5  para  os  scnhoYes  da  coIlgregaao,  era  ps.smla
notIcla;  compumla-s  de  olto  grandes  naus  de  guerYa  e  tYt3zla
tl'ts mll 5oldados. Em troca dessa allda, 1lossos oYcs pYomf tf ram
entregar ao duque de Norfolk, o general de Elizabetll, duatro
basties escoceses: DLmbar, Dumba rton, Illchkeitll e a cidade fron-
teiria de Dumfries. No enta nto, prometer llo  culllprir, e os
holIlells  de llllllolll alllda  ocLIpavam  c'sscl.s  fortalezas e cldHdf's.
Norfolk, porm, marchou para a Esccia. os dias do Galanteio
Brutal pareciam ter voltado, com incndios, matanas, estupros
e rullas, e tudo isso no auge do inverno. Hoje, acho interessante
pellsar que o mesmo Norfolk acabaria sendo decapitado por or-
dem de Elizabeth, quando se torllou pretendente de La Reinette,
presa nos clrceres ingleses, e conspirou com ela.

  os ingleses tm um jeito hipcrita de negarem o bvio. o
almirante Winter asseverou a irtndalre ue Illo viera com ordells
de guerrear e que, ao contrrio, decidira por vontade prc5pria
ajudar os lorcls, quando estava de passagem pelo litoral da Esccia.
Madame observou secamente:
  - como se um simples sdito, um mero oficia I, tivesse a au-
toridade ou o poc-ler pa ra fa zer guerra sem instrues expressas
da raimla... E como se algum pudesse guerrear  custa de um
sobera I1o sem que este fosse inEormado!
  Depois lue o ellviado foi embora , ela se virou pa ra mim.
  - os atos da rainha da Illglaterra contradizem todas as suas
palavras - disse-me. - No esturio, ela tem oito naus due Ilos
bombardeiam s claras e ata cam os sditos deste reino!
  Em breve, j eram mais de nito na vios; acumulavam-se comn
mosquitos ao pr-do-sol, enquanto os ingleses continuavam
jurando que sc5 estavam ali por causa do mau tempo. Madame
assinalou due o vento estivera contra eles e que tambm ha -
viam ca pturado dois barcos escoceses que navegavam para o
condado do Fife, com mLmio destillada aos soldados fran-
ceses ali aca ntollados.
  Era a conflagrao.


                         334
#  - J conheo h muito tempo as inconvenincias da guerra
- disse rrindrrrrre -, e, para honrar a Deus, gostaria de evit-la.
  Mas guarneceu Inchkeith, tornou a fortificar Leith e, todos os
dias, levantava-se ao nascer do sol, apesar de estar cada vez mais
enferma. os lords se prepararam para atacar Leith pela segunda
vez, de modo que todos os nossos ganhos anteriores redundavam
em nada; ao fim e ao cabo, os franceses foram expulsos do Fife.
Madnrrre convocou todos os homens aptos, entre dezesseis e ses-
senta anos, para que estivessem prontos a combater uma hora
depois de soado o alarme; e, entre Edimburgo e a fronteira, todas
as casas deveriam esconder suas provises e quebrar seus reci-
pientes de fazer cerveja. Essa ordem no fui cumprida, e talvez
a culpa fosse das prprias foras francesas: soubemos de uma
mulher pobre que afogara um oficial num barril, e chamara os
vizinhos para ajud-la, porque ele comera o alimento destinado
a seus filhos. o nome de rrradrrrrre era associado aos franceses, e
isso a tornou impopular; cada vez mais, a gente comum se voltava
contra ns e seguia os lords, cujo idioma entendia e para cuja
religio era progressivamente atrada.
  Foi um inverno difcil; no Natal, houve pouco o que come-
morar. Em fevereiro, um ms de ventos inclementes, Lord James
e alguns seguidores navegaram para o sul, encontraram-se com
o duque de Norfolk em Berwick-upon-Tweed e assinaram uma
aliana. Quando madame recebeu essa notcia, recostou-se na ca-
deira enquanto as lgrimas escorriam como chuva por suas faces;
ultimamente, ela dera para chorar bastante, e os cruis homens
do sul diziam que isso a ajudava a liberar os fluidos e que esses
seus balidos, na expresso de Norfolk, no eram sinceros. No
reconheciam em nada a honestidade de nradarrre; talvez nem aere-
ditassem que estava para morrer. Mas as notcias j bastariam
para mat-la. Agora, Elizabeth deveria receber o reino da Esccia;
chtelherault, graas a um ato do Parlamento, seria declarado o
herdeiro do trono, e a nobreza do pas se submeteria  rainha
da Inglaterra, que enviaria  Esccia, com a mxima presteza,
"um nmero conveniente de soldados", tanto por terra quanto
por mar, at que todos os franceses fossem expulsos. Em troca,
os protestantes escoceses prometiam ajuda militar  Inglaterra
caso aquele pais fosse atacado pelos franceses. como clusula


                          335
#adicional, afirmavam que ainda obedeciam a Maria, rainha da
Esccia, e a seu marido; a natureza dessa obedincia era deixa da
em aberto.
  - Nada do que j aconteceu  Esccia me atormenta mais
do isso. sou mulher. Talvez tenha lutado como um homem.
Mas nem mesmo um homem pode combater o inimigo em
duas frentes.
  Eu a conduzi para seus aposentos; ela j no estava em con-
dies de fazer mais nada. Fiz que se deitasse e despi seu corpo
horrivelmente inchado; madame fechou os olhos, mas as lgrimas
ainda escorriam por seu rosto.
  Maro veio e passou, e na primavera o exrcito de nossos
inimigos invadiu a Esccia. o comandante era Lord Grey de Wil-
ton, um homem afamado pela crueldade. Liderava seis mil in-
fantes, com a promessa de receber mais dois mil; alm disso,
contava com mil homens da cavalaria pesada, setecentos da li-
geira e vinte e quatro baterias. Acamparam em Halidon, depois
em Haddington, a seguir em Musselburgh e por fim em Restalfrig,
de onde j se podia avistar Edimburgo.
  Para no desanimar as tropas de que ainda dispunha, ma-
dame esperara at ento; mas, agora, sua prpria pessoa eor-
ria perigo. J no recordo se ela mesma tomou a deciso ou
se fomos ns, que a amvamos; fosse como fosse, guiamos
seus passos, pois ela mal conseguia andar, at o castelo, onde
Lord Erskine Ihe prometera refgio caso rnadame estivesse
em perigo ou j nas ltimas. Essa eventualidade se concre-
tizara. L estava a velha e forte ponte levadia, a mesma
que Margarida Tudor fizera baixar na infncia do rei; cami-
nhamos por ela, todas ns, apoiando Maria da Lorena, rai-
nha-regente da Esccia, que no sairia viva do castelo de
Edimburgo. Lord Erskine nos esperava, e fez uma reverncia
para madame; era um homem leal, embora irmo da mesma
Margaret que seduzira Jaime v e dera  luz Lord James,
agora em companhia do inimigo ingls. Erskine no eram
nem amigo nem inimigo; mantivera-se afastado da guerra;
mas o aspecto de madame despertou sua piedade. Ele Ihe
disse que, l dentro, havia uma cama macia e uma lareira
acesa; madame ficou satisfeita com isso, e ns tambm.
            ***


            336
#r


         Tinha nove semanas de vida, mas seu esprito no se dobrara.
       De algum modo, estabeleceu contato com Monsieur d'oysel e
       com os outros em Leith, onde Lord seton se juntara a nossas
       foras. De todos os lords, ele foi o ma is fiel. Quanto a Lord Erskine,
       ainda mantinha a neutralidade, com a severa retido que sua
       famlia, aquela gente morena, parece possuir. Acho que era ho-
       nesto. Em todo caso, sucumbiu a rnndnrric a ponto de concordar
       em no permitir que ningum entrasse no castelo e de s falar
       com o mundo exterior sob ordens expressas de sua Graa. J era
       algum avano para uma fugitiva invlida, que o procurara em
       lgrimas, cercada apenas por suas damas e criadas.
         um dia depois de termos ido para o castelo, os lords protes-
       tantes conferenciaram em Musselburgh com seus aliados ingleses.
       Esperavam-se canhes e munies que viria m de Berwick-upon-
       Tweed por mar; quando chegassem, Lord Grey de Wilton partiria
       para a ofensiva. s aguardvamos para descobrir o que e a quem
       ele atacaria; nesse meio tempo, os ingleses enviaram dois emis-
       srios, sir James crofts e sir George Howard, ambos vestindo
       cotas de malha.
         soprava um vento forte. Lord Erskine proibiu a entrada dos
       dois ingleses no castelo, assim como j proibira a dos franceses.
       A regente, enferma, precisou ficar em p no parapeito do fortim
       frontal, aoitada pelo vento e apoiada em seu bculo, enquanto
       os emissrios lhe falavam l de baixo. Por causa da ventania, era
       impossvel ouvir o que grita vam, ou chegar a algum entendi-
       mento; mais tarde, porm, John Knox afirmaria que a regente
       enfeitiou sir James crofts, o qual at ento fora seu adversrio
       e a partir dali se tornou seu amigo. Talvez a viso da coragem
       de rnadarne tenha convencido crofts.
         Na segunda-feira da Pscoa, o comandante francs, Mon-
       sieur de Martigues, capturou as trincheiras dos sitiadores de
       Leith e inutilizou  trs canhes,  matando muitos inimigos.
       quela altura, sua Graa se encontrava em estado grave, mas
       ficou animada ao receber a notcia. seus lbios se retorceram
        velha maneira quando recordou as palavras de crofts, o qual
       tranqilamente lhe assegurara que o exrcito ingls no viera
       participar de nenhum empreendimento contra a rainha da Es-
       ccia ou seus sditos.


                          337
#  -  muito estranho - disse rnndnme - que o exrcito de um
prneipe penetre de modo to hostil na terra de outro e, apesar
disso, no tenha ali nenhum propsito.
  Mas o ingls de cara inocente continuou a afirmar o contrrio,
seguindo as instrues de sua soberana. De incio, Elizabeth se
negara a ordenar um ataque contra o castelo de Edimburgo, pois
uma rainha se encontrava l dentro; mas, depois que a persua-
diram de que a regente valia quinhentos franceses, ela mudou
de idia.
  Na realidade, os ingleses j comeavam a desertar, queixan-
do-se do frio mesmo naquele princpio de vero. Faltava-Ihes
comida - assim como a ns. seus cavalos estavam sem forragem,
e, de maneira geral, os invasores se viam em pior condio do
que quando chegaram. se a poltica de terra arrasada preconizada
por madame houvesse sido obedecida, eles teriam voltado para
casa mais cedo.
  convocaram-se mais negociaes com mndnme, e, para evitar
outros encontros em meio a ventanias, dessa vez armaram uma
tenda no permetro externo do castelo. sua Graa esperou dentro
da tenda, e fiquei a seu lado. Quantas vezes, em tantos lugares
diferentes, eu no me encontrei nessa situao! Lembrava-me de
ter segurado a rainha, ainda beb, num local como aquele; e tam-
bm de ter olhado l fora para Edimburgo, que j ficava s es-
curas, com as casas se aglomerando colina abaixo e a fumaa
saindo das chamins. Mais alm, estavam as guas azuis do Forth
e a cidade de Leith. Eu conseguia ver tudo isso, mas rnndnme
no.  exceo de ns duas, ningum ainda percebera que ela
estava quase cega.
  o homens entraram, sacaram de um documento e leram seus
termos para madame; atrs de ns, os criados se moviam sob a
luz das tochas. No havia nada de novo nas exigncias que nos
eram trazidas. Todos os soldados franceses deveriam ser repa-
triados de imediato, coisa que mndnme afirmou ser fora de pro-
psito e nem sequer passvel de discusso. A segunda exigncia
era que as reivindicaes protestantes fossem apresentadas  rai-
nha da Esccia e a seu marido.
  - o rei e a rainha no recebero ordens de nenhum outro
soberano, muito menos de seus prprios sditos - replicou a


                         338
#  r< gentf:, com muita trallcili<ade. - sf'lllpr<' lolldtlzi os i3ssuIltos
  do reino conforme as leis do pas e as recomendaes dos Trs
  Estados.
     - sE' a scmlora coIlsldera f Xcsslvas as lXlgf nclas, tYa te com
  seus conselheiros - disse sir George Howard, um parente do
  duque de Norfolk; sua fa mlia sempre foi afama<a pela rudeza,
  em especial para com os desafortLmados.
    sir ja mes crofts interveio.
    - No  passado,  llllll4lllL' - dl,ssf  coYtcslllIlt,  olha 11do  paYd
  aquele Yosto callsa do -,  a  scnhora  consf gulu collcIIlar gYandes
  diferenas. Eu Ihe suplico que, agora, use de todos os meios a
  seu dispor para que cheguemos a uma pa z verdadeira. Est tudo
  em suas mos.
    Era uma afil'mao curiosa, levando-se em conta que, no dia
  anterior, a cavalaria inglesa desfilara diante das muralhas do cas-
  telo. Mada me Marie, exausta , finalmente se retirou e no esteve
  presente  segunda conferncia. Monsieur d'oysel a representou,
  e Lord James, j tendo retornado, falou pelos protestantes. Ma is
  uma vez, nosso lado afirmou com toda a clareza que os soldados
  franceses s estavam no pas em ra zo da constante desobedincia
  dos escoceses. se a ordem civil fosse restaurada, eles seriam eva-
  cuados. Mas os lords continuaram a regatear. Agora, todos espe-
  ravam a chegada de mais um francs, o apavoradssimo bispo
  de valence, <ue j no era moo e vinha de se encontrar com. a
  rainha Eliza beth em Londres. seu dever fora comunicar que o
  rei da Frana perdoaria todas as ofensas caso a ordem fosse res-
  tabelecida na Esccia; mas se mostrara difcil transmitir essa idia
   desonesta soberana do stll, <lue ajudara a fomentar e3 discrdia
  sob o pretexto de que ela, e no o rei da Frana, tinha o direito
  de reinar na Esccia. chtelherault a ssust<m ainda mais o idoso
  bispo qua ndo lhe negou um salvo-conduto pa ra <lue atravessasse
  a temvel regilo da fronteira, onde <ualquer um que se encontrasse
  desarmado podia muito bem ser ata cado por salteadores em plena
  luz do dia e acabar sendo despoja do at das roupa s. Assim mesmo,
  Norfolk encora jou o bi.spo a seguir para o norte; no final, foi a
  prpria llladarlte quem obteve tlm limitado sa Ivo-conduto para o
  clrigo, que viajotl escoltado por Lord Grey de Wilton.
    quela a ltura, os ingleses j estavam bomba rdeando Leith e


339
#combatendo junto a sllas muralhas. uma grande armada inglesa
continuava na costa. Norfolk se ressentia da atividade de rrrndarrre,
mas o bispo, que enfim se encontrou com ela na ltima semana
de abril, ficou alarmado com a aparncia da rainha viva. "Fal-
tam-Ihe sade e tudo o mais, exceo feita a grandeza de esprito
e inteligncia", ele escreveu, "pois n o teme em nada essas crises,
como se possusse toda as foras do mundo." como sempre, a
crena em Deus dava foras a rrrrzdnrrre; ainda orava na capela
todos os dias, e fez que rezassem missas em ao de graas por
todas as vitrias francesas.
  conversou demoradamente com o bispo; eu no estava pre-
sente, mas ela me contou que tornara a pedir notcias de nosso
jovem irmo, o marqus Ren.
  - se pelo menos ele viesse! - disse rrradnme, com lgrimas
nos olhos.
  Eu, no entanto, sabia que ele no chegaria, pois sobravam pe-
rigos e faltavam esperanas. Mais tarde, o pobre bispo foi con-
duzido  tenda de chtelherault, onde encontrou os comandantes
ingleses e foi tratado com muito menos eortesia do que a de-
monstrada por riiadame. Eles se mostraram pouco respeitosos, gri-
taram em sua presena e, por fim, foraram-no a ir para acomo-
daes em Edimburgo, onde ficou sob a guarda de quarenta ho-
mens. Nem com seus prprios serviais ele ousava falar em fran-
cs; se fizesse isso, algum intruso eseocs poderia entrar, meter
o nariz na conversa e perguntar o que estavam dizendo.  noite,
o insinuante Lethington, ex-secretrio de rrtadnrne, chegou com o
soturno Lord James, e exigiram ver as ordens do bispo. com voz
trmula, o velho replicou que as deixara com rnndarrre. Isso no
agradou em nada aos dois escoceses.
  As discusses continuaram por uma semana, sem resultado.
os mesmos assuntos eram tratados repetidas vezes, os mesmos
argumentos eram raivosamente reapresentados. Nada que o bispo
fizesse ou dissesse dava certo, e ele acabou voltando para casa,
sem haver alcanado nenhum sucesso com sua viagem; alis, por
causa da diferena de idioma, muitos dos presentes no enten-
diam nem uma palavra do que os outros diziam. Antes de ir
embora, o bispo veio ao castelo e, desanimado, beijou a mo de
Madame Marie. o clrigo sabia que no tornaria a v-la, e a


                         34o
#regente sabia zue seus olhos nunca mais veriam a Frana. Ns
o observamos partir, sem sentirmos nenhuma emoo. Para todos
os fins e efeitos, ele poderia muito bem no ter vindo  Esccia;
e ningLim mais trouxe ajuda, nem promessas de ajuda, para a
rainha-regente.

  Espremi cuidadosamente o limo no tinteiro vazio. No fora
fcil conseguir a fruta, e, em todo caso, era difcil ter certeza do
que se escrevia com tinta invisvel; no alto da folha, havia uma
mensagem comum, na qual se pedia a Monsieur d'oysel que
obtivesse em Leith ungento para a perna infeccionada de mn-
dnrrte. Mas, na pa rte inferior do papel, as palavras em sumo de
limo eram muito diferentes.
  Escrevi o que me ditava a regente, uma mulher que, por causa
da doena, tinha o rosto cinzento. Mndnrne estava senta da num.a
cadeira, coisa cue achava mais confortvel do que deitar-se numa
cama, onde a carne dilatada pesaria demais sobre seu corao.
J lhe era impossvel usar os laos das roupas, e agora vestia
uma folgada bata negra, sob cujas dobras escondia cuidadosa-
mente os ps inchados. No entanto, continuava a dar ordens se-
renamente, ao som do canhoneio interminvel na distante Leith;
de algum modo, tnhamos informao de que os ingleses estavam
cavando sob as muralhas de Leith para minar a cidade e de que
os franceses tentavam impedi-los. com rnuito esforo, nosso lado
conquistou uma vitria, e a bandeira da flor-de-lis foi hasteada
nas muralhas; cadveres ingleses foram enfileirados ali e deixados
ao sol do vero. Mais ta rde, John Knox escreveria que rrindarrie,
ao v-los do castelo de Edimburgo, deu pulos de felicidade e,
rindo, afirmou jamais ter visto tapearia to bela. No  sequer
necessrio discutir se isso era verdade. Eu mal conseguia distin-
guir o que acontecia em Leith; rrtndnntc, com seus olhos baos, j
no via seno luzes e sombras.
  Durante algum tempo, no houvera mais ofertas dos protes-
tantes. soubemos que dois dos lords que ainda estavam de nosso
lado, Morton e Borthwick, haviam se passado para a congrega-
o. Por certo, estavam abandonando o navio antes que fosse a
pique; o espantoso era que Morton, com aquela cara de porco,
tivesse ficado conosco por tanto tempo. Quanto a Lord Borthwick,


                            341
#suas idias deviam ser incertas, pois sempre decla ra ra em pblico
que seguiria a f de seus pais. Ta lvez fosse fraco, tendo casado
com a mulher determinada que, muito tempo antes, raptara o
Belo conde para obter a libertao do marido.
  Esperei a resposta da carta escrita com sumo de limo; quando
chegou, trazia ms notcias. Lord Grey de Wilton suspeitara do
papel, que  primeira vista mostrava apenas aquelas poucas li-
nhas no alto; e, como ele disse com toda a razo, podia-se obter
em Edimburgo um ungento mais fresco que o de Leith. o ingls
segurou a carta contra o fogo, e a escrita invisvel apareceu; de
modo bastante honrado, ele a queimou. Qua ndo rradnrne soube
o que aconteceu  mensagem, ela se virou de lado e chorou.
Ainda zombavam de suas lgrimas.

  Dois de nossos homens, John spens e o laird de Findlater,
acabaram sendo enviados a os lords para pedir mais uma confe-
rncia. ouviram a exigncia de que todas as fortificaes de Leith
fossem destrudas e de que todos os franceses mandados embora,
antes cue se concordasse com novas negociaes.
  - E de admirar que os senhores ainda estejam a servio dela
- disse Grey de Wilton a nossos dois mensageiros. - A viva
oprime o pas e trouxe soldados franceses para conquist-lo.
  spens era pedueno, mas mostrou-se  altura da situao.
  - sua Graa foi nomeada regente pelo I'arlamento - respon-
deu -, e todos os bons escoceses Ihe devem obedincia.
  os presentes pareceram duerer fulmin-lo com o olhar. J no
usavam armadura. chtelherault, cheio de dignidade ultrajada,
resolveu falar, decidido a que, pelo menos uma vez, o levassem
em considerao.
  - Ela foi deposta e j no  mais regente - disse, enchendo
o peito, coberto por uma tnica de cetim.
  spens retrucou que rriadar>Ic fora eleita durante uma reunio
do Parlamento bem mais abrangente do que aquela que acaba ra
por dep-la.
  - o senhor est mentindo - vociferou o duque, incapaz de
pensar num argumento melhor.
  Mas Grey de Wilton, que decerto tivera muitas ocasies para
pensar desde que chegara  Esccia, falou como homem justo.


                           342
#Disse que ,spens e Findlater era servidures leais e dedicados e
haviam se pronunciado como tal. Em seguida, os dois voltaram
ao castelo, e o duque se ocupou de confirmar os termos do acordo
a ssinado em Berwick-upon-Tweed, acordo lue entregava a Es-
ccia a Elizabeth.
  Madrz>rte conservou spens junto de si. Quanto a Findlater, tor-
nou a envi-lo em misso aos lords; ela aceitaria as exigncias
apresentadas, desde que lhe dessem a Iguma ga rantia de que se-
riam fiis  rainha Maria e a seu esposo. Tambm pediu para
ver Huntly, que havia muito desertara para os protestantes, e
Glencairn, que nunca fora oiitra coisa; mas, talvez por causa dos
poderes de persuaso de iridarie, a comisso qne veio era outra:
Lord James, Lord Ruthven, o jovem morgado de Maxwell e o
ex-secretrio Lethington. Evidentemente, este ltimo era incapaz
de corar. ouviram-se as palavras duras de costume, as exigncias
de sempre. Tambm se queixaram dos impostos.
  - vocs, escoceses,  que gastaram o d.inheiro - disse riadatne.
  - A senhora tentou mudar as leis da Esccia. Franceses foram
nomeados pa ra postos no governo.
  - N1o mudei lei nenhuma. os franceses foram nomeados
com a aprovao do Parlamento. Alm disso... - olhou de lado
para Lord James, lembrando-se dos proventos que ele recebera
de abadias no continente. - os escoceses desfrutam o direito
recproco de exercer cargos na Frana, no  mesmo?
  Lord James a encarou com desprezo e mencionou o marqus
Ren, dizendo que ele estivera para ser nomeadv vice-rei da Es-
ccia e teria. trazido soldados e dinheiro da Frana.
  - No se tratava disso - replicou a regente. - Eu pretendia
fazer mais uma visita  Fra na, para ver minha filha; isso lhes
parece irrazolvel? Na volta, teria ido  rainha da Inglaterra, tal
como fui ao rei Edua rdo.
  Baixei os mhos, recordando esse encontro e imaginando se
a quele menino, caso ainda vivesse, teria permanecido nnsso ami-
go. Quanto a Eliza beth, provavelmente esperava a devoluo de
calais.
  Madame Marie continuou a contemporizar. suas mos incha-
das descansa vam nos braos da cadeira; j fazia muito tempo, a
aliana de casamento ficara apertada dema is em seu dedo.


                           343
#  - Preciso consultar as autoridades indicadas pelo rei da Fra na
- ela lhes disse. - Rogo aos senhores que me dem tempo para
entrarmos em contato com Monsieur d'oysel, Monsieur de la
Broose e o bispo de Amiens.
  Esse iltimo se encontrava em Leith desde a partida do velho
bispo de valence. os lords se recusaram, sem nenhuma cortesia.
  - s desejo a paz - a firmou madame, e caiu em lgrimas.
  Tornou a pedir, enfaticamente, para ver D'oysel; tal como an-
tes, negaram-lhe isso. uma carta cifrada de >nrrdarne fora inter-
ceptada e traduzida para o ingls; agora, entregavam-na aberta-
mente a ela. A regente fechou os olhos e nem tentou l-la. J
houvera traies demais.

  seu ltimo ato foi convocar o Parlamento para uma sesso
em 5 de julho, mas sabamos que ela no viveria tanto. o duque
de Norfolk ainda proclamava que ningum se deixara enganar
pela espada sanguinolenta de rnadnrne, mesmo que dissimulada
na bainha da paz; a morte, no entanto,  pacfica. No comeo de
junho, sua Graa j deixara de ingerir comida, embora ainda
conseguisse caminhar muito lentamente, apoiada no bculo. Dali
a pouco tempo, eu lhe trouxe a notcia, sem saber exatamente
como transmiti-la, de <lue haviam chegado outros quatrocentos
soldados ingleses; esse nmero mais reduzido talvez significasse
que Elizabeth estava ficando ca nsada de gastar seu dinheiro com
a conquista da Esccia e a paga dos lords. Madame Marie me
olhou como se no m.e ouvisse; percebi que ela j no entendia
minhas palavras. Estava longe, talvez mais perto de seus entes
queridos do que se imaginava. Dei-Ihe vinho ciludo em gua,
e ela bebericou um pouco. Ainda me chegava o som dos disparos
em Leith, e, naquele dia, os ingleses atingiram a torre da igreja
de santo Antnio, derrubando-a e alterando a linha do horizonte.
Madarrte no conseguia ver isso; nem soube o que acontecera.
comecei a temer que ela se fosse antes de receber o sacramento
que eu carregava comigo; na primeira oportunidade que tivemos
a ss, falei-lhe ao ouvido, e ela compreendeu.
  - Ainda no, minha querida - disse, baixinho. - Em breve.
  Lord Erskine era um homem misericordioso, e estava ciente
da condio de madame. chamou o irmo, Arthur de Blackrange,


                           344
#que sempre fora amigo da regente, e o enviou para que conven-
cesse os lords a permitirem que o bispo de Amiens viesse ter com
nrndmrie, pois ela estava perto do fim. os lords discutiram o assunto
e resolvera m conceder esse fa vor  moribunda. Lord Grey de
Wilton e os outros ingleses tambm concordaram. uma nica
voz impediu que o bispo viesse. Foi a de chtelherault, o pusi-
lnime ex-governador, o homem cujo rosto retorcido assistira a
tantas conferncias, mas cuja mente nunca antes se ativera a uma
deciso sequer. No sei se ele soube da carta falsa que rrindnrne
enviara  Frana e, por isso, resolveu se vingar; sei apenas que
deixou mndnrrre sem aquele consolo em sua hora final, e que eu,
uma ex-prostituta, uma mulher de muitos pecados que, no obs-
tante, a amava, acabei por colocar em sua boca o corpo de cristo.
Espero que o duque, que morreu em seu palcio de Hamilton
doze anos depois de rnndnnie, haja terminado seus dias s e es-
quecido. Pelo que sei, foi isso mesmo que aconteceu.

  Mndnrne esperou pelo bispo, e, qua ndo eu lhe disse suavemente
que no o deixariam vir, ela suspirou. Depois, permitiu que a
levssemos para seu quarto e cha mou todos os lords. creio que
isso tenha despertado desconfiana entre eles; mesmo ento, po-
deria tratar-se de algum ardil da viva estrangeira para atra-los
ao castelo e, ali, dar-Ihes fim. Mas, quando chegaram, s as damas
de companhia, incluindo eu mesma, estavam junto ao leito de
mndnrne. Ela jazia com os cabelos ocultos por uma coifa de linho;
j tinham ficado grisalhos havia muito tempo. chtelherault foi
o primeiro a entrar, em lgrimas; suas emoes sempre vinham
 tona com facilidade. Ajoelhou-se e tomou a mo que ela lhe
estendia. Lord James estava atrs do duque, e no havia nenhuma
humildade em seus cumprimentos; ele j se considerava rei da
Esccia. o conde-marechal entrou a seguir, junto com outros lords.
No dia seguinte, seria a niversrio do casamento de Madame Ma-
rie; fazia vinte e dois anos que ela viera da Frana para desposar
o rei Jaime.
  - Estou com frio - ouvi-a dizer.
  L fora, brilhava o sol de junho. Depois, disse que estava
com sede; peguei um leno e molhei seus lbios. Tentou falar;
rogou aos lords que se apegassem  Frana, e no aos ingleses,


                           345
#os cuals, dlsse-111e5, so os alLIdavalll pe115a11do em seus proprlo5
1ntres,ses.  Assf guroL1  qu.e,  por  tcr  a  hollra  d  sr  a  rgente  da
'.sccla, o bf m-e.sta r dessf' pals sempre Ille fora tao caro cIu Ilto
o da  Fralla. A 5f gulr, aflrmou (llgo cuf  demonstrava quao ver-
cladelra  era  sua  1lL11mldild, i1 despf'lto d  ter sldo  taIltas  vczs
cIescrlta como uma mLIlllr arroga utc.
           ac so lhs f1z  algo df  dsagraclavel, 1o1 por mseIlsateG,
  nao por m.a  voIltade.
  sua  resplralo esta va rulclosa, Inas 111oII11nt' mslstlu com f If s
para que prestassem obedilleia  raillha. suplicou-Illes que che-
gassem a uma soluo pacfica  com D'oysel e mandassem os
ingleses embora.
  - Temlo muito receio de qtle, caso os franceses partam, os
ingleses ainda perma neam aqui e subjuguem o pas.
  Ela estava chorando, assim como ns. segurou a m o de cada
um dos lords e pediu que a perdoassem se porventura os ofendera
alguma vez. com no lhe permitira m ver um padre, aquilo foi
a coisa ma is prxima de uma collfisso cue lhe foi permitido.
Eles murmurara m uma espcie de recollciliao e deixa ram o
quarto; estavam, involLtntarizlmente, muito comovidos.
  Lord Ja mes e o conde-marecllal perma necera m no ca.stelo, tal
como 1lmdrrrlre pedira. I'ot- fitll, mandou due chamlssem Arran,
o filllo ce chtelllerlult. Ele etltrou tresloucadamente, e a mori-
bunda contemplou com olllos cege)s o jovem que nuzlca seria rei.
Dali a pouco, os lords, que lhe havia m negado o consolo de sua
religio, exigira m ue ela visse o prega dor Willock, companheiro
de Knox. Madame Ma rie concordou, mas como se aquilo no
tivesse muita importncia . Ele deveria vir depois. com as idias
um pouco mais cla ras, Madame Marie fez seu testamento. como
sempre, no se esqueceu de Ilada, losse o salrio de um criado,
fosse uma dvida, fossem as despesas de seu funeral. Na Frana,
a duquesa Antoinette e nosso irmo, o duque de Guise, seriam
seus executores testamentrios; na Esccia, o collde-mzlrecllal e
John campbell, um parente de Argll (depois da morte de rlra-
darte, o conde-marechal recusou a tarefa).
  E estando tu.do collcludo, rrladrzrlte finalmente mandou qlle me
chamassem. Ela ma I collseguia falal-, mas consegui entender seu
sussurro, quando j estvamos sozinhas no quarto:


                         346
#r


          - Pode me dar agora.
          Tirei o medalho achatado que trazia no peito e removi a hs-
        tia, to preciosa, colocando-a depois sobre a lngua de rnadanre.
        No importava que o tal Willock tenha vindo depois, pregando
        para sua Graa, ouvindo sua resposta e afirmando que a missa
        catlica era uma abominao; Madame Marie permaneceu em
        silncio.
          No dia seguinte, velamos por rrradarne, e seu silncio no se
        quebrou. o sol se levantou e se ps; quando j era meia-noite,
        as sombras de Lord James e Argyll entraram no quarto. Ficaram
        em meio  escurido das cortinas, vendo a regente morrer. segurei
        a mo de rnadame, e ela se agarrou  minha; tenho certeza de
        que sabia que eu estava l - eu, claudine, que a amava; no
        creio que, em toda a minha vida, tenha amado algum como
        amei Madame Marie.
          Ento ela morreu, e choramos e nos lamentamos muito. Ela
        passara em silncio da vida para a morte. No sei onde seus
        pensamentos estavam no final; talvez estivessem com a filha; mais
        provavelmente, estavam com Deus. A despeito do que dizem
        sobre as almas no purgatrio, no acho que madame tenha ficado
        muito tempo ali; j tivera seu purgatrio na terra.
          Mas estava morta, e fiquei desolada. sabia que minha vida
        chegara ao fim; que nada mais importava. sa daquele quarto e
        deixei os outros entregues a suas tarefas, que no me diziam
        respeito. Digo apenas que, quando terminaram de ajeitar o corpo
        e vi madame pela ltima vez, seu rosto estava sereno.

          Embalsamaram-na, descobrindo, entre outras coisas, que o co-
        rao se consumira. Madame nem chegara a completar quarenta
        e cinco anos. A certa altura, um dos mdicos me perguntou se
        ela sofrera de alguma febre na infncia, e lembrei aquele perodo
        em Pont--Mousson, no convento gelado e mido das claristas.
        Ele assentiu, judiciosamente, tal como os mdicos costumam fa-
        zer; no sei o que significava aquilo.
          o execrvel Knox escreveu execravelmente sobre o resto, mas
         verdade que a colocaram num caixo de chumbo. Este, por
        sua vez, foi posto na minscula capela perto da muralha exterior,
        ali onde santa Margarida da Esccia costumava rezar. Tomaram-


                                   347
#se cuidados para garantir a segurana da porta, mas ns, as damas
de companhia, tambm nos revezamos para guardar o caixo
noite e dia. Podem-se escalar muralhas e arrombar portas, e talvez
os incansveis inimigos de n iada>rie resolvessem profanar o corpo
da mulher que, se eles houvessem permitido, teria governado
sbia e pacificamente a Esccia durante todos aqueles anos. Fiquei
muitas horas ajoelhada na pedra fria, ao lado do caixo, olhando
para o pano morturio negro que o cobria, com a cruz branca
de tafet que se estendia por todo o seu comprimento. No era
uma cruz comum, nem mesmo a cruz de santo Andr da Esccia.
Tratava-se da cruz de Jerusalm, a grande cruz dupla da Lorena.
Madame Marie era uma Guise, e fiz que se lembrassem disso,
se  que no se lembravam.
  Misericordiosamente, a ltima esperana de rnadarne s se des-
fez quando ela j no estava ma is neste mundo. seis meses depois
de morta, o adolescente Francisco II tambm se foi, de modo
inesperado, deixando viva nossa soberana e levando catarina
de Mdicis novamente ao poder. o rei morrera de uma infeco
no ouvido, tendo apenas a jovem esposa para olhar por ele, dei-
tado num enxergo porque toda a moblia fora levado para che-
nonceaux, que esperavam visitar. os problemas de governar a
Esccia, que rriadame suportara por causa da filha, voltaram ao
ponto de partida. Que ironia que os dois jovens esposos nunca
estivessem juntos naquele pas!
   quase inacreditvel que no concedessem a rnadame um fu-
neral, nem mesmo um rquiem; mas os reformadores no aere-
ditam em tais coisas. Tambm no permitiram o que, pode-se
imaginar, teria sido um alvio para eles: o envio do corpo para
a Frana, onde teria um enterro cristo. o caixo ficou na capela
desde junho, quando madarne morrera, at maro do ano se-
guinte. Ento, quando os inimigos j esta vam menos atentos,
foi possvel remov-lo secretamente, na calada da noite, para
Leith, o porto que rnadarne fizera prosperar, e dali para a Frana.
Acompanhavam-no eu mesma, algumas das damas de com-
panhia e Mr. craufurd, o esmoler de rnadarrte, vigrio de Ea-
glesham, em Renfrewshire.
  A viagem transcorreu sem nenhuma das borrascas que, en-
quanto madame vivera, caam to constantemente. Ficvamos ao


                          348
#lado do caixo, ajoelhados no convs, vestindo luto e orando
juntos sob a brisa ligeira de maro. um vento bom soprava para
a Frana; mas j era ta rde demais pa ra Madame Ma rie, que pre-
tendera fazer essa mesma viagem para ver a filha e, na volta,
visitar Elizabeth da Inglaterra. Em outra poca, as duas talvez
pudessem ter conversado alegremente e se torna do amigas, mas
no mais.
  Desembarcamos na costa da Normandia e seguimos vagaro-
samente para a abadia de Fcam.p, onde algumas pessoas nos
esperavam. Maria, soberana da Escecia, era agora, antes dos vinte
anos, rainha viva da Frana. com as arcadas da grande abadia
erguendo-se acima de ns, uma viva encontrou a outra. A abadia
fora construda no tempo do duque Richard, o Destemido, e era
um local adequado ao descanso do corpo de rrtndnnte, antes de
viajar para Reims, onde ela pedira que a enterrassem.
  A jovem rainha da Escccia usava um grande vu branco, mas
se podia ver que estava plida e abatida, tendo chorado bastante;
ficou longo tempo ajoelhada junto ao caixo. Imaginei a alegria
que me e filha poderiam ter compa rtilhado e que a vida mal
Ihes proporcionara. Por fim, a ra inha se levantou e voltou a seu
lugar, conserva ndo a dignida de tal como quando, aos oito a no.s
de idade, em Rouen, fizeram-na ler um pomposo discurso de
boas-vindas para a me. Eu a observei atentamente; seus tra os,
em parte ocultos pelo vu, eram os do pai; a altura, certa mente
a da me; as mos no era m nem de um nem de outro. Mais
tarde as beijei, alvas, graciosas e lindas. A rainha tinha uma beleza
que independia da idade; pensei que, se a deixassem chegar 
velhice, ainda seria a mesma. seu encanto e sua simpatia eram
genunos. Ela depois mandou me cha mar e, como eu conhecera
bem sua me, pediu que permanecesse com ela; mas declinei da
oferta.
  - Madame, a senhora  jovem e tem a vida toda pela frente
- disse-Ihe. - No importa o que acontea, a senhora no pre-
cisar de mim. Tenho minhas lembranas, e elas pertencem ao
passado. A senhora tem o futuro. J eu envelheci.
  Ela sorriu um pouco, embora continuasse pesarosa.
  - Preciso voltar para a Esccia - explicou. - As coisas fi-


                          349
#caram difceis adui. J no sou rainha da Frana, e fui a nica
que restou para governar meu pas, a no ser por...
  Interrompeu-se, dando levemente de ombros, e percebi que
estvamos ambas pensando em mestre John Knox e em Lord
James, o qual ambicionava o poder (a soberana, porm, ainda
estimava muito esse irmo bastardo). Aquele encontro era como
uma encruzilhada, a partir da qual as duas rainhas seguiriam
caminhos diferentes. o caixo de sua Graa deixou Fcamp ao
som do grande sino da abadia; foi acompanhado pelos altos e
louros camponeses da Normandia, atrados pela grande fama de
Maria da Lorena. os normandos no so como outros franceses.
Descendem de um pirata viking chamado Rollon, conhecido por
ser to grande que nenhum cavalo eonseguia carreg-lo. os in-
gleses tm um bocado do sangue e da persistncia normanda;
quanto  crueldade, no sei dizer.
  Alcanamos Reims, e l nos esperavam a corte inteira e o
novo rei da Frana, o jovem carlos IX, cuja cabeorra contrastava
com o corpo franzino, lembrando bastante o pequeno morgado
de Angus. A rainha catarina tambm se encontrava l, tendo
suportado a viuvez tal como suportara o casamento; agora, no
entanto, tinha o consolo do poder. Madame Diane estava ausente;
com sua prudncia habitual, retirara-se, j havia muito tempo,
para seu castelo em Anet, aps a morte de Henrique II. Todo
mundo vestia luto - a realeza de branco, e os restantes de preto.
Madame Marie foi finalmente sepultada em saint-Pierre-de-
Reims, o convento beneditino do qual era abadessa a mais nova
de suas irms, Madame Rene de Guise. Eu soube que um mag-
nfico monumento de bronze foi, mais tarde, erigido em sua me-
mria; monumentos, porm, no duram. Logo que ocorra algum
distrbio ou revoluo, eles o destruiro, e, com certeza, tambm
molestaro os ossos de madarne. Hoje, os huguenotes atacam sem-
pre que podem, com martelos e picaretas, todos os smbolos desse
tipo.
  Quanto a mim, tivera bastante tempo para pensar durante os
longos meses em que fiquei ajoelhada na pedra fria, ao lado do
caixo de madame, na capela junto  muralha do castelo de Edim-
burgo. Parecia-me que o nico lar que me restava era vouvray,
e que eu devia mandar buscar meus filhos na Esccia. Iain Ruadh


                           35o
#      scuIYla caYYelra m  eXYclt(1 fYallces c' talvcz m  vlsltasse df  vc"/
      c m  quando.  J  os  Tmcos  df vlam  collhf cf Y  o  pal;  podf'I'-st'-I1
      entao decldlY o qu fazf Y. EL1 f screvc Ya uma carta curta a  Alldel()t,
      pftra  dlGY  cluc  1  c'stava  a  ca1llmho;  o  condc  lmbecll  podt'1'la,
      sf m dLIvlda, sc'r coTlsuItado formaImeIlte. Nao consul  v15111.111-
      brar ncIlhuma  perspcctlvd amllla dora . Tambem nao recebeYa 11c:-
      nhuma rsposta, ma s Isso c'Ya compref'1l51vel. Tao1oo sc' ca la Ta.Il1
      5 trombtas c' o5 sinos fullera is, spf'Yc'i por uma IItlYa cIIl. 1T1
      pudesse seguir viagem. Nisto, surgiu uma que eLT vira e113 voll-
      vra, duI'aIlte mlllha 1ntlma vlslta c' que, depols, tumilra  clllprt's-
      ta da  pa ra  lr  E'mbora.  PYova vcImc'ntE',  amda  E'ra  LIsa da  con1  tlf -
      qncia, para  trallsportar o conde imbecil; agora, porm, toril
      eTlviada para buscar-me, sendo de presumir que fosse a resposta
      dc  Andclot, pols 11ao tlve oLItYa. mstaIc1-m I1a nt1rc1 com tIllIlha
      baa'em;  nao  trilzla  nf'llhumi3  cYlada,  mas  a  ramlla  n1c  cf dera
      quatro serviais, clue n1e eseolta ri.am a t vouvray, de oncle eu
      deveria providenciar o retoT'T1o deles.
        N o falarei dos pellsamentos que me ocupa ram dura nte o trajeto;
      estlva triste, desolada , mas n o muito reflexiva. Percorremos Tllilllas
      e milhas, e, depois due j passramos por Troyes, quando os ca mpos
      verdejantes finamlente aduiriralll o brilho do vero, comecei a Tlle
      sentir mais serella. Talvez a duluesa Antoinette tivesse mesmo aT'-
      ranjado de boa vontade o meu primeiro casamento. comparecera
      ao funeral de Tlmcmll:e; tivera onze filhos, estava velha e viva, ma s
      continuava indmita. Trocramos apenas cumprimentos forma.is;
      11o entanto, aqueles olhos cizlzentos encontraram os meus, e pal-e-
      ciam dizer: "v com Deus, claudine". Afinal, ela amara o marido,
      meu pai. Resolvi levar a vida com retido e lembrar tudo due a
      duquesa tenta ra erlsinar-me quando eu era jovem. continuamos e
      logo chegamos a vouvray.

        Havia um eavaleiro, imc5vel como uma esttua, blodueal3do a
      bifurcao que, de um lado, levava an ca stelo, e do outro ao
      vilarejo. Era Andelot, e achei due oLT oc(>rreYa alguma catstT'of,
      ou meu intendente viera dar-me as boas-villdas. Fosse como fosse,
      estava bloqueando o camimlo. os serviais da rainha puxaralll
      as rdeas, e suas montarias, muito bem tYeinadas, se detivel'a111
      de imediato. o intetldente desmontou, tirou o chapu e veio att


351
#a liteira. como era vero, eu abrira as cortinas; a menos que haja
algo de errado, ningum gosta de viajar ao sol numa escurid o
abafada, e, embora eu ainda estivesse pesarosa, j me recuperara
o suficiente para apreciar a vista.
  Andelot fez reverncia, e vi que envelhecera um pouco, o cue
era de esperar; mas seus olhos escuros no davam mostra s de
sua costumeira audcia e pareciam preocupados. Perguntei o que
desejava, sem pensar na ltima vez em que nos separramos;
aquilo era passado, e ponto final. como um menino de escola,
ele ficou retorcendo o chapu redondo.
  - condessa, eu talvez devesse ter-lhe comunicado antes que
estou casado - disse, com algum embarao, coisa que, nele, eu
no vira antes. - Isso j faz dois anos. Minha esposa  uma
moa de quem gosto muito.
  Fez uma pausa, mas no falei nada, o que era bem natural.
Ele continuou:
  - vivienne j perdeu um filho e agora espera o segundo; se
possvel, eu gostaria que ela no sofresse incmodos.
  - Meu a migo, no tenho nenhuma inteno de incomod-la
- respondi. -  verdade que voc deveria ter-me informado
do casamento, pois sou sua empregadora; mas no ficarei res-
sentida. Agora, diga-me o que faz aqui, alm de trazer essa notcia.
Eu e os serviais da rainha fizemos uma longa viagem e gosta-
ramos de seguir em frente.
  - Madame - tornou a torcer o chapu -, se posso ser franco,
no seria eorreto que a senhora ficasse em vouvray nas atuais
circunstncias, com o conde residindo l. Mesmo no estado em
que ele se encontra, ainda haveria falatrio. Alm disso, ele talvez
no concorde com tal arranjo; nesses assuntos,  um homem difcil
de convencer. se a senhora me permite, sugiro que case com ele,
desde que isso lhe seja conveniente. Mas,  claro, deixo tudo a
seu critrio. Embora o conde receba pouca gente, consegui con-
venc-lo a encontrar-se com a senhora.
  Arregalei os olhos diante dessa impertinncia. Dispensei An-
delot, pedindo-lhe que seguisse  frente da escolta. Mas, quando
a liteira voltou a avanar, pensei bem e reconheci que, nas cir-
cunstncias, ele provavelmente fizera o melhor possvel. Por cer-
to, no faria mal nenhum se eu desse uma olhada no conde de


                            352
#   vouvray e deldlsse s poderla suportaT' d ldla de um casaITlento,
   m25mo qu2  apenas de falladd. s  o conde m repugnass em
   dmasld, a mda hdvrld ontros drranIos posslvls; dlsso u tmlla
   certezd. Em todo ca so, j vira coisas piores do que um imbecil.
   Dali d pouco, cllegamos ao castelo. Tal como ants, os pdtos grds-
   navdm no riacho, eriando as penas ao sol do vero. Parecia que,
   no importava o que acontecesse, eu sempre voltava a vouvray.
     Desci da liteira , sdcudi as sdias, mdndei que providencia ssem
   comida e bebida para mim e pal'a os homens e que tambm
   cuidassem dos cavalos, lue deveriam estar prontos para i.r em-
   bora no dia seguinte. Antes de subir para ver o conde, fiz llmd
   pequena refeio, julgdndo que eld me daria foras depois daqueld
   vidgem. sentia apenas uma ligeira curiosiddde e a certeza de
   que, de algum modo, fdria as coisds se ajustarem a meu pldno.
     uma coisa me preocupdra. Qudndo sa dd liteird, tlma criaturd
   de aparncid inusitada se esgueirou pa ra ds sombras que o telhado
   alcantilado projetavd; movia-se bem depressa, como se ela mesma
   fosse uma sombra. Trdta va-se de um ser moreno, magro e quase
   nu, que usavd apenas uma tdnga e um turbante branco; tive a
   curiosa impresso de que no era nem homem nem mulher, e
   sim uma outra coisa, o que, naturalmente,  impossvel. Perguntei
   d Andelot, que fez uma curta reverncia e me fixou com seus
   olhos escuros, sentindo, ta lvez, uma pontinha de arrependimento.
     - Aquele  satki, o criado pessodl do pobre conde - disse-me.
   - Ele  indiano.
     No fez mais nenhum comentrio, e ento, como j relatei,
   entrei para comer. Mais do que nunca, estava convencida de que
   vouvray seria meu lar, d despeito de seus dois estranhos mora-
   dores. Pard onde mais eu poderia ir? No pa ra Joinville, nem
   pdra Pont--Mousson ou mesmo chteaudun; com certeza, meu
   lar tambm no era a Esccia, exceto pela bothan onde vivera
   com Alasddir. Qudnto  carta de riiadamc para d a bddessa de Far-
   moutiers, resolvi no us-la por endudnto.
     o grande salo estava tal como em minha ltima visita; dessa
   vez, porm, prestei mais ateno ao esta do em que ele se encon-
   trava; d moblia brilhavd, e tudo pdrecid em ordem. De fdto, o
   lugar era to limpo e drrumado quanto uma cabine de navio, e


353
#eu sabia que, nesse aspecto, Andelot no me daria motivo para
queixas; fizera bem em mant-lo no emprego.
  satki reapareceu para levar-me at o conde. o indiano exalava
um leve perfurnE:, como de almscar ou verbena; no era um odor
desagradvel. subiu as escadas antes de mim, mas o fez de modo
respeitciso; por fim, chegamos 1 porta de um dos quartos.

  - cvnde... condessa...
  Depois de ter dito isso, satki se foi, silenciosamente. olhei
para o qua rto, qLre ern certa poca conhecera bem; agora, estava
s escura s, exceo feita s chamas da lareira e a duas velas.
Numa poltrona de invlido (a qual me fez lembrar Madame Ma-
deleine, a filha de Francisco I), esta va sentado um velho descar-
nado, cujos cabelos brancos eram mais compridos do que reza va
a moda. As plpebra s lhe caam sobre os olhos, de uma maneira
que dissimulava sua express o. Ava ncei e vi que me observava
com interesse; ao que parecia, ainda tinha alguma conscincia.
Quando cheguei ma is perto, tornei a notar que era bastante ma-
gro; caso se levantasse, no seria muito alto. usava roupas es-
curas. Presumi que talvez fosse incapaz de fala r e lhe estendi a
m o. Ele, no entanto, falou.
  - sente-se, rrtncfnrrie. Lamento no poder erguer-me para cum-
priment-la, mas sofro de uma enfermidade ssea. sente-se ali,
onde a luz das velas iluminar ser rosto e eu poderei v-la com
cla.reza.
  seu francs era correto, um poLrco frio talvez, mas mundano.
sentei-me, perplexa; aquele homem no era nenhrrm imbecil. Tive
ainda tempo de refletir que, se eu viera visit-lo para garantir-me
de poderia suportar um casamento, era possvel que agora ele
estivesse fazendo a mesma coisa. Talvez at me rejeitasse. os
olhos tinham sabedoria, e, depois que me acostumei  semi-es-
crrrido, exami.naram-rne de modo a t benevolente.
  - conde... - comecei, ligeiramente confusa.
  Ele sorriu e disse:
  - No fale ainda. Quero olhar para a senhora. Raramente
olho para outra pessoa alm de satki, cujos movirnentos graciosos
no perturbam meus pensamentos. o nome dele  a verso fe-
minina das trs encarnaes do deus hindu. Eu o salvei da po-
breza extrema em que vivia em Howrah. Ele lhe trar vinho.


                           354
#  como se por encanto, satki reapareceu com duas taas e uma
jarra, que colocou perto de ns; depois, tornou a ir embora. o
conde serviu o vinho e me estendeu uma da s taas. suas mos,
longas, alvas e belas, lembravam as de Madame Marie.
  Bebemos, e ele disse:
  - A condessa h de concordar que se tra ta de um excelente
Bordeaux. A senhora conhece vinhos?
  Respondi que eu os bebia tal como todo mundo, mas que
nunca pensara em distinguir um de outro, e, alis, sabia muito
pouco sobre o assunto.
  - Ento  algo que eu poderia ensinar-Ihe - replicou. - H
muito prazer na escolha cuidadosa e na degustao do vinho.
Naturalmente,  desnecessrio dizer que no se deve beb-lo em
excesso.
  - Eu nunca... - comecei a dizer, mas o conde fez sinal para
que eu no fa lasse.
  - N o,  uma coisa que, tenho certeza, a senhora no fez -
reconheceu.
  os olhos se abriram um pouco mais, revelando desenfado, e
tive a sensao de que, de algum modo, aquele homem sabia
tudo o qLie eu era, fora e me vira forada a ser. continuei em
silncio, com os olhos fixos em minha taa e nas escuras profun-
dezas do vinho. Dali a pouco, ele voltou a falar.
  - Primeiro, falarei de mim mesmo, embora isso talvez no
seja muito educado. A senhora deve ter ouvido dizer due sou
dbil mental e que, por lsso, Ililo vejo ningum. A primeira afir-
mao no  verdadeira; a segunda, em vista de minha ida.de e
minhas desiluses, . Hoje, h pouca s pessoas cuja presena eu
consiga suportar durante mais de meia hora, e uma delas, por
alguma razo extraordinria,  Andelot. Talvez issc7 se deva a o
fato de que ele tem o sangue dos De vouvray. Ademais,  um
esplndido intendente. se a senhora hc7uvesse dado algum sinal
de que pretendia demiti-lo, eu me veria forado a impedir. Fe-
lizmente, tal situao n o surgiu. Eu s o vejo uando vem me
prestar as contas do ms. No me incomoda, e imporei a condio
de que, encuanto eu estiver vivo, ele tambm no incomode a
senhora.


                           355
#  No lhe disse nada. No havia o que dizer. o conce sorriu
um pouco, mantendo os lbios cerrados.
  - vejo, madarne, que a senhora no  nenhuma tola. A maioria
das mulheres teria balbuciado negativas. Asseguro-lhe que An-
delot no me contou nada. No entanto, os visitantes so raros,
por deciso minha, e sei quem vem a vouvray. Assim, quando
a senhora esteve aqui pela ltima vez, ouvi algo que j fazia
muitos anos no ouvia: o grito de prazer de uma mulher, um
grito que vinha do grande quarto de dormir e que se repetiu em
mais de uma ocasio. Naquelas circunstncias, a fonte s poderia
ser a senhora. confesso que, a partir de ento, tive certa curio-
sidade a seu respeito; na poca, porm, no seria conveniente
que nos encontrssemos.
  A essa altura, eu j estava bem vermelha, coisa que raramente
me acontece. Ele riu, e percebi uma coisa que me fascinou: a
maioria dos velhos deixa a boca murchar, pois se sentem mais
confortveis assim, mas o conde no fizera isso. usava uma den-
tadura diferente de todas as que eu j vira ; parecia lavrada em
mrmore, com tanta delicadeza que os dentes quase davam a
impresso de serem naturais. Presumi que o conde a conseguira
na India, mas nunca o inquiri sobre isso; no  o tipo de coisa que
se pergunte. A dentadura era sinal de gosto refinado, e me senti
cada vez mais atrada por aquele homem e pelos horizontes mais
amplos que ele poderia oferecer-me. continuou a falar do assunto
que acabara de levantar e que, obvilmente, no o embaraava.
  - creio que, nesse aspecto, eu ainda poderia satisfazer a se-
nhora, embora talvez com menos impetuosidade do que nosso
intendente. H muitos tipos de prazer, e foi por isso que me
afastei do mundo j h alguns anos. suas distraes perturbavam
meus pensamentos, e so estes que me entretm. conheo filo-
sofia e, at certo ponto, a religio hindu, que exige meditao
constante; tambm conheo os mitos, as vrias formas de cris-
tianismo e as matemticas, incluindo o estudo das estrelas. Elas
nunca deixam de me fascinar, mesmo nesta cela estreita, com
sua nica janela. H tambm a msica, mas aqui  improvvel
que a ouamos. Entretanto, procuro lembrar um pouco do que
j escutei.
  sentindo que precisa va dizer alguma coisa, perguntei:


                           356
#  - o senhor viajou muito?
  Ele tornou a sorrir com os lbios cerrados; sua postu.ra conti-
nuava lnguida, mas confortvel.
  - Acho que visitei todos os pa ses civilizados do mundo. H,
naturalmente, ou.tros due no correspondem a essa descrio. um
deles  a Escccia , cnde, pelo que soube, a senhora passou muit
tempo. At estou a par de alguns de seus feitos naquela terra.
- Fez uma ligeira reverncia, como a indicar que nem todos
esses feitos eram vergonhosos. - J falei bastante, e permitirei
que a senhora faa o mesmo. Diga-me tudo que quiser. Devo
dizer que estou mais do que interessado; sua pessoa m.e encanta,
e sua presena ainda no se tornou tediosa, o que j  um comeo.
Agora, Eale.
  Estava temerosa de no conseguir agradar-lhe, mas decidi con-
tar a verdade; se no fizesse isso, ele com certeza teria percebido
de imediato. continuei sentada, com as mos entrelaadas, e re-
latei tudo o que j me acontecera; a luz do dia foi desaparecendo
l fora, e os patos grasnavam. Falei de minhas origens; disse-Ihe
que era filha do duque claud de Guise e de uma dama impru-
dente, e que a duquesa Antoinette me criara  sua maneira.
  - Ainda est viva - comentei. - costumavam dizer que
nem o demnio conseguiria matar a filha da duquesa; mas, in-
felizmente, Madame Marie morreu antes de completar quarenta
e cinco anos.
  - Era uma grande mulher, uma mulher corajosa. Mas continue
a falar da senhora.
  Falei de Pont--Mou.sson, de onde eu fu.gira, cansada das frei-
ras; ele riu mais uma vez e concordou comigo em que era mesmo
uma pena que santa clara houvesse cortado os cabelos. Falei
tambm de meu primeiro casa mento, da impotncia do antigo
conde e do estupro que sofri de Andelot na noite em que o pai
morrera. Encarei-o quando relatei isso, e ele nem piscou quando
mencionei o nome do intendente.
  - Ele com certeza se sente amargurado por estar to perto
do ttulo e no ter como obt-lo - disse o conde. - Pode-se
entender a situao; foi incitado pela me e pelos indiscutveis
atrativos da senhora na juventude, atrativos que, alis, no di-
minuram em nada. Desde que aquilo no volte a ocorrer, e penso


                       357
#cluf  11a o o(:c)rrera, Ilao ha p(1r cuf? pellst71' m1115 11o ils,uIlto. L on-
tlIlu, Y11(lclllll'; az ano.s cue nac) IIc() tao mtressado elll c lgt.lf'lll.
   contf'1 (: resto, sem omltlr Ilfldtl: o 5f?gLmdo estllprt), dessa vez
por  Jalme  v,  o  a,sam2nto  om  AIasdalr,  o  Ilaslm(.nto  d  la111
Ruadh e i morte dt' Mllzliri. vIriml-m Igrlmas i7o5 oIbos cuan-
do recordei a ira de Al.asdair e milllla Lusca por ele, a t encozltr-lo
j lllorto. o collde disse delicadamente:
  - Ele est ez77 pa z. Algum dil, vocs llzlo de se reunir oL(tra
vez. Acredito lue os mortos estejam zlo centro de lzma roda , ue
 a eterzlidadE:; seLzs aros so o tem.po tll colllo o entfn.demos, e
viaja mos para o cezltro da roda, um cetltro que se localiza p7.ra
alm do tempo e do espao.  um pensamento mais fcil de
contempla.r do qLze a idia de que o tf mpo se estel)da para trs
numa limla infinita, pois, nesse ntimo ca so, zlo existiria eomeo.
  - No temlo muito mais para contar - disse-lhe.
  Abordei rapidamezlte a poca em que me prostitura.
  - Deve ter sido instrutivo -- disse o cozlde, muito calmamezlte.
- No h mal nezlhLzm nisso, desde due,  claro, a senhol'a zlo
tnha oIltraldo a doella frallc'e5a, colsa a cu, n15mo tm m.11111a
idade, eu faria objees. A casl de valois degenerou por causa
dessa enfermidade. Entretanto, no espero que a sellllora 177(: d
filhos nc) transcurso de nossos prazeres. os gmeos que teve com
Andelot mais do que bastam, e, ademais, viro retificar o problema
da Ilerana. sempre acllei um pouco injusto que eL(, o filllo de um
ramo mais jovell7 da famlia, devesse ser o herdeiro de vouvray.
  Deixei qLze o conde me servisse mais villho, lisonjead.a com a
idia de que, em m.izlha idade, ele ai.llda zlle considerasse capaz
de ter filhos;  1>em verda de due isso acontf:ce a alguznas znu-
lheres, m.as, em toco caso, fiquei aliviada ao saber que tal coisa
no seria necfssria. Por fim, mellciozlei Melville. continuamos
a bebex, terminei mizlha ta a, e o c(mde ento me dispens(m com
toda a gentileza, dizendo qLze, se eu concordasse, ele providell-
ciaria para du.e casssemos o qz.lanto antes.
  - Ma s, por flvor, deixe ql.le o mLmdo cotltizlue me tomando
pelo imbecil que a senh.ora esperava encontrar.  uma situao
infinitamente mais trazlqila do que ter de fazer sala aos vizinhos.

  casamos e vivemos em suprema felicidade durante onze azlos,
ao fim dos quais o bom conde morreu em m.eus braos, tendo


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#T


       chegadci a uma idade bastante avanada. Fiquei sinceramente
       emutada. os velhos, mesmo os doentes dos ossos, nem sempre
       sofrem de impotncia; e, na juventude, o conde se torna ra perito
       nas artes do amor. Alm disso, ele me apresentara algumas de
       suas filosofias, e nunca mais me faltar material para meditao
       (talvez, de certo modo, nunca tenha faltado). Foi sepultado no
       mausolu dos De vouvray, em Troyes, e espero um dia juntar-me
       a ele. satki desapareceu por essa poca; no sei o que Eoi feito
       daquela criatura. De modo geral, tenho sido virtuosa em minha
       viuvez, ou pelo menos fui at alguns anos atrs, quando a mulher
       de Andelot morreu sem ter-lhe dado nenhum filho vivo. Agora
       que estamos ss, eu ocasionalmente aceito algum consolo de meu
       intendente, junto com seus outros servios. o conde teria sido o
       primeiro a compreender essa necessidade.
         Entrementes, meus filhos, depois de trazidos da Esccia, foram
       criados para cuidar da propriedade e tambm de outra, vizinha
        nossa, que comprei quando seus proprietrios, uma antiga fa-
       mlia local, foram  falncia. A filhas deles casou com Damien,
       e Giles est noivo de uma herdeira de linhagem menor, uma
       moa que, no entanto, certamente lhe dar filhos; como o conde
       costumava dizer, se acontecer algo a um dos rapazes, haver
       sempre o outro, e acho que cumpri mi.nhas obrigaes para com
       o ramo mais velho do,s De vouvray.
         No mudei com a passagem dos anos, exceto por ter engordado
       de prazer; o conde costumava dizer, graciosamente, que, quanto
       mais carne, mais satisfao. seja como for, Andelot (que agora
       se parece ainda mais com meu primeiro marido) pode muito
       bem tornar-se uma tentao permanente, e j  hora de fazer
       algumas penitncias para salvao de minha alma. Por isso, fi-
       nalmente enviei a carta de Madame Marie a sua irm Antoinette
       de Guise, abadessa de Farmoutiers, perguntando-lhe se eu po-
       deria ser recebida ali como postulante. soube que as condies
       naquele convento no so demasiado severas, motivo pelo qual
       madame o escolhera para mim, de preferncia a Reims. Parece
       estranho que eu tenha comeado e deva terminar aos cuidados
       de uma Antoinette de Guise. A velha duquesa,  claro, j morreu
       faz tempo. No convento, poderei orar pela alma do conde; pela
       de meu querido Alasdair; e, sempre, por Madame Marie.


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